Terça-feira, 1 de Junho de 2004

SOPA COM MASSINHA DE COTOVELO

sopa.jpg

Nunca fui de grandes comezainas. Só me perco em prazeres de ingestão quando, de vez em vez, salto até à Serra do Açor e me planto no meio do pinhal. Ali, com o ar da serra a puxar por um lado, o maranho ou a chanfana a puxar por outro e as folhas minúsculas do sarpão, lá no meio, a convidarem ao pecado de gula, então meto-me em usos e abusos. Fora isso, sou mais para o lado do petisco fora de horas. Em gastronomia, prefiro a qualidade à quantidade.

Sempre me conheci assim. Ou antes, em miúdo era pior, aquilo a que se chamava um autêntico pisco.

A minha Tia Ana não se conformava com a minha falta de apetite e, vai daí, se não vais a bem então vais a mal. Sofri a mal sofrer. Levava com colheradas de óleo de fígado de bacalhau que me davam uns malditos vómitos. Punha-me pratadas de açorda que me dava frémitos de pânico perante a perspectiva de encontrar um dente de alho. A sopa era sacramental e eu detestava sopa. O bife enrolava-se, dava voltas e mais voltas e queria mais sair da boca para fora que passar ao estômago. Tens que comer, tens que comer. Era inflexível, estivesse uma ou duas horas frente ao odiado prato, não tinha licença de arredar pé até ingerir o que ela considerava a dose mínima de alimento e que, para mim, era sempre uma monstruosidade própria para alimentação de um elefante.

Fui elaborando os meus estratagemas de escapar àquela tortura. Nomeadamente, aprendi a reter nacos de carne dentro da boca, bem disfarçados entre os dentes e uma bochecha ou entre a língua e o céu da boca, representava uma dor de barriga e aliviava os malvados bocados para dentro da sanita.

Mas houve um dia, tinha os meus cinco anos, em que o desastre aconteceu. Tudo teve a ver com uma enorme tigela de sopa azeitada cheia de massinha de cotovelo. Só de olhar a malvada mistela, o estômago dava sinais de rebeldia. A sentença veio implacável: não sais daí sem comeres a sopa toda. A colher enchia-se de massinha a derramar líquido gorduroso mas a aversão era demasiado forte. Não conseguia avançar naquela luta. Os meus apelos ao fim da tortura não tinham eco de condescendência. A torturadora estava inflexível. Passava-se o tempo e o líquido, consoante ia arrefecendo, transformava-se numa lixívia repelente. Já não conseguia sequer olhar para a malvada tigela. Fui-me deslocando para a janela da marquise que dava para as traseiras. Talvez a vista dos quintais vizinhos me ajudassem a distrair daquela infinita infelicidade. Subitamente, vejo a minha carcereira distraída e vem-me a inspiração fulgurante. Sorrateiramente, entendi um braço para fora da janela e, num ápice, despejei a sopa pela janela abaixo. A minha Tia Ana encheu a cara de brilho feliz ao ver a tigela vazia que lhe estendi. Tive direito a festas na cabeça e um repenicado beijo como prémio maior. No entanto, as celebrações duraram pouco tempo. Toda a vizinhança que morava por baixo de mim desatou a tocar estridentemente na campainha da porta e a exibir roupa que tinha estado nos estendais e que apresentava manchas de sopa gordurosa e vestígios de massinha de cotovelo. A revolução da vizinhança desembocou num enorme tabefe da minha tia para que me servisse de emenda. Colocado de castigo através de recolhimento ao quarto, ri-me assim que me encontrei solitário. Antes um tabefe que uma tigela de sopa!
publicado por João Tunes às 13:11
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