Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GUERRA CIVIL (22)

Espanha22.JPG

A FORÇA DOS VENCEDORES

Do ponto de vista dos vencedores (o franquismo-nazismo-fascismo-clericalismo), a vitória foi dura, teve um peso elevado e foi-lhes necessária força de vontade fanática para emergir do fim da guerra.

Se pensarmos que o golpe militar de 18 de Julho de 1936 foi pensado e planeado como um pronunciamento dos principais quartéis que seria resolvido em dias e imediatamente consolidado pelo apoio garantido da direita civil, facilmente deduzimos como se verificou uma volta profunda nos planos dos golpistas que acabariam por chegar à vitória, mas ao fim de três anos de guerra fortemente internacionalizada. Um assunto pensado para ser resolvido dentro de quartéis e posteriormente aclamado e consolidado pelo apoio de camadas sociais com sede de revanche sobre as práticas sociais e políticas do governo da Frente Popular, acabou por militarizar praticamente todo um povo em condições de pegar em armas e disporem-se a matar para que uma das partes liquidasse a outra, ao mesmo tempo que salvavam a pele.

Se deméritos houve na previsão quanto ao desfecho rápido do golpe e na subestimação das forças de defesa da República, bem como aos comportamentos nos quartéis da maioria das grandes cidades onde o golpe não triunfou (Madrid! Barcelona! Bilbau! Valência! Alicante! Málaga!), não se pode deixar de reconhecer que tinha de haver uma crença forte nas causas dos golpistas (militares e civis) para que ela mobilizasse “meia Espanha” disposta a combater e a morrer através de um golpe transformado em guerra. Apesar de sabermos que foram os apoios externos (Hitler, Mussolini, Salazar e a mobilização de um numeroso exército marroquino) que decidiram a vitória, o facto é que a causa franquista mobilizou “metade dos espanhóis”, transformados em combatentes e acreditando na vitória do ideário que motivou o franquismo. E este factor não pode ser esquecido ou desvalorizado. O fermento de mobilização dos combatentes franquistas foi fornecido pelo espírito de Cruzada, em que a tradição, a ordem, a família, a propriedade e a religião tinham de vencer o perigo comunista, o ateísmo, a degenerescência dos costumes e a perda da autoridade.

Os focos de avanços radicais feitos sobretudo pelos anarquistas e os ataques a locais de culto e os abusos e violências (na maioria, gratuitas e cobardes) contra jesuítas, sacerdotes e freiras, deram os pretextos para a repulsa para com a barbárie roja que se achava necessário extirpar de Espanha. E se a democracia, os partidos, o parlamento, eram vistos como os meios que tinham tornado a barbárie possível, então que viesse o mando impiedoso de generais, padres e fascistas.

A profunda religiosidade da maioria dos espanhóis e a rede organizativa da Igreja (contando, desde sempre, com o apoio do Vaticano), criou um campo de propaganda e de intoxicação mobilizadora dos espanhóis assustados com o rumo da democracia. Foi sobretudo este caldo fanatizado que deu uma “meia Espanha” para lutar do lado dos vencedores. As ocupações de territórios foram feitas com uma crueldade sádica de extermínio. Tudo o que era julgado como culpado (ser ou ter sido sócio ou militante sindical ou de ter votado ou militado num partido da Frente Popular, ser graduado no exército republicano, exercer funções no aparelho político ou administrativo, ler livros ou jornais progressistas, exprimir sentimentos liberais) era fuzilado sumariamente, a que se juntavam uns tantos mais a liquidar para ajustes de contas pessoalíssimas.

Com o estatuto de prisioneiros, restavam aqueles a quem se atribuía inconsciência ou que tinham sido forçados a combater pela causa republicana. As hordas de extermínio de rojos nas povoações ocupadas eram normalmente constituídas pelas milícias da Falange local. Sabe-se que estas milícias tiveram crescimento exponencial a partir do início da guerra, sobretudo por reforço dos então designados camisas novas (uma alusão aos conversos cristãos-novos da velha questão judaica). Por regra, os camisas novas eram os mais sádicos e mais virulentos nos ajustes de contas sangrentos. E a maioria dos camisas novas eram antigos anarquistas, ou comunistas, ou sindicalistas que, perante a imposição da nova ordem, se destacavam no entusiasmo franquista para escaparem à sanha dos novos senhores e assim se redimirem. Estes conversos, sem retorno, acabaram por constituir um novo elán de fanatização nas hostes franquistas.

Por outro lado, as violências simétricas perpetradas no campo republicano para com os suspeitos de filiação ou simpatia fascistas, desempenharam um papel incentivador do irredentismo pois os franquistas sabiam que pagariam com a vida se perdessem o território ocupado. Neste aspecto, as duas violências funcionaram em sistema de vasos comunicantes.

Vencida a guerra, Franco que sempre quis uma “vitória total e sem negociações nem concessões”, recusou a reconciliação e o perdão aos vencidos. Todos os combatentes graduados e responsáveis políticos foram passados pelas armas, restando, como prisioneiros, aqueles que tinham defendido a República a um nível de execução de ordens ou cumplicidade menor. Desses, uma parte foi reintegrada com purga do cumprimento de novo serviço militar no Exército vencedor, a outra parte penou longos anos em campos de concentração, presídios e trabalhos forçados. Praticamente a nenhum vencido foi permitida a integração na nova sociedade espanhola em paridade com os cidadãos vencedores.

Até à morte de Franco, a linha de separação entre vencedores e vencidos foi sempre mantida nítida, sendo extraordinariamente difícil e humilhante a obtenção de graças de amnistias e de reintegração social, pagando estes, no mínimo, o preço elevado de destruição moral - ou através do sentimento de culpa ou pela interiorização recalcada das convicções. Em termos morais, isto é a morte viva de qualquer povo. Franco sabia que precisava disso para ter os espanhóis aos seus pés, pela ameaça do seu punho ou pela destruição moral de quem se lhe opunha.

(na foto, militares de Franco arrancam placa toponímica numa rua de localidade conquistada aos republicanos)
publicado por João Tunes às 16:03
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