Domingo, 4 de Abril de 2004

PELO TERCEIRO LUGAR

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Uma pândega, a Odete. Divertida, extrovertida, brejeira até. Caiu no goto dos media, da mínima e da alta. Traz-nos a política em revista à portuguesa. Diz barbaridades sobre as (suas) saudades do socialismo real. Chama traidor ao Gorbachov. Diz que o estalinismo teve coisas más mas sobretudo coisas boas. Em Cuba é que é, diz ela. Ri-se. Rimos. Não é para ser levada a sério. Faz teatro, declama, dança. Uma autêntica “one woman show” do estalinismo serôdio cá do sítio. Ri-se. Faz-nos rir. É deputada no Parlamento de cá. Quer ir para o Parlamento de lá. Está em terceiro lugar para reforçar a votação na CDU. Ri-se. Faz-nos rir.
publicado por João Tunes às 23:45
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O GAJO GANHOU

seculo17[1].jpg

Num mês de Abril, este gajo ganhou-nos a Liberdade.

Noutro mês de Abril, foi vencido por outro gajo.

(«O gajo ganhou», dissera ele a um oficial da EPC, referindo-se ao cancro quando se convenceu do carácter terminal da sua doença.)
publicado por João Tunes às 22:23
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LEMBRANDO A LÍBIA

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A reconciliação com a Líbia é procissão que ainda vai no adro. Estava Blair a sair de Tripoli e uma delegação da Shell a chegar para assinar um gigantesco contrato petrolífero. Outros lá irão à tenda do Kadafi. Outros contratos serão assinados.

Verdade que Kadafi já não é o que era. Terá aprendido com a sorte de Sadam, passando a cuidar da pele, salvando-a. Já lá vai o tempo desse monumento de "criatividade ideológica" chamado “Livro Verde”, próprio para a iniciação política de crianças.

Nas três vezes que andei pela Líbia, tive a oportunidade de conhecer esse país bisonho e sui generis. Corri-o de lés a lés, quase só me faltou ter cabidela na tenda móvel do grande líder. A Líbia é uma fatia de país, estende-se junto ao Mediterrâneo e o resto é árido, desértico e fracamente habitado por uma ou outra pequena tribo berbere. De uma maneira geral, os líbios (muito poucos) ou trabalham na burocracia estatal, ou vigiam as empresas petrolíferas, ou estão nas Forças Armadas e na Segurança. A excepção será a dos comerciantes. Todo o outro trabalho necessário de realizar, é feito sobretudo por palestinianos, egípcios e iemenitas. E pelos europeus que garantem a prospecção, exploração e transporte do petróleo e do gás, vivendo em cidades-guetos perdidas deserto dentro ou em locais isolados junto do mar. Há dinheiro, muito dinheiro. Nas vezes em que lá estive, era alojado em hotéis de cinco estrelas a estrear, passados dois anos, ou o hotel estava já em ruínas ou tinha sido deitado abaixo para construção de um novinho em folha. As estradas estavam juncadas de pneus abandonados, porque quem tivesse um furo não podia pensar em repará-lo, deitava o pneu fora e comprava um novo. As presenças histórica e arqueológica romana são impressionantes, mas está tudo em bruto por não haver estrutura turística. Vigorando a absoluta lei seca, é impressionante o vai-vem até à Tunísia para se beberem uns copos valentes. O culto a Kadafi enjoa pelo excesso, mesmo segundo os padrões árabes. Perguntaram-me a religião para me passarem visto. Come-se mal, pouco existe para comprar. Os líbios compram no estrangeiro. Quando lá estive até compravam esposas na estrangeiro (sobretudo em Inglaterra, França e Suiça), preferindo as louras.

As reservas de petróleo (e sobretudo de gás) são significativas. Está muito perto dos portos europeus. A Líbia é um país com futuro. E tem Kadafi.
publicado por João Tunes às 00:36
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Sábado, 3 de Abril de 2004

Владимир Ильич Л

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Anos oitenta. Já sob o mando do velho e doente Andropov. A Conferência decorria burocrática e sonolenta na Sala das Colunas. Era apenas para fazer número para a contabilidade das iniciativas pacifistas contra a “guerra das estrelas” mais os mísseis americanos na Europa. Coisas deste género. Discursos a fio a convidar mais ao bocejo que ao interesse. Estavam ali Sindicatos das sete partidas como podiam estar organizações de jogadores de damas ou de matraquilhos.

Tempo frio. Cidade feia. Rituais. Escapadelas não davam porque não valiam a pena. Uma vez, um camarada, conhecedor da cidade, convidou-nos para bebermos uma cerveja lá fora. Vamos a isso. Entrámos numa espécie de tugúrio, metia-se uma moeda numa ranhura e saía uma mijoca para dentro de uma caneca. As canecas, depois de usadas, eram apenas passadas por água antes de servirem para o próximo cliente. Casa cheia com indivíduos em pé, tristes como o tempo, a beberem por beberem.

Às tantas, a Mesa da Conferência avisa que vai haver um intervalo para uma cerimónia importantíssima. Motivo não explicitado. Ora, o que for se verá. Tudo metido em autocarros. Destino: Mausoléu de Lenine. Enorme fila de visitantes a concorrerem em tristeza. Somos VIPs, passamos à frente da fila. Ninguém protesta. Entramos, a segurança manda abotoar o kispo e colocar as mãos em pose de solenidade. Passagem rápida frente à múmia. Lá estava ele com cara cor de cera. Saímos. Estava um frio cortante. A Praça Vermelha, uma das praças mais bonitas do mundo, estava deserta, fria e triste. Cerimónia terminada. Regresso aos discursos e à sonolência.

Nunca entendi o que fazia ali aquela múmia, excepto que combinava bem com um país povoado por almas em cera. Mesmo assim, tive sorte. Em tempos, aquela múmia já tinha tido companhia de uma outra. Aliás, aquela múmia foi para ali para que a outra, quando chegasse a sua vez, pudesse ir para o seu lado. Depois, a segunda múmia caiu em desgraça, enquanto a primeira múmia ainda lá está. Solitária. Sem consenso sobre o seu destino. Fica, não fica. Vai ficando.
publicado por João Tunes às 23:42
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Sexta-feira, 2 de Abril de 2004

HERANÇA DO MEDO

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Bom prenúncio a entrevista de hoje no Público da historiadora Irene Pimentel que está a preparar uma tese de doutoramento sobre a actividade da PIDE entre 1945 e 1974. Faz bem à memória de uns, à amnésia de outros e à ignorância de muitos. Porque a entrevista aguça o apetite para o resultado final deste trabalho académico.

O tema PIDE pode parecer, mas não é, coisa para historiadores, passados que são trinta anos sobre a extinção da polícia política que foi o pilar fundamental da longevidade da ditadura de Salazar e prolongada por Caetano. É que, além e independentemente dos sofrimentos infligidos a tantas gerações de portugueses que pensavam diferente, sou de opinião que a PIDE continua presente, e bem presente, na sociedade portuguesa dos nossos dias. Como assim?

Verdade que temos democracia consolidada e liberdade de expressão. Verdade que podemos assumir quaisquer posições políticas. Verdade também que não há falta de liberdade para discutir, militar num partido ou inventar um novo quando se entende que os que existem não servem. Verdade. Mas um país e uma sociedade não se inventam nem mudam em meia dúzia de décadas quanto mais em três.

Vejamos:

- Em 1974, haviam 3.000 funcionários activos na PIDE. Somem-se os reformados e os retirados. Onde estão? O que fazem hoje? E quantos rapazes, raparigas, homens e mulheres dos tempos que correm, são filhos, sobrinhos e netos de pides?

- Em 1974, um em cada 400 portugueses, num total estimado em 30.000, eram informadores regulares da PIDE. Quem eram? Onde estão? O que fazem hoje? E quantos cidadãos de hoje não foram educados em famílias onde parte dos proventos vieram das denúncias pagas sobre vizinhos, colegas e amigos de café?

- Muitos presos não aguentaram a tortura da PIDE e traíram. Falaram, denunciaram. Quem eram? Onde estão? O que fazem hoje? Quantos cidadãos não foram educados em famílias sob o sindroma da fraqueza e da traição?

- E o medo? O medo? Sim, esse terrível flagelo do Medo. O medo herdado do recalcamento da opinião e da posição porque os informadores bufavam, os pides prendiam e alguns presos traíam amigos, colegas e camaradas. Quantos medos de hoje não são filhos, sobrinhos e netos dos medos de antes de 1974? Pois, sobretudo o Medo.
publicado por João Tunes às 21:42
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NA FOZ DO KUANZA

Rio Kuanza.JPG

Tive oportunidade de conhecer a sociedade onde o Jaime Bunda do Pepetela se orienta. É um lamaçal que a Unita (agora política) só pode acentuar. Porque a paz que veio depois da guerra, é a paz dos corruptos. Tem um Presidente que é mais Padrinho que outra coisa. Tem um opositor que joga no mesmo tabuleiro. Dos Santos tem amigos por todo o mundo. Porque tem contas em todo o mundo. Mas não tem contas para matar a fome aos angolanos e para pagar próteses aos meninos decepados pelas minas da guerra. É "primo" do Chissano, o marido dócil da maconde autoritária que protege os filhos gangsteres porque ela é do Norte e não permite o exclusivo da rapina aos sulistas do Presidente. Será também "compadre" de Guebuza que é igual (em devoção ao povo) ao Dlakama. Deve ser "cunhado" do Nino, do Luís Cabral e do Pedro Pires. Porque todos – MPLA, Frelimo, PAIGC e PAICV – derrotaram os colonialistas portugueses para os imitarem naquilo que estes tiveram de pior.

(Num domingo de há três anos atrás, o meu simpático anfitrião convida-me a um passeio até à foz do rio Kuanza a sul de Luanda. Paisagens deslumbrantes enchem-me os olhos. À sucessão dos imbondeiros gritando mínguas, vem o verde brilhante dos mangais das margens do Rio derramando detritos vegetais no leito em marcha caudalosa para o Oceano. Uma ponte decrépita atravessa o Kuanza. O rio convida à travessia. Vamos nessa. Uns tipos fardados e ostentando as insígnias de Polícia Especial vigiam o trânsito. Atravessamos com cautela, espreitamos o interior do rio e voltamos para trás. No regresso, sem parar, espreito pela janela e procuro tirar uma foto da beleza vegetal. Somos mandados parar no fim da ponte. Tínhamos cometido o crime de fotografar um “objectivo militar”. O polícia faz o preço da infracção. O meu anfitrião regateia mas larga notas que o vigilante mete ao bolso. Seguimos viagem. Deixámos para trás o rio que, afinal, não se chamava Kuanza mas sim “dos kwanzas”.)
publicado por João Tunes às 14:56
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Quinta-feira, 1 de Abril de 2004

Respiro o teu corpo

1 Abril.JPG

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

(Eugénio de Andrade)

Como gostei de receber este poema embrulhado num beijo. Amar vale a pena. Sempre!
publicado por João Tunes às 20:11
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O DIA DA MAIOR VERDADE

amor[1].jpg

Podia e devia ter sido antes mas foi então. Houve lonjura no caminho e no tempo para dizer o mais simples. Talvez porque tudo estava dito, demorou a pegar na chave e chamá-la pelo seu nome. A porta do afecto a pedir liberdade só se abriu pelo óbvio e pela força do que é.

Era dia de mentiras, o dia da maior verdade. Simples e clara. O rio estava ali. Não, não era azul, lembro-me bem. Estava sujo e cansado, mas calmo. Sabido de séculos a correr entre margens, não deixava mentir nem esconder. Obrigando ao grito da verdade. Da mesma maneira como obrigava as pessoas a entrarem nos cacilheiros para recolherem da luta e da labuta, tornando-as livres para a recolha e para o amor.

Parece-me hoje. Talvez ontem. Foi há mais tempo, eu sei. Mas deixa o tempo parecer o que não é. Visto em frente, o que parece é o que é.

Hoje dou-te Lorca (que melhor te podia dar?).

Largo espectro de plata conmovida
el viento de la noche suspirando
abrió con mano gris mi vieja herida
y se alejó; yo estaba deseando.

Llaga de amor que me dará la vida
perpetua sangre y pura luz brotando.
Grieta en que Filomena enmudecida
tendrá bosque, dolor y nido blando.

¡Ay qué dulce rumor en mi cabeza!
Me tenderé junto a la flor sencilla
donde flota sin alma tu belleza.

Y el agua errante se pondrá amarilla,
mientras corre mi sangre en la maleza
olorosa y mojada de la orilla.
publicado por João Tunes às 14:35
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SENTENÇA

Juiz[1].jpg

"A blogosfera de língua portuguesa é a segunda maior e mais evoluída do mundo. Seguindo o caminho da primeira, a estadunidense (e não confundir com língua inglesa), os blogues tornam-se aos poucos, efectiva e solidamente, em espaços mediáticos não desprezáveis. E mais: têm virtudes que nenhum media até hoje ofereceu, pelo contrário, abafou. O contacto directo, quase personalizado; a interacção em tempo real com plateias de maior discernimento intelectual (e o consequente apelo à maior honestidade); o tempo e espaço de intervenção sem limites; a liberdade de discurso, não condicionado ao formato imposto pelo jornalista/órgão.
Para o bem e para o mal, a política portuguesa está a passar-se para a blogosfera."

Disse Paulo Querido. Está dito!
publicado por João Tunes às 02:03
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VOTO DE UMA IRMÃ FEMINISTA

mulher[1].jpg

Em 24 de Fevereiro de 1971 (mais ou menos, a três anos da Revolução de 25 de Abril), Maria Lúcia de Jesus (também conhecida como Irmã Lúcia, ex-pastorinha, vidente de Fátima e em reclusão nas Carmelitas Descalças em Coimbra) escrevia ao Presidente do Conselho, Dr. Marcelo Caetano, implorando medidas legislativas sobre as vestes femininas:

“Não seja permitido vestir igual aos homens, nem vestidos transparentes, nem curtos acima do joelho, nem decotes a baixo mais de três centímetros da clavícula. A transgressão dessas leis deve ser punida com multas, tanto para as nacionais como para as estrangeiras.”

(Nos “Arquivos Marcelo Caetano” e citados em “Os Espanhóis e Portugal” de J.F.Antunes – Ed. Oficina do Livro)
publicado por João Tunes às 01:26
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