Segunda-feira, 8 de Março de 2004

MEMÓRIAS DE UM ABRE-LATAS NA TERRA DOS SOVIETES

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Ele próprio, o Teixeira Pinto , já insinuou que eu me estava a armar em seu promotor artístico-literário. Tenho poder de encaixe suficiente para não desarmar com ironias amigas. Gosto de vender o meu peixe e aconselhar os sítios onde se come e bebe bem aos meus amigos e disso não abdico. Tal como um bom livro ou um bom filme. Faça chuva ou faça sol. Com os blogues, idem idem, aspas aspas. Sou mais atreito a recomendar (por prazer de partilha) um blogue que me cai no goto que andar para aí a espalhar um índex.

Não conhecia nem conheço pessoalmente o Teixeira Pinto de parte alguma. Sei que existe na blogosfera. Sou um admirador da sua escrita e do seu olhar. Temos "ódios cruzados" (clubisticamente falando). Teremos afinidades políticas e ideológicas. Temos de certeza o hábito da franqueza pão pão, queijo queijo, de dizer coisas na cara sem procurar o bom carteiro que sirva de mensageiro, sejam elas concordâncias ou divergências. Partilhamos a certeza de que concordar com alguém tem o mesmo interesse cultural que discordar um bocadinho ou em absoluto. Com o tempo, vou percebendo (ou convencendo-me) que se trata de um tipo porreiro e catita. Um dia destes combinamos beber uns copos e tiramos a limpo se a blogosimpatia tem pernas para andar em termos de empatia humana. Para mais, este blogamigo tem o nome de Cachungo da Guiné, onde passei as passas do Algarve e deixei parte da pele da minha juventude.

O Teixeira Pinto, desafiado, decidiu-se a contar as suas memórias de quando foi bolseiro na ex-URSS nos anos oitenta. Mas, organizado e escrupuloso como demonstra ser, resolveu não largar uns posts soltos sobre a matéria mas antes tratar o assunto com toda a seriedade e adequada metodologia. Assim mesmo é que é. O assunto é sério e não é para ser lambuzado com meia dúzia de tretas. Vai daí, abriu nada menos nada mais que quatro blogues sobre a matéria:

Alma Lusa será o repositório das lembranças dos compatriotas, da Associação de Estudantes Portugueses na URSS, da organização moscovita do PCP, das querelas intragrupais e intergrupais. Aqui se falará de orto- e heterodoxias, de excomungados, de tentativas de anulação da diversidade individual, etc...
Alma Mundi aglutinará as lembranças das aventuras em terra dos Sovietes: as viagens clandestinas, as loucuras da juventude, a pequena comunidade de russos lusófilos, os controlos de fronteira, etc...
Homo Sovieticus será dedicado à realidade soviética no seu interface com os estrangeiros: o apego às marcas ocidentais, o sociocentrismo crónico dos russos, as filas intermináveis, as “babushkas”, as “verioshkas”, os “tarakans”, o arranjismo privado dos taxis, enfim, a vida e o mercado – o negro e o vermelho.
Alma Mater terá por função elucidar sobre o sistema de ensino, a vida universitária e as peripécias enquanto estudante.

A sua obra memorialística já vai adiantada e ultrapassa, com toda a sinceridade, aquilo que eram as minhas melhores perspectivas. Tratam-se já (e talvez o melhor esteja para vir) documentos de vivências riquíssimas sobre uma experiência de contacto com a antiga União Soviética. Estou certo que a obra que o Teixeira Pinto vai construindo, constituirá, dentro em breve, peça obrigatória de consulta sobre a realidade soviética, porque ele escreve com sinceridade, limpeza e enorme capacidade impressiva e expressiva. Há-de aparecer Editor, acredito eu. Á falta de melhor e mais a preceito (quem anda á chuva, molha-se) terá, pelo menos, direito a referência, transcrições e tudo o mais, por parte do Grande Líder na matéria.

Se a preguiça não vos consumir o suficiente para esperarem pelo Livro, esgravatem nos blogues do Teixeira Pinto e poderão deliciar-vos com o prazer de acompanhar a saga inteligente de um antigo bolseiro na ex-URSS.

Aviso aos ortodoxos vigilantes: nem tudo era mau, nem tudo era mau.
publicado por João Tunes às 23:55
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UM OLHAR SOBRE O BRASIL PT

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Pouca coisa consegue ser tão feia, brega, triste e pornográfica como um animal empalhado. Talvez os museus de cera, como o da Madame Tossaud; ou a múmia de Lênin, indecorosamente exposta à visitação pública, por quase oito décadas, na praça Vermelha, primeiro como objeto de adoração, por ordem do ditador Josef Stálin, depois por exigência da indústria do turismo. Um animal empalhado é um sinistro simulacro: é bicho sem alma, algo que apenas na superfície guarda alguma semelhança com o ser antes dotado de energia vital. Semelhança silenciosa, opaca, destinada apenas a satisfazer a curiosidade voraz de um público voyeur. A múmia de Lênin nada tem a ver com 1917.

O Partido dos Trabalhadores de 2004 é apenas isto: a versão taxidérmica ou mumificada do PT de 1979. Nada há nele que lembre o vibrante espírito do partido criado no calor das manifestações sindicais do ABC, responsáveis pelo aceleramento da queda da ditadura. O PT é hoje uma carcaça ressequida, controlada por burocratas engravatados. Milhares de militantes honrados, que ainda permanecem no partido, por se recusarem a admitir o que está posto diante dos olhos de todos, contribuem para ainda manter um pouco da fábula. Pois é só o que restou: fábula.

Não pretendo percorrer o caminho já aberto com acuidade por vários críticos que avaliaram o governo liderado pelo PT, com argumentos de natureza econômica (para provar que Lula e seus ministros aplicam o receituário neoliberal) social (nada mais emblemática do que a humilhação dos velhinhos aposentados, anunciada por Ricardo Berzoini, que depois teve de se retratar: maltratar idosos não pega bem), política (as alianças do PT, os expurgos, a retórica autoritária), e ideológica (é suficiente lembrar a simpatia de ninguém menos que George Bush pelo presidente brasileiro). Prefiro, apenas, registrar certas impressões de alguém que viveu de perto todo o processo de construção do partido e que, mesmo sem ter mantido grandes ilusões sobre o seu compromisso com um programa de transformação social, declara-se atônito com a rapidez e a dimensão da derrocada.

Ao contrário do que diz a música de Cazuza, os meus amigos estão no poder – e é isso que causa o maior espanto. Participei, nos anos 70 e 80, de muitas passeatas e manifestações com alguns dos ministros e assessores que agora andam de braços dados com os neocompanheiros Meirelles, Sarney etc., como se fosse a coisa mais natural do planeta. Há duas ou três décadas, acreditávamos todos que o socialismo não era apenas uma possibilidade, entre tantas, mas sim uma necessidade, tal como se expressa na equação “socialismo ou barbárie”. A derrota do socialismo implicaria, necessariamente, um longo período, talvez séculos de catástrofe para a humanidade.

Alguns daqueles que acreditavam nisso há não tanto tempo assim explicam da seguinte forma, hoje, o seu distraído convívio com a elite: os tempos mudaram. Sim: o muro caiu, o socialismo real fracassou, o neoliberalismo triunfou. Nesse quadro, “que não fomos nós que escolhemos”, é preciso assegurar a governabilidade. Não podemos sair por aí, enfrentando o imperialismo sozinhos, ainda por cima correndo o risco de mergulhar o país na guerra civil. Temos de governar com o cérebro, não com as vísceras. Não podemos ser rancorosos. É preciso lembrar que Lula conquistou o governo, não o poder. E, além do mais – e agora vem o argumento supremo –, Lula anunciou tudo o que faria o seu governo, na “carta aos brasileiros”. Nunca escondeu nada.

Bem, se é verdade que “o mundo mudou”, foi para pior. Não é preciso ser nenhum especialista em política externa para saber o que significa a presença da atual gangue de malfeitores na Casa Branca, nem para entender as dimensões da tragédia africana, e menos ainda para saber que a formação dos megablocos significa o aprofundamento da miséria na “periferia”. Esse quadro torna a luta mais, não menos, necessária e urgente. Além disso, a “queda do muro” não impediu a recente rebelião na Bolívia, o fortalecimento da república bolivariana da Venezuela, a continuidade da resistência na Colômbia e em Cuba, a revolta na Argentina. E por aí vai, só para citar os eventos de dois anos para cá. Portanto, jamais estaríamos “sozinhos” na luta com o imperialismo. Muito, muito ao contrário.

Claro, ninguém quer uma guerra civil no Brasil. Mas há quanto tempo ela já existe de fato? Morrem, por ano, cerca de 40.000 brasileiros, como resultado da violência; para a ONU, a situação de guerra civil fica caracterizada com 15.000 mortes violentas anuais. Apenas nos onze primeiros meses do governo Lula, foram assassinados 71 trabalhadores rurais, segundo a Comissão Pastoral da Terra (aliás, quase o dobro do que o registrado no mesmo período do ano passado e o mais elevado desde 1991, quando ocorreram 54 mortes). Os fazendeiros armam milícias, a elite anda em carros blindados e monta serviços paramilitares, os pobres se organizam em gangues. A guerra civil está aí, por todos os lados.

Agora vem a sacrossanta questão da “governabilidade”, em cujo altar todos os princípios devem ser sacrificados. Pergunta básica: “governabilidade” para quem? Em nome de que interesses? É incrível ser necessário lembrar que os neocompanheiros representam uma elite que há cinco séculos escraviza o país, e que o PT foi formado para combater essa mesma elite, e não para governar em seu nome. Dizer, finalmente, que o governo Lula é legítimo por ter anunciado “tudo o que faria” é, no máximo, uma brincadeira. Adolf Hitler explicitou, no Mein Kampf, em 1923 (dez anos, não dez meses antes das eleições que o conduziram à chancelaria), todo o seu ódio aos comunistas, ciganos e judeus; foi eleito pelo povo alemão, e aplicou o que disse. O fato de ter escrito Mein Kampf não o torna menos monstruoso (atenção, senhores polemistas: eu não estou comparando Lula a Hitler; estou só dizendo que anunciar algo antecipadamente não é suficiente para conferir, por si só, legitimidade ao ato anunciado).

Mas, para além dos argumentos, resta a sensação de espanto. Uma coisa é ler nos livros de história que, por exemplo, um sujeito como Karl Kautsky, companheiro de Marx e Engels, co-autor de O Capital, votou favoravelmente à entrada da Alemanha na Primeira Guerra, em 1914, assim violando o princípio da solidariedade internacional da classe trabalhadora, e que fez isso por estar enredado na politicagem parlamentar de sua época. O Partido Social Democrata da Alemanha havia crescido espetacularmente no início do século 20, e acabou criando uma camada de burocratas e políticos profissionais que pouco ou nada tinham a ver com a história do próprio partido. Kautsky estava comprometido com essa máquina corrupta e promíscua.

Ou então ler que o Partido Bolchevique, que “tomou o poder e não apenas o governo” na Rússia, em 1917, foi burocratizado e transformado em seu oposto – isto é, um partido reacionário – por Stálin, após uma longa luta interna que promoveu os militantes cinzentos, à custa da expulsão e do assassinato de seus melhores dirigentes. Aliás, uma das primeiras providências adotadas por Stálin, logo após a tomada do poder, foi a abertura do partido para todos os que quisessem entrar, sem levar em consideração o passado do candidato (como faz o PT agora). A idéia era “inflar” o partido com novos integrantes, muito interessados em carreira política e nada na revolução, para abafar a influência da “velha guarda radical”. Naquela época, como no PT agora, cultivar a memória era perigoso.

Uma coisa, dizia, é ler tudo isso nos livros de história. Outra, bem diferente, é presenciar os fatos bem diante do nariz, envolvendo gente conhecida (obviamente, em outras proporções políticas e circunstâncias históricas). É como ser obrigado a visitar um museu de cera, onde os seres representados são estranhamente familiares. Triste ironia: durante os três anos que vivi em Moscou, fiz questão absoluta de não passar pela múmia de Lênin, ícone maior da vitória de Stálin; agora, somos obrigados a ver o próprio PT transformado em mausoléu povoado de múmias. E viva a governabilidade.

(Este texto de José Arbex Jr. - jornalista brasileiro - foi-me enviado pela blogamiga Deméter)
publicado por João Tunes às 14:44
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Domingo, 7 de Março de 2004

AGORA GRAMSCI...

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O José Costa entrou na discussão sobre Trostski e trotsquismo. E trouxe Gramsci à baila. Não tenho argumentos de substância para discordar dele (do José Costa, entenda-se) quando diz:

“O trotskismo, caso fosse aplicado, não podia falhar. Não por qualquer substracto metafísico de razão eterna. Não. Falhava e falharia porque, na génese, não há trotskismo: há, e com pudor, anti-estalinismo.
De facto, sob o capote de Trotski reuniu-se a oposição Marxista-Leninista anti-estalinista, que mais não era do que isso: alinhavam, com efeito, sob chavões culturais, sob posições contraditórias, sob posições lineares ou, extraordinariamente, sob pulsões intelectuais. Mas, do ponto de vista científico, pouco ou nada foi feito - e a prova, tal como refere João Tunes, são os chavões actuais, que pouco oferecem aos postulados materialistas -.
Gramsci, nos anos 20, disse três "coisas curiosas" (entre muitas outras que davam, só por si, para um Blog), que os próprios trotskistas renegaram:
1 - "Neste momento (1925) o povo italiano não luta pela ditadura do proletariado, mas pela democracia. Não compreender isto, é não perceber o significado dos acontecimentos que se verificam ante os nossos olhos";
2 - "Marx é um mestre da vida espiritual e moral, não um pastor armado com um cajado, um Messias que deixou uma série de parábolas cheias de imperativos categóricos, de normas indiscutíveis, absolutas, fora das categorias do tempo e do espaço";
3 - " O que necessitamos é de uma nova Weltanschauung proletária, uma nova cultura integral que tenha as características da massa da Reforma Protestante e do Iluminismo Francês e as características do Classicismo da cultura grega e do Renascimento italiano; uma cultura que sintetize Robespiérre e Kant, uma nova Ordem Mundial."
Ora estas simples frases dizem mais do que o trotskismo todo junto. Mas, e simplesmente porque tal era pretensão, deixam mais por dizer e preencher do que a obra de Trotski inteira.
Esta questão não pode ser subalternizada; Trotski confunde-se com os trotskistas por querer, mas também por saber que a sua obra não tinha autonomia dogmática: limitava-se a tornear, levitando-o, Lenine.
E isto é importante discutir: no ponto charneira, havemos de ler Trotski em banda desenhada (o que até não me repugna) mas ninguém há-de saber que houve caminhos diferentes para a construção do Materialismo Marxista. Só será diferente se houver quem saiba dizer não.”

Temos assunto com pano para mangas, acha o Bota Acima, assim haja vontade de outros darem corda ao tema. Por cá, no meu ponto de vista, o interesse maior sobre o tema estará em saber-se se o bloquismo vai mudar alguma coisa com a recolha à casca do PSR.

Se olharmos para o PT brasileiro, não é difícil ver como vai longe a matriz trotsquista de nascença desde que houve vontade real dos “petistas” em subirem aos cadeirões do poder. E, hoje, Lula e o PT “oficial” vão largando os trostsquistas da hora da sua criação e do seu primeiro crescimento. Talvez porque aquela Igreja mais ou menos ligada à teologia da libertação, há muito que ocupou o papel dos grupúsculos do protesto, contribuindo para a sua institucionalização e o jogo da democracia formal. Mas as realidades políticas e sociais entre os dois países são tão diferentes…
publicado por João Tunes às 23:03
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Sábado, 6 de Março de 2004

ASSIM OU O SEU CONTRÁRIO

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Lê-se e quase não se acredita. Verdade que devemos estar preparados para tudo. Ou para quase tudo. E o oportunismo tem limites. Devia ter, melhor dizendo. Então não é que Pina Moura, o pai de enfiar, a martelo, o gás natural dentro da Petrogal, o homem que descobriu, lançou e promoveu esse must da jovem gestão palradeira e conventual chamado António Mexia (agora mais que tudo de Santana Lopes à Presidência), o sujeito que arranjou esse tremendo sarilho de enfiar a ENI no sector energético português, o mesmo Pina Moura, sim o mesmo, está de acordo com tudo que o actual governo fez e faz para desmanchar exactamente aquilo que ele tinha feito enquanto Ministro.

Ou muito me engano ou temos nomeação à vista para Alto Cargo. É de esperar para ver.
publicado por João Tunes às 01:33
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Sexta-feira, 5 de Março de 2004

FALANDO SOBRE LIVROS

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A mania dos livros vem-me de criança. Ou seja, o gosto por os ler, olhar para eles, sentir o contacto das folhas com os dedos, cheirá-los e segurá-los na mão. E confesso que compro mais livros que a minha capacidade de leitura. Uns tantos vão restando para depois e quando chega esse depois lá vem mais uma catrefa deles para casa e o ciclo reinicia-se. Mas vou lendo, vou lendo.

Como disse, o gosto e algum fetiche pelos livros vem-me dos tempos de criança. O meu Tio Luís (que me criou) tinha a pancada da leitura. Era um bibliófilo compulsivo. Na altura, na nossa habitação de três assoalhadas no Barreiro, uma das divisões estava destinada exclusivamente a ser o seu escritório e a sua biblioteca. Aquilo era sítio sagrado, como se de uma capela se tratasse. Era lá que ele se encafuava nas horas de ócio, escrevendo e lendo, lendo muito. Quando o meu Tio entrava na divisão sagrada, ninguém tinha ordem de lá entrar para não perturbar a sua concentração. Quando ele não estava em casa, todos podíamos fruir da riqueza bibliotecária na condição solenizada de nada sujar, nada estragar, nada desarrumar. Era um sítio para onde eu gostava de ir. Retirava um livro, sentava-me na sua cadeira e sentia-me um adulto à boa medida. Eram muitos os livros disponíveis, sobretudo romances mas também tudo o que era livro proibido e o meu Tio conseguia desencantar. Aquilino, Ferreira de Castro, Eça e Camilo eram os autores dominantes. Assim, não foi difícil descobrir o prazer da leitura. Outra coisa: o meu Tio nunca me recomendou que lesse este ou aquele livro, o que foi factor determinante para me sentir livre nas minhas escolhas e no desenvolvimento do vício. Era um pedagogo intuitivo e sabia que se, naquela idade, me recomendasse este ou aquele autor era certo e sabido que o referido iria ficar para trás.

Tenho uma razoável colecção de livros e eles lá vão subindo pelas paredes acima. Agora calhou ao meu Pedro estar a dar Literatura no Secundário. O rapaz sempre foi barra a Português e escreve muito bem (para a idade, é claro). Obrigam-no a ler uns tantos livros e fazer deles resumos e apresentações. Em casa, não lhe falta material para se desenrascar. Acontece que cometi o erro fatal de, na minha ansiedade de educador, lhe recomendar este ou aquele livro deste ou daquele autor. Resultado: nenhum dos que tenho em casa, serve ao rapaz. São todos chatos, ponto final. Quando tem de estudar obra nova, já sei: lá vou com ele à FNAC, não abro pio e o Pedro por lá anda às voltas a fazer as suas escolhas. Percebi que ele sabe bem o que há lá por casa porque nunca hesita e traz sempre obra e autor que nunca comprei. O dogma é: os melhores são os que o pai e a mãe nunca leram. É a sua maneira de se tornar adulto. O que é preciso é que vá lendo e gostando de ler. Quanto ao resto, incluindo as despesas na FNAC, é o preço da minha inépcia pedagógica.
publicado por João Tunes às 20:50
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O FIM DA QUARTA INTERNACIONAL?

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Numa altura em que o trotsquismo português (ou se preferirem: a Secção Portuguesa da Quarta Internacional) se prepara (?) para passar de grupo de acção a grupo de reflexão, diluindo-se nas águas chiquérrimas do Bloco de Esquerda, naturalmente que se esperava um Te Deum à maneira. Não é todos os dias que encerra (ou mete trancas à porta) um dos ramos mais persistentes do marxismo-leninismo lusitano e internacionalista. Mas nem por isso. As lusas águas revoltas preferem malhar no Bush, no Portas e no Avelino. Claro que é muito mais fácil na linha da também lusitana preguiça política.

O Rui Bebiano é uma das raras excepções através do seu clarividente post “Que reste-t-il?”:

“Numa altura em que, na Lusitânia, o ramo mais importante do trotskismo, organizado no PSR, se reconverte em grupo de reflexão, vale a pena ler, no número deste Março da revista L'Histoire (ainda numa banca qualquer, se deixarem a panela ao lume e forem a correr), uma entrevista do historiador Marc Lazar. Na sua opinião, o trotzquismo é essencialmente "uma paixão francesa", que se repercutiu na Europa e no mundo na justa medida da influência da cultura francófona. Tese interessante, embora um bocadote polémica, sem dúvida, e, hummm... um pedacinho francófila também. Uma vez mais, transcreve-se ali a velha divisa: "Dès qu'il y a deux trotskistes, une scission s'annonce!". Será que, desta vez, tudo foi (será?) diferente?”

Também eu não partilho inteiramente da tese de Marc Lazar. O trotsquismo foi um bluff inventado por Estaline e um pretexto para liquidar, liquidar. Trotski, no exílio, viveu do anti-estalinismo e nunca conseguiu construir uma alternativa, precisamente porque ficou refém do leninismo. Em termos de prática política, a única substância de verdadeiro combate deu-se na Guerra Civil de Espanha, através do catalão POUM. Mas também aí não veio grande coisa ao mundo. O papel do POUM foi mais de divisão que de combate à besta fascista. Até que o braço assassino do NKVD deu mais uns tantos mártires para a vitimização trotsquista quando varreu o POUM da face da terra. Depois do assassinato de Trotski, então sim, a causa trotsquista tomou a forma de miríade grupuscular e coloriu-se com a paniche de uma certa intelectualidade francesa. Até aos dias de hoje, em que o centro de gravidade da Quarta Internacional e da expressão política trotsquista continua a situar-se em terras gaulesas. E terá sido, por essas vias, que chegou a terras lusas. E é aqui que Marc Lazar começa a ter razão.

Incapaz de assumir e fazer passar o seu leninismo de raiz, o trotsquismo deitou mão a “novas vanguardas” (mais vendáveis à intelectualidade que à classe operária): a ecologia, o feminismo, a defesa dos imigrantes, a luta pela liberdade de aborto, com os gays e as lésbicas transformadas em novas estrelas da diferença bem pensante e obrigatória. Foram estas novas causas que lhe deram o verniz chique e criaram uma contradição insolúvel com a sua matriz obreirista e revolucionária cada vez menos suportável e menos assumida. Tamanha contradição tinha, um dia, de dar bernarda. Será desta?
publicado por João Tunes às 15:45
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UMA GATA QUE FALTOU AO RESPEITO AO POETA

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O José Teixeira, ilustre cultivador da língua portuguesa em terras do campesinato, do operariado, dos pequenos e médios comerciantes e industriais e das gloriosas Forças Armadas de Libertação lá em Moçambique, já me tinha enviado por mail esta deliciosa prosa a propósito de um prémio que lhe atribuíram em tempos idos. Ele foi desenterrar o texto como agradecimento irónico a um prémio que aqui a Bota Acima atribuíra ao seu excelente blogue. Na altura, não a publiquei por não ter o necessário visto do autor. Serviu, no entanto, para uma deliciosa e bem educadíssima troca de mails que teve o grande mérito de nos ficarmos a conhecer melhor além do exercício recíproco de vocabulário vernáculo adequado a canastas e chás dançantes. A partir daí, o José Teixeira entrou na lista dos meus estimados blogamigos.

Agora, o José Teixeira resolveu dar o tal texto à estampa e lá aparece a irónica menção à minha modesta Bota. Assim, já dá direito a transcrição por o texto já ter sido tornado público pelo seu autor. Fica também um abraço para o talentoso blogueiro que emite a partir de Maputo.

“Roupa Velha 11: Mensagem

Há alguns anos decidiu o Estado agraciar-me com uma comenda em reconhecimento pelo exercício das elevadas funções de que estive incumbido por estas paragens. Também a iniciativa privada nacional aqui instalada considerou assinalar tamanha actividade, tendo-me então obsequiado com um magnífico exemplar da Mensagem pessoana, polissémica obra para quem vasculha a alma lusa e respectivos Impérios e desencantos, neste caso acoplada aos sonhos do grande Pomar, Júlio este, sete vistas da referida lusitanidade.
Reconhecido e respeitoso nem o livro assinei, evitando macular tal artística iniciativa, assim julgando-me bibliófilo. Apressei-me a depositar a obra na nossa estante Altamira, brilho de qualquer sala pequeno-burguesa, e na qual vamos, como se negligentemente, oferecendo às visitas as reluzentes lombadas acumuladas, ali a intervalarem o nosso altar de antepassados, fotograficamente convocados para defesa da paz e sucessos deste lar.
Há pouco, decerto por razões climáticas, assomou-me o fastio e lá retirei o citado livro para um lento e distraído desfolhar no descanso da varanda sobre o Índico, após o qual lhe dei um indevido abandono, impróprio ao pintor e não menos ao poeta.
Nisto precipitou-se a Gata Joana, personagem moçambicana dominadora desta casa, porventura farta de lusófonas construções ou de heteronómicas mitologias, e, no fervor do seu mui frequente cio, decidiu urinar o belo exemplar, talvez reclamando a sua propriedade, quiçá reclamando-se Ofélia.
Agora, e enquanto o livro seca no sol da varanda, questiono-me. Que fazer à comenda?
Setembro 2001

[sai com um abraço ao blogocompanheiro BotaAcima]”
publicado por João Tunes às 12:49
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NÃO SOU MAS GOSTO DELES

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Um Bloquista explica assim a sua relação com o trotsquismo:

“Não sou trotsquista, nunca fui, nem nunca tive qualquer simpatia pelo trotsquismo. Minto, tive e tenho uma: a de terem sido anti-estalinistas. Não faz de Trotsky o herói respeitador dos direitos humanos que o querem pintar alguns (esteve longe disso), mas faz dos trotsquistas gente que, na URSS e em muitos outros países do socialismo real, foi impiedosamente perseguida e assassinada. Não é, apesar de tudo, pouco. Sobretudo sabendo que a maior parte dos trotsquistas se filiaram nesta corrente marxista por oposição ao domínio estalinista na esquerda.”

Nesta autêntica sessão de piruetas de posicionamento, começamos por saber que o dito cujo nunca teve qualquer simpatia pelo trotsquismo mas afinal, deixando de mentir, tem uma que, apesar de tudo, não é pouco! Dito por outras palavras, e sem mentir, o Daniel Oliveira usa demagogia que não é, apesar de tudo, pouca.

Percebe-se que um bloquista assumido (haja Deus!), na hora da diluição - séria ou fingida - do PSR, tenha estas dificuldades de lidar com a componente trotsquista do seu Partido (ou Frente, ou Aliança, ou lá o que é). Mas não vale mentir sobre o trotsquismo. Ou falsificar a história, que é uma das formas mais feias de mentir. Sobretudo para quem costuma cantar de cantar de galo no debate político.

A manipulação do martírio de Trotski é um dos embustes mais bem montados da propaganda política. Trotski disputou (mal, porque: displicente, arrogante, toca-e-foge) a sucessão de Lenine. Toda a prática de Trotski, enquanto poder, foi de selvajaria bolchevique. Continuaria a ser brutal (menos, tanto ou mais que Estaline?) se fosse ele a suceder a Lenine. Trostski nunca renegou Lenine (pelo contrário, afirmou-se sempre como o seu “herdeiro puro”) e o estalinismo limitou-se a concretizar, nas novas condições, a prática leninista. Tanto leninismo havia no estalinismo como no trotsquismo, a diferença esteve em que um o praticou e o outro não. Estaline tem o onús da prática, Trotski teve o benefício da contestação (não ao leninismo) à prática do seu rival na liderança bolchevique. Estaline assassinou Trotski, está para saber o que faria Troski a Estaline. A lógica de exclusão extremada entre os dois candidatos indica que os resultados não seriam diferentes (com ou sem picareta, com ou sem revólver, com ou sem mais ou menos perfídia). Trotski, até porque claudicou no combate e na resistência a Estaline, deixou poucos seguidores ou admiradores entre os bolcheviques. O número empoladíssimo de “trotsquistas” que a paranóia estalinista inventou foi um mero pretexto repressivo (do género do tempo de Salazar, em que quem não era pelo Estado Novo era comunista). Nos anos trinta, quarenta e cinquenta, na URSS e nas "democracias populares", a quem se queria liquidar (ou purgar) chamava-se trotsquista e dava-se-lhe o tiro, ponto final. Como veio a acontecer com o "titismo". Assim, é abusivo validar este embuste repressivo como real e contabilizar as vítimas acusadas de trotsquismo como sendo seguidores ou admiradores de Trotski. Curiosa e sintomaticamente (rabo de fora?), Daniel Oliveira vai directamente do trotsquismo e do estalinismo para o marxismo, sem parar no apeadeiro do leninismo. Percebe-se, percebe-se.

Afinal, o que Daniel Oliveira nos quiz dizer foi: não é trotsquista, até nem vai à bola com a coisa, mas é amigo de trotsquistas, trabalha num (ou para um) Partido em que eles estão lá, e - sendo assim - afinal o trotsquismo até foi porreiro porque os estalinistas lhes deram na cabeça e - por isso mesmo - até gosta deles embora não alinhe com a coisa.
publicado por João Tunes às 00:51
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Quinta-feira, 4 de Março de 2004

LEVEM-NO, LEVEM-NO...

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Luis Filipe Menezes propõe nomes sonantes para a lista do PSD/PP para o Parlamento Europeu. Assim para o modernaço, inventivo e charmoso. Quer-se dizer: Gestores (que é aquilo que este país tem de melhor depois dos jogadores de futebol). O nome de António Mexia não podia faltar, ou não fosse ele uma superstar mediática entre os frades do Partido do Beato.

Acho bem. Mas se não o quiserem mandar morar em Bruxelas, então arranjem-lhe lugar no Parlamento da Mongólia. Para ver se os mongóis aprendem o que é a gestão charmosa. É preciso é que haja por lá televisão, jornais e jornalistas.
publicado por João Tunes às 12:30
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Quarta-feira, 3 de Março de 2004

APARETCHICKS AO PODER

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A indigitação (ou lá como eles chamam) de António Seguro para próximo líder do Grupo Parlamentar do PS é mais uma triste notícia para a nossa vida política.

Trata-se de um aparetchick à velha maneira do tempo do domínio dos funcionários na vida dos partidos. O que, nos dias de hoje, só significa a perda de peso dos políticos a favor dos homens do aparelho.

Obviamente que António Costa (e que tanto prometia como excelente político) suicidou-se politicamente agarrado a Paulo Pedroso e a Ferro Rodrigues na forma como se atascaram (a eles e ao PS) no caso Casa Pia. Foi uma pena, mas erros daqueles pagam-se caros em política. Seria de esperar que um político de gabarito sucedesse a António Costa. Pelos vistos, a opção é pela nomenklatura. Paciência.

Por este andar, e se a moda pega, ainda temos o Domingos Abrantes a liderar a bancada do PCP e o Daniel Oliveira do Barnabé no lugar do Louçã.

Haja pachorra.
publicado por João Tunes às 15:57
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