Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004

ALEGRIA NUMA TRISTE SINA

Já não me bastava ter uma em casa, passei a ter duas. Provavelmente demais para lidar com este químico cartesiano retirado.

(Toda uma vida feita em lide com átomos e moléculas. Desde que, aos meus dez anos de idade, resolveram meter-me na Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva lá no Barreiro para tirar um curso de analista químico na problemática esperança de engrossar a legião dos súbditos do Império dos Melos. Provavelmente, destinado, como desejo projectado de subsistência, a analisar amostras de pirites alentejanas de São Domingos e Aljustrel, matéria-prima para o ácido sulfúrico que, por sua vez, tinha a nobre sina de ferver e reagir, acabando em sulfato de amónio para revitalizar vinhas, pomares e outras coisas mais deste lindo Portugal. Pipetas, balões, retortas e provetas, líquidos que ferviam ou sublimavam, de todas as cores e composições, foram-me injectadas no alma do corpo como destino de menino pobre e adoptado que, em vez de escolher, só tinha o direito de dizer obrigado, muito obrigado. Naquele tempo, liceu não havia no Barreiro e fazer tal curso em Setúbal requeria cabedais de gente fina que era ínfima minoria numa vila operária. Depois, a vida dos protectores foi-se compondo e como eu não dava mostras de ser néscio total, lá fui subindo na escala de progressão nas químicas até me encartar em engenharia química e, depois, meter-me em outras habilidades mais. Até acabar a carreira a escrever num blogue que, com a química, só tem semelhança pela luta dura a lidar com a alquimia dos sentimentos e a volatilidade das palavras.)

Pois, voltando ao início, sendo eu homem de ciência com desvios para as filias do amor à poesia, às almas bonitas, à liberdade e à igualdade, e tendo-me a vida brindado com uma companheira psicóloga, uma outra do mesmo mister passa hoje a viver comigo, pelo que passo a ter duas (!) psicólogas (!) cá em casa. É que a minha Inês, brilhantemente, entrou-me em casa, orgulhosa, com um brilho nos olhos e um canudo debaixo do braço igualzinho ao da Mãe.

Estou feito. Logo eu, que embirro com Freud e seus comparsas. Resta-me a consolação de que, talvez, talvez, os meus parafusos perdidos e ferrugentos passem a estar melhor consertados.

Mas que estou feliz e babado, lá isso estou. Um grande beijo, minha querida Inês. Que o futuro se abra para ti num riso escancarado.
publicado por João Tunes às 12:00
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