Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2004

COMO EU TE ENTENDO

Imagino. Uma pessoa tem, na sua frente, o rosto de outra pessoa. Um corpo com alma que faz o seu trabalho e respira, mexe, olha, sente, suspira, ri, levanta, senta, atende o telefone, mexe em papéis, exalta, ri, acalma, diz umas balelas para se recompor, levanta, senta, faz o seu trabalho através de um corpo com alma. Existe.



Imagino. De repente, essa paisagem humana desaparece. Ninguém sabe como nem para onde. A angústia passou a sentar-se onde antes estava uma pessoa. E o olhar fica sem rumo.



Imagino. O espanto da raiva por saber que, onde estava uma pessoa e depois se sentou uma angústia, passou a sentar-se agora a saudade de uma vida. Porque a pessoa que ali estava antes resolveu deixar de viver. E que, para isso, se isolou em sítio onde não fosse descoberto a tempo de ser puxada para a vida, explorando o anonimato dos condomínios que são as formas modernas de sermos vizinhos mas pouco pessoas com pessoas. Essa pessoa escolheu sair mas o teu olhar perdeu uma paisagem que te dava a dimensão que eras humano.



Imagino. Como te vai custar olhar na tua frente. Porque está lá a sombra de uma pessoa que era uma parte humana do teu ser profissional. E porque, agora, o teu olhar passa a estar misturado com os mistérios da vida.



Imagino. As dores do teu olhar não casam bem com o zelo pelas tuas obrigações. Há que bulir. Sempre, como se não se tivesse passado nada. Porque as empresas existem para dar alegrias aos accionistas. Cada vez menos consideradas como obras de pessoas. A falta de um accionista é uma desgraça. Uma pessoa a menos é coisa que se compensa facilmente entre a legião dos famintos de emprego. Siga o fado de cifrão e alguidar. Mas falta uma pessoa na tua frente.



Como eu te entendo, meu caro compañero. Nada vai resolver, eu sei, mas que não te falte este meu abraço.
publicado por João Tunes às 17:17
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