Sexta-feira, 5 de Março de 2004

FALANDO SOBRE LIVROS

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A mania dos livros vem-me de criança. Ou seja, o gosto por os ler, olhar para eles, sentir o contacto das folhas com os dedos, cheirá-los e segurá-los na mão. E confesso que compro mais livros que a minha capacidade de leitura. Uns tantos vão restando para depois e quando chega esse depois lá vem mais uma catrefa deles para casa e o ciclo reinicia-se. Mas vou lendo, vou lendo.

Como disse, o gosto e algum fetiche pelos livros vem-me dos tempos de criança. O meu Tio Luís (que me criou) tinha a pancada da leitura. Era um bibliófilo compulsivo. Na altura, na nossa habitação de três assoalhadas no Barreiro, uma das divisões estava destinada exclusivamente a ser o seu escritório e a sua biblioteca. Aquilo era sítio sagrado, como se de uma capela se tratasse. Era lá que ele se encafuava nas horas de ócio, escrevendo e lendo, lendo muito. Quando o meu Tio entrava na divisão sagrada, ninguém tinha ordem de lá entrar para não perturbar a sua concentração. Quando ele não estava em casa, todos podíamos fruir da riqueza bibliotecária na condição solenizada de nada sujar, nada estragar, nada desarrumar. Era um sítio para onde eu gostava de ir. Retirava um livro, sentava-me na sua cadeira e sentia-me um adulto à boa medida. Eram muitos os livros disponíveis, sobretudo romances mas também tudo o que era livro proibido e o meu Tio conseguia desencantar. Aquilino, Ferreira de Castro, Eça e Camilo eram os autores dominantes. Assim, não foi difícil descobrir o prazer da leitura. Outra coisa: o meu Tio nunca me recomendou que lesse este ou aquele livro, o que foi factor determinante para me sentir livre nas minhas escolhas e no desenvolvimento do vício. Era um pedagogo intuitivo e sabia que se, naquela idade, me recomendasse este ou aquele autor era certo e sabido que o referido iria ficar para trás.

Tenho uma razoável colecção de livros e eles lá vão subindo pelas paredes acima. Agora calhou ao meu Pedro estar a dar Literatura no Secundário. O rapaz sempre foi barra a Português e escreve muito bem (para a idade, é claro). Obrigam-no a ler uns tantos livros e fazer deles resumos e apresentações. Em casa, não lhe falta material para se desenrascar. Acontece que cometi o erro fatal de, na minha ansiedade de educador, lhe recomendar este ou aquele livro deste ou daquele autor. Resultado: nenhum dos que tenho em casa, serve ao rapaz. São todos chatos, ponto final. Quando tem de estudar obra nova, já sei: lá vou com ele à FNAC, não abro pio e o Pedro por lá anda às voltas a fazer as suas escolhas. Percebi que ele sabe bem o que há lá por casa porque nunca hesita e traz sempre obra e autor que nunca comprei. O dogma é: os melhores são os que o pai e a mãe nunca leram. É a sua maneira de se tornar adulto. O que é preciso é que vá lendo e gostando de ler. Quanto ao resto, incluindo as despesas na FNAC, é o preço da minha inépcia pedagógica.
publicado por João Tunes às 20:50
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De Antonio Dias a 6 de Março de 2004 às 16:09
O que daria mais trabalho aos escritores de obras infanto-juvenis.
Sem ofensa, claro.


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