Sábado, 13 de Março de 2004

TRÊS SINTONIAS COM MST

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Sempre que posso nunca perco a leitura dos textos de Miguel Sousa Tavares (excepto quando ele trata de futebol). É arguto, corrosivo, inteligente, informado e escreve admiravelmente bem. Como sou seu leitor habitual, tenho a minha estatística feita em termos de concordância com as suas posições – ronda os trinta por cento. Como ele defende causas em termos radicais, não há margem para assim-assim, pelo que se depreende que os outros setenta por cento são de discordância absoluta. O que representa um valor acrescido para o não deixar de ler. Entretanto, como ele é eclético e escreve sobre quase tudo e quase todos, a distribuição das concordâncias e discordâncias costumam atravessar cada uma das suas crónicas.

Pela primeira vez, a sua última crónica das sextas-feiras no Público mereceu a minha concordância integral nos vários assuntos abordados. Assim, e porque me dá imenso jeito porque a inspiração foi à vida (esperemos que volte) desde os trágicos acontecimentos em Madrid, permitam que me dedique ao acto parasitário de o transcrever e assinar por baixo.

PRIMEIRA SINTONIA: SOBRE O ABORTO:

”Aqui há uns anos, na televisão, havia um programa de conversas em que o jornalista Luís Osório entretinha um debate com o dr. Daniel Sampaio e uma figura retorcida, que se sentava sobre as pernas, fazia uns vagos gestos com as mãos e, volta e meia, soltava umas frases desgarradas, tipo-pós-modernas, restaurante dos Tibetanos ou Frágil. Entre os meus amigos, baptizámo-la de "A Vírgula", devido aos seus contorcionismos, e divertiamo-nos a imitá-la no dito programa. Mas, ao consultar a lista de deputados saídos das últimas legislativas, constatei com espanto que "A Vírgula" havia sido eleita suplente na lista do Bloco de Esquerda e, como tal, estava destinada - devido ao rotativismo igualitarista do Bloco - a aparecer ocasionalmente como deputada da nação, isto é, minha deputada. Cheguei a vê-la, aliás, numa intervenção parlamentar, onde já não apareceu sentada sobre as pernas e a pose era claramente de alguém que tinha passado a levar-se francamente a sério - embora com piores resultados.
Esta semana, nestas libérrimas páginas do PÚBLICO, "A Vírgula" - de sua graça, Ana Drago - apareceu-me a dissertar sobre o aborto, ao melhor estilo do "direito à minha barriga". Entre o panfletário e o patético, desabafava ela que "o Dia Internacional da Mulher é mais um dia em que procuro novos caminhos para saber o que faço da minha revolta com a sistemática condenação do direito ao meu corpo".
Eu - votante, discreto militante e fervoroso crente da despenalização do aborto e do direito ao aborto em hospitais públicos, com a assistência médica e os meios do Estado - confesso, todavia, que vomito este discurso. Na questão do aborto, o que menos me preocupa é o direito da deputada Ana Drago ao seu corpo: que faça com ele o que quiser. O que me preocupa, única e exclusivamente, é o direito de uma criança que vai nascer a ter um pai e uma mãe, condições de vida minimamente aceitáveis e alguém que se preocupe com ela, que a ame, que lhe ensine o milagre de estar vivo e a responsabilidade de sobreviver. Começa, porque o aborto não é um direito: é uma tragédia, uma tragédia que se assume, em desespero ou em consciência, quando o que se apresenta como alternativa é uma tragédia ainda maior. Segue-se que, se fosse direito de alguém, não se percebe por que haveria de ser apenas da mãe e não também do pai - e se o pai, contra a vontade da mãe, quiser ter o filho e se comprometer a criá-lo e educá-lo sozinho? Ah, pois, o útero, a barriga, o corpo: o corpo é da mulher, é ela que manda nele. E quem é que manda verdadeiramente no corpo da mulher? Serão os seus progenitores que a criaram, em vez de terem decidido abortar dela? Será ela própria, os produtos de beleza, os cirurgiões plásticos? Não, quem manda é a natureza. É a natureza que decide se uma mulher é fértil ou infértil, se adoece ou se tem saúde, se engravida ou se aborta espontaneamente. Por isso, eu vejo a questão do aborto, não como um problema ideológico ou religioso, mas como parte do equilíbrio profundamente instável das regras desse imenso jogo que é a vida - a vida, segunda as únicas verdades invencíveis, que são as da natureza. Na natureza, quando uma fêmea mata à nascença as crias mais fracas, não o faz porque as não queira ou não ame, mas apenas porque não tem condições para criar todos os filhos e opta por defender os que podem sobreviver. Na natureza humana, as condições são mais amplas, mais dolorosas e mais traumatizantes que a simples capacidade de sobrevivência física dos filhos. Entram em jogo outras e mais angustiantes coisas, como as condições psicológicas, financeiras, conjugais, amorosas. A decisão é de cada um, conforme a sua vida, a sua força, a sua convicção íntima. E se defendo a liberalização do aborto é porque entendo que o que é íntimo é impartilhável e escapa a Deus e a César. Não é, seguramente, porque a Igreja Católica e alguns fanáticos que julgam saber em exclusivo o que é a família são contra, que eu sou a favor. Mas também não sou a favor, certamente, por causa do direito à barriga da deputada Ana Drago.”

SEGUNDA SINTONIA: SOBRE A ADOPÇÃO DE CRIANÇAS POR CASAIS HOMOSSEXUAIS:

”Por idênticos e primários raciocínios, caiu em cima de Luís Vilas Boas um coro de politicamente correctos, só porque ele se atreveu a dizer uma coisa óbvia: que um casal homossexual não oferece garantias para criar e educar equilibradamente uma criança. Uma vez mais, é o direito das próprias crianças a uma infância saudável que passa para segundo plano, cedendo ao direito dos homossexuais, mulheres ou homens, de brincarem aos pais e mães. Uma vez mais, a minha resposta é: olhem para a natureza. Já viram elefantes "gays" ou focas lésbicas a criarem filhos em comum? Peçam o que é legitimo pedir - igualdade de direitos conjugais e sucessórios, por exemplo -, mas não peçam o que não é natural pedir e ofende os direitos legítimos de terceiros inocentes.”

TERCEIRA SINTONIA: SOBRE CAVACO SILVA:

”Nós já o sabíamos, mas, confessado pelo próprio, a coisa torna-se quase indecente: no seu segundo volume de memórias políticas, Cavaco Silva diz que considerava Santana Lopes um bom secretário de Estado da Cultura, pois tinha conseguido "atrair para a área social-democrata" bastantes intelectuais e artistas. Salvo melhor definição, não vejo que outro nome dar a isto que não o de corrupção política, e fico siderado por constatar que um primeiro-ministro considera ser essa a tarefa fundamental de um secretário de Estado da Cultura.
Dentro da mesma linha de pensamento, Cavaco afirma igualmente que, se fosse hoje, teria frequentado um curso de "sedução de jornalistas". Ele pensa também que os jornalistas, todos os jornalistas, são seduzíveis e arregimentáveis: basta saber como o fazer. É assim que ele vê a função da imprensa.
Enfim, culminando as suas surpreendentes confissões, o homem que também quer ser Presidente da República lastima ter cometido o erro de dizer que não gastava mais de dez minutos por dia a ler jornais. O erro - entenda-se bem - não era o de não ler jornais, mas o de confessar que os não lia. Como pode alguém governar o que quer que seja, sobretudo um país, se não sabe e não lhe interessa saber o que se passa no país e no mundo, o que pensam os outros, o que fazem, o que sentem, o que os indigna, o que esperam? O ódio visceral que Cavaco sempre revelou pela imprensa e, através dela, pelas opiniões e preocupações alheias foi uma imagem de marca de toda a sua governação e a razão final para o cansaço e o descrédito que acabou por causar no país. Pelos vistos, continua igual a si mesmo. "Fechado em seu próprio cativeiro", como alguém escreveu sobre outro alguém."
publicado por João Tunes às 01:06
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De Teixeira Pinto a 14 de Março de 2004 às 01:49
Ó João, por favor, descentraliza lá isso, que de centralismos fiquei eu enjoado, e para esse peditório não dou nem um kopek... O meu "obviamente" estava explicado no próprio texto. Abraço.


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