Terça-feira, 16 de Março de 2004

UM MAU RESULTADO NAS ELEIÇÕES EM ESPANHA

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A pertença da Catalunha a Espanha assenta numa tremenda base de fragilidade – a) A Catalunha será a única nação de Espanha que tinha condições de sobreviver em independência; b) A Espanha, sem a Catalunha, seria um país de fraco poderio; c) A Catalunha ganha mais em estar dentro de Espanha que fora dela.

Este triângulo de interdependências e de possibilidades centrífugas permitem o enorme poder de pressão (quantas vezes chegando ao nível da chantagem) que Barcelona exerce sobre Madrid, ganhando quase sempre. O relacionamento dos catalães com Espanha é orientado segundo uma lógica mercantil e esse mercantilismo será dos traços culturais mais persistentes na história dos catalães (provavelmente, o povo católico mais burguês em todo o mundo). Os catalães gostam de afirmar a sua “diferença” mas sabem que vivem como vivem porque estão em Espanha. Vai daí, o seu independentismo é radical em termos folclóricos mas contêm-no quando ele pode prejudicar os seus negócios. Porque, para um típico catalão, fazer um bom negócio é sempre o prioritário.

(No último Verão, tive oportunidade de conviver, durante vários dias, com um jovem e inteligente catalão.
Ele andava ufano com as suas t-shirts independentistas – género “sou catalão, não sou espanhol” – e perguntei-lhe se ele só vestia “roupa política” ao que me respondeu: -estou a aproveitar aqui, porque na Catalunha não era “politicamente correcto”.
Depois, inevitável, veio o Figo à baila. Ele lá desbobinou o argumentário esperado sobre o “pesetero”. Foi a minha vez de lhe explicar que o Figo, sendo verdade que se portou mal com os catalães, afinal o “pesetero” só demonstrou, na hora de trocar tudo por dinheiro, que se tinha tornado apenas num “catalão a 100%”. Como ele era um homem de desporto, tudo correu em “fair-play” e ficámos a simpatizar um pelo outro.)

A forte componente mercantil da cultura catalã faz-se sentir, como não podia deixar de ser, na política. Alimentam os seus braços autonómicos-independentistas: uma direita catalã (no CiU) e uma esquerda catalã (na ERC). Se a CiU tem uma longa história de negociata bem sucedida com Madrid, chegou agora a vez da ERC (que defende, não esquecer, o projecto da “Grande Catalunha” e cujas fronteiras a Sul incluem a Comunidade Valenciana) pendurar-se no PSC. As negociatas da ERC com a ETA foram uma vergonha política, tentando empurrar os assassinos para fora da Catalunha (matem em Madrid, coño!). E o cinismo calculista da ERC só pode ser entendido porque se sabe que, desde há vários anos (desde que a ETA passou a assassinar os empresários bascos relapsos a pagarem o “imposto revolucionário”), grande parte dos empresários de Bilbau preferem investir na Catalunha. Este foi o motivo pelo qual a ETA passou a assassinar na Catalunha, este o motivo também porque a ERC (cínica e egoisticamente) quis empurrar a ETA para outras bandas, dando-lhe a credibilidade de parceiro para negociações políticas.

São estas as razões pelas quais considero que a subida de votação e de deputados da ERC nas Cortes de Espanha, são os únicos “maus resultados” das eleições do último domingo. Porque foi, apenas através da ERC, que a ETA marcou pontos eleitorais.
publicado por João Tunes às 14:58
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