Quarta-feira, 17 de Março de 2004

CAHORA BASSA

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Parte importante da minha actividade profissional em Moçambique foi desenvolvida na Barragem de Cahora Bassa. Dessa experiência, nas duas vezes em que lá estive, ficou-me uma memória inapagável.

Primeiro, a experiência de aterrar em Tete ou vir de jeep desde a Beira aos saltos (via Chimoio) e fazer o percurso por estrada até ao Songo, em que os cabritos são quem mais ordenam, obrigando a testarem-se permanentemente os travões. Passando do calor tórrido e insuportável de Tete feita em cacos para o fresco da montanha até nos chegarmos à garganta do Zambeze, trocando as cubatas que tudo devastam pela procura do bem essencial que é a lenha pelo inóspito panorama (algo necrófilo) dos imbondeiros de mau presságio. Depois o casario triste e semi-abandonado do Songo para nos espantarmos com a grandeza do génio humano, olhando do alto da barragem para o monstro da cascata artificial. No meio dos afazeres, descer ao miolo do monstro do betão e ver as coisas a rolarem em português com a quota cumprida de técnicos moçambicanos em eterno tirocínio.

O convívio com os patrícios revela a maneira própria de ser daqueles técnicos isolados no fim do mundo. E perceber a forma entranhada como eles ganharam amor pela obra, pelas suas doenças e as suas curas.

Cahora Bassa foi o maior elefante que o colonialismo deixou em África. Custou-nos e custa-nos os olhos da cara, sobretudo porque os sul-africanos exploraram (e de que maneira!) a fragilidade da nossa continuação naquelas terras.

Falando com os patrícios que ainda por ali se mantêm, a opinião foi unânime: devíamos largar isto para os moçambicanos mas na hora em que o fizermos, faltará pouco para a Barragem deixar de funcionar. Não sei se têm razão, não tenho dados para os desmentir.

É uma das maiores obras em África em que o homem desafiou a natureza. Cahora Bassa tem um enorme potencial para o desenvolvimento da África Austral. Veremos como as coisas acabam. Desejo que em bem. Temo que termine mal.
publicado por João Tunes às 00:48
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De Joo a 18 de Março de 2004 às 01:52
É uma árvore assustadora. De belo recorte (e de grande efeito em contra-luz)mas assustadora. Por outro lado, fico feliz por estarmos em completo e inultrapassável desacordo sobre estética de árvores. Antes sobre isso, digo eu. Abraço.


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