Terça-feira, 23 de Março de 2004

GANDA MÁRIO !

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Mário Soares tem um tal lugar assegurado na nossa História que lhe é permitido dizer coisas que não se perdoariam noutras figuras ou mesmo no cidadão comum. Porque Soares pertence ao património da nossa Democracia e pela sua forma de estar na política e na vida. É pois natural que mereça carinho e condescendência quando lhe saem da boca para fora esta ou aquela frase infeliz. Por outro lado, a sua idade também ajuda a ser-se tolerante com uma ou outra rabugice sua.

Sempre tive a ideia que Soares nunca se levou muito a sério quanto às suas próprias posições. Ele não é aquele racionalista pragmático e calculista que mede o alcance de tudo o que diz e o que faz. Ao contrário do que eram, por exemplo, Cunhal e Sá Carneiro, e é Cavaco Silva. E, neste aspecto, acho que pagámos um preço (sobretudo na forma desastrosa como foi Primeiro Ministro) mas todos beneficiámos destas características de Soares tornar a política leve, humana e acessível. Soares tem sido, antes de mais, um “gajo porreiro” que foi amado e estimado também pela forma descontraída, convivial e afectiva como viveu e vive a política. Estruturalmente, Soares é mais um intuitivo, um táctico e um apaixonado - aquilo que por vezes se designa como “animal político” - do que um estratega ou um definitivo sobre rumos e objectivos. E entre as suas características pessoais, notam-se traços que o humanizam – vê-se que é preguiçoso, amante da boa mesa e dos bons passeios, vaidoso em rituais e homenagens e bom conversador, tudo “defeitos” que cada português traz dentro de si … ou que gostaria de os poder gozar.

A preguiça política de Soares relativamente às suas metas e às suas ambições sempre o levou, desde a juventude, a “pendurar-se” noutros que trabalhassem politicamente por ele. Foi assim com a iniciação política que lhe foi ministrada por Cunhal e na construção e consolidação do PS em que se apoiou em Salgado Zenha.

Soares foi do republicanismo paterno para o PCP, assustou-se com a ideia de ter de passar para a clandestinidade, meteu-se em free lancer do antifascismo, ainda namorou Marcelo com a CEUD, aproveitou a ajuda da Internacional Socialista e fundou o PS, foi quase tudo na política que gostava de ter sido (excepto o almejado lugar de Secretário Geral da ONU), não vive sem a política nem a ribalta, sabe que tem uma reserva de estima popular inesgotável.

É natural que à beira dos oitenta anos, Soares tenha falta de espaço para construir projectos em que ele brilhe numa equipa a trabalhar para si. E não poderá mais apoiar-se em “apoios” mais velhos que ele e que tenham estatuto para o inspirarem.

Faltou a Soares a experiência de ter sido um esquerdista impertinente (trotsquista, guevarista, maoísta). Livre do PS, Louçã deve fazer inveja ao bom do Mário. Imagino como ele gostaria de se meter naqueles folclores que a rapaziada bloquista organiza de vez em quando. Vai daí, o antes inspirado por Cunhal e por Zenha, meteu-se numa de “esquerdismo à PS” e tudo indica que a Nova Passionária cá do burgo (Ana Gomes) lhe esteja a inspirar modos e tiradas na cruzada anti-Bush. Pelo menos, é assim que entendo (e desculpo, depois de pensar melhor) aquela frase infantil (de segunda infância) sobre a possibilidade e a necessidade de se negociar com Bin Laden.

Ganda Mário! Contigo, a política também é uma festa e quase chega a ser uma paródia. Bem hajas!
publicado por João Tunes às 14:08
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