Segunda-feira, 5 de Abril de 2004

O DRAMA DE JOÃO OLIVEIRA

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O João Oliveira era o líder incontestado da acção política antifascista no Porto ao nível do movimento associativo estudantil e das actividades culturais. No último ano de Engenharia, excelente aluno, aparentava mais idade do que a real, corpulento, rosto sulcado por rugas fundas, cabelo cortado rente, eriçado e com muitas brancas, enorme coragem física, descuidado no vestuário e com uma calma a toda a prova perante as situações mais difíceis. Tinha sempre um sorriso sincero, os olhos brilhavam-lhe quando ouvia uma boa estória, transpirava energia e afectuosidade disponível, determinação e vontade de viver. Gostava mais de ouvir que de sentenciar, incentivava a discussão e depois guardava uma opinião lá para o fim que quase sempre era adoptada como a síntese perfeita dos nossos debates.

Originário de Aveiro, tinha andado no Técnico onde semeara uma série de discípulos. Depois foi forçado a transferir-se para o Porto e ali tornou-se rapidamente o dirigente aceite dos estudantes antifascistas. De uma maneira informal porque convinha que o João não aparecesse com responsabilidades publicamente assumidas. Formava uma dupla bipolar com o Edgar, também estudante de Engenharia e também activíssimo, mas que era o seu oposto pelos tiques e pela antipatia sentenciosa. No Porto, tal como já tinha acontecido no Técnico, o João era a referência e o guia.

No final de 1969, eu estava em Mafra e no meu segundo trimestre, já a tirar a especialidade de transmissões de infantaria, quando o João Oliveira entra como recruta cadete para oficial miliciano. Rapidamente juntámos as pontas da malta do associativismo estudantil que andava por Mafra e formámos um grupo de agitação contra a guerra colonial que reunia em Lisboa aos fins de semana a preparar as nossas acções. Saídos de Mafra, cada um do grupo foi para o seu lado. O João foi parar ao quartel de Bragança e rapidamente mobilizado para bater com os costados em Moçambique. Antes de eu embarcar para a Guiné, soube que o João tinha desertado e passado à clandestinidade. Perdi-lhe o rasto, é claro.

Passados uns tempos, após ter voltado da Guiné, um sujeito que não reconheci, vestido tipo empregado bancário, usando óculos com lentes muito grossas e com cabelo preto intenso e bem penteado, bate-me à porta da minha casa em Benfica. Não lhe reconheci o rosto, mas identifiquei facilmente o sorriso sereno e aberto e o modo de falar calmo e arrastado. Os sorrisos não têm disfarce. Pois era o João Oliveira a perguntar se podia entrar. Porta fechada, um abraço demorado e comovido. Apresentei-lhe a minha companheira e a minha filha Catarina, então com os seus dois anos de idade. Conversámos pela noite dentro, sem agenda e sem perguntas indiscretas e desnecessárias da minha parte. Falei-lhe da minha experiência na Guiné, ouviu atentamente e pediu-me que passasse a escrito um ou outro aspecto que lhe pareceu mais relevante. Sabia praticamente tudo sobre a minha vida particular e profissional e as actividades que eu desenvolvia ligado ao cinema. Quis saber quais eram as minhas leituras. Falei-lhe que andava à volta do Lukacs e dos seus conceitos sobre a estética realista, ele desaprovou com um ligeiro abanar de cabeça, o tipo não se tinha portado bem na Hungria em 1956. Ofereceu-me um exemplar clandestino do Rumo à Vitória do Cunhal e recomendou-me o seu estudo ao mesmo tempo que me entregava um maço de Avantes. Pediu para dormir em minha casa, arranjou-se um remedeio e ele partiu manhã cedo sem deixar rasto. Voltou várias vezes a minha casa e os convívios e dormidas foram-se repetindo. A Catarina deixou de o estranhar. Cedo percebi que ele não subia de elevador até ao meu andar. Ficava dois andares acima ou abaixo do meu e depois completava o resto do trajecto pelas escadas. Fui mantendo com ele a relação que alguém tem com a sua referência maior.

No princípio de 1974, a notícia corre célere por Lisboa. A Pide tinha apanhado o João Oliveira. Tomam-se algumas precauções da praxe. Nada de especial que o João Oliveira era dos que não rachavam. Sabe-se que está a ser selvaticamente torturado. Organizam-se protestos a exigir a sua libertação. O martírio do João Oliveira ajudava a completar a santidade de um mito da minha geração. Dentro de pouco tempo, uma vaga de prisões assola Lisboa. O João Oliveira tinha rachado. O mito não era santo. Faltava, mais ou menos, uma semana para o 25 de Abril.

Foi uma tristeza ver João Oliveira sair de Caxias, a seguir ao 25 de Abril, cabeça baixa e lágrimas nos olhos ao lado dos camaradas que ele tinha denunciado e tratados como heróis.

Andou por aí, na Revolução, a curtir a sua vergonha. Arranjaram-lhe um lugar na assessoria do grupo parlamentar do MDP/CDE. Soube que consumia as noites pelos bares da Praça das Flores. Ainda o encontrei uma vez num bar ao pé da Assembleia da República. Tinha as rugas mais fundas, o sorriso e o brilho nos olhos eram frouxos, o vestir era ainda mais desleixado que nos tempos do Porto e acompanhava um rancho de jovens companheiras desinibidas. Dei-lhe um abraço e tentei dar-lhe um sinal de olhar discreto a querer dizer “amigos como dantes”. Mas senti que gostou e não gostou de me ver. Disse-me rapidamente adeus com um gesto brusco. Não insisti. Respeitei-lhe o direito a fazer o seu luto. Ainda hoje respeito. Nas epopeias de libertação, também cabem os não heróis.
publicado por João Tunes às 13:30
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