Segunda-feira, 5 de Abril de 2004

UM PULO DO PORTO PARA O ALENTEJO

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No Porto, então provinciano, o grupo de intervenção estudantil movia-se em pequenos círculos. Que diferença do enorme espraiar dos movimentos que atravessavam os polos académicos de Lisboa com pontas em Económicas no Quelhas, Agronomia na Ajuda, Ciências no Príncipe Real, o Técnico na Alameda e, claro está, com o coração no Campo Grande a ser bombeado de sangue irreverente pelas muitas Faculdades concentradas na Cidade Universitária. Na cidade nortenha de granito escurecido que parecia ter celebrado um pacto com a chuva, a concentração era mais intensa, os movimentos eram mais repetidos e as caras conhecidas eram mais vistas mas estavam muito mais próximas. As pessoas eram menos formais, mais solidárias e mais efusivas na amizade e na camaradagem.

Fui estudar para o Porto por castigo "negociado" porque tinha estado na Cidade Universitária num dia errado, tanto mais que a estudantada, através de ataques colectivos de tosse, tinha impedido, nesse dia, o Magnífico Reitor Paulo Cunha de discursar na cerimónia do Dia da Universidade. A escolha era entre uma suspensão da condição de estudante ou dar garantia de que pedia a transferência para, no ano lectivo seguinte, ir estudar para outro sítio. Escolhi ir para o Porto. E a família apoiou, convencida que aquele meio pacato e provinciano me daria para intervalar nas “politiquices”. Tão convencidos estavam da minha cura que os meus tios se mudaram também, instalando-se a família primeiro na Rua Fernão de Magalhães e depois nas Águas Santas perto da Maia.

Ilusão. Quando cheguei ao Porto, já tinha uma equipa de recepção à minha espera e para me introduzir no meio da contestação. O Aguinaldo e a Odete (meus colegas vindos de Lisboa) eram, respectivamente, o patriarca e a matriarca do meio académico contestatário, o João (de Engenharia) era o líder veterano e incontestado, o Graça (de Medicina) era o operacional, o Edgar (de Engenharia) era o promissor pretensioso e opinativo (já tinha a mesma face e trejeitos do Molotov que de vez em quando aparecem por aí nos seus aturados trabalhos de fazer a “renovação comunista”) e mais uns tantos (sobretudo de Belas Artes e dos Liceus) completavam o ramalhete activista. Não demorou tempo a estar na direcção da Associação de Estudantes e a dirigir o seu Boletim. Pelos limites da acção no meio estudantil e pelas características da cidade, contestar o fascismo interpenetrava com toda a vida cultural da cidade e não tardou que me visse metido também no Cine Clube do Porto, no Teatro Experimental e na Cooperativa Livreira. O meio era pequeno, todos se conheciam e o tempo geria-se com boa produtividade. Quando nos reuníamos, a pretexto de uma cavaqueira, passava-se rapidamente revista a tudo e a todos, quem era e não era de confiança, como devia ser composta esta ou aquela lista para uma Associação, o que fazer para dar a volta aos esteticistas do Cine Clube, coisa e tal. Dessa experiência, recordo três momentos:

- A prisão do Graça de Medicina que se estampou com o seu Mini em São João da Madeira, o carro incendiou-se, a namorada morreu, o porta bagagens vinha carregado de Avantes e estes, meio chamuscados, espalharam-se frente às caras dos GNRs que acorreram a tomar conta do acidente. Depois, foi a campanha pela sua libertação e as jornadas de solidariedade frente à prisão da Pide na Rua do Heroísmo. Não foi fácil mas conseguiu-se. Ainda hoje estou para saber como e porquê.

- A agitação pseudo criativa numa festa do São João, em que se carregaram balões cheios de panfletos mas o peso da papelada fez adornar os balões, estes pegaram fogo no início da subida e tivemos todos dar rapidamente corda aos sapatos para não sermos apanhados com a boca na botija.

- O Graça, recém saído da prisão, convida-me para um passeio até à Foz. Passeando na Marginal, faz-me o convite formal para me tornar membro do PCP. Os acontecimentos do diferendo sino-soviético estavam frescos, eu exijo, primeiro, tirar as dúvidas que tinha acumulado sobre a posição inequívoca da fidelidade do PCP para com um dos lados. O Graça promete-me reunião de esclarecimento com um camarada mais competente sobre os meandros do tema. Ainda hoje estou à espera dessa reunião pelo que depreendo que querer ser esclarecido sobre tão simples ou tão complexa questão era, por si só, prova de falta de maturidade e o convite tinha de ser anulado por bom aviso de defesa da pureza ideológica das hostes.
(Mais tarde, a cena repetiu-se em Lisboa. Dessa vez, o engulho foi a famigerada invasão de Praga. Dizer que não concordava, como o fiz, valeu nova retirada de convite à iniciação na militância formal. Quando veio o terceiro convite em 1972, disse logo que não porque já estava escaldado com o eco da impertinência de ter dúvidas e querer esclarecimentos. Só em Maio de 1974, abdiquei de ter dúvidas porque a revolução parecia que nos queimava por dentro e então lá veio o cartão com uma série de anos de atraso acumulado.)

O meu ano portuense foi intenso de actividades multifacetadas, convívio franco e aberto, solidariedade transbordante, maturação garantida. No final do ano, novo processo disciplinar por actividades académicas consideradas subversivas. Como só me restava uma cadeira por fazer, o novo compromisso foi voltar a matricular-me em Lisboa mas na condição de não ir às aulas e só lá pôr os pés para fazer as frequências. Calhou bem, foi um ano de espera para entrar para a tropa e para a guerra e conhecer o Alentejo num exílio pacato em Ferreira do Alentejo a dar aulas num colégio de que era proprietário o prior lá da terra e em que conheci uma nova e única paisagem humana e social.

Do Porto para o Alentejo, foi um pulo. Este país é mesmo pequeno.
publicado por João Tunes às 15:01
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