RAZÕES PARA UM INTERESSEAinda não era nascido quando a Guerra Civil de Espanha começou e acabou. A minha mãe tinha resolvido esperar que a II Guerra Mundial estivesse a terminar para me dar ao mundo. Não sei se isso correspondeu a algum instinto de protecção de me resguardar. Nunca falámos o suficiente para lhe fazer essa pergunta que gostava de ter feito, não pela resposta, mas apenas para lhe oferecer uma provocação de ternura, rindo-me a espreitar-lhe os olhos e vê-los rir sem as névoas de amargura que, assim, são a imagem que dela mais guardo. Não deve ter sido. Certo que não foi. Deve ter sido só uma razão de circunstância por ignorância sobre a contracepção. Nem sei se ela soube destas guerras vergada em amanhos no Alto Douro que, se hoje está longe, na sua altura estavam no outro mundo da canga salazarista. O certo é que os meus dez irmãos vieram antes de mim, portanto nenhum se gaba nem gabou do mesmo, e a guerra estava-me guardada para bem a conhecer na Guiné.
Mas a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) sempre foi tema que me fascinou. Por várias razões. Algumas delas, dão-me particular acicate. Primeiro, gosto de Espanha sem nunca conseguir entender os espanhóis, convindo-me talvez que a chave que me desculpa deste mistério atraente estará na tal guerra em que se andaram a matar uns aos outros. Sobre a qual, quanto mais se sabe, mais se descobre o muito que há para saber. Depois, sempre esperei a hora, em que aquele povo se equilibrasse face à sua memória e às suas vítimas. Porque, os vencedores, os fascistas, tiveram quase quarenta anos para tratarem das suas feridas, transformarem a Espanha segundo a sua cartilha e sem nunca perdoarem (muito menos reconciliarem) com os vencidos. Por último, nunca entendi que a reposição da democracia em Espanha tivesse o preço alto do esquecimento, a transformação da guerra num tabu, com os seus mortos por desenterrar e dando-lhes sepultura, sem que os velhos vencidos que ainda se arrastam pelos quatro cantos de Espanha, bem como os seus descendentes, tenham pleno direito a recuperarem a honra e o orgulho por terem sido derrotados a defenderem a legalidade democrática contra uma facção golpista. Voltou a democracia a Espanha, com o preço de terem a tutela de um Rei (por aqui, vá lá, não é?), mas o esquecimento penaliza os que defenderam a democracia espanhola e favorece os impiedosos vitoriosos de uma guerra só possível com a ajuda dos mercenários mouros, dos fascistas italianos e portugueses e dos nazis alemães.
Nos últimos tempos, parece que as coisas tendem a equilibrar-se. Há uma série de estímulos e apoios de recuperação da memória e iniciativas para dar dignidade de registo e de sepultura aos vencidos caídos. Sobretudo, por iniciativa de alguns familiares, jornalistas e historiadores. Mas um grande mal está feito a perda de memória de gerações de espanhóis jovens que vivem sem direito à culturalização do seu passado. E que assim são tentados ao pragmatismo de verem o mundo como se ele fosse uma fatia de salame, olhando em frente sem o resguardo de um passado, correndo o risco da tentação simétrica de viverem o hoje sem prevenirem o amanhã.
(na foto, Franco na guerra, comandando os fascistas na Batalha do Ebro)