PAULO DA TROPA E DO MAR

Logo de início, o posicionamento do PPD no terreno da política e dos interesses, relegou o CDS mais para o valor dos símbolos da direita legal e institucional que de uma real representatividade social e política da oligarquia ofendida.
Toda a recuperação de posições, após 1975, foi sempre absorvida pelo PPD/PSD e partilhada pelo PS. Ao CDS/PP restou-lhe, como fatalidade e como missão, a gestão dos símbolos mais conservadores da sociedade portuguesa e que fazem a ponte com a cultura do antigo regime.
Paulo Portas, desde o início da sua viagem no PP, montou a sua estratégia de transformar o velho CDS num Partido de Extrema-Direita, capaz de se alimentar dos ressentimentos sociais e políticos face ao processo de transformação da sociedade portuguesa. Na base da desconfiança de “Europa a mais” (a velha sociedade sempre foi “africanista” e “anti-europeia”), do catolicismo ancestral, do patriotismo de exaltação, das filias securitárias, da desconfiança e contenção dos imigrantes. E diga-se, em abono da verdade, que Paulo Portas verificou cedo que não precisava de Manuel Monteiro para isso e poderia fazer mais e melhor que ele e sem ele.
Paulo Portas percebeu que o seu projecto é de médio e longo prazo pois ainda não tem um eleitorado com peso mínimo para falar de alto a ditar cartas. Falta-lhe muito para ser Le Pen ou os seus émulos milanês e austríaco. Entretanto, a base de apoio do PP necessita de poder (é gente que só respira no poder). Estes dois factos levaram à actual coligação governamental. E o PP arrisca-se a “integrar-se” no PSD e falhar o projecto regenerativo da extrema-direita. O que, por outro lado, acarreta que o PSD resvale para a direita do espectro, perdendo o seu poder de atracção sobre o “centro-direita” (arrastando o PS para se moldar a esta fatia do eleitorado), tendo de assumir, por via do populismo, uma representação que incarne os símbolos conservadores. A liderança de Santana Lopes veio na hora do “oiro sobre azul” para este processo transformador e integracionista. Foi isto, apenas isso, que alarmou Marcelo Rebelo de Sousa e Pacheco Pereira.
Paulo Portas assume, na coligação, o caminho da reconstrução da simbologia do antigo regime, regenerando-o dos “ostracismos” do 25 de Abril. Ele lá está, no seu Ministério, a cumprir essa missão. Paulo Portas recuperou a velha receita de enformar a hierarquia militar nos cânones da direita conservadora, levando as Forças Armadas de regresso à situação pretoriana de um pilar do regime, por via de uma hierarquia direitista e completando o processo de profissionalização dos militares. E não foi por acaso que Paulo Portas deu a importância que deu aos “ex-combatentes”. Isto permite-lhe rever a história da participação na guerra colonial, devolvendo-lhe o cunho patriótico, dando continuidade ao mito heróico do passado de Pátria Pluricontinental (“limpando a história” da mancha da colonização), permitindo a recuperação da auto-estima dos militares de carreira, alimentando os ressentimentos sobre a descolonização (que continuam vivos na sociedade portuguesa) e ganhando base de apoio em grande número de ex-combatentes, demasiado tempo deprimidos pelo silêncio sobre as suas feridas. Entretanto, a Família emerge como novo e central valor, a Igreja aguenta-se no balanço, as polícias desenrascam-se, a “caça aos imigrantes” e a “deseuropização” ficam para mais tarde.
A entrega do
Mar a Paulo Portas não é inocente, embora o Ministério pareça ter ficado um bocado para o esdrúxulo. Não são os portos e os estaleiros que darão a Portas um acréscimo magnífico de mando e prestígio, é verdade. Mas, no domínio do simbólico, o
Mar, na recuperação da tradição heróica e de destino de antanho, representa o mesmo que os coentros na culinária alentejana. É o remate do sabor e do cheiro da regeneração. E marcam a opção atlantista, o que, em termos de símbolo de contraponto com a “opção europeia” (reforçada com a presença de Barroso em Bruxelas), não é nada desprezível.
Pela figura, pelo seu porte, sobretudo pela sua arrogância, tende-se a desvalorizar Portas, tentando-o corroer na área da chicana e do ridículo. Pela minha parte, acho que ele, entre todos os pólos do poder, é quem mais água está a levar ao seu moinho. Oxalá me engane. Entretanto, aguardemos as cenas dos próximos capítulos.
Posted by joao.tunes at julho 22, 2004 12:46 AM