CONTINUANDO A FALAR SOBRE RACISMO

O preconceito racial exprime-se das mais variadas formas. Umas são claras, agressivas, violentas. Mas muitas delas são difusas, chegando até ao limite da sua expressão negacionista.
Temos assim a repugnância definitiva, assente em dar ao Outro, catalogado pela cor da pele, características inultrapassáveis e socialmente repugnantes que se estimam como próprias e herdadas geneticamente. Foi neste quadro que se começou por se lhes atribuir a
qualidade inata de
antropófagos e que depois foi evoluindo para os defeitos da preguiça, do roubo, do alcoolismo e da estupidez. O mito da antropofagia africana (já mais que desmontado) foi necessário para justificar as primeiras ocupações e a prática esclavagista. Os defeitos da preguiça e do roubo vieram mais tarde e para justificar a necessidade de medidas extremas para integrá-los nas tarefas de trabalho colonial e para exercer sobre eles uma autoridade policial mais degradada. Num caso e noutro, tratava-se de exercer sobre eles a soberania do ocupante, integrando-o na nova ordem e na divisão das actividades e do trabalho. Os defeitos do alcoolismo e da estupidez, justificavam a sua marginalização social e a inutilidade de lhes proporcionar educação, cultura e civilização. Em qualquer dos casos, inaptos para alcançarem os
patamares brancos de autoridade, riqueza e qualidade de vida. Eles teriam, por culpas próprias, de viver num patamar mais baixo.
Transposto para as sociedades europeias com migração significativa, estes preconceitos funcionam como clarins de vigilância e salvaguarda. É assim que se diz (incluindo em notícias da imprensa e em comunicados policiais) que “fulano, de raça negra (ou cigana), assaltou, roubou ou matou”, mas se for um patrício europeu não se indica “fulano, de raça branca, etc”. Se for branco, a transgressão é uma excepção, caso contrário é uma manifestação da “sua raça”, portanto própria.
Estas formas de racismo são as mais detectáveis e menos incorporáveis num discurso oficial de comunicação ideológica. São remetidas para a comunicação informal, aí se alimentam e aí subsistem. Logo, são profundamente ideológicas, embora se inscrevam na verbalização contida. Embora aflore, não poucas vezes, na informação e nas linguagens policial e autárquica.
Depois temos as formas “leves” de racismo que são próprias sobretudo das camadas cultas que não se exprimem através do racismo primário. Uma destas manifestações exprime-se pelos mitos, em que um dos mais fortes é o da “sexualidade africana” – os pretos terão pénis enormes (aproximando-se do animalesco) e elas são altamente sensuais (donde prolongam o estigma da submissão sexual, como objecto de desejo e de prazer). Os homens são ridicularizados pela sua anatomia animalesca, elas são apetecíveis e apetecidas.
Existe também o
racismo paternal que penetra essencialmente na esquerda política e ideológica. Os africanos são “mais desculpados” e “mais protegidos” nas suas manifestações e nas suas transgressões. É “bem” gostar de toda a música africana, de toda a beleza africana, de toda a paisagem africana, de toda a sociabilidade africana, de toda a arte e literatura africana, de tudo que é africano. Aqui a esquerda oferece-nos o projecto de expiarmos, perante os negros, o acumular dos males que lhes foram causados pelos “brancos maus”. Mas, passando embora de antropófagos, preguiçosos, bêbados e ladrões para adereços de estimação, o racismo fica, só que passou para a fase da simetria de compensação.
(Lembro-me de, aqui há uns anos, ter ido ao Jardim da Gulbenkian assistir a um concerto de uma banda guineense. Tocavam mal todos, até pessimamente. Cantavam ainda pior. Mas a assistência não arredava pé, batia palmas e abanava rabos a tentar acompanhar o compasso. Coitados, tinham vindo da Guiné-Bissau. Esforçam-se, era a desculpa que se percebia na assistência resistente. Às tantas, uma voz feminina soou mais alto e disse “porra, vamos embora, que estes gajos tocam mal” e deu-se a debandada parcial. Ao estar-se a dispensar os guineenses da obrigação da qualidade, o que se estava a praticar não era mais que um racismo paternal, logo de superioridade.)
Com tantos séculos de África no corpo que transportamos connosco (mesmo os que lá nunca puseram os pés), não é fácil não se ser racista. Porque sempre foi um dos problemas mais complicados na civilidade dos povos, saber lidar com a diferença. A nossa identidade e sentido de sobrevivência convenceu-nos (com razões poderosas) que o perigo vinha dos diferentes, mesmo que a estima pelos semelhantes não seja muito elevada.
Posted by joao.tunes at julho 21, 2004 02:40 PM