FALANDO SOBRE RACISMO
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Nas sociedades modernas, o racismo é um problema cultural e é, por isso, um problema político, de facto ou potencialmente. Existindo um caldo cultural contaminado pelo racismo, mais tarde ou mais cedo, no momento A ou no momento B, ele será (melhor, poderá ser) aproveitado politicamente. Talvez pela questão da oportunidade no afloramento político de postulados racistas, haja a tendência para o subestimar na sua fase recalcada e, vamos lá, ele ser olhado como culturalmente repugnante mas culturalmente tolerável, na medida em que se julgue que ele está contido dentro de limites admissíveis.
Em Portugal
não há, hoje, uma corrente política com qualquer relevo que advogue e explore o racismo e tente mobilizar por esta via.
Mas,
culturalmente, os portugueses estão profundamente impregnados do mais profundo racismo. Seremos mesmo, na Europa, um dos povos mais intrinsecamente racistas. E existem razões objectivas para isso. Talvez por isso mesmo, aliado ao défice cultural de que padecemos.
A passagem do
racismo cultural ao
racismo político depende da sua oportunidade política e da emergência (que se pode dar de um dia para o outro) de uma força política que tenha talento para empunhar essa bandeira com eficácia. Se isso acontecer, quando acontecer, muitas bocas se irão abrir de espanto.
O
racismo português é estrutural e insere-se numa lógica objectiva. Qualquer história colonial (e a nossa durou cinco séculos!) não seria possível se não assentasse num racismo como matriz no olhar os Outros. Sem racismo, não teríamos navegado, ocupado, instalado, explorado, perdurado, resistido. Pensar o contrário é especular à volta de uma impossibilidade. Respeitando os africanos como
nossos iguais/diferentes, seria impossível manter o império mais antigo e o último império a desaparecer. Sem racismo, a fase esclavagista (que durou, incluindo a sua fase informal e ilegal, até ao princípio do Século XX) nunca poderia ter existido, idem com a ocupação dos espaços e dos mercados, com a distribuição do trabalho, com a exploração das matérias primas, com a textura económica da nação, enfim, nunca poderíamos aguentar guerras duras em três frentes e durante treze anos. Portanto, o racismo secular dos portugueses não existiu por razões culturais ou por opções políticas. Existiu, sim, por necessidades objectivas da construção e permanência de um império colonial.
Com o fim do domínio das colónias, o
racismo objectivo passou para a esfera cultural. É um fenómeno recalcado, porque politicamente inconveniente. E esse recalcamento (como quase todos os recalcamentos) não resolve o problema, coloca-o, antes, no sono refrescante do descanso para a retoma com vigor. Por outro lado, a mudança do sentido migratório, em vez do fluxo de Portugal para África, passámos a ter um fluxo em sentido contrário. Ou seja, o nosso relacionamento com os africanos, antes processado em África (
terreno deles), passou a dar-se no
nosso terreno onde a
nossa soberania não é questionável. E sabe-se, do futebol, o que significa jogar em
casa. Veremos o que vai acontecer quando, politicamente, houver habilidade de explorar este filão da nossa cultura.
A primeira estratégia da politização da questão do racismo está na recuperação da ideia da
justeza da nossa
presença em África. E os não distraídos na observação da literatura recentemente editada ao nível “histórico”, decerto já verificaram a enorme variedade e quantidade de livros dedicados a regenerar esta ideia. Sobretudo, nesta primeira fase, pretendendo conferir dignidade, altruísmo, heroísmo até, às gestas dos militares na guerra colonial e à própria guerra em si mesma. E, para isso, é inevitável a atracção para se chegar aqui ter-se, como matriz, os postulados e os preconceitos da doutrina colonial do anterior regime. Mais ainda, pela ideia persistentemente difundida (com resultados notáveis) da
”descolonização criminosa”. Com estes dois pontos assentes, o passado
antes da guerra é automaticamente branqueado. E, ao fazê-lo, retomam-se todos os preconceitos raciais, de forma inevitável, da história colonial portuguesa.
Posted by joao.tunes at julho 21, 2004 12:54 AM
Assino por baixo. JN
NÃO TENHO PALAVRAS. MUITO BEM MESMO.