junho 30, 2004
TAMBÉM EM BRUXELAS SE COMEMORA A PRESENÇA DE PORTUGAL NA FINAL DO EURO 2004 ...

(foto roubada ao
Bloff)
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10:34 PM
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CARTA SANTANETA
Senhor Putativo, Indigitado e Provável Novel Primeiro-Ministro,
Vexa tem a alta responsabilidade de nomear a sua equipa ministerial em concordância com as recomensações feitas por Sexa Governador do Banco de Portugal a Sexa Senhor Presidente da República e que realçam a máxima recomendação de que, no novo governo a nomear por Vexa, se mantenha o equilíbrio orçamental, a bem da dieta do défice e do PEC.
Sabemos que Sexa e próxima ex-Ministra das Finanças não vai à bola com Vexa, pelo que se exclui, infelizmente, a possibilidade de contar com esta patriota na nobre função de nos atarrachar o cinto, o que muito agradaria a Sexa Governador do Banco de Portugal e a Sexa Senhor Presidente da República.
Os jornais insistem na notícia de que um dos líderes do Compromisso Portugal, proximamente em risco de desemprego por ter apostado no cavalo errado na corrida à Galp, poderá ser recompensado pelos serviços prestados à "causa carlucciana" com um "pontapé pela escada acima" e ocupar o cadeirão da truculenta, embirrante e próxima ex-Ministra.
Recomenda-se vivamente a Vexa que não caia nessa esparrela que ia contrariar as recomendações de Sexa Governador do Banco de Portugal a Sexa Senhor Presidente da República. Primeiro, porque ele iria, de certeza, gastar 99% do Orçamento em publicidade, jornais, televisões e jornalistas. E o que sobrasse iria acabar nos bolsos do Figo para permitir que a sua imagem servisse para decorar a fachada do Ministério das Finanças. E, assim, nada sobraria para organizar as recepções ao ex-Primeiro Ministro quando ele visitasse o nosso país para ralhar sobre a forma como Vexa está a comprometer o PEC.
Acresce que tal figura como Ministro das Finanças, tendo poder de decisão sobre a escolha do novo Presidente da Galp, o mais provável seria que vetasse os nomes indicados pela Petrocer, correndo-se o risco de o poder da petrolífera cair na Segunda Circular e ficar prisioneiro de uma qualquer manif promovida por SMS.
Em virtude do exposto, sugere-se a Vexa que, numa atitude de sabedoria, tome a seguinte, única e sábia decisão:
- Manter o "status quo" executivo da Galp, dado que, para mais, a malta de lá já deve estar habituada e por tudo (e os jornalistas também). O País agradece.
Mais conselhos lhe serão dados na manif santaneta e SMS de desagravo, promovida para esta noite no Elefante Branco. Lá estarei.
Melhores Cumprimentos.
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05:41 PM
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GUARDEM ESSA CADEIRA PARA EU LOGO VER O JOGO ...

Para ver a laranja espremida e bem espremida, demonstrando que de mecânica já nada tem. Esses boeres de uma figa que passaram séculos a pilhar aquilo onde nós íamos assentando arraiais... A malta esfalfava-se a instalar os fortes e as feitorias, tínhamos que limpar os teimosos que não queriam aceitar a nossa soberania. Com a espada e a cruz. Uma trabalheira dos diabos. E depois vinham os holandeses, papinha feita, tomar-nos conta dos fortes e das mercadorias. Ainda por cima, aquele país feito de gatunos dos mares, para saberem comerciar e enriquecer, ainda precisaram que lhes despachássemos os judeus que cá não quisemos.
Hoje, vão pagá-las todas por junto e atacado.
PORTUGAL! PORTUGAL! PORTUGAL!
(imagem roubada ao
Africanidades)
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01:02 AM
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junho 29, 2004
A LIBERDADE DE IMPRENSA, SEGUNDO UM BANQUEIRO
Através do
Fumaças, tive eco da represália do BES sobre o Expresso por motivo de artigos deste semanário relativamente à corrida da Carlyle ao controlo da Galp (em que o BES participava na parceria Luso Oil). É assim: pago-te anúncio mas fazes-me o frete jornalístico! Ou: quem não sabuja não mama.
Obviamente que isto é o dia-a-dia da nossa comunicação social, cada vez mais enfeudada na origem ou pela carteira de anunciantes. Como, na maior parte das vezes, se cede à chantagem, nós não vamos sabendo da missa. Boa excepção à regra.
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07:13 PM
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SE

Se eu fosse sidonista, esta era a boa altura de me sentar e esperar que o Presidente - que não é Rei - decidisse por mim. E por todos. Deixando-o, apenas, prisioneiro das chantagens palacianas e das impotências reverentes.
Se eu fosse militante com cartão ou presunção, iria cheirar o cú dos Secretários e ouvir deles qual a linha justa para as conveniências do Partido.
Se eu fosse inconsciente, diria
ainda bem, que o estampanço vai ser maior, deixando correr a incompetência e o populismo.
Se eu fosse leviano, discutiria a forma e deixava "santanizar" este pobre país que, de tão pobre, não merece nem aguenta tanto. Porque, mesmo aqui, a vigarice política devia ter limites.
Se eu fosse do PS, tremeria de ver o Ferro ir a votos com o Pedroso na lapela.
(Porque um podia ser Primeiro Ministro. E o outro, ministro de qualquer coisa.)
Se eu fosse o José Pacheco Pereira, voltava a ser maoísta. Porque, neste país, tudo é possível e quem contorce, sempre torce.
Se eu fosse a Helena Roseta, vestia-me de luto e voltava a chorar em directo com uma foto de Sá Carneiro junto ao coração. Porque, neste país, a todo o tempo se pode voltar para trás.
Se eu fosse o Pina Moura, pedia desculpa ao Carvalhas, fazia autocrítica e pedia para voltar. Porque, neste país, tudo vale sempre alguma pena quando a lata não é pequena.
Se eu fosse o Louçã, ria-me que nem um perdido a olhar para as mensagens no telemóvel. Porque, neste país, rir é a única coisa que tem motivo.
Se eu fosse patriota da bola e tivesse bandeira na janela, já a tinha tirado por vergonha.
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02:51 PM
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junho 26, 2004
ANTECIPADAS, POIS CLARO !

(imagem obtida do
Barnabé)
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10:53 AM
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junho 25, 2004
EFEMÉRIDE DO DIA
(29 anos de independência de Moçambique)

Mereces ser País Independente.
Merecias ter mais que Frelimo + Renamo.
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01:21 PM
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QUAL PORT WINE, QUAL CARAPUÇA ...
... DOBREM A LÍNGUA, PLEASE!
BEBAM MAS SOLETREM: VI-NHO DO POR-TO !
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12:11 AM
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junho 24, 2004
FESTA EM CAUSA DELES
Festa de arromba só pode ter sido, depois de lida tanta concordância e tanta felicitação.
E não faltaram os iates do patrão de Mourinho para apimentar a proximidade e as deduções simbólicas, simétricas como não podia deixar de ser.
Não fui porque não pude, disso tendo avisado o
Prof da Causa, com nota de discordância sobre o critério dos
Oscares. Como foi momento de celebração, negas ao unanimismo não podiam ter cabidela (por falta de educação ou talvez de elegância, até mesmo sinal de empertinência) e, vai daí, o registo do agradecimento pelo convite, indicação de impossibilidade de comparência e a nota dissonante, perderam-se pelo caminho.
Constatei, logo a seguir, que perdi momentos únicos, embora passíveis de réplica.
Da festa, registo a aristocracia umbiguista do
VJS, para quem, antes e depois daquela Festa, nunca, jamais, em tempo algum, a blogosfera se tinha encontrado. Quando a verdade é que este "encontro" é o último noticiado de vários e tantos que aconteceram. Mas, neles, o VJS não esteve, logo não contam para a estatística.
Afinal, para o mal e para o bem, as estrelas da Festa, pelo que fiquei a saber, foram mesmo os iates do russo. Pelo menos, como musa inspiradora de fantasia literária e de hedonismo à solta. Foi assim com o
Jumento. Também com o
Memórias do Presente. Adorei.
Aconselho que não se perca a leitura da peça do
Memórias do Presente. Deliciosa e de extrema fantasia, crónica viva cruzando tempos vividos com os que se vivem, conseguida e com muito que se lhe diga ou mesmo se lhe conte. Eu só lhe juntava uma nota, se o Raimundo mo permite: pelo local e pela ostentação simbólica daquela navegação, sorte teve o Russo mais os GOES, mais a Máfia e outras tais, que nenhum dos iates se chamasse
Cunene. Porque, então, o Russo podia ter dormido mal naquela noite.
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07:36 PM
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OLHAR

A blogosfera necessita de se purgar do fel que a contamina por pedras atiradas. Uns a outros. Aos políticos (estes ou aqueles). A tudo que merece e não merece. Por via directa ou por tabela. Porque não deve ser um ringue.
A blogosfera necessita de se livrar dos arremessos de ressentimentos. Porque não deve ser refúgio para resmungos.
A blogosfera necessita de limpar o mel dos salamaleques das deferências. Dos abraços e beijinhos de circunstância. Dos óscares e comendas por dá cá aquela palha. Porque não deve ser um salão de festa de bombeiros.
A blogosfera necessita de esconjurar vaidades à desgarrada. Porque não deve ser uma passagem de modelos.
Mea culpa.
A blogosfera necessita de olhares.
A blogosfera necessita de posts como este:
"Se eu fosse um olhar seria tudo. Um olhar belo e verdadeiro, sem segredos, está em todo o lado onde há nem que seja apenas um pingo de felicidade. Um olhar sensível e envergonhado, que se esconde quase sempre atrás do receio. Olhares profundos que são intensos, e um olhar intenso pode ser tanto de pura alegria como de puro ódio. Estes olhares são horríveis, tão maus que apenas por um bocadinho não nos cortam a respiração. Infelizmente há muitos desses terríveis olhares hoje em dia e nada podemos fazer para o evitar, já que quem manda no nosso olhar não somos nós. Não podemos mentir sem ter pelo menos um minúsculo fragmento de arrependimento ou culpa no olhar. Um olhar ciumento é protector e sincero embora não seja muito agradável. Há olhares que nos sufocam e outros que nos poêm aos pulos, mas o pior de todos é sem dúvida o olhar indiferente. Um olhar que não quer saber sobre o que possa acontecer ao seu receptor, um olhar que não demonstra nada, maldade, frieza, ódio, crueldade, nada. Um olhar que nos deixa sem armas para o enfrentar, que não nos diz do que nos acusa, e, por isso, é o pior de todos. Um olhar misto é um olhar que sente muito ao mesmo tempo. Pode sentir alegria nervosa, maldade envergonhada, preocupação arrependida, muitas coisas mais. Um olhar esconde segredos inimagináveis. Podemos aprender muito com eles mas muitas vezes temos terror de assistir a algum, dependendo da situação. Um olhar é algo que não se consegue escrever, mas que com um olhar se explica muito bem explicado. Um olhar é brilhante. Um olhar existe, existiu e existirá sempre. Mesmo que seja distante, que pareça que não está lá, ele está. Muito bem escondido, mas está. Se eu fosse um olhar seria absolutamente tudo..."
Quem o escreveu? A Carla. Tem 11 anos. Só podia ter 11 anos. Não bloga. Teve montra de orgulho no blog paterno.
Obrigado Carla. Obrigado Carlos Gil.
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01:06 PM
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UM REI COM MAU PERDER ?

Foto roubada ao
Duas LInhas.
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12:53 PM
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junho 23, 2004
UM MÁRTIR DA VERDADE

Carlos Cardoso é um símbolo do jornalismo onde ser-se jornalista exige coragem e gostar-se da verdade pode exigir a própria vida.
Carlos Cardoso, moçambicano de segunda geração, simpatizante frelimista, fez da verdade a máxima dos que acreditam que ela é sempre revolucionária.
Carlos Cardoso meteu-se com a mafia frelimista e levou. Assassinaram-no porque, hoje em Moçambique, a corrupção é poder e a verdade é intolerável porque o poder está corrompido desde o Palácio Presidencial até aos escritórios administrativos espalhados por aquele imenso território. De país independente transformou-se rapidamente em país de rapina. Enquanto Carlos Cardoso se manteve moçambicano, amando Moçambique, a elite frelimista retornou ao pior da tradição do poder colonial apeado, sobretudo quanto a prepotência e desprezo pelo povo. Ainda por cima, Carlos Cardoso era branco, portanto um alvo mais fácil para abater. O racismo também mora ali e de que maneira.
No funeral de Carlos Cardoso, a que Chissano teve a pouca vergonha de comparecer, Mia Couto dedicou-lhe estas palavras cheias de peso e sentido: "Não estamos chorando apenas a morte de um homem. Não foi apenas Carlos Cardoso que morreu. Não mataram somente um jornalista moçambicano ... morreu um pedaço do país, uma parte de todos nós.".
Sobre Carlos Cardoso, acaba de ser editada pela Caminho, uma biografia intitulada
É proibido pôr algemas nas palavras da autoria de Paul Fauvet e de Marcelo Mousse. A não perder pelos que amam Moçambique e a Verdade.
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08:28 PM
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OLIVENZA

O
Arcabuz é um novíssimo blogue que vem acrescentar valor (como agora se diz) à blogosfera. Tiros certeiros. Apesar da arma ser de museu, o que só contribuirá, positivamente, para a suavidade de estilo dos disparos.
Está lá um excelente post sobre a "questão" de
Olivenza que, pelos vistos, vai ter dignidade de tratamento revivalista na Assembleia da República. Mais argumentos para quê?
Acrescento apenas que só cá faltam os Grupos de Amigos de Lourenços Marques, Porto Amélia, Vila Pery, Nova Lisboa, Silva Porto, Salazar, Carmona e Teixeira Pinto, reivindicando, no mínimo, o retorno aos nomes de antigamente.
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08:24 PM
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XENOFOBIA MASCARADA DE IGNORÂNCIA EM GEOGRAFIA POLÍTICA

Um ucraniano assassina um inglês em Lisboa. A PSP prende o homocida e faz comunicado público a dizer que o sujeito é croata.
Embaixada da Croácia protesta e chama incompetente à PSP.
PSP confirma que que o homicida era ucraniano.
Comandante da PSP telefona ao Embaixador da Croácia e pede desculpa.
A Embaixada da Croácia aceita o pedido de desculpas da PSP.
(A xenofobia também é isto: croata, ucraniano, romeno ou moldavo, é tudo a mesma gente. Lá para aquelas bandas. Navalhadas é com eles.)
O Comandante da PSP ainda não pediu desculpas aos portugueses.
Os portugueses têm o direito de não aceitar o seu pedido de desculpas mas aceitar o seu pedido de demissão. Para que seja substituído por um oficial que saiba e ensine geografia política à PSP.
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02:59 PM
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REFALANDO SOBRE LUIS FIGO

No post que coloquei "Pensamentos à Figo", pretendi sublinhar o absurdo da acesso de estupidez que acometeu este notável atleta. Figo, em pungente conferência de imprensa, rejeitou críticas ao estado actual da sua performance desportiva, negando direitos de intromissão no "lugar de culto sagrado" do futebol a todos que fossem estrangeiros da profissão/arte, terminando com esse lancinante murmúrio de coerência em que dizia que ele "não falava sobre cinema ou pescas".
Não o colocando nos píncaros olímpicos (acho que há melhor, bem melhor), considero Luis Figo um excelente e fora-de-série futebolista. Mas, pelo seu desgaste (derivado em grande parte pelo seu enorme profissionalismo e entrega), Luis Figo entrou na fase descendente da sua carreira (como ele reconhece ao prever apenas mais dois anos de prestação desportiva). É a lei da vida. Como aconteceu a Paulo Sousa (já arrumou as botas) e está a acontecer a João Pinto, Fernando Couto, Rui Jorge e Rui Costa. Pelas suas características e posicionamento, Figo ainda pode contribuir para a Selecção mas a Selecção já não pode depender de Figo (pelo menos, na totalidade dos noventa minutos). Neste Euro, Deco, Costinha, Maniche e Cristiano Ronaldo são as chaves consistentes do domínio do meio-campo, contenção e armação do ataque luso. Como na defesa, é a defesa "base Porto" (o Miguel andará por lá mais pela velocidade de recuperação de terreno que por méritos defensivos, mais esse portento chamado Jorge Andrade que ocupa o lugar do mais que gasto Jorge Costa, restando esse enorme equívoco indecente e teimoso de Scolari a guardar a baliza e onde devia estar Baía).
O futebol é o que é, porque todos sabemos de futebol. Até eu. O facto de cada espectador ser um treinador e ter opinião sobre tudo é que permitiram que ele se tornasse tão popular e no maior espectáculo de massas. É isto que lhe dá proveito e proventos, tendo-o transformado na maior das indústrias do espectáculo. Ao estado a que as coisas chegaram, não sou dos que lamentam os milhões ganhos pelos "artistas". Até acho bem que eles sejam principescamente remunerados num espectáculo de enormes receitas e em que são eles os artistas. Mas tudo assenta na mesmíssima base: a maioria gosta de futebol, toda a gente entende de futebol, toda a gente fala sobre futebol, toda a gente tem opinião sobre futebol. Ninguém precisa de ler uma linha sobre futebol para fruir o espectáculo dos noventa minutos. Tanta "democraticidade" tem, inevitavelmente, que comportar rios de disparates pois, quanto a acerto, cada qual tem o seu.
Um artista não pode querer que se apenas fale deles quando está no auge ou quando joga bem. Negar o direito de crítica ou de comentário a "leigos" é negar a actividade em que se meteu. Fazê-lo, como Figo fez, é uma estupidez e um acto retardado de não saber fechar em beleza e com modéstia uma extraordinária carreira. E imaginemos o que aconteceria se idênticas atitudes tivessem sido assumidas pelos outros "grandes artistas" preteridos (Rui Costa e Fernando Couto). Foi, repito, uma estupidez de "prima donna" com rugas.
Em vez das palavras estúpidas que atirou, Figo podia falar sobre cinema e sobre a política para as pescas. Demonstrando que é um cidadão e como homem de interesses mais largos que o da arte em que é mestre e dos anúncios onde amplia o pé de meia à custa do fascínio que exerce enquanto futebolista. Dando a todos o direito de falarmos sobre futebol e sobre a performance de todos e cada um dos artistas da bola.
Foi isto que quiz sublinhar no tal post. Tentando demonstrar o absurdo da estupidez das palavras de Luis Figo.
O José Flávio Teixeira do
Ma-Schamba, idólatra confesso de Luis Figo (tem esse pleníssimo direito), albergou, ontem, honras de transcrição ao meu post. O que só posso agradecer como é óbvio. Tanto mais que o fez acompanhar de dois simpatiquíssimos mails pessoais repletos de elegância, consideração, hedonismo e bom humor, onde até transparece uma certa ternura que ele terá por mim e que deve ser efeito do respeito que se tem por um "mais velho", que é coisa que depressa se aprende em África. Já aqui disse o quanto aprecio o
Ma-Schamba, uma referência e objecto de culto cá da Bota. Apesar de ele estar bem à minha direita (o que só dá colorido aos nossos bate-papos), encanta-me ler os posts de José Flávio Teixeira, pela elegância elíptica e reinventiva da escrita, pelo rigor dos conceitos e da metodologia do conhecimento, pela imensa cultura e pensamento profundo que se respira em cada palavra escrita, pelo seu fair-play, porque traz o Moçambique de que tanto gosto através de um olhar lúcido, crítico e distanciado (o que é notável, porque ele vive lá). Pela sua parte, sei que esta Bota é sua visita diária (ainda hoje voltou a referir o Bota Acima a propósito da homofobia) e, de quando em vez (quando terá tempo) por aqui deixa o seu comentário, sempre elegante, considerante, cúmplice mas frontal, afinal amigo mesmo. Estou convencido que, se tivéssemos oportunidade de nos conhecermos pessoalmente, seríamos dois bons amigos para o resto da vida, desafiando o avanço da noite em intermináveis polémicas de estimação e na exacta medida em que o tinto alentejano fosse descendo na garrafa (funcionando como ampulheta da amizade sadia). É o que também tem de bom a blogosfera - enquanto não surge a oportunidade para o abraço, a partilha e a comemoração, vai-nos restando colheitas de boas amizades virtuais. Um abraço do tamanho da distância entre o Atlântico e o Índico, caro José Flávio Teixeira. Kanimanbo Mozambique!
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02:55 PM
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junho 22, 2004
DURÃO NÃO É PESETERO

Leio e fico embasbacado: querem levar o nosso Durão para presidir à União Europeia! Agora, agora mesmo, que ele ia remodelar e a retoma está aí. Quando ele, finalmente, limpou os ouvidos e escutou a voz vinda das entranhas das urnas de voto.
Mas Durão não é um pesetero que troque as agruras do gabinete em Lisboa pelas mordomias e sainete da Europa Unida e Larga. Ele gosta de nós. Ele gosta de ser nosso Primeiro.
Ele ficou feliz naquela feliz fotografia das Lajes.Ele, Durão, continuará nosso, muito nosso. A Europa não tem culpa.
Adenda: Afinal a Europa tem culpa. E nós também. Porque a Europa prefere "pequenos" que não chateiem os "grandes". Porque aqui chegou a hora do populismo em que a vaidade substitui o voto. Pobre Europa. Pobres de nós.
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03:49 PM
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CONSTITUIÇÃO EUROPEIA ?

Recebi há pouco, pelo telemóvel, uma mensagem a alertar-me que tínhamos nova Constituição Europeia e que a nossa (a portuga) tinha ido à vida. Não quero acreditar. Será possível que tal tivesse acontecido enquanto estávamos entretidos com a euro-futebolada? E perdemos soberania quando os portugueses, finalmente, estavam arreigados, como nunca por mares antes navegados, aos símbolos da nossa soberania, bandeira na mão e hino nas gargantas? Agora que um referendo de aclamação tinha declarado o amor profundo do nosso bom povo aos valores republicanos? E (quem sabe?) até o Dom Duarte Nuno por aí ande a festejar com a verde-rubra em punho e a pedir apoio à Carbonária regicida, rondando a estátua do António José de Almeida que já foi reduto exclusivo de romagem dos velhotes dos Centros Republicanos.
Pronto. Simplesmente não acredito. Mas mudando de assunto e indo ao importante: o que acham de se meter o Moreira no lugar do Ricardo?
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03:36 PM
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"BIFES" PRÓ MANETA

O Almirante Nelson era maneta. Sim, o da batalha de Trafalgar. Que é o mesmo da Trafalgar Square. Que é o sítio onde os "bifes" se juntam e tomam banho para curar as bebedeiras.
De Almirantes sabemos nós. Tantos e bons que tivémos. E ainda temos. E nenhum era ou é maneta. Um dos nossos Almirantes foi Intelectual-Presidente e fazia excelentes discursos que partiam o coco à malta de tanto nos rirmos. Esse era careca, tinha uma mulher que era um susto, mas não era maneta. Outro nosso Almirante mandava a populaça à bardamerda mas era valente e avisava que era só fumaça e não era maneta. Aliás, mareantes que fomos e somos, de Almirante cada português tem um pouco.
O Almirante Nelson, o protector dos "bifes" bêbados, era maneta. Eles que metam um maneta na baliza a ver se melhora a qualidade de vida do lumpen e chineses que vendem bandeirinhas baratinhas. Ou então, não mexam no guarda-redes que lá está (não é maneta mas parece) que o Almirante Nuno trata dele.
Eu quero é que eles desamparem o Rossio, larguem o Dom Pedro (que não era Almirante e muito menos maneta) e voltem para a sombra do maneta deles, curarem as bebedeiras da derrota.
PORTUGAL! PORTUGAL! PORTUGAL!
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12:59 PM
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NÃO ENVERGONHEM A MARIANA

Acho que a Mariana tem razão.
Embora ela concorde inteiramente com a febre patriótica-bandeiral, acha mal, por razões de estética e de respeito para com o símbolo maior, que se andem para aí a pendurar bandeiras luso-republicanas nos estendais da roupa, presas com molas e em companhia promíscua com cuecas e peúgas.
A Mariana é patriota mas exigente. Nem sequer acalma com a ponderação de que isto é tudo resultado de falta de prática. A maioria dos portugueses nunca tinha tido na mão uma mão cheia de bandeiras. Vai daí, espeta-se uma bandeira onde calha. Para o próximo Europeu, tudo vai correr melhor.
Mas, para não irritarem a Mariana, solicita-se a todos os co-patriotas que mantenham a dignidade devida ao máximo símbolo nacional. Bandeirem, mas com estética. Por favor.
Adenda: Diz o
Carlos, também indignado, que já viu a nossa bandeira, em talhos, à mistura com morcelas e chouriços. Aqui, que me desculpem o Carlos e a Mariana, não sei não. Talvez uma morcela estivesse melhor (mais genuína a representar as nossas façanhas) que a esfera armilar de um império que já se foi. Com cuecas e peúgas, isso é que nunca.
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12:51 PM
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PENSAMENTOS À FIGO

Um jogador de futebol joga futebol
Uma bola rebola
Um jornalista escreve em jornais
Um jornalista desportivo escreve em jornais desportivos
Um mendigo mendiga
Um modelo modela
Um engenheiro engenha
Um enfermeiro enferma
Um reformado reforma
Um antropólogo antropologa
Um antropólogo social antropologa socialmente
Um blogueiro bloga
Um moçambicano moçambica
Um português portuga
ouUm jogador de futebol não escreve em jornais
Um jornalista não rebola a bola
Um jornalista desportivo não enferma
Um mendigo não é pesetero
Um modelo não engenha
Um engenheiro não modela
Um enfermeiro não reforma
Um reformado não antropologa
Um antropólogo não bloga
Um antropólogo social não escreve em jornais desportivos
Um blogueiro não antropologa socialmente
Um moçambicano não portuga
Um português não moçambica
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12:37 PM
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UM NOVO BLOGUE
Conhecia a figura de vista sem fazer ideia de quem se tratava. Porque nos encontrávamos, semanalmente e ao fim da tarde, em pé junto a um balcão corrido, cada um comendo, no seu silêncio, uma bucha para que o estômago aguentasse uma noite longa de reuniões. Não sabia dele nem o nome nem a função. Como tocávamos "instrumentos" diferentes naquela banda, nunca nos cruzávamos nos ensaios nem nos concertos. E como o local era sede de muitas responsabilidades, ninguém se auto-permitia avanços de confiança ou efusões. Ali, havia tarefas e não convívio, responsabilidades e não pessoalismos. Porque todos e cada um, carregávamos aos ombros a pesada responsabilidade colectiva de transportar a classe operária até ao poder. Uma intimidade ou uma galhofa naquele local seria um acto de intolerável irresponsabilidade. Assim, naquela espécie de Catedral, até o tratamento por camarada tinha uma solenidade maior que se traduzia no espaçamento e no tom baixo da voz com que era soletrada.
A figura chamava-me a atenção pelo seu ar circunspecto e calmo, mas sobretudo pela cor muito pálida do rosto, parecendo pessoa que tinha vivido muito tempo sem que o sol lhe fortalecesse a pigmentação.
Passou-se tempos nisto até que nos passámos a encontrar em convívios de fim-de-semana, famílias misturadas, em casa do António Graça, de quem ambos éramos amigos. Fiquei então a saber que o meu pálido camarada e vizinho do balcão do bar da Soeiro Pereira Gomes, era o Raimundo Narciso, membro do Comité Central do PCP e antigo dirigente da ARA. Os muitos anos no pelo de clandestinidade e o facto de a sua fotografia ter sido divulgada pela Pide nos jornais e na televisão, como "procurado" por ser um "perigoso terrorista", explicaram, a meu ver, a cor de pele denotando míngua de raios solares.
Depois veio, com a embalagem da perestroika, os caminhos da dissidência e da contestação até ao afastamento total com o PCP, juntos durante uns tempos até ao INES (projecto falhado de renovação da esquerda), depois (cada qual às suas) em vários caminhos de reposicionamento político. Eu fiquei independente (a votar no PS como "mal menor"), enquanto o Raimundo entrou em militâncias no PS, chegando a ser seu deputado.
Já aqui referi que ele, desde há algum tempo, alimenta um excelente blogue em boa parceria: o
Puxa Palavra. Hoje, fui descobrir que, além de participar
no
Puxa Palavra, o Raimundo Narciso também abriu um outro
blogue onde começou a abrir o seu baú de memórias. O primeiro post deste blogue memorial é
promissor: ali se explica como é que um cigano indocumentado conseguiu ajudar um clandestino (da luta armada) metido em apertos paternais, episódio que é recordado, a trinta anos de distância, pelo regresso à mesma Maternidade, agora em cumprimento de tarefas de Avô. A não perder, sublinho, para quem gosta de ler uma boa estória e saber um pouco do Portugal que ficou lá para trás.
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01:24 AM
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junho 21, 2004
REINA A PAZ NA PENÍNSULA

Fiz um post sobre o Portugal-Espanha que exagerei o mais que pude para o tornar obviamente exagerado. Mesmo assim, fiquei arrepiado com a ideia de que ele fosse tomado à letra. Julgo que não. Paz á minha consciência.
Do jogo e do resultado, já tudo estará dito sobre aqueles noventa minutos. Gostei que Portugal ganhasse e manteve-se intacto o meu gosto pelas Espanhas (porque, como aqui já o disse, Espanha não existe e é esse, para mim, o seu principal encanto). Ponto final, venha o próximo. E venham mais bandeiras porque diminuiu o número dos resistentes e dos cépticos. Mas, para mim, que adoro futebol, futebol é sempre noventa minutos de cada vez. Tudo o que vem antes e depois, pouco vale relativamente ao tempo em que a bola rola e rebola.
Tem-me dado que pensar a forma contida como foi celebrado tamanho feito. Verdade que se celebrou e efusivamente. Mas o que me surpreendeu é que, neste fenómeno em que um vencedor implicou um vencido, quando o resultado ultrapassou as expectativas de quase todos (verdade, verdadinha, quantos portugueses acreditavam que Portugal ganhasse à Espanha?), a celebração vitoriosa foi extraordinariamente contida no rebaixamento ou tentativa de humilhação do adversário vergado à derrota e à superioridade demonstrada em campo. O que é positivo, olá se é. Ontem parecíamos um povo com fair-play para dar e vender. O que não joga nada com o que se vê nos nossos comportamentos futebolísticos típicos. Os pobres espanhóis que ontem até cá vieram, voltaram a casa em sossego triste e sem incómodos de triunfalismo que os incomodasse.
Porque gostamos dos espanhóis? Como assim? Julgo que continuamos a gostar deles como eles gostam de nós, ou seja, pagamos indiferença com indiferença. Eles continuarão a achar que somos uma cambada de tristes e perdidos no tempo. Nós não teremos deixado de os considerar fala-baratos, bruscos e excessivos. Eles continuam convencidos que são uma grande nação europeia e nós uma província que merece o atraso pela nossa teimosia folclórica de rejeição de unidade peninsular. Nós continuaremos a achar que eles têm razão mas, por isso mesmo, esta evidência em nada nos aproxima. Por isso vivemos, desde a simultânea entrada na CEE, em indiferença silenciosa que sucedeu à hostilidade murmurada dos “velhos tempos”.
A ancestralidade da visão dos espanhóis como “inimigo natural” e “histórico”, cedeu lugar à xenofobia e ao racismo re-orientados para os africanos, brasileiros e imigrantes do leste. Contra estes, o murmúrio e o dislate acertam num alvo. Porque eles estão
entre nós. Estão “desclassificados”, “merecem” o odiozinho rasteiro dos ressentimentos rascas. Porque, ou são os meus ouvidos que têm muito azar, ou, pelo que oiço por aí, o gérmen do velho racismo contra os “pretos” anda à solta e com mais pujança.
O jogo Portugal-Espanha não aproximou os povos peninsulares (qualquer que fosse o resultado, não o podia fazer). Mas, por aquele resultado, também não nos afastou mais do que antes. A façanha foi tamanha que ainda não queremos acreditar. O que deu tempo a que eles, silenciosamente, voltassem para casa sem humilhação acrescentada à do resultado. Ainda por cima, nem do árbitro se podem queixar.
Foi uma Aljubarrota da treta. Sem esperança na recuperação de Olivença. Mas os espanhóis bem podem agradecer isso aos “pretos”.
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04:50 PM
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PENSANDO NO PARTIDO DA ABSTENÇÃO

Não creio que o abstencionismo seja um somatório de actos de protesto político. Não me refiro ao que se verifica com as eleições para o Parlamento Europeu que são, tipicamente em toda a Europa, um acontecimento político muito pouco apelativo. Falo dos 30 a 40% de eleitores que, por sistema, se auto-dispensam de meter o voto nas urnas, recusando a escolha política do quer que seja.
O abstencionismo será um virar costas ao sistema e ao regime, um desprezo pelos rumos ou pelas mudanças de rumo, tendo como base a rejeição da política e como artimanhas oratórias os argumentos de que "são todos a mesma coisa" e "estão lá todos para se encherem". Democracia ou ditadura, mais liberdade ou menos liberdade, mais ou menos direitos, são faces da mesma moeda. Afinal e apenas, uma versão democrática da velha máxima "a minha política é o trabalho".
Naturalmente que os políticos, uns mais outros menos, mas todos com culpas no cartório, muito têm feito para afastarem os cidadãos da política e tornar esta actividade numa prática pouco recomendável para gente que se considera de bem, ou seja, gerindo os seus interesses imediatos na sobrevivência de si e dos próximos. Mas, em boa verdade, para os abstencionistas, qualquer pretexto, ou falta dele, servirá sempre.
Para ajudar à festa, uma parte (embora minúscula) da elite somou-se aos desencantados com o sistema e deu foros de atitude a um movimento de preguiça na recusa. Com estes paladinos da rejeição, o abstencionismo (e o voto em branco) ganhou verniz e cidadania de posicionamento.
Entretanto, o grande problema do abstencionismo não é o abstencionismo. É o que medra nele e ao seu abrigo. Por muito autismo social em que se queira viver, ninguém (ou muito poucos) conseguem viver nele. Porque a política, mesmo que se lhe feche a porta, entrará pela janela. E, fechadas porta e janelas, acabará por entrar pela chaminé ou à mistura com a luz do sol. Porque todos vivemos em sociedade. E a política está em todo o lado e em tudo - no atendimento que se tem no hospital ou na repartição de finanças, na portagem da auto-estrada, no ucraniano que nos vem arranjar a máquina de lavar roupa, até no futebol para onde dá vontade de ir para se fugir da política.
Assim, a questão que me coloco, respeitando tanto a decisão de votar como a de não votar, é que (uma) "cultura política" existe e cresce na banda do abstencionismo. Porque, se os abstencionistas não influenciam a escolha eleitoral, eles existem e influenciam a vida política como quaisquer outros. Talvez mais, porque cozinham o seu caldo com maior sensação de liberdade do que aqueles que se sentem responsabilizados por uma escolha e, assim, mais ou menos, obrigam-se a uma certa cumplicidade com uma vitória ou uma derrota que também foi sua. Como críticos radicais do sistema, recusando-lhes a participação, os abstencionistas procurarão prolongar a sua coerência pela recusa dos laços da sociabilidade e pela partilha dos projectos e até das decepções. Tudo o que acontece de bom em termos políticos, pouco vale se comparado àquilo que a política e os políticos trazem de nefando. Tudo o que de condenável acontecer, são pontos a marcar e a explorar até à exaustão para confirmar a "nojeira".
Verdade que o abstencionismo não é, porque não pode ser, homogéneo. Haverá até "abstencionismo de esquerda" e "abstencionismo de direita". Mas a rejeição alimenta-se na mesma matriz - tornar a democracia frágil, tão frágil até que se parta, consumando um desejo de partilha. O que só pode trazer à lembrança que os projectos totalitários e simétricos que varreram a Europa em muitos decénios do século passado e levaram o mundo ao mais mortífero e destruidor dos conflitos mundiais, foram irmãos gémeos na mesma recusa da democracia liberal e da inutilidade instrumental da liberdade de expressão. Hoje, não julgo que estejamos (ainda?) em estado de tocar trombetas por uma democracia ameaçada pelo abstencionismo ou pelo voto em branco. Mas, como entender que, por exemplo,
o racismo e a xenofobia cresçam, entre nós (sim, ENTRE NÓS) em ritmo acelerado quando exprimem atitudes e valores que são rejeitados por TODOS os parceiros do jogo político e partidário? Porque o problema, o grande problema se houver problema, vai ser quando uma força política organizada, maribando-se para o politicamente correcto e democraticamente adquirido, conseguir dar corpo aos paradigmas que medram no abstencionismo e o traga para as urnas de voto ou para as ruas.
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03:30 PM
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junho 18, 2004
POORTUUUUUUUGAAAAAL !

Bandeiras ao vento, bandeiras ao léu. Neste domingo, haverá uma nova Aljubarrota em Alvalade. E será um 1º Dezembro antecipado.
Domingo, bandeiras ao léu, vamos derrotar os espanhóis. Derrotamos não, damos cabo deles!
Essa espanholada infame, socialistas monárquicos de uma figa, órfãos de Franco e de Santiago Barnabéu, já nos arruinou com a Invencível Armada, disse que Camões era o Príncipe dos Poetas de Espanha, precisou dos legionários dos Viriatos para ganhar a guerra civil, disse e diz que as gaijas deles são melhores que as nossas quando não passam de umas badalhocas disfarçadas com litros de água de colónia ordinária.
Essa espanholada tomou conta da banca que já foi do povo e portanto nossa, está metida na EDP e noutras que tais, tomou conta dos melhores prédios de Lisboa, enfia as nossas adolescentes remediadas na Zara enquanto as mães passeiam no Corte Inglês.
Essa espanholada tomou conta do comércio das sanitas e dos lavatórios, mais das portas, dos mosaicos, das mobílias e das fechaduras, enquanto, selvagens, mata os toiros na arena à vista de toda a gente.
Essa espanholada transformou o Figo, que era um rapaz honesto da Cova da Piedade, num pesetero, não deixa o Quaresma jogar porque é cigano, gosta mas não bebe Super Bock quando sabe que é uma cerveja portuguesa.
Essa espanholada acelerou na modernização, na produtividade, na competitividade, no aproveitamento dos fundos comunitários, apenas e só para nos deixar na cauda da Europa.
Essa espanholada tem os charutos e o combustível mais baratos só para nos humilharem de inveja.
Essa espanholada, vai pagar tudo que nos fez e faz com língua de palmo. Vai levar uma cabazada e ... devolver Olivença. A nossa querida Olivença, ai Olivença, a quem assassinaram o nome, chamando-a de Olivenza. Olivença, ai Olivença, terra de população aprisionada que geme e apela para voltar a ser portuguesa. E, como se tanto não bastasse, meteram os serviços secretos da espanholada a organizar o Grupo dos Amigos de Olivença para os termos de aturar nas suas lamúrias de saudade patriótica.
A espanholada, essa espanholada, vai pagar tudo que nos fez e faz. Noventa minutos chegam. Nem que tenhamos que transformar a bola num quadrado aljubarrotiano. Nem que tenhamos de apelar a uma das nossas padeiras para lhes dar pázadas, entrando no lugar do Costinha e alinhar ao lado do Petit.
De Espanha, nem bons ventos nem bom futebol. O Deco, só o Deco, esse ilustre varão português de nobres antepassados que remontam aos Cabrais, quiçá ao Beato Nuno, quiçá mesmo à nobreza da Casa das Mães de Bragança, chega e sobra para eles.
Bandeiras ao vento. Bandeiras ao léu.
PORTUGAL, PORTUGAL, PORTUGAL !
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11:30 PM
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LEITURA CRUZADA

Terminada a leitura do livro da historiadora Dalila Cabrita Mateus
(1) já aqui referido, entrou-me nas mãos um outro livro volumoso (750 pgs!) do Coronel reformado Manuel Amaro Bernardo
(2). Acabei por terminar a leitura do segundo antes de trazer para aqui a apreciação sobre o primeiro.
Aparentemente, os dois livros não se cruzam.
Os factos abordados no livro de Dalila Mateus terminam quando começam os que são tratados no livro do Coronel reformado.
Dalila Mateus concentra-se nas actividades da Pide/DGS nas antigas colónias. O Coronel, abordando a descolonização, transborda para o campo da revolução e da contra-revolução, sobretudo em termos das movimentações golpistas dos militares de direita até ao 25 de Novembro de 1975.
Enquanto o livro sobre a Pide/DGS é obra de historiadora que usa as ferramentas e a metodologia do ofício (foi adaptado de uma tese de doutoramento), o Coronel utiliza os seus conhecimentos, amizades e cumplicidades (ele próprio navegou nas águas da contra-revolução), para construir uma completíssima recolha de depoimentos sobretudo dos militares que se opuseram à descolonização, que lutaram contra o MFA e contra o rumo revolucionário (com alguns depoimentos esparsos de
pides, civis envolvidos no golpismo de direita e
um (!) depoimento, entre dezenas de entrevistas, de
um (!) militar do MFA).
Nota-se que a perspectiva da historiadora parte de um enfoque de “esquerda” sobre a guerra colonial, enquanto o Coronel reformado partilha com os seus depoentes a rejeição do processo de descolonização e constrói e reconstrói os conhecidos lugares comuns da visão dos militares desconsolados com o 25 de Abril, logo nesse dia ou no dia seguinte. E é aqui que, a meu ver, os livros sempre acabam por se cruzarem (simetricamente).
Dalila Mateus expõe os mecanismos de actuação da Pide/DGS em África e os meios que dispunha e que utilizava (na medida do que é possível saber-se e escapou à destruição dos arquivos). Além de demonstrar que o que se passou nas frentes das guerras coloniais foi um genocídio em “fatias” contra as populações africanas (confirmando a caracterização feita pela ONU), houve actos deste tipo cometidos pelas Forças Armadas, mas o grosso das acções de obtenção de informação, infiltrações entre os guerilheiros, atentados contra os seus líderes, tortura de prisioneiros, gestão de prisões e de campos de concentração (onde o internamento era ordenado pela própria Pide, sem julgamento e como “acto administrativo” de “fixação de residência”). Ou seja, na maior parte dos casos, as Forças Armadas passavam para a Pide a maior parte do “trabalho sujo” relativamente a militantes, simpatizantes ou suspeitos de simpatias para com as causas nacionalistas.
Esta “repartição de tarefas” assentou numa cumplicidade e complementaridade totais e absolutas. Para além de permitir que as Forças Armadas “salvaguardassem a sua imagem” de combatentes apenas guerreiros e com margem para a “psico”, o trabalho entregue à Pide ganhou em “especialização” e “eficácia” (embora, não poucas vezes, tenham havido operações conjuntas). Mais, tornou as duas organizações numa espécie de irmãs siamesas em que uma não podia viver sem a outra. As operações militares faziam-se com base nas informações da Pide, a Pide “trabalhava” os prisioneiros feitos pelas Forças Armadas.
Em termos abstratamente relativos, o tratamento dado pela Pide em África aos seus prisioneiros transforma todos os testemunhos dos martírios sofridos pelos presos antifascistas portugueses na metrópole nos tais “safanões” de que falava Salazar. Como entender então a resistência havida após o 25 de Abril, em extinguir a Pide em África, em que, sobretudo em Angola, ainda trabalharam durante muito tempo integrados na PIM (Polícia de Informação Militar)? Como entender a excelente apreciação que a maioria dos oficiais de carreira faziam sobre os méritos da Pide em África? Como entender que o Alto Comissário em Moçambique (Vitor Crespo), onde a Pide foi desmantelada mais cedo, se tenha encarregado de destruir os ficheiros da Pide? Como perceber a ausência de escrúpulos dos militares golpistas após o 25 de Abril trabalharem em estreita colaboração com ex-pides, retomando velhas cumplicidades? Finalmente, como perceber que, enquanto na metrópole, a Pide era odiada pela população, em África ela era considerada e acarinhada pelos colonos (por vezes, mais estimada que os militares que faziam a guerra)?
A resposta a estas últimas questões está na noção que os militares profissionais tinham que não haveriam condições para fazerem a guerra sem a Pide. E sabiam que a Pide “fazia bem” o papel que lhe estava atribuído (a maioria dos guerrilheiros reconhece isso, sendo uma das raras excepções a prosápia estúpida do senil Marcelino dos Santos da Frelimo que afirmou que “a Pide não sabia nada”).
Compreende-se assim que, na descolonização, a Pide continuasse viva e bem viva nas ainda colónias. Ou pela integração no PIM, ou, clandestinamente, a ajudar a “resistência branca”, transbordando depois para o combate ao MPLA e na criação da Renamo.
Parte dos oficiais de carreira profissionalizados na guerra colonial (muitos deles com três comissões feitas) deram a “volta política”, alinharam na descolonização e seguiram o paradigma político do MFA. Mas um número significativo de oficiais de média e alta patente (a partir de Major na altura do 25 de Abril) foram incapazes de digerir a descolonização e entenderem o papel da Pide como alicerce do regime. O livro do Coronel Manuel Bernado, no essencial, é um retrato exaustivo e completíssimo deste segundo grupo (em que a maioria ocupa, de há anos a esta parte, os lugares de generalato e as hierarquias das Forças Armadas). Esse é um dos seus interesses. Daí a razão porque julgo que os dois livros se complementam e ajudam a entender um e outro.
Não foram as Forças Armadas (só por si) que fizeram as guerras nas colónias. A Pide (só por si) tão pouco. Foi uma e outra. Foi o regime salazarista-marcelista. Quando o regime caiu, o colonialismo caiu e a descolonização só podia ter como ponto de partida o ponto de chegada do colonialismo português. O “depois” podia (devia) ter sido diferente e melhor. Mas o “depois” que houve partiu do “antes” herdado. Muitos militares da época não o entendem porque não o conseguem entender. À força de justificarem os anos de profissão naquelas guerras, perderam essa capacidade. Assim se entende que um oficial depoente do livro do Coronel Manuel Bernardo diga, candidamente, que o “crime dos pides” foi terem sido “bons funcionários públicos”.
(1) - “A Pide/DGS na Guerra Colonial – 1961-1974”, Dalila Cabrita Mateus, Ed Terramar
(2) - “Memórias da Revolução – 1974/1975”, Manuel Amaro Bernardo, Ed Prefácio
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02:23 AM
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junho 17, 2004
QUAL CRISE ?

Vale a pena ler
aqui uma notícia com o título
”Número de milionários cresce mais em Portugal do que na Europa”.Ora bem. Aqui está a explicação sociológica para a derrota da Coligação de Direita, o PND ficar atrás do PCTP/MRPP e o Miguel Portas ir entrar no Parlamento Europeu.
Está na hora de retomar o slogan (cada vez mais actual):
Os Milionários que paguem a crise!
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02:04 AM
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junho 16, 2004
UMA CAUSA EM FESTA

Li este simpático convite no
Causa Nossa:
"A festa do solstício"
E se, por uma noite, a blogosfera deixasse de ser virtual?
Vai acontecer no dia 22, terça-feira, pelas 21h, no LUX, em Lisboa, a pretexto da celebração (devidamente atrasada) do primeiro semestre do Causa Nossa. Os nossos amigos, os demais bloggers e os leitores do Causa Nossa são bem-vindos, acompanhados de posts, ideias para blogues e um link para o divertimento. Vai haver "stand-up comedy", copos, prémios para a blogolândia e para a sociedade. Desta vez, o Causa Nossa não será apenas nosso.
Pormenores nos próximos dias.Acho a ideia interessante, tanto mais que sou apreciador do
Causa Nossa, embora (ou por causa) frequentemente discorde dos seus posts. Tenciono ir, se a minha agenda mo permitir. E se, na social festa, for permitida a entrada a republicanos. Não sei é como arrastar comigo os links e os posts… Em vez destes ciber-artefactos que tão mal domino, não me permitem a entrada apenas com aquilo que é a minha especialidade (um par de botas)?
A imaginação ao poder, como se dizia nos velhos tempos.
Vá ou não vá, aqui fica a publicidade e o desejo de bom convívio.
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06:15 PM
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A ÁRVORE DO ALEX

Estou chateado com o
Alex. Não pela qualidade do seu blogue que é excelente e refrescante e até consta do meu quadro de honra.
Mas acontece que o
Alex publicou esta foto roubada de uma árvore africana (diz ele), e pede conselhos aos blogueiros africanistas para a identificarem.
Ora, eu não sou africanista mas andei por África o tempo suficiente para conhecer devida e botanicamente a árvore que tanto impressionou o
Alex. Aliás, julgo que não é preciso conhecer África para conhecer esta árvore. E gostar dela, evidentemente. Por isso, só por isso, é que eu estou chateado com o amigo
Alex que resolveu deixar-me fora da consulta aos especialistas.
De qualquer modo, o amuo é ligeiro e já passa. Então cá vai a solução:
É UM INBUNDEIRO.
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05:45 PM
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UM ABRAÇO PARA O VICKTOR

Com as negaças do Sapo em me deixar blogoteclar, gorou-se ter aqui festejado, no dia devido, o aniversário do meu estimado amigo e companheiro Vicktor.
Agora que a coisa se vai recompondo (ainda com muitos tremeliques), recupero a dívida de amizade e aqui vai, pedindo desculpa pelo atraso, para o Vicktor, um grande abraço de parabéns, por mais um ano a somar numa vida cheia de solidariedade com os outros e em olhares de ternura estética sobre as pessoas e as coisas. Sempre o conheci assim, muitos anos a fio, na empresa onde ambos labutámos (e lutámos). Continuo a vê-lo e a senti-lo da mesma forma aqui na blogosfera.
A Oficina do Vicktor é um regalo para a vista e para o sentir. Um autêntico banho que um Artista se dispôs a dar-nos para termos vontade de sermos melhores, estando melhor. Entre os seus múltiplos talentos, eu distingo a sua arte de excelente fotógrafo e, vai daí, achei que nada melhor que acompanhar o abraço que lhe mando com aquela que, entre as suas fotos publicadas, é a minha preferida. A velhota lá está, esperando benignamente que a vida se consagre. Há um poço que sugere uma fonte de vida. Mas realça, sobretudo, o olhar terno do fotógrafo que, só ele, pode transmutar o modelo.
E não se pense que defendo ou julgo que os amigos não têm defeitos nem pecados. Não é o caso porque eu seria incapaz de fazer amizade com alguém que tivesse a falta de sal de um santo. E, que ele me desculpe a inconfidência, mas um dos principais defeitos que encontro no Vicktor é ele (com a cumplicidade de outros “bons malandros”) ter-me arrastado aqui para a blogosfera, vício terrível de que ainda não me consegui livrar. Nem com a ajuda das embirrações do malfadado sapo…
Aquele abraço, caro Vicktor. E ... muitos e bons.
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05:15 PM
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POR SÃO BARNABÉ

Muito se aprende com o
Daniel Oliveira. Já acontecia antes, agora então é o máximo, inchado que ele está (e muito merecidamente) com o sucesso eleitoral do seu Bloco. E ainda a procissão vai no adro.
Num post sobre a justeza do regresso do deputado Paulo Pedroso à cadeira parlamentar,
Daniel Oliveira faz estas afirmações rotundas:
“1. Pedroso foi eleito.
2. Pedroso, desde que o tribunal não o pronunciou, já não é presumível inocente. É inocente.”
Faltou o terceiro ponto. Aquele em que se devia afirmar que a apresentação de um recurso (ainda não apreciado) sobre a despronúncia do famoso arguido não aquece nem arrefece. É acto presumivelmente nulo de significado e de sentido. Portanto, dispensável. Quer dizer, quando agrada, a justiça só funciona com uma mudança: a primeira instância.
Isto aprendi agora. Porque antes de ler o
Daniel Oliveira, eu pensava que:
1) Enquanto um processo não é dado como julgado, um arguido não é culpado nem inocente. Continua como arguido, com direito à presunção de inocência.
2) Politicamente, embora seja um eleito até ao fim da legislatura, o regresso à ribalta da política portuguesa de Paulo Pedroso não ajuda nada o PS e muito menos o combate político de oposição à Coligação de Direita.
Estamos sempre a aprender. Resta saber, politicamente, qual a táctica que está por trás da aposta no reforço da dupla Ferro/Pedroso. Logo agora que a Coligação de Direita está de rastos. O PS e o Bloco lá saberão das suas prioridades e projectos.
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04:41 PM
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FORÇA JPP !

Venho de saber que José Pacheco Pereira vai ocupar um lustroso lugar na Unesco. Por mim, tudo bem. Tem estatuto para isso. Antes o lugar ser para ele que para o palerma que é dirigente da JP e de que não lembro o nome.
Há dias, sobre a morte de Lino de Carvalho, JPP recordava um episódio, ocorrido em 1973 durante o Congresso de Oposição Democrática em Aveiro, em que ele levou um murro do deputado comunista e tentou dar-lhe com uma cadeira. Em assinalável fair-play, JPP confessou que, nessa luta, foi mais inábil que o seu opositor pelo que terá levado mas não dado. Essa nota de memória incomodou várias pessoas. A mim, não. Preferi essa nota memorial de verdade da vida do que a aplicação mecânica do princípio: “um homem morto foi, só e sempre, um homem bom”. Porque entendo que a melhor homenagem que se pode prestar a um morto é recordá-lo como era enquanto vivo. Caso contrário, é ofender o morto, dizendo que ele, quando vivo, esteve sempre morto.
Por sinal, estive no mesmo Congresso em que a cena terá ocorrido. Não assisti a ela e não conhecia antes, nem conheci ali, qualquer dos contendores. Por isso, não posso testemunhar sobre os brios e méritos dos lutadores. Chega-me saber que, no dia seguinte, estava, eu e eles, no mesmo bando, a apanhar porrada da Pide e da “polícia de choque”, exigindo o fim da guerra colonial e democracia e liberdade.
Mas, agora, estou preocupado. É que JPP, se era inábil a manejar cadeiras quando jovem, como vai ele conviver com o seu colega Falcone? Esse mesmo, o representante de Eduardo dos Santos na Unesco (estimo o suficiente Angola e os angolanos, para não dizer que Falcone representa Angola). Se Falcone é um emérito negociante de armas, incluindo armas pesadas, como é que o JPP se vai amanhar se nem uma cadeira sabe atirar? Treine-se, JPP, treine-se. É conselho amigo de quem não o estima pela sua retórica contorcionista mas muito o aprecia pela sua aparelhagem intelectual. Cá estarei para ver. Entretanto, acredite, torço por si.
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03:50 PM
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BLOGODÁDIVAS

O
Miguel assinalou e comemorou a sua discordância comigo e com o
Evaristo. O motivo foi a leitura dos resultados do PS nas últimas eleições e as ilações sobre a solidez e continuidade da liderança do actual Secretário Geral do PS, bem como dos benefícios que aquele partido e a
oposição (!) retiram da sua continuidade como líder partidário. Fê-lo através de um post oportunamente intitulado
”Porque a pluralidade é uma dádiva”. É mesmo, caro
Miguel. Aqui, estamos 100% de acordo. A blogosfera deve ser isto ou, caso contrário, seria uma versão “futebolesa” da velha política. E para isso, não valia a pena existir. Porque seria “mais do mesmo”.
Estes dois sinais - concordância com o
Evaristo e discordância com o
Miguel - têm para mim a enormíssima vantagem de ser poupado em palavras para falar sobre umas eleições em que “ganhei” (mal sabendo que afinal estive a votar para “o reforço da liderança de Ferro Rodrigues” e o “regresso de Paulo Pedroso”) mas com paladar a pouco ou quase nada, exactamente por aquilo que se sabe sobre as ilações e rumos do “grande vencedor”.
E continuando nas
boleias, o meu estado de espírito desconsolado está reflectido, sem tirar nem pôr, no post do
João Abel intitulado
"Um estado de alma...amargo”.
Mais
dádivas, por favor. Precisam-se.
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02:04 PM
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junho 15, 2004
TOTALMENTE DE ACORDO ...

... com o
Evaristo naquilo que diz no seu post
Ainda sobre o "day after" das europeias.
A política não pode (não deve) reduzir-se a um ritual de celebração entre camaradinhas de consonâncias contentinhas que se esgotem em rituais partidários de cumplicidades. O que é válido para quem perde e para quem ganha eleições. Se um partido se transforma num grupo de amigos cúmplices, onde mora o sentido do serviço da causa pública?
Na raridade do politicamente incorrecto, o
Evaristo marcou pontos. O meu aplauso.
Posted by joao.tunes at
09:47 PM
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BLOGOSAPADAS, UMA ENTREVISTA E UMA "LISTA NEGRA"

Há coisas que nós pensamos que não lembram a um
sapo.
(Também não é grande gosto ter um
sapo como servidor. Porque, está-se mesmo a ver, é bicho mais de saltar pocinhas que de cibernética.)
Premonição? Adivinhação? Sinalética? Talvez apenas lucidez. Ou mesmo conselho amigo.
Tardou nada eu estar aqui dando conta da saturação com o blogue e o
sapo resolveu meter travão às quatro patas. Primeiro, cortou acesso ao
blogs.sapo, limpou acesso aos comentários e depois, não satisfeito com o aviso ou a brincadeira, varreu os posts de uma sapada. Agora está em para-arranca. Umas vezes dá, outras corta-me o pio, volta e meia apaga-me. E a paciência, cada vez com mais falhas, vai-se esgotando. Vamos ver se consigo engolir este
sapo ou se o mando àquela parte e vou pregar para outra freguesia.
Aproveito para agradecer a todos os estimados amigos e blogoconviventes que manifestaram pesar e preocupação pelo sucedido, me deram ânimo e ajudaram a ter pachorra para aturar este servidor da treta que tão mal trata os seus hóspedes. A blogosfera também é isto. Apesar de chato e com mau feitio, acusado volta e meia de falta de elegância, estando a ser mais bota abaixo que bota acima, ainda arranjei por aqui companheiros e amigos que não dispensam cá vir beber um copo e entreter companhia. Muito obrigado a todos.
No entretanto, o meu amigo
João Carvalho Fernandes que falhou por uma unha negra a eleição para o Parlamento Europeu, apesar de ter feito parte da lista do Partido que mais cresceu relativamente a todas as anteriores eleições (passou de 0 para 34.000 votos) , concedeu uma entrevista ao seu camarada e amigo
Jorge Ferreira que também "toma partido" aqui na blogosfera. Lá, o
JCF conta a sua experiência a gerir essa instituição chamada
Fumaças e, amigo de todos os seus amigos, brinda-me com uma distinção classificativa que me encheu de vergonha e orgulho. E como o
JCF gosta de dar uma no cravo e outra na ferradura, anda por aí a gozar-me que nem um perdido por me ver metido na
"lista negra dos homofóbicos" num site da
Opus Gay! (já me chamaram tanta coisa que esta não aquece nem arrefece na colecção...). Abraço caro João.
Vamos lá ver como vai ser a minha blogovida com o
sapo. O melhor que posso garantir é
até à próxima. Se houver
próxima. Mas ainda vou tentar.
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03:42 PM
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junho 14, 2004
SOBRE UM COMENTÁRIO

Sobre um post que dediquei à actuação da Pide em Moçambique e à figura tenebrosa de um torturador africano conhecido como “Chico Feio” (transcrevendo parte de um livro da historiadora Dalila Mateus), o
Orlando comentou:
“Para contrabalançar as coisas, e com 16 anos de idade, levei uma sova de agentes da FRELIMO; com 4 costelas partidas, uma fractura exposta da tíbia, foi exactamente o Albino Magaia (que conheço muito bem e pessoalmente - foi Chefe de Redacção da revista Tempo, onde eu fazia um "part-time" de 2 horas por dia como Revisor de Imprensa) que me safou. A violência não tem só um lado!”
Concordo inteiramente com a frase de fecho do comentário. De facto, a violência está em (quase) todo o lado. Quanto à forma como Frelimo, MPLA e PAIGC exerceram e exercem o poder, por estas bandas o teclado não lhes tem sido nada meigo. Portanto, não enfio a carapuça da parcialidade que julgo não ter sido o objectivo do comentário do
Orlando.
Mas cada coisa no seu lugar e no seu tempo. Assim como as violências da Frelimo não se justificam pelas violências que sofreram do colonialismo e das intervenções dos racistas da África do Sul e da Rodésia, o inverso é igualmente verdadeiro. Embora, os encadeados históricos dos actos violentos tenham sempre uma sequência, mesmo fora do mecanicismo justificativo da causa-efeito. Pode-se sempre dizer que era desejável outra descolonização do que aquela que ocorreu. Mas o facto insofismável, a meu ver, é que foi o “colonialismo português”, pela incapacidade (ou impossibilidade) política de preparar a descolonização, pela forma violenta (pela guerra, pela repressão e pelo genocídio) como respondeu ao independentismo e procurou perpetuar a “supremacia branca”, que criou o caldo em que assentou a “nossa descolonização”. E, no campo das probabilidades, face ao contexto, à herança e às circunstâncias, se calhar até não nos podemos queixar muito.
A meu ver, o livro de Dalila Mateus (a ele voltarei, agora que terminei a sua leitura), ajuda a derrubar alguns dos mitos difundidos pelos saudosistas do Império e da “honorabilidade” das Forças Armadas na guerra colonial. E entender o que foi a colonização e a forma como as guerras coloniais foram levadas a cabo, é um primeiro passo necessário para se falar sobre a descolonização. E oportuno quando tanto se fala dos “crimes da descolonização”. E a história é para ser feita. Venha ela.
O
Orlando fala de actos violentos que terá sofrido por parte da Frelimo na pós-independência. Acredito. Embora a descrição seja curta e nada elucidativa sobre as circunstâncias e motivos. Assim, só posso limitar-me a lamentar o sucedido. Mas, pela parte que me toca e por aquilo que conheço de Moçambique independente, não me custa nada a acreditar piamente que tenha havido, neste caso, violência gratuita, inadmissível e condenável. Pior, muito pior que isso, foram (e são?) vítimas muitos milhares de moçambicanos. Mas, nada do que o
Orlando possa ter sofrido (e outros sofreram), retira uma linha da minha condenação das atrocidades cometidas pelo colonialismo, pelas Forças Armadas e pela Pide em África.
Nota: A bandeira que ilustra este post teve curta utilização e nunca foi oficializada. Foi concebida e utilizada pelo grupo de colonos brancos de Moçambique que, em desespero, tentaram um golpe para uma "independência rodesiana" daquela antiga colónia, evitando a "independência frelimista". Como se verifica, a bandeira "pirata" junta os símbolos portugueses com os então usados na afirmação da soberania colonial sobre Moçambique. Nos poucos dias em que foi usada, pode dizer-se que não passou da bandeira da ilusão de que se consegue parar a História.
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12:22 PM
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REGRESSO

Informo aqueles que estavam a sentir a falta da minha companhia (com conhecimento a todos os outros que pensavam já se terem visto livres cá da Bota):
1) Não desapareci nem imigrei, apenas estive refugiado durante uns dias para desopilar e em cura de desintoxicação da Internet.
2) Talvez ainda não seja desta que suicido o blogue. Já faltou mais. Ainda deve dar para um pouco mais.
3) Recebi com enorme pesar a notícia do desaparecimento de Lino de Carvalho. Já aqui tinha dito que era o último dos parlamentares com brilho da bancada do PCP. Agora, o deserto avançou savana dentro.
4) Votei. Claro que gostei dos resultados eleitorais. Mais uma vez, “ganhei” umas eleições. Mas não festejei. Constatei. Ora, antes isto que o contrário.
5) Com os gregos, mais uma vez se provou que o futebol é jogado entre duas
equipas. Portugal perdeu o primeiro jogo por falta de comparência.
6) Não tenho bandeira republicana na janela nem no automóvel. Porquê? Não sei. Mas deve haver um motivo. Estarei a ficar esquerdista-monárquico? Vou pensar nisso. Entretanto, ela fica a morar aqui.
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01:04 AM
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junho 09, 2004
UM HIPONARCISO TÃO DOENTE QUE JÁ NÃO SABE ONDE MORA A DECÊNCIA
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Neste
blogue:
“Sento-me no sofá, bebo um café. Preparo a defecação matinal que se quer abundante e purgativa. Chegam-me ecos do país distante: uma peixeirada, um político morto, o disfuncionalismo nacional a preparar a ponte...O costume. Um país isto? Não, um exército de madraços à espera do seu dia D, para avançar. E eu aqui doente e incapacitado. Vem aí um peido, levanto um pouco a perna para o deixar voar em liberdade...”
Os meus pedidos de desculpa por, antes, lhe ter achado graça e aqui o ter dito.
Adenda:Pronto, o hipocondríaco está desculpado. Foi internado e o post que motivou o meu desagrado desapareceu da blogosfera (o doente deve tê-lo levado para a Clínica). Do blogue, resta uma "declaração médica" (em que se acredita embora não esteja autenticada):
"Sexta-feira, Junho 11, 2004
COMUNICADO
Venho por este meio comunicar que o Sr. João Mendes Cruz, desempregado, portador do BI nº 145556843, filho de João Aparecido da Cruz e Lucília Maria Ferreira Mendes Cruz, com residência à Rua Ferreira Borges, Campo de Ourique, deu hoje entrada numa clínica psiquiátrica em profundo estado de delírio hipocondríaco. Aí deverá permanecer em repouso por tempo indeterminado. Por essa razão, este espaço será definitivamente encerrado. A pedido dos seus familiares mais próximos, aproveitamos ainda para expressar o nosso sincero pedido de desculpas a todos aqueles a quem o paciente tenha ofendido ou tratado com menor elevação.
Dr. L. V. S.
(assinatura ilegível)"Atendendo às circunstâncias, julgo que o delírio doentio reprovado teve razões meramente patológicas. Para o doente, os meus desejos sinceros de boas melhoras.
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03:36 PM
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CHICO FEIO
(um moçambicano já falecido)

"Em Angola, os torturadores de presos, como estes próprios fizeram questão de sublinhar, eram todos brancos. Não aconteceu assim em Moçambique, onde os responsáveis pelos interrogatórios encontraram negros capazes de fazer o
trabalho sujo."
"Um dos nomes que ressalta dos relatos de presos é o de Francisco Langa. Guarda prisional, com um metro e noventa e cinco de altura e mais de cem quilos de peso, era o
torturador oficial da PIDE. Das oito horas da manhã até ao meio dia, Chico Feio batia sem se cansar. Transpirava, mas batia sempre e com a mesma intensidade. Começava nas dez palmatoadas e podia ir até às cem ou até mais, tudo dependia dos humores de
Chico Feio, dos inspectores que comandavam as investigações e dos agentes. E dependia, também, do facto de o preso, ao receber as palmatoadas, chorar muito ou pouco."
"
Se chorasses pouco e tivesses coragem para aguentar, aí apanhavas até chorares de verdade, conta Albino Magaia. Este jornalista moçambicano, antigo preso político, conta como era um interrogatório feito com a ajuda de Langa:"
"Agente -
Ó Chico toma conta deste terrorista da FRELIMO."
"Chico -
Pronto meu agente (dirigindo-se ao preso).
Tu levanta-te, põe-te em sentido e dá-me as mãozinhas. Eu disse em sentido! Abres as pernas como se estivesses no Scala, heim? Estica essa mão, meu amigo. Se não esticas, vou-te aleijar. Assim mesmo. Estás a ver? Isto é só para começar. Mas tu vais ser bom, não vais? Meu filho, és tão novo e já não tens juízo."
"Preso -
Ai, minha mãe!"
"Agente -
Chega-lhe Chico. Faz o gajo chorar em landim. "
"Chico (redobrando de esforços e insultos) -
Isto é só para começar, meu agente. (E dirigindo-se ao preso)
Quando chegar a FRELIMO vocês vão-me matar, não é? Antes da FRELIMO chegar, eu vou-te matar a ti, mas é. (Bate indiscriminadamente no corpo do preso. Martela. Pontapeia. Dá cabeçadas.)"
"Preso -
Yô mamanô! Yowê! Yoweê!"
"Agente -
Pronto, Chico. Agora já está. Estes tipos quando choram em português, não estão a sentir nada. “Mamanô” já está bem…"
"E mais adiante:"
"Agente -
Cuidado Chico, que esse gajo morre."
"Chico -
Era menos um, meu agente. Já não nos dava mais trabalho."
"Francisco Langa acabaria morto pela população, após o 25 de Abril."
"James Filipe Guambo, que estudou na África do Sul onde pertenceu à juventude do ANC, procura as ossadas de seu irmão, Ebenizário Filipe Guambo, sociólogo e vice-presidente do Centro Associativo dos Negros de Moçambique, que consta ter sido assassinado com torturas por Chico Langa, e não sabe onde foi sepultado. E comenta:"
"O Chico Feio
quando foi do 7 de Novembro e saiu de Machava, onde estava preso, pensou que voltara tudo ao antigamente, que voltava ao poder. Acabou morto pela população. Se esse indivíduo tivesse ficado vivo, muita coisa se poderia saber. A população não ajudou a fazer História."
(do livro
A Pide/DGS na Guerra Colonial – 1961-1974, Dalila Cabrita Mateus, Ed. Terramar)
Adenda:Uma visitante e comentadora (a Teresa) refere a dúvida sobre a data da libertação dos pides presos em Moçambique (incluindo o Chico Feio). De facto, a Teresa terá toda a razão:
7 de Setembro de 1974 e não "7 de Novembro". No entanto, é "7 de Novembro" que vem no depoimento recolhido pela historiadora. Como fiz uma transcrição, não quis mexer na data. Mas fui confirmar com outras fontes e elas dão toda a razão à Teresa. Fica agora a correcção como sublinhado de rigor que não se pode perder quando se trata de História. Os meus agradecimentos à Teresa e as minhas felicitações pela sua boa e arguta memória.
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03:14 PM
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SOUSA FRANCO

O mínimo que posso fazer em sua homenagem é apagar os posts sobre a campanha eleitoral. Porque a vida de um homem vale mais que uma mão cheia de votos. As minhas condolências.
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10:55 AM
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junho 08, 2004
UMA HISTORIADORA E UM JORNAL
Manuel Correia colocou um oportuníssimo post sobre um “incidente” ocorrido no jornal Público e que envolveu uma entrevista com a historiadora Dalila Mateus e a forma como, depois, ali se vendeu a ideia de que a académica teria exagerado (e faltado ao rigor) na sua atribuição da categoria de
genocídio à guerra colonial travada pelos portugueses em África.
Sobre o conteúdo do livro (“A PIDE/DGS na Guerra Colonial – 1961/1974)”, Ed Terramar), de que estou em fase avançada de leitura, falarei mais tarde. Mas adianto que se trata de obra baseada numa tese de doutoramento no ISCTE e, na qual, a académica obteve a máxima classificação (o orientador foi António Costa Pinto e teve Fernando Rosas como principal arguente).
A entrevista (conduzida por Isabel Braga) com Dalila Mateus, foi publicada no Público no final do mês de Abril. No contexto da “glorificação imperial” conduzida por Paulo Portas e no (in)contexto do alinhamento oficioso da orientação directorial daquele jornal com o poder da “Coligação de Direita”, a entrevista foi uma pedrada no charco e deixou entrever como o livro vai ser um escândalo porque enfrenta um “mito silencioso” em que muita gente trabalha para o alimentar (a verdadeira natureza dos comportamentos das Forças Armadas e da Pide/DGS nas guerras coloniais). Estranhei. Depois de ler a versão impressa, tentei verificar a versão on-line no site do Público. Azar, a entrevista lá vinha assinalada mas, coisas da informática, a pesquisa ia dar a uma outra notícia. Acontece. Pois acontece. Entretanto, o Provedor do Leitor do matutino fazendo-se eco de uma “carta de um leitor” faz passar a ideia de que a Doutora Dalila Mateus teria exagerado e faltado ao bom rigor com a tal classificação de “genocídio” e, assim, o tal impacto incómodo da tese foi “atenuada”. Claro que a Autora não foi ouvida nem achada, limitando-se a levar com umas “orelhas de burro”. De uma penada, passou-se um atestado de inépcia ao doutorando júri do ISCTE. E o Público terá voltado a ficar de bem com os belicistas, os saudosistas do Império e a Secretaria de Estado dos Antigos Combatentes.
Em carta à Direcção do Público, a historiadora protesta e chama a atenção para dois factos relevantes:
- Acusar um(a) historiador(a) de exagero e falta de rigor, é uma
acusação grave. Naquela profissão, é mesmo aniquiladora, tanto mais que Dalila Mateus havia, com aquela tese, obtido um doutoramento com nota máxima.
- A historiadora esclarece que a classificação de “genocídio” não foi da sua lavra mas tinha sido atribuída pelas Nações Unidas (em 1973) a actos praticados nas guerras nas antigas colónias. E aproveita para dar um esclarecedor exemplo sobre uma famosa “epidemia de cólera” ocorrida em Vila Pery (hoje, Chimoio) – Moçambique.
A carta de Dalila Mateus mereceu uma seca, discreta e sibilina “Nota do Director” em que se metem dicionários à bulha sobre o significado do termo “genocídio”… E tudo como dantes, quartel general em Abrantes.
Assim vamos de Público !
PS- Além do interessantíssimo conteúdo do livro (ou muito me engano, ou vai dar muito que falar), refira-se a excelente gravura usada para a capa, intitulada “Cela da Cadeia de Machava”, especialmente desenhada por Valente Ngwenya Malangatana.
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11:51 AM
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junho 07, 2004
SOBRE O DIA D
Vital Moreira colocou um excelente post que ajuda a colocar o necessário relativismo histórico num dos frequentes mitos com que tropeçamos. No caso, sobre o panegírico da gesta do Dia D na Normandia e que é frequentemente apresentado como uma das dívidas eternas da Europa para com os Estados Unidos. E sabemos bem que as comemorações deste ano tiveram fins precisos de propaganda: apagar a má relação de Bush com a Europa, tentar diluir, através da memória de uma “boa guerra”, a “péssima guerra” lá de Bagdad.
De facto, o Dia D foi decisivo mas teve um enquadramento noutras gestas e, sem elas, há heroificação mas não há verdade histórica. Portanto não há História. Quase todas essas outras gestas foram referidas por
VM.
Mas, contrariando um mito e uma hipervalorização unipolar,
VM, conscientemente ou sem dar por isso, acaba por apresentar uma versão velha, antinómica mas que vem das catacumbas da “guerra fria” – a versão “antifascista” e filosoviética da II GM. Porque:
a)
VM fala do “neutralismo” americano mas esquece o Pacto germano-soviético (1939-1941, mais ou menos a mesma duração da “neutralidade americana”) e as suas consequências. E, se tivermos o sentido do peso das consequências históricas, poucos factores deram tanto alento à investida nazi que a disponibilidade soviética não só em se aliar a Hitler como, na fase inicial da guerra, repartir com ele o saque da Polónia e da Europa do Norte. Depois desta vergonhosa aliança, difícil seria exigir aos Estados Unidos a adopção de uma filosofia intervencionista e militante. Assim, para sermos justos, temos de conceder que, se os Estados Unidos tiveram uma fase de “neutralidade”, outros houve que foram “colaboracionistas”.
b) A “dramática resistência da União Soviética” e a “inversão do curso da guerra na batalha de Estalinegrado” são factos da maior relevância relativamente ao conflito. Mas, os seus custos e o seu significado, devem-se, antes do mais (o seu a seu dono), às ilusões de Moscovo para com a aliança com Berlim e à forma incompetente (dramaticamente incompetente) como Estaline enfrentou os nazis no seu avanço por terras soviéticas dentro em que sobrelevam: o desprezo pelos avisos da espionagem e da Inglaterra, a decapitação dos oficiais do exército Vermelho, a inexistência de um plano de resposta à invasão pelos alemães.
c) É velha e conhecida a versão de que “a resistência nacional dos países ocupados foi sobretudo motivada pela ideia de libertação nacional em relação à ocupação alemã”. Certíssimo. Isto é, onde aconteceu. E quando aconteceu. Mas não deixa de ser um exagero, sobre uma fase de profunda estalinização do Komintern e dos PC’s, dizer que esta resistência foi “protagonizada pelas forças democráticas internas (e em especial a esquerda)”. A esta distância, sabe-se o que essas “forças democráticas internam” eram e o que fizeram onde puderam levar a “libertação” até às últimas consequências – a “democracia popular”. Ainda, goste-se ou não, a “resistência antifascista” seguiu sempre os ditames do Komintern. Basta lembrar que o PCF negociou com os ocupantes nazis durante o Pacto germano-soviético e o “maquis” desenvolveu-se apenas depois do ataque nazi à URSS. Chamar ainda hoje de “forças democráticas” a organizações que se regeram, tão somente, pelas instruções do Komintern e pelos interesses da União Soviética (independentemente da valentia demonstrada e dos seus mártires), é, no mínimo, para um democrata com provas dadas como é
VM, um anacronismo ou uma saudade de referenciais.
Retomo o que disse no início – considero que o post de
VM ajuda a equilibrar os excessos de heroificação descarnada do Dia D e daquilo que a Europa deve aos EUA na sua libertação do domínio da pata nazi. Mas, no meu entender, ele peca por ter respondido a um “excesso” com “excesso e meio”.
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11:52 PM
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UMA LIÇÃO EM MEIA HORA

O sol já estava a querer deitar-se. O Advogado foi breve e taxativo:
amanhã, às dez horas da manhã, preciso dos nomes das testemunhas. O prazo não dava outra alternativa. Tinha que ser.
Meti-me no Metro e fui apanhar o comboio a Entrecampos. Tinha pressa de chegar a casa e fazer os contactos. Aproveitaria a viagem de vinte minutos para imaginar uma lista de fraternos. Não sei como, enganei-me no comboio e fui parar a Alcântara. Tentei recuperar o tempo perdido e refazer o trajecto no menor espaço possível de tempo. Quando cheguei ao parque de estacionamento, onde tinha deixado o carro, já a noite era minha companheira. E o prazo? Pois, o prazo. E não podia indicar nomes sem ter concordâncias prévias.
Sentei-me num banco, debaixo de um candeeiro para usar a luz pública. Puxei do telemóvel e comecei. O primeiro contacto eram favas contadas. Pensei até que ia honrar a pessoa em questão. Não ia falhar. Falhou.
Voltei à estação para beber um café e recompor a confiança abalada. Bebi de pé para não perder tempo. Não soube a nada. A boca estava por demais seca para receber sabores. Mas o importante era não perder tempo. Sem perder a esperança.
Pendurei-me, outra vez, no telemóvel. Todos foram tiros em cheio. Mesmo os do fim, os que estavam no grupo dos duvidosos. Afinal a lista estava bem, só a cabeça da dita é que estava errada. Pensei: o que o advogado queria era que eu fizesse um exercício de solidariedade real. Valeu. O que eu aprendi, em meia hora, sobre as pessoas.
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01:55 PM
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junho 04, 2004
EFEMÉRIDE DO DIA

Há quinze anos, iludidos com a importabilidade da "perestroika", milhares de chineses, sobretudo jovens, sobretudo estudantes, abalaram o regime ditatorial que mais pessoas oprime em todo o mundo.
Queriam liberdade, levaram com metralha. O sangue encharcou, em grito de paradoxo, a Praça da Paz Celestial. Foi em Pequim. Na China.
Aos jovens chineses, sedentos de liberdade, deram-lhe não liberdade mas capitalismo, mais capitalismo, consumo, mais consumo. Hoje, bebem Coca Cola e comem hamburguer, usam jeans e mini-saia. Não se atrevam é a pensar ou falar o que não devem.
Confúcio aprovaria esta via capitalista para o comunismo? Talvez. Mao é que não gostaria, julgo eu. Talvez um daqueles que concordem é Durão Barroso que, em termos de maoísmo e de capitalismo, teve razão a tempo e a horas.
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04:21 PM
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AINDA SOBRE A ETA (AGORA COM A ARA METIDA AO BARULHO)

Pelos vistos, o tema é eterno e infinitas as diferentes maneiras de o ver. Pelo que só pode ter sido um assomo de argúcia aguda o que levou o
Teixeira Pinto a trazer o Almirante Voador Carrero Blanco para a boca de cena e a ETA a ele agarrado. Boa malha, portanto.
Um post que antes coloquei sobre o assunto, motivou interessantes comentários do Vicente Gil, do
Werewolf e do próprio
Teixeira Pinto.
Depois, no
Abre Latas, o assunto volta à baila em que se remata com esta frase:
“Suspeito que as acções ETA em finais dos anos 60 deveria certamente atiçar a imaginação de muitas cabeças do lado de cá da fronteira... Pergunto-me inclusive se a ARA (e muitos outros grupos) não teria surgido graças à normatividade positiva que a ETA nessa altura constituía.”
Se o tema tem assim tantas pernas para andar, vamos a isso. Ou seja, vão aqui mais umas achas para a fogueira.
1) A apreciação da acção da ETA, antes e depois do regresso da democracia a Espanha, não pode, de facto, ser a mesma. Uma coisa é um grupo nacionalista (independentemente das suas intenções e métodos) recorrer a acções violentas num quadro ditatorial e de repressão feroz a qualquer veleidade autonómica (incluindo a utilização da língua basca). Outra é a deriva violenta num quadro em que os bascos podem levar a sua autonomia até praticamente os limites que entenderem. No primeiro caso, poderá haver alguma condescendência política no seu julgamento (terrorismo ETA versus terrorismo franquista). Hoje, a continuação da actividade da ETA deve-se sobretudo a que, entre os bascos, a adesão ao programa e aos métodos da ETA é ultra-minoritário.
2) Aliás, se ainda não se realizou um referendo entre os bascos para decidir se eles querem só autonomia mas também a independência, deve-se a que ninguém se entende em que espaço e quem deveria votar no referendo. A ETA tem uma matriz etno-racista e sentido “imperial”. Para a ETA, a decisão cabe exclusivamente aos bascos de nascimento (seriam excluídos os habitantes provenientes de outras regiões de Espanha mesmo que ancestralmente instalados na região basca) e, para eles, o País Basco inclui a … Navarra (quando se sabe que a maioria dos navarros não se consideram bascos mas sim navarros e são ciosos da tradição e história do seu “Reino”). Quem visitar hoje Pamplona, depara-se com os paradoxos ao virar de cada esquina: ora se encontram “simpatizantes da ETA”, ora navarros odiando a ETA e … os bascos, saudosistas dos “réquétés”, monárquicos carlistas que detestam os Borbóns e Juan Carlos I, alunos da Universidade de Navarra por via da militância na Opus Dei. “Unem-se”, quando muito, na Semana de San Fermín, nas diárias largadas, touradas, bebedeiras e engates. Mas, mesmo aí, há sempre “folclore político” na cerimónia de abertura. Depois, sim, vem a unidade pelos toros, pelos copos e pela libido. Para tudo recomeçar na semana seguinte.
3) Uma expressão dramática da rivalidade bascos-navarros, esteve bem viva na Guerra Civil de Espanha. Enquanto os "bascos do Norte", foram das fortalezas da defesa da República como condição de sobrevivência da sua autonomia, a maioria dos navarros (através dos réquétés) afirmou-se monárquica e carlista e constituiu uma dos mais combativos e fanáticos apoios da tropa de Franco, de tal modo (que temendo o seu poderio miliciano) o Caudillo os dissolveu no Exército Nacionalista e a ala política dos réquétés foi integrada na Falange. Até ao nível da Igreja Católica, as divisões foram duríssimas – a maioria do baixo clero lutou pela autonomia basca contra Franco (os padres bascos autonómicos pagaram um enorme preço repressivo) e a Igreja Navarra (sediada em Pamplona), alinhou (tirando uma ou outra excepção em termos de repulsa para com um ou outro “excesso”) com a matança franquista.
4) A formação da ETA, como braço radical do independentismo basco, alimentado pela militância de jovens radicais, foi beber em duas inspirações confluentes: um cristianismo redentor alimentado pelo baixo clero basco ressentido com a tremenda repressão de Franco e da alta Igreja, o marxismo-leninismo(maoismo) então a empurrar muitos jovens por toda a Europa para a acção armada. Ou seja, para o tudo ou nada, matar ou morrer.
5) A ETA sofreu sempre de um distorse (e creio que é ele que impede a sua reconversão política e adaptação ao jogo democrático): os alvos são pessoas. Primeiro, foram os “inimigos do povo basco” – membros do aparelho militar e repressivo, jornalistas não simpatizantes da ETA ou dos seus métodos, empresários que resistem a pagar à ETA o “imposto revolucionário”, políticos que não se afirmam como nacionalistas. E aqui, insere-se o atentado contra Carrero Blanco. Depois, foi o terror avulso em que se incluíram as bombas em supermercados, estações de correio, etc, ou seja, terrorismo tendo a população civil indefesa como alvo. Há, nesta passagem, uma mudança que não é assim tão contraditória.
A génese é a mesma: liquidar pessoas, tentando triunfar pelo terror e pelo medo. Quando assim é, é natural que haja uma degenerescência quase inevitável entre a escolha dos alvos. Depois de se liquidar a tiro um empresário, um jornalista, um tenente-coronel, um autarca, a morte de crianças e velhos nas bombas largadas, são “acidentes”. Siga a dança (a matança). Que me lembre, a ETA nunca meteu bombas num paiol militar, numa base aérea, num quartel, numa esquadra. Triunfou sempre a primazia da justiça pistoleira, mesmo quando exercida através da bomba (sobretudo em carros armadilhados).
6) Não é justa (nem minimamente rigorosa) a associação entre a ETA e a ARA. O
Raimundo Narciso, numa entrevista que deu ao Bota Acima, por altura de Abril deste ano, explicou o que havia a explicar. Está nos arquivos deste blogue, é só lá ir consultar. A ARA não visava alvos humanos mas sim alvos materiais do aparelho militar e repressivo e teve sempre a preocupação de não fazer vítimas (civis ou mesmo membros do aparelho militar e repressivo). As BR, idem. A haver semelhanças de comportamentos e métodos, no caso português, só encontramos paralelo com a ETA nas FP 25. E a história dessa organização sabe-se bem o que foi e onde levou.
7) Talvez não valha a pena voltar a Carrero Blanco. Este atentado teve o mediatismo do impacto de ser o “número dois do regime” e entusiasmou pela sua proximidade com o ditador. Daí a celebridade e impacto da frase comemorativa. O problema mantem-se: a ETA, que nem de longe é estimada pela maioria do povo basco, é uma organização que começou a matar pessoas, gostou e hoje continua a matar porque gosta de matar. E matará, sempre e apenas, enquanto existir e puder. São, no meu entender, um grupo de assassinos com invocação (abusiva!) de uma causa.
Venham de lá os contra-argumentos.
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03:26 PM
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PUXAPALAVRA
Blogues morrem, blogues nascem. Dou as boas vindas ao
Puxapalavra, um blogue de João Abel de Freitas, Manuel Correia, Mário Lino e Raimundo Narciso.
Temos equipa para ajudar a animar a blogosfera. E que equipa! Mãos à obra.
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01:30 AM
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junho 03, 2004
UM AMIGO DA ONÇA E O ALMIRANTE VOADOR

O meu amigo
Teixeira Pinto resolveu oferecer-me uma prenda envenenada. Primeiro, um ganda elogio (excessivo, mas também eu sou excessivo a elogiar amigos, está desculpado). Depois (diz ele, para me espicaçar), avança com a célebre frase
Arriba Franco, mais alto que Carrero Blanco! e atira-me com o Almirante Voador para cima de mim e como mote de desafio. Raramente me furto a desafios (mal meu e defeito péssimo) e lá me desenrasquei (eu não quis foi ficar com o raio do Almirante pendurada cá por cima):
“Quanto ao Carrero Blanco, a frase também foi gritada em Lisboa (nomeadamente a acompanhar o assalto à Embaixada de Espanha). Teve força, é bem esgalhada, mas tem um factor que para mim é inibidor: a bomba que projectou Carrero às alturas foi posta pela ETA (organização que eu repudiu). Depois, o efeito foi que Carrero (um falanguista do piorio) foi substituído no cargo pelo Director da Polícia Política de Franco. E os democratas espanhóis não ganharam com o negócio. A repressão que se seguiu só fez atrasar a possibilidade de ter havido uma verdadeira roptura com o franquismo. Teria preferido Carrero Blanco (e os comparsas) sentado no banco dos reús a responder pelos crimes do franquismo. O que a ETA conseguiu foi que o pânico levasse a um "pacto de transição" em que os carreros blancos se sentaram à mesa da demo-monarquia espanhola e que, hoje e por exemplo, no governo Zapatero, o Ministro da Defesa PSOE seja um antigo dirigente da Juventude Falangista. E Franco não foi "arriba", morreu velho, de doença e na cama. Matou patriotas espanhóis até ao último suspiro de uma vida vivida a matar espanhóis e ... morreu de velhice e de doença! Cada vez me convenço mais que o terrorismo serve (só serve) os fascismos.”
Abraço, caro Amigo da Onça. E temos assunto para continuar a conversar?
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03:57 PM
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AINDA SOBRE A PENA DE MORTE

Sobre um post que coloquei sobre a “pena de morte” e que pretendeu ser uma réplica ao Mwerewolf do
Acuso, o JPT do
Ma-Scamba colocou um comentário fulminante:
“Contra a pena de morte em qualquer situação (excepto em algumas manhãs de particular mau-humor). Mas em total desacordo com a expressão "O problema é que, ao enforcarem Eichman, as vítimas israelitas ficaram iguais a Eichman": isso é a banalização do horror máximo. Nem toda a execução é genocídio. Francamente. Graduemos o mal, senão como poderá ele ser o Mal de maiúscula. E ainda totalmente contra o teor do post. Qual Saramago, há uns tempos, associar nazis e israelitas. Ele voltou atrás. Mais uma vez, graduemos o mal. Senão tudo no mesmo caldeirão nada se entende. Repito, francamente contra o teor do post.”
Não tenho a certeza de o ter entendido bem. Mas penso que percebi que ele distingue entre uma execução (acto singelo) e um genocídio (extermínio em massa), chamando a isso “graduação do mal”. Depois, acho que também entendi que o arrepia a associação entre “israelitas e nazis”.
Bem sei que é mal fadado tentar aplanar divergências expressas com tanta veemência (ou vontade dela). Mas como muito raramente apanho com opositores tão decididos e tão frontais, talvez valha a pena tentar. Que mais não seja pelo prazer diletante de tentar.
1) A distinção de penas de morte aplicadas a um sujeito isolado ou como objectivo genocida (etnia, orientação, ideologia, cor de pele, classe social, pertença) é uma distinção em termos de quantidade e de estratégia do extermínio. Mas a quantidade não altera, no meu ver, a natureza do acto. Matar é matar. Seja um indivíduo, seja uma classe, seja uma etnia. Matar um ou um milhão. Em qualquer dos casos, é infringir um “não poder” interdito por uma civilização que prezo.
2) O exercício de “não poderes” (matar, torturar, oprimir, humilhar) rebaixa a condição de quem os pratica. Se o alvo desse exercício for o pior dos pulhas humanos (e Eichman estava, efectivamente, no fim da escala), através dele, há um nivelamento e uma “igualdade”. Um carrasco transforma-se sempre em pior que a pior das suas vítimas. Tirar uma (uma que seja) vida humana é sempre um abuso de poder. Como dar uma bofetada numa criança. Ou passar uma rasteira a um coxo. Ou atropelar um peão se se poder evitar e mesmo que este esteja fora da passadeira.
3) Falei em “direita israelita”. Talvez devesse ter sido mais preciso e falado de “direita sionista”. Existe uma trágica simetria empática entre a “direita sionista” e o “anti-semitismo”. A “direita sionista” (Sharon, por exemplo) olha (e trata) os árabes e os palestinianos como os nazis olharam (e trataram) os judeus. Assim como os fundamentalistas islâmicos e os radicais palestinianos olham (e tratam) os judeus. Uns, e agora, “alimentam-se” de homens-bomba, outros imitam-nos (ou precedem-nos) com mísseis dirigidos a campos de refugiados cheios de população civil. Por isto mesmo, só acredito na solução do problema israelo-palestiniano quando, de um lado e do outro, assumirem lideranças as forças não radicais que existem em cada campo mas que desgraçadamente não são (ainda) suficientemente fortes. E o grande e trágico problema é que os radicais sionistas preferem que no campo palestiniano dominem os extremistas e vice-versa. E assim vão fechando ciclos de radicalidade que são pretexto para erupção radical no outro campo. Não vejo outra maneira de se sair daquela matança sem fim a não ser através da sua imposição pela comunidade internacional.
4) A execução de Eichman foi, antes do mais, uma exibição de força e de eficácia da Mossad. Obviamente que Eichman não devia escapar a espiar pelos seus crimes. Mas não creio que fosse esse o objectivo principal do espectáculo da prisão, sequestro, julgamento e execução de Eichman. Na minha interpretação, o que a “direita sionista” e a Mossad quiseram demonstrar, com Eichman, foi “quem se mete com os judeus, apanha”. E essa mensagem, na altura que ocorreu, obviamente que tinha destinatários bem definidos e contemporâneos – os que se opunham à existência e expansão do Estado de Israel. O enforcamento de Eichman foi uma forma simbólica de representarem o enforcamento de Arafat.
5) Andei na guerra. Não matei ninguém. Evitei que se matasse. Mas sei bem que o que “custa” é matar o “primeiro”. Passada esta fronteira, sobretudo se ela for coberta pela impunidade do pretexto da necessidade, os que se matam a seguir deixam de ser um problema de qualidade para ser apenas um problema (inferior) de quantidade. E o mais provável é que os mortos se transformem em troféus. Por isso, em termos de matar, convém nunca começar. Por isso, sou contra a pena de morte. Em qualquer circunstância. Sob qualquer pretexto. Em qualquer quantidade. E é assim que acho perigosa a ideia de graduar o mal. Porque, a meu ver, o mal é sempre Mal.
6) Não me guio por Mestres para escorar as minhas posições. Saramago não me impressiona nadinha. Raramente concordo com ele. Mais ou menos, as mesmíssimas raras vezes em que concordo com José Pacheco Pereira. E esse, como se sabe, é prior de outra freguesia. Que não a minha. Graças a Deus.
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01:51 AM
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junho 02, 2004
AOS COMENTADORES

Decidi evitar comentar os “comentários”. Não por qualquer desconsideração. Mas apenas por achar que, a maior parte das vezes, os “comentários” são “salpicos” e manifestações de estados de alma que surgem e se manifestam pela leitura fugaz de um post. Umas vezes repentinos, mas também frutos de maior cultura ou argúcia mais aparada. Umas vezes simpáticos, outras vezes ácidos, de vez em quando com simpatia neutra. A maior parte das vezes, os visitantes comentadores apenas querem sublinhar que estão bem distantes dos meus referenciais ideológicos e de olhar as pessoas e a sociedade. Vou deixá-los em paz como expressão da livre liberdade de comentar. E, se quiserem polemizar ou cruzar ideias uns com outros, façam favor, a casa é vossa.
(claro que não abdico da faculdade de manter decência numa casa que é
minha, quem aqui entrar para arrotar – não pelas ideias que defenda mas pela ligeireza com que ofende outros - vai direitinho para o olho da rua…)
Comentem à vontade. Eu agradeço o prazer da vossa companhia e os vossos contributos. Muito tenho aprendido com os meus comentadores. Quero continuar a fazê-lo.
Quando entender que o assunto merece um contra-argumento ou uma justificação, quebrarei a regra com a excepção da praxe.
Sirvam-se. Obrigado a todos.
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11:10 PM
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INÊS A CAMINHO DO PICO

Ao fundo, um dos locais mais lindos e mais sedutores que os meus olhos viram – a Ilha do Pico.
Em primeiro plano, três anos e meio cheios de vida para viver, a linda Inês, neta que faz babar um avô meu amigo e meu companheiro.
Duas belezas numa só – dia ganho!
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10:26 PM
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INTERNET ?

“A China encerrou 16 mil ciber-cafés nos últimos três meses, numa altura em que o governo leva a cabo uma campanha para reforçar os valores morais das gerações mais novas da China comunista, noticia hoje a imprensa estatal.” (notícia TSF)
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03:27 PM
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SOBRE UM LIVRO

Já aqui fiz uma ligeira referência a este livro (“Quadros de Memória”, Margarida Tengarrinha, Ed Avante). Mas o seu interesse vai muito para além das referências a Cunhal.
O que me desagrada na maior parte das obras de memórias sobre a resistência antifascista (sobretudo dos militantes comunistas) é a pobreza de revelação pessoal que sobrevive ao esforço de contenção por auto-desvalorização face ao colectivo. Porque o lógico é que, quem passa as memórias para público, se desvende na forma como sentiu, sofreu e se alegrou com a sua saga suportada em condições extremas. Na maior parte dos militantes comunistas, eles continuam a apagar-se com um tremendo pudor do Eu através de um excessivo culto ao Nós. Assim, alguma coisa se vislumbra da Luta, mas pouco se entende das pessoas que a fizeram. Desta forma, o que passa é que a luta não foi feita por pessoas descarnadas, devotadas em extremo, heróis não humanos.
Margarida Tengarrinha vai, de facto, mais longe. Não muito, mas vai. Daí o interesse deste pequeno livro. Revelador no que conta e no que cala. Perpassam e sentem-se os dramas de uma intelectual burguesinha transposta para o “exército do proletariado”. Da intelectual transformada em clandestina. Da artista plástica, usando os talentos a falsificar documentos de identidade. E da mulher a quem a PIDE lhe assassinou o companheiro e que se teve de desfazer das duas filhas como escolhos às regras conspirativas. Entendem-se também, se se ler para além do escrito, como se adquire e se cristaliza na fé dada pelo “centralismo democrático”, na obediência aos “chefes”, na negação automática de tudo que cheire a heresia. No fundo, a transformação de uma pessoas que existe e pensa numa peça de uma máquina que orienta.
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01:56 PM
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![Rivero[1].jpg](http://botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/Rivero[1].jpg)
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12:38 PM
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CONCORDO

Concordo com
ele.
Aqui está o mais importante do que se devia discutir sobre o nosso futuro (ou a nossa sobrevivência?). Nomeadamente em época de eleições para o Parlamento Europeu.
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12:33 PM
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junho 01, 2004
AI CARLYLE ...
Carlyle fora da corrida à GalpPistas para interpretação de factores que tiveram influência na decisão:
- Incremento da reacção negativa e mais radicalizada da opinião pública à intervenção americana no Iraque (agora, os "falcões" assobiam para o lado devido á incapacidade em "normalizar" a situação iraquiana, tremendo impacto da vitória de Zapatero, congestão pela divulgação da prática de torturas pelos Exército Americano).
- Denúncia valente de Francisco Louçã no Parlamento.
- Desmascaramento da natureza da Carlyle (em que parte da blogosfera deu uma importante achega) sobre as "ligações perigosas" entre poderes económico e político.
- Posição de repulsa dos Sindicatos e dos trabalhadores da Galp perante a opção Carlyle.
Conclusão: Portugal (ainda) não é uma República das Bananas.
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10:11 PM
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EFEMÉRIDE DO DIA

Hoje não é Dia Internacional da Criança? Então deixem-me recordar as crianças abusadas, incluindo as da Casa Pia.
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09:42 PM
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SOBRE A PENA DE MORTE

O estimado
mwerewolf colocou um post de efeméride sobre a execução de Eichman em Israel após o julgamento a que foi submetido este “criminoso de guerra”.
A propósito, são colocadas dúvidas e sentimentos contraditórios sobre a aplicação da pena de morte para certo tipo de crimes. Entendo as considerações feitas. Mas não posso concordar com elas. De modo algum.
Quando se defende um princípio, não se pode esperar que a estrada que leva à sua coerência, seja uma autoestrada livre de trânsito. A oposição à pena de morte parte do valor de que ninguém tem o direito a dispor (incluindo, por termo) de
qualquer vida humana. Abrir excepções, é negar o princípio. Se houvesse “boas” ou “más”, “justas” ou “injustas” aplicações do que negamos, então não se estava “contra” mas apenas a defendê-la em certas circunstâncias. E, fundamental, a justiça extrema, liquidando vidas, nivela no mesmo patamar vítimas e criminosos, criminosos e carrascos, o Mal e o Bem.
Não tenho dúvidas que a pena de morte é aplicada, talvez em 95% dos casos, em certas partes do mundo, a grandes malandros. A sociedade tem direito a retirar da sua circulação, confinando-os ao presídio, os muitos, pequenos e grandes malandros que por aí andam. Para os que são contra a pena de morte, a sociedade, no entanto, não tem o direito de por termo a vidas. Porque o Mal faz parte da Vida. E quando é que o Mal se revela? Vejamos esse ser repelente chamado Eichman. Noutras circunstâncias e contexto, Eichman poderia ter sido um respeitável inspector de finanças ou um zeloso carteiro. Claro que as circunstâncias não justificam Eichman e muito menos o absolvem dos seus crimes. O problema é que, ao enforcarem Eichman, as vítimas israelitas ficaram iguais a Eichman. Este, no meu entender, é que é o busílis de se ser ou não contra a pena de morte.
E, sabe-se, uma brecha (por pequenina que seja) nos princípios é sempre o princípio do fim dos princípios. Talvez a forma vingativa como Eichman foi enforcado, mais a complacência de quase todo o mundo para com o esmagar daquele homem transformado em percevejo, expliquem (ou ajudem a explicar) a forma fácil, mecânica, desapiedada, brutal e fascistóide como eles continuam a matar palestinianos. Porque, segundo os critérios da direita israelita, os palestinianos ou são iguais ou piores que os carrascos nazis. Para eles, são os Eichmans de hoje, toca a matar.
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02:45 PM
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SOPA COM MASSINHA DE COTOVELO

Nunca fui de grandes comezainas. Só me perco em prazeres de ingestão quando, de vez em vez, salto até à Serra do Açor e me planto no meio do pinhal. Ali, com o ar da serra a puxar por um lado, o maranho ou a chanfana a puxar por outro e as folhas minúsculas do sarpão, lá no meio, a convidarem ao pecado de gula, então meto-me em usos e abusos. Fora isso, sou mais para o lado do petisco fora de horas. Em gastronomia, prefiro a qualidade à quantidade.
Sempre me conheci assim. Ou antes, em miúdo era pior, aquilo a que se chamava um autêntico pisco.
A minha Tia Ana não se conformava com a minha falta de apetite e, vai daí, se não vais a bem então vais a mal. Sofri a mal sofrer. Levava com colheradas de óleo de fígado de bacalhau que me davam uns malditos vómitos. Punha-me pratadas de açorda que me dava frémitos de pânico perante a perspectiva de encontrar um dente de alho. A sopa era sacramental e eu detestava sopa. O bife enrolava-se, dava voltas e mais voltas e queria mais sair da boca para fora que passar ao estômago. Tens que comer, tens que comer. Era inflexível, estivesse uma ou duas horas frente ao odiado prato, não tinha licença de arredar pé até ingerir o que ela considerava a dose mínima de alimento e que, para mim, era sempre uma monstruosidade própria para alimentação de um elefante.
Fui elaborando os meus estratagemas de escapar àquela tortura. Nomeadamente, aprendi a reter nacos de carne dentro da boca, bem disfarçados entre os dentes e uma bochecha ou entre a língua e o céu da boca, representava uma dor de barriga e aliviava os malvados bocados para dentro da sanita.
Mas houve um dia, tinha os meus cinco anos, em que o desastre aconteceu. Tudo teve a ver com uma enorme tigela de sopa azeitada cheia de massinha de cotovelo. Só de olhar a malvada mistela, o estômago dava sinais de rebeldia. A sentença veio implacável: não sais daí sem comeres a sopa toda. A colher enchia-se de massinha a derramar líquido gorduroso mas a aversão era demasiado forte. Não conseguia avançar naquela luta. Os meus apelos ao fim da tortura não tinham eco de condescendência. A torturadora estava inflexível. Passava-se o tempo e o líquido, consoante ia arrefecendo, transformava-se numa lixívia repelente. Já não conseguia sequer olhar para a malvada tigela. Fui-me deslocando para a janela da marquise que dava para as traseiras. Talvez a vista dos quintais vizinhos me ajudassem a distrair daquela infinita infelicidade. Subitamente, vejo a minha carcereira distraída e vem-me a inspiração fulgurante. Sorrateiramente, entendi um braço para fora da janela e, num ápice, despejei a sopa pela janela abaixo. A minha Tia Ana encheu a cara de brilho feliz ao ver a tigela vazia que lhe estendi. Tive direito a festas na cabeça e um repenicado beijo como prémio maior. No entanto, as celebrações duraram pouco tempo. Toda a vizinhança que morava por baixo de mim desatou a tocar estridentemente na campainha da porta e a exibir roupa que tinha estado nos estendais e que apresentava manchas de sopa gordurosa e vestígios de massinha de cotovelo. A revolução da vizinhança desembocou num enorme tabefe da minha tia para que me servisse de emenda. Colocado de castigo através de recolhimento ao quarto, ri-me assim que me encontrei solitário. Antes um tabefe que uma tigela de sopa!
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01:11 PM
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CAMPANHA OU ARRUAÇA ?

Verdadeiramente lamentável a forma como a Coligação de Direita começou a sua campanha (melhor dizendo, contra-campanha). O insulto, a piada grosseira, a falta de maneiras, andam á solta atrás do porte bem do cabeça de lista. Além de governarem mal, são ordinários. Meteram-se em futebóis, estão a imitar as claques. Pois é, a incompetência não aguça o engenho.
Volto atrás. Viva o
Harpo !
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12:44 PM
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