UMA HISTORIADORA E UM JORNAL
Manuel Correia colocou um oportuníssimo post sobre um “incidente” ocorrido no jornal Público e que envolveu uma entrevista com a historiadora Dalila Mateus e a forma como, depois, ali se vendeu a ideia de que a académica teria exagerado (e faltado ao rigor) na sua atribuição da categoria de
genocídio à guerra colonial travada pelos portugueses em África.
Sobre o conteúdo do livro (“A PIDE/DGS na Guerra Colonial – 1961/1974)”, Ed Terramar), de que estou em fase avançada de leitura, falarei mais tarde. Mas adianto que se trata de obra baseada numa tese de doutoramento no ISCTE e, na qual, a académica obteve a máxima classificação (o orientador foi António Costa Pinto e teve Fernando Rosas como principal arguente).
A entrevista (conduzida por Isabel Braga) com Dalila Mateus, foi publicada no Público no final do mês de Abril. No contexto da “glorificação imperial” conduzida por Paulo Portas e no (in)contexto do alinhamento oficioso da orientação directorial daquele jornal com o poder da “Coligação de Direita”, a entrevista foi uma pedrada no charco e deixou entrever como o livro vai ser um escândalo porque enfrenta um “mito silencioso” em que muita gente trabalha para o alimentar (a verdadeira natureza dos comportamentos das Forças Armadas e da Pide/DGS nas guerras coloniais). Estranhei. Depois de ler a versão impressa, tentei verificar a versão on-line no site do Público. Azar, a entrevista lá vinha assinalada mas, coisas da informática, a pesquisa ia dar a uma outra notícia. Acontece. Pois acontece. Entretanto, o Provedor do Leitor do matutino fazendo-se eco de uma “carta de um leitor” faz passar a ideia de que a Doutora Dalila Mateus teria exagerado e faltado ao bom rigor com a tal classificação de “genocídio” e, assim, o tal impacto incómodo da tese foi “atenuada”. Claro que a Autora não foi ouvida nem achada, limitando-se a levar com umas “orelhas de burro”. De uma penada, passou-se um atestado de inépcia ao doutorando júri do ISCTE. E o Público terá voltado a ficar de bem com os belicistas, os saudosistas do Império e a Secretaria de Estado dos Antigos Combatentes.
Em carta à Direcção do Público, a historiadora protesta e chama a atenção para dois factos relevantes:
- Acusar um(a) historiador(a) de exagero e falta de rigor, é uma
acusação grave. Naquela profissão, é mesmo aniquiladora, tanto mais que Dalila Mateus havia, com aquela tese, obtido um doutoramento com nota máxima.
- A historiadora esclarece que a classificação de “genocídio” não foi da sua lavra mas tinha sido atribuída pelas Nações Unidas (em 1973) a actos praticados nas guerras nas antigas colónias. E aproveita para dar um esclarecedor exemplo sobre uma famosa “epidemia de cólera” ocorrida em Vila Pery (hoje, Chimoio) – Moçambique.
A carta de Dalila Mateus mereceu uma seca, discreta e sibilina “Nota do Director” em que se metem dicionários à bulha sobre o significado do termo “genocídio”… E tudo como dantes, quartel general em Abrantes.
Assim vamos de Público !
PS- Além do interessantíssimo conteúdo do livro (ou muito me engano, ou vai dar muito que falar), refira-se a excelente gravura usada para a capa, intitulada “Cela da Cadeia de Machava”, especialmente desenhada por Valente Ngwenya Malangatana.
Posted by joao.tunes at junho 8, 2004 11:51 AM
Também estou a ler o Livro da Dalila. Mas estou no começo. Mas numa olhadela geral pareceu-me de muito interesse. Poderemos depois de lido trocar impressões.
Fui ao lançamento. Já não via a Dalila há muito. Não sei se sabes que ela é mulher do Álvaro Mateus que julgo que conheças. Ele entrou em choque com o PCP em 1988/9.
Temos que combinar o tal almoço!
Um abraço.
Caro Raimundo, não sabia do parentesco da Dalila (nada sabia dela pessoalmente, ou não a ligava à pessoa, e ainda bem pq assim a importância que atribuo ao livro não está contaminada por cumplicidade afectiva). Claro que conheci e relativamente bem o Álvaro Mateus. E tenho dele uma memória de muita estima. Quanto ao livro da Dalila, voltarei a ele, pois claro. Temos tema para batepapo entre blogues? Óptimo. Avança data para o almoço. Abraço.