![paintings_030[1].jpg](http://botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/paintings_030[1].jpg)
Aparício funcionava com a libido a branco e preta. Assim, sim. Não havia mulher africana que o não excitasse. Quanto mais preta, melhor. Preta e catorzinha, então o céu baixava à terra. Mulher branca deixava-o indiferente, mais frio que o gelo que ele só usava para fazer barulho agitando o copo de gin. Dizia ele, com ar de entendido dogmático, “mulher clara não sabe a nada”.
(Ah, é verdade, Aparício gostava de pretas e de gin. Este, explicava ele, era o melhor remédio “natural” para prevenir o paludismo.)
Chamar-lhe Aparício é assim a modos que uma falta de respeito. Já fora Major Aparício e depois, convertido à sociedade civil, tornou-se Doutor Aparício. “Licenciado em pretas de Maputo”, foi assim que ele se me apresentou.
Foi parar a Maputo ao serviço de uma consultora, por lá ficou como director financeiro de uma empresa portuguesa. Não tenciona voltar. Não falta nos provimentos para a mulher e os filhos em Lisboa. Não falha um mês de férias com a família. Mas nos outros onze meses do ano, ninguém o arranca de Maputo. Porque “não há pretas mais bonitas que as moçambicanas”.
O director-geral da empresa onde prestei serviço, um barrigudo careca e meu patrício do Douro, uma espécie de Buda da comunidade portuguesa de Maputo, estava instalado com a mulher e a filha. Lá teria os seus esquemas mas a posição de director-geral e de patriarca, não lhe permitiam folias expostas. Na segunda semana, achou que cá o mano não podia andar para ali desabonado e disse-me solidário “Oh engenheiro, você não pode sair daqui sem provar as moçambicanas, não me convém dar nas vistas, na quinta-feira vai sair com o Doutor Aparício que não há quem o oriente melhor.”. Os constrangimentos de serviço não permitem frontalidades de negas mal-educadas e estudar o Aparício interessou-me. Aliás, nem tive de dizer sim ou não, ele tinha falado, estava falado.
O Doutor Aparício apareceu-me no Hotel Rovuma ao princípio da noite, banho tomado, escanhoado e a cheirar a água de colónia. Jeep estacionado e amabilidade a puxar para o servil. “Então vamos lá, senhor engenheiro”. Eu fui, cumprindo, como ele, ordens do director-geral.
O jantar foi bom. Levou-me a um restaurante especializado em peixe, bem perto da Embaixada de Portugal. A conversa de acompanhamento não teve qualquer graça. Porque o obcecado do Aparício, passou o tempo todo a falar das delícias da mulher negra. Eu só dizia “pois” e lá tentava travar-lhe a pedagogia, informando o homem que tinha feito serviço militar na Guiné. Às tantas, vejo que os olhos do Aparício se cravam na linda empregada adolescente que nos servia à mesa. O homem parecia ter cola nos olhos. Comeu-se o peixe, bebeu-se o vinho, sorveu-se o café, tomaram-se os digestivos (e venha outro, e venha outro) e o homem, com a língua cada vez mais solta, não se desfazia da sua obsessão – preta para cá, preta para lá. Começou a dar-me o sono e a chatice. O restaurante desertificou-se. Ficámos nós e os empregados. Às tantas, o Aparício pagou a conta, trocando contactos de mãos com a empregada que lhe ficara no goto.
Saímos. O Aparício colocou o jeep mesmo à porta do restaurante e desligou. “Aguente aí, oh engenheiro, que esta está no papo”. Eu aguentei, é claro. Àquela hora, em que Maputo se torna perigosa, como ia atravessar a cidade até ao Hotel? A moça sai, o Aparício abre o vidro e diz-lhe “Anda!”. Ela hesita, ou finge hesitar, “vou apanhar táxi para casa, estou cansada”. E o Aparício, seco e corante: “Anda!”. E a empregada do restaurante sobe dócil para o jeep. Ranger dos pneus e ala para o “Sixty” (ou nome parecido). Sem voto na matéria (eu, como o Aparício, estávamos a cumprir ordens do director-geral), entro na discoteca escura e pouco frequentada. Poucos machos e muitas rapariguinhas aparentando entre os treze e os quinze anos. Todas conhecidas da empregada do Restaurante, porque todas se tratavam pelo nome e trocavam beijinhos. O Aparício trata de toda a logística, manda vir as bebidas e um grupo das “catorzinhas” e dispara-me “escolha lá, oh engenheiro”. Achei ser tempo de dizer basta. E disse para o Aparício: “desculpe lá, oh doutor, mas acha que tenho cara de pedófilo?”. O homem abriu a boca, espantado e desorientado. Parecia que nunca tal lhe tinha acontecido. Talvez não. Digo-lhe: “deixe-se estar que eu vou de táxi”. O Doutor Aparício, a contas comigo, com as “catorzinhas” e com as ordens do Director-Geral, diz “ora essa, quem o leva sou eu”. Levou-me, sem pio de fala, olhando de soslaio. Lia-se no seu olhar o pensamento contrariado: “agora, os gajos de Lisboa mandam para aqui engenheiros gays”. Deu-me uma enorme vontade de rir. Ri-me que nem um perdido até chegar ao Rovuma. O Aparício começou a ficar assustado. Não piava nem me olhava. Estacionou o jeep sob a protecção da branca Catedral. O Aparício ainda perguntou “Está tudo bem consigo?”. Então não havia de estar. Claro que estava. Conhecia melhor Maputo depois de conhecer o Aparício. E nunca pensei que o jantar de peixe me desse para tanto riso.