Quinta-feira, 13 de Maio de 2004

CONVERSA SEM REDE

USA_1.jpg

Confesso que não entendo onde o Werewolf quer chegar com o seu post “A Rede”, onde ele diz:

“Estou convencido que com a sua cegueira política George W Bush comprou o bilhete de regresso ao Texas, infelizmente não posso dizer o mesmo em relação ao regime americano. Quando me refiro ao regime americano quero dizer, para que não restem dúvidas, o regime da casta política e do marketing, nunca o dos cidadãos. Nos EUA é mais fácil derrotar um presidente do que mudar um regime.”

Os regimes democráticos são sistemas abertos, imperfeitos e mutáveis. As suas instituições encaixam nas superestruturas sob formas de exercício do poder e do seu controlo. O perfil das instituições e a forma de fazer política e de decidir, resulta de uma síntese (não equilibrada) em que o voto, o poder (económico, político, religioso, social, etc) e a opinião pública têm o seu papel mas em que a força de decisão (mas não inamovível, esta a grande vantagem das democracias) assenta sobretudo na força de inércia dos poderes instalados. Mais (e melhor) do que isto, só numa utopia se encontra. Por isto mesmo, as democracias são, fatalmente, sistemas imperfeitos. Por isto mesmo, os sistemas totalitários são do mesmo mas menos. Não acrescentam valor à mais imperfeita das democracias, a não ser a invocação de uma “causa” ou de uma “missão”, não referendadas, que “justifiquem” a diminuição de direitos. Neste sentido, pode-se dizer que os povos de regime democrático têm as instituições que merecem, os povos sujeitos a ditaduras não merecem nada das suas instituições.

O “american way of life” explica o perfil da democracia americana. Aí está a base dos “nossos desgostos” para com o “regime americano”. Mas a América não é pensável, nos dias de hoje (nem nos próximos), fora dessa forma de vida. Que é deles e a ela têm direito. Se são mais os que não votam que aqueles que votam, se são culturalmente violentos, se gostam de andar armados e aos tiros, se amam o dinheiro acima de todas as coisas, estes factores fazem a natureza histórica da América, vem da sua colonização, prolonga-se na sua persistente característica de país de imigrantes. Cada nova vaga de imigrantes que chega aos Estados Unidos e aumenta o número de “americanos”, vai para lá, não para votar, não para tornar a sociedade mais justa, mas sim (e apenas) para ganhar dinheiro e tentar uma oportunidade de passar de muito pobre a muito rico. A persistência do “american way of life” deve-se, não tanto às “velhas famílias americanas” , mas sim às novas vagas migratórias que impõem a permanência dos traços ancestrais daquela sociedade e a torna num país de permanentes "cow-boys".

Para mim, o que é surpreendente nos Estados Unidos, não são os seus defeitos (esses estão na natureza da sociedade) mas sim as suas virtudes. Por exemplo, nunca ter havido fascismo, a opinião pública ser forte, poder-se ser anti-americano. Ainda, o extraordinário e decisivo poder do Congresso.

As comunidades de imigrantes nos Estados Unidos, em processos de auto-defesa, organizam-se em castas. Naturalmente, os grupos mais numerosos e mais fortes, têm as castas mais influentes no poder económico e no poder político. Assim acontece com judeus, irlandeses, afro-americanos, hispânicos, italianos, polacos, etc. A América é: 1º) cada um; 2º) a sua casta; 3º) Estados Unidos. E é, neste tripé aparentemente contraditório, que eles encontram a sua identidade e unidade nacionais. O resto não conta, não conhecem, não querem conhecer. Em política, são democratas ou republicanos. Ou exaurem-se em pertenças a minorias dissonantes. A prática política é uma simulação de jogo de bolsa. Porque a bolsa, ali, é tudo. Foi por causa da bolsa que se tornaram americanos.

Quanto ao marketing na política. Os Estados Unidos são a pátria do marketing, como podia ele estar ausente da política? Aqui na Europa, agora também na América Latina e em África, bem os imitamos. O problema é que os discípulos não (ainda não) ultrapassaram o mestre.

Pode-se não gostar da América porque não se gosta do “american way of life”. É o meu caso (embora Nova Iorque seja, para mim, uma cidade única e fascinante). Problema deles, excepto quando eles arrancam por aí fora (com as multinacionais ou/e com as suas armas). Mas esse é outro problema (do mesmo problema) e outra discussão. Outro tema, também interessante, é como nós, europeus - anti-americanos, claro e como não podia deixar de ser - que olhamos para os americanos como “bárbaros” (parecido com o modo como os americanos olham o mundo fora da Europa), nos cosemos e descosemos. Outra discussão, também mas interligada. Porque, gostemos ou não, tudo vai ter à América. A América é mesmo o centro do mundo. E dizemos isso mesmo quando exprimimos a nossa aversão pela América. Bem gostaríamos de outra América. Mas a América muda quando os americanos quiserem. E estes, pelos vistos, ainda não querem mudar. Melhor, vão mudando de Presidente, mas não mudam de regime. Azar nosso, força deles.
publicado por João Tunes às 14:38
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7 comentários:
De Joo a 18 de Maio de 2004 às 14:29
Que exagero, caro Teixeira Pinto. Abraço.


De Teixeira Pinto a 18 de Maio de 2004 às 00:20
Acabo (tardiamente) de ler este post que é simplesmente brilhante. Se me autorizas, assino por baixo, por dois motivos: 1) porque concordo integralmente com o que afirmas; 2) porque nunca seria capaz de o dizer de forma tão brilhante. Parabéns.


De Alex a 14 de Maio de 2004 às 15:23
Gostei muito deste post, especialmente da parte das castas!


De Werewolf a 14 de Maio de 2004 às 10:40
Isto a conversa é como as cerejas. De facto a Revolução Francesa na sua vertente pura e dura acabou em Napoleão, que o diga Beethoven, mas os ideais e os princípios que conduziram à sua génese ainda não estão alcançados na sua plenitude, ora é precisamente neste aspecto que digo, idependentemente da tragédia que gerou nalgumas situações, que ainda não está cumprida, e como ainda não está cumprida as revoluções que se lhe sucederam são ainda, e só, mais um avanço no aprofundamento da Rev. Francesa. A sede de uma espera só se estaca na torrente. Revolucionar é preciso e se há situações menos ortodoxas nas revoluções há que procurar as causas fundamentais nos que impediram a evolução mais do que nos próprios revolucionários. Veja-se a descolonização portuguesa, muitos apontam o dedo ao 25 de Abril, poucos vêm as causas do que de mal foi feito, naqueles que travaram a evolução inevitável. Por isso é que depois há excessos.


De Joo a 14 de Maio de 2004 às 00:20
Sobre a Revolução Francesa temos conversa para outro dia. Porque dela veio muito de bom e muita tragédia para as ideologias. A desmontagem do mito da Rev Francesa ainda não foi feita, apenas começada. Para já, convem não esquecer que ela acabou em (com) Napoleão. Abraço.


De Werewolf a 13 de Maio de 2004 às 17:17
João, afinal despachei-me mais rapidamente do que pensava e acabei de ler calmamente o seu artigo. Não vejo contradição entre o que afirmei e o conteúdo do seu artigo. Concordo em absoluto com o que diz. Em comentários anteriores já chegamos à conclusão que a nossa divergência assenta sobretudo no grau de cepticismo em relação à evolução do mundo, mais acentuado em mim do que em si. Mas mesmo que houvesse divergências mais profundas não viria nenhum mal ao mundo. A divergência é que faz avançar o mundo quando as partes têm interesse em ouvir-se e respeitar-se e por isso ceder para encontrar a melhor solução. A ditadura está fora de qualquer discussão porque ela mesmo não a admite, aliás diz muito bem, e cito, "(...) pode-se dizer que os povos de regime democrático têm as instituições que merecem, os povos sujeitos a ditaduras não merecem nada das suas instituições."
A reflexão que faz sobre a sociedade americana é notável, a reflexão que eu fiz é mais pretensamente filosófica, ou talvez o termo mais indicado seja utópica.
Quanto à rede que está subjacente ao meu artigo, não é tanto a rede, mas os nós, ou como diria Fernando Pessoa: "as malhas que o império tece".
Sou, de facto, muito pessimista em relação ao futuro, porque as vozes que exigem descomprometidamente mais democracia são ainda dissonantes, por enquanto a maioria dos democratas contenta-se com esta democracia formal, à qual muitas vezes falta representatividade porque se afasta do seu ideal (liberdade, igualdade e fraternidade). A grande revolução da nossa era ainda continua a ser a Revolução Francesa e enquanto aqueles três objectivos não forem alcançados continuará a sê-lo. Abraço fraterno.


De Werewolf a 13 de Maio de 2004 às 15:16
João, ainda só li as primeiras linhas do seu post, como agora tenho um assunto urgente a tratar não posso esclarecê-lo, o que farei logo que possível, lá mais para a noitinha.
Quanto ao BI, já li o seu artigo e optei por fazer o mesmo. Abraço.


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