Terça-feira, 18 de Maio de 2004

MAIS ESPANHA (2)

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Pois voltemos a Espanha e à Monarquia.

Como se sabe, a fase terminal da Monarquia Espanhola (sobretudo quando encaixou na ditadura de Primo de Rivera), falamos do início dos anos trinta do Século XX, foi muito pouco lustrosa. O Rei pôs-se ao fresco, abdicou e ficou, perante os espanhóis, com o labéu de cobardolas. Assim, a revolução republicana espanhola foi um acto indolor e chocho porque não é grande valentia ocupar o lugar de um cobarde a fugir com o rabo metido entre as pernas.

Na altura, tudo o que era tradicional em Espanha entrou em crispação desanimada. E a Espanha oprimida e revoltada achou chegada a sua hora. Havia moderados e homens notáveis no equilíbrio e a tentarem meter racionalidade nas paixões. Mas os extremos não permitiram arbitragens. A panela estava cheia e a ferver.

Entre a corrente monárquica, despontaram as duas correntes rivais: os alfonsistas e os carlistas. Timidamente e à espreita, porque os reaccionários espanhóis, através da CEDA, tinham encontrado forma de se adaptarem às lides republicanas.

Quando os militares fascistas espanhóis se levantaram, surgiu o problema da organicidade daquele fascismo militar-clerical. Quem mandava? Os alfonsinos estavam nas encolhas dos cobardes. A Falange, era a Falange (plebeia, fascismo puro, anti-monárquica). Os carlistas (sobretudo fortes em Navarra), tinham uma milícia poderosa e bem treinada – os réquétés e espreitavam a hora da desforra com a República e com o ramo dos Borbóns. Franco decidiu. Alfonsistas para o exílio (em Portugal, Cascais), os réquétés e os falangistas obrigados a viverem juntos sob o mando único do general galego, servindo de carne para canhão. O revivalismo monárquico (bipolar) manteve-se sempre à espreita. Franco conteve-os. E assim como partiu a Espanha ao meio e ao fogo da metralha e da impiedade para com os vencidos, Franco geriu a “causa monárquica” como saída do fascismo espanhol. Adiou a solução da sucessão. Castrou as veleidades carlistas. Fez penar no exílio o herdeiro alfonsino (Juan, pai de Juan Carlos), tratando-o como um cão. E conseguiu um parricídio político: apostou no puto Juan Carlos, deu-lhe educação falanguista, levando-o a aceitar e a colaborar na “morte política” do pai. Por isso, no mínimo, é que Juan Carlos é, para mim, um Rei Sacana. E esta sacanice joga bem com a tradicional cobardia borbónica. Mutatis mutandi, seria o mesmo que este Felipe das Astúrias empurrar o pai do trono e sentar-se no seu lugar.

Não existe legitimidade monárquica em Espanha. Não houve Cortes. Não existiu aclamação popular. Não houve votos nem referendo para que os espanhóis escolhessem entre monarquia e república. Juan Carlos é Rei por vontade exclusiva de Franco, a leste da vontade popular e contra as regras sucessórias em monarquia.

Todos os elogios feitos ao reinado de Juan Carlos são um insulto aos povos de Espanha. Porque assentam no seu pretenso papel em evitar que os espanhóis se dividam, se guerreiem e se separem. Quando se fala tanto do papel real, passa-se um atestado de menoridade aos espanhóis por os julgar incapazes de viverem republicanamente.

Decididamente, pelo respeito que tenho por Espanha e pelos seus povos (repito: povos), falta-me o respeito para com esta Casa Real. Tudo agravado pelo espavento de umas Bodas que são um insulto revivalista e mundano, uma concessão aos senhoritos medievos e uma ofensa aos sentimentos dos trabalhadores e carentes que bem precisados estavam de outra aplicação das verbas gastas na cerimónia.
publicado por João Tunes às 18:04
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2 comentários:
De Teresa Delagoa a 18 de Maio de 2004 às 23:34
Oh, João, olha que eu até tenho a minha simpatia pelo Buíça, mas acho que o pai do noivo até já provou que é democrata. Teve-os no sítio em 1981, não negues!!
uma, republicana


De jpt a 18 de Maio de 2004 às 21:57
muito bem dito...mas já agora, e acho que já tinha perguntado, não há notícias do vestido de noiva? é que cá em baixo ainda não houve novas, e estamos em anseios


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