Quarta-feira, 26 de Maio de 2004

FALANDO DE FARDAS

Duce-Balilla-1.jpg

De há muito que embirro com fardas. Ficou-me desde que fui (mal) fardado. Acho que a farda tira ao comum mortal a sua diferente identidade e torna-o demasiado parecido com outros tantos. E será para isso mesmo que existem e servem – transformar o indivíduo numa peça de uma instituição, ostentando a fidelidade obediente como valor.

O certo é que a maior parte dos miúdos passam por uma fase em que adoram fardas. Seja de bombeiro, de polícia ou músico de banda. Provavelmente porque os fardados lhes aparecem como adultos especialmente vocacionados para serem mais, mandarem mais, que os outros adultos. Talvez porque gostassem de ser adultos com super autoridade para escaparem à autoridade dos adultos que neles mandam.

Também tive a minha fase de adorar fardas e sonhar com o dia em que tivesse direito a uma. A minha grande oportunidade surgiu cedo, quando tinha os meus dez anos. Na altura, era obrigatório pertencer-se à Mocidade Portuguesa e logo a partir dos dez anos de idade. Todos os sábados havia instrução para-marcial (aprendi cedo a marcar passo) e mais umas tretas de actividades desportivas e lúdicas. Lá consegui que me comprassem a fardeta: calções e meias altas castanhas, camisa verde com emblema, bivaque na cabeça e cinto castanho com uma fivela branca com o enorme S metálico incrustado a simbolizar a fidelidade a Salazar. Farda nova enfiada, saí orgulhoso rua fora a entornar vaidade naquela minha novíssima qualidade de cidadão fardado. Claro que esperei e ansiei por olhares de inveja e espanto dos míseros passantes reduzidos à condição de anónimos e inferiores civis.

Vivia então no Barreiro. Numa altura em que a repressão estava na exacta medida da energia das lutas operárias por melhores condições de vida. Eu não sabia na altura, mas o Barreiro (assim como a Marinha Grande) eram vilas operárias sob ocupação militar (entregue à GNR). Na altura, não sabia nada disso, não queria saber e não entenderia se me explicassem. O que sabia é que o Barreiro era terra de fardas – uma série de bandas de musica, os bombeiros, GNRs por tudo quanto era sítio, mais as fardas de ganga do pessoal das fábricas. Havia muitas fardas e muitas tascas, onde a malta operária se entretinha com o dominó para acompanhar os copos de dois e de três, remoendo desditas, medos e lutas. E, em terra de fardas, eu tinha a minha. Que, é claro, achava mais catita que todas as outras.

Pois o meu orgulhoso e solitário desfile fardado não teve grande sucesso. Pior, foi um verdadeiro fiasco. A malta assomava às portas das tabernas, desatava a rir-se, chamava-me piolho verde e, pior, escarnecia-me nas costas com olha mais um que é da bufa. Naquela terra de fardas, não entendi porque é que a minha farda merecia aquele tratamento, bem longe dos desejados suspiros de admiração e inveja. Bom, o certo é que cheguei rapidamente à conclusão que não ganhava nada com o negócio da fardadura. Encurtei o trajecto. E respirei de alívio a desfardar-me. E disse para comigo fardas nunca mais!. Longe de suspeitar que a farda me havia de cair outra vez em cima do corpo. Verde, outra vez verde. Que, pelos vistos, é cor que não me dá sorte nem proveito. Por azar meu com as fardas, entenda-se.
publicado por João Tunes às 13:22
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2 comentários:
De Joo a 28 de Maio de 2004 às 16:55
Pequenas coisas é como quem diz. Para um puto de dez ano foi um sismo de escala alta. Abraço.


De Marco Oliveira a 27 de Maio de 2004 às 09:06
Meu cajo João, ainda bem que alguém nos conta pequenas coisas desses tempos tenebrosos. É bom que essas memórias não se apaguem, para que não se repitam os mesmos erros. Parabens pelo post!


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