Domingo, 30 de Maio de 2004

OS VERMELHOS DE CHE

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Se fosse fiel aos símbolos fixados da minha geração, através do culto aos seus mitos, aproveitando o bom tempo, provavelmente vestiria agora uma t-shirt com estampa de Che Guevara. Ou simplesmente com a sua singela estrela sinalética. Para condizer com a campanha. Dando-lhe cor, símbolo e sinal.

O mito de Che é, antes do mais, um dos fenómenos mais prodigiosos (e lucrativos) de marketing político. E clientes da iconografia do fenómeno serão, porventura, os mesmos que se revoltam contra a intromissão do marketing e do espectáculo na política.

Che continua a ter todos os ingredientes para ser um sucesso como produto. Pela formidável consistência da sua lenda e a capacidade potente de ela se confundir com uma realidade desejada e como panaceia que sublima desencantos, derrotas e recuos de amanhãs adiados.

Confundiu-se, na ideia sobre Che, várias mensagens. Ele teria sido o sumo-sacerdote da ideia romântica de revolução, o revolucionário da máxima generosidade, o homem que nada quis para si, nem sequer poder, um auto imolado no altar de todas as causas nobres pelos pobres, explorados e oprimidos. Teria andado pelo mundo, espalhando a boa nova e a boa acção, espalhando focos de revolta e entregando a sua vida como supremo sacrifício. Um novo Cristo, num tributo de santidade a que tantas vezes é associado.

Como se tantos componentes mitológicos não bastassem, Che era um homem bonito, muito bonito, espalhando um misticismo apostólico e sedutor.

Che, hoje como ontem, continua a servir a Cuba castrista. Na degenerescência da ditadura do tirano dinossauro das Caraíbas, cada vez mais caquético, mais psicótico, ainda mais tirano, Che é o atalho romântico e que absolve os desencantados com Fidel. Se diminui a chama do culto a Fidel, resta Che para alimentar a ideia da Cuba romântica e revolucionária.

No entanto, Che foi muitas coisas. Umas celebradas, outras esquecidas.

Che foi um revolucionário fixado na ideia da revolução. E morreu a lutar. Mas, Che foi também o arrogante racista que se desencantou com os guerrilheiros africanos porque achava que aquela gente (os pretos) não tinha competência para combater (leiam-se os relatos do encontro de Che com os dirigentes da Frelimo). Che foi um autoritário derrotado e um desesperado pela sua utopia quando resolve empreender aventuras e não consegue ler o alheamento e a antipatia dos camponeses bolivianos (leia-se o seu diário da guerrilha boliviana e os depoimentos de seus companheiros). Mas, pior que tudo, Che também foi um carrasco e um assassino. Uma Fortaleza, após a tomada do poder pelos barbudos, dirigida pessoalmente por Che, transformou-se num matadouro onde se torturou e assassinou, sem sombra de julgamento, muitos opositores ao novo regime ou adeptos do regime deposto. Que fossem todos gusanos, o que está para verificar. Mas, mesmo que todas as vítimas de Che fossem fascistas e criminosos, ao torturá-los e fuzilá-los sumariamente, Che tornou-se pior que eles.

O vermelho que tinge a efígie de Che e dá cor de apelo nos cartazes iconográficos, aproveitando a célebre fotografia de Korda, é vermelho de revolução e é vermelho de sangue. Escorre de uma revolução que ganhou e das muitas que perdeu. Escorre do sangue que derramou no seu martírio. Mas escorre também do sangue com que Che encharcou as mãos e a consciência. Porque sangue é sangue.
publicado por João Tunes às 00:09
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3 comentários:
De Fernando a 31 de Maio de 2004 às 04:37
Ai esta nossa tendência para endeusarmos homens que não passam disso mesmo: de homens com os defeitos e virtudes inerentes à sua condição humana. Subscrevo este brilhante post, João.


De jpt a 30 de Maio de 2004 às 19:52
é isso. bem postado


De Werewolf a 30 de Maio de 2004 às 16:22
Como é duro quando acordamos e espreitamos para lá dos nossos mitos e compreendemos, finalmente, que os nossos heróis também são os nossos algozes.
Como era bom continuar a viver à sombra do mito e acreditar na generosidade de um homem que afinal sofria das mesmas fraquezas que qualquer simples mortal.
Nem sei se estou a falar do Che ou de Cristo, ou outro qualquer herói. A fronteira entre o mito e a realidade é tão ténue que muitas vezes, senão sempre, o mito ultrapassa a própria realidade.
Obrigado por este clique meu caro João


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