Quinta-feira, 3 de Junho de 2004

UM AMIGO DA ONÇA E O ALMIRANTE VOADOR

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O meu amigo Teixeira Pinto resolveu oferecer-me uma prenda envenenada. Primeiro, um ganda elogio (excessivo, mas também eu sou excessivo a elogiar amigos, está desculpado). Depois (diz ele, para me espicaçar), avança com a célebre frase Arriba Franco, mais alto que Carrero Blanco! e atira-me com o Almirante Voador para cima de mim e como mote de desafio. Raramente me furto a desafios (mal meu e defeito péssimo) e lá me desenrasquei (eu não quis foi ficar com o raio do Almirante pendurada cá por cima):

“Quanto ao Carrero Blanco, a frase também foi gritada em Lisboa (nomeadamente a acompanhar o assalto à Embaixada de Espanha). Teve força, é bem esgalhada, mas tem um factor que para mim é inibidor: a bomba que projectou Carrero às alturas foi posta pela ETA (organização que eu repudiu). Depois, o efeito foi que Carrero (um falanguista do piorio) foi substituído no cargo pelo Director da Polícia Política de Franco. E os democratas espanhóis não ganharam com o negócio. A repressão que se seguiu só fez atrasar a possibilidade de ter havido uma verdadeira roptura com o franquismo. Teria preferido Carrero Blanco (e os comparsas) sentado no banco dos reús a responder pelos crimes do franquismo. O que a ETA conseguiu foi que o pânico levasse a um "pacto de transição" em que os carreros blancos se sentaram à mesa da demo-monarquia espanhola e que, hoje e por exemplo, no governo Zapatero, o Ministro da Defesa PSOE seja um antigo dirigente da Juventude Falangista. E Franco não foi "arriba", morreu velho, de doença e na cama. Matou patriotas espanhóis até ao último suspiro de uma vida vivida a matar espanhóis e ... morreu de velhice e de doença! Cada vez me convenço mais que o terrorismo serve (só serve) os fascismos.”

Abraço, caro Amigo da Onça. E temos assunto para continuar a conversar?
publicado por João Tunes às 15:57
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9 comentários:
De Werewolf a 5 de Junho de 2004 às 00:57
Estou como o Teixeira Pinto, pelos vistos devemos ser mais ou menos da mesma idade, Também era puto e confesso que recebi a notícia com contentamento. Era a guerra ou, se quisermos, era a continuação de guerra contra a ocupação verificada após 39. Era uma luta contra a ocupação semelhante à dos maquis franceses. Isto é só mais uma achega, logo que me seja possível, e se esta discussão não morrer por aqui, acabarei por dedicar um post ao assunto, Vou pensar mais um pouco sobre o ele.


De Vicente Gil a 4 de Junho de 2004 às 10:36
Caro João Tunes,
eu limitei-me a emitir a minha opinião sobre um assunto que me apaixona.
Quando me interroga: "Deu dois saltos? Eu dei três. E depois?", apetece-me responder-lhe que isso é irrelevante. Relevante e definitivo foi o salto do Carrero Blanco.


De Teixeira Pinto a 4 de Junho de 2004 às 02:34
Afinal o assunto é sucolento! Eu é que não tenho muito tempo para intervir, mas estou a gostar de ler. Basicamente, eu também recebi a notícia do atentadob com algum contentamento (era puto mas já raciocinava). Quanto aos métodos da ETA... bem, naquela altura a violência provavelmente até tinha legitimidade. Se a ETA tivesse renunciado ao terrorismo em "tempo útil", talvez hoje a venerássemos justamente por ter perpetrado aquele espectacular...


De Joo a 4 de Junho de 2004 às 00:51
Está bem Werewolf. História complexa essa do terrorismo e luta política. Precisa de espaço. Dê o pontapé de saída no seu blogue. Cá estaremos para ler e polemizar se for caso disso. Abraço.


De Joo a 4 de Junho de 2004 às 00:46
Caro Vicente Gil: 1) Eu disse "teria preferido" (opção de via política). Sobre os "medos" da Espanha no pré-pós-franquismo, isso é conversa longa. Ainda hoje Rei e Herdeiro, não responsabilização pelos crimes franquistas, inibição de memórias colectivas e individuais, infiltração dos falangistas nas forças que se aglutinaram no PP bem como no PSOE, não acesso aos arquivos de Franco, são heranças desse "medo". Mas o medo, como tudo na vida, há-de acabar. E quando acabar o medo, como vai ser Espanha? Não acredito que venha a ser melhor que se tivesse havido uma rotura em 1973-1975. Subjectivo? Totalmente. 2) Deu dois saltos? Eu dei três. E depois? 3) Obrigado pela informação.


De Werewolf a 3 de Junho de 2004 às 17:53
O atentado a Carrero Blanco foi um acto de guerra, não uma execussão (para abrir mais uma porta de discussão). Por isso partilho da opinião do Vicente Gil.


De Vicente Gil a 3 de Junho de 2004 às 16:49
3- A frase “Arriba Franco, mas alto que Carrero Blanco” haveria de ser pintada em letras garrafais num comboio que saiu da Estação de S. Bento, no Porto, com destino a Espanha, no dia em que o velho ditador executou a pena de morte pelo garrote, a Juan Paredes Manot, Josè Luis Sanchez Bravo, Ramon Garcia Sanz, Alonso Faena e Angel Otaegui, cinco militantes anti-franquistas e patriotas peninsulares


De Vicente Gil a 3 de Junho de 2004 às 16:47
2- Peço-vos que recuem no tempo, porque o que vou dizer é hoje tido como uma afirmação politicamente incorrecta – que se lixe: dei dois grandes saltos de contentamento quando recebi a notícia da bomba no carro do Carrero Blanco. Como eu terão reagido muitos outros.


De Vicente Gil a 3 de Junho de 2004 às 16:45
1 - Não perfilho a ideia de que se Carrero Blanco não tivesse sido morto pela ETA, teria sido julgado pela Espanha democrática, juntamente com outros criminosos franquistas.
A transição democrática foi liderada por um protegido do velho regime, Juan Carlos e por Adolfo Suarez, um homem da direita, ligado à administração do estado, que se converteu à democracia. Creio que sobre ambos terá sobretudo pairado o espectro da guerra civil, o receio de mexer no passado que poderia despertar paixões e levar à violência e, quem sabe, ao desmembramento do Estado Espanhol.


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