Sexta-feira, 4 de Junho de 2004

AINDA SOBRE A ETA (AGORA COM A ARA METIDA AO BARULHO)

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Pelos vistos, o tema é eterno e infinitas as diferentes maneiras de o ver. Pelo que só pode ter sido um assomo de argúcia aguda o que levou o Teixeira Pinto a trazer o Almirante Voador Carrero Blanco para a boca de cena e a ETA a ele agarrado. Boa malha, portanto.

Um post que antes coloquei sobre o assunto, motivou interessantes comentários do Vicente Gil, do Werewolf e do próprio Teixeira Pinto.

Depois, no Abre Latas, o assunto volta à baila em que se remata com esta frase:

“Suspeito que as acções ETA em finais dos anos 60 deveria certamente atiçar a imaginação de muitas cabeças do lado de cá da fronteira... Pergunto-me inclusive se a ARA (e muitos outros grupos) não teria surgido graças à normatividade positiva que a ETA nessa altura constituía.”

Se o tema tem assim tantas pernas para andar, vamos a isso. Ou seja, vão aqui mais umas achas para a fogueira.

1) A apreciação da acção da ETA, antes e depois do regresso da democracia a Espanha, não pode, de facto, ser a mesma. Uma coisa é um grupo nacionalista (independentemente das suas intenções e métodos) recorrer a acções violentas num quadro ditatorial e de repressão feroz a qualquer veleidade autonómica (incluindo a utilização da língua basca). Outra é a deriva violenta num quadro em que os bascos podem levar a sua autonomia até praticamente os limites que entenderem. No primeiro caso, poderá haver alguma condescendência política no seu julgamento (terrorismo ETA versus terrorismo franquista). Hoje, a continuação da actividade da ETA deve-se sobretudo a que, entre os bascos, a adesão ao programa e aos métodos da ETA é ultra-minoritário.

2) Aliás, se ainda não se realizou um referendo entre os bascos para decidir se eles querem só autonomia mas também a independência, deve-se a que ninguém se entende em que espaço e quem deveria votar no referendo. A ETA tem uma matriz etno-racista e sentido “imperial”. Para a ETA, a decisão cabe exclusivamente aos bascos de nascimento (seriam excluídos os habitantes provenientes de outras regiões de Espanha mesmo que ancestralmente instalados na região basca) e, para eles, o País Basco inclui a … Navarra (quando se sabe que a maioria dos navarros não se consideram bascos mas sim navarros e são ciosos da tradição e história do seu “Reino”). Quem visitar hoje Pamplona, depara-se com os paradoxos ao virar de cada esquina: ora se encontram “simpatizantes da ETA”, ora navarros odiando a ETA e … os bascos, saudosistas dos “réquétés”, monárquicos carlistas que detestam os Borbóns e Juan Carlos I, alunos da Universidade de Navarra por via da militância na Opus Dei. “Unem-se”, quando muito, na Semana de San Fermín, nas diárias largadas, touradas, bebedeiras e engates. Mas, mesmo aí, há sempre “folclore político” na cerimónia de abertura. Depois, sim, vem a unidade pelos toros, pelos copos e pela libido. Para tudo recomeçar na semana seguinte.

3) Uma expressão dramática da rivalidade bascos-navarros, esteve bem viva na Guerra Civil de Espanha. Enquanto os "bascos do Norte", foram das fortalezas da defesa da República como condição de sobrevivência da sua autonomia, a maioria dos navarros (através dos réquétés) afirmou-se monárquica e carlista e constituiu uma dos mais combativos e fanáticos apoios da tropa de Franco, de tal modo (que temendo o seu poderio miliciano) o Caudillo os dissolveu no Exército Nacionalista e a ala política dos réquétés foi integrada na Falange. Até ao nível da Igreja Católica, as divisões foram duríssimas – a maioria do baixo clero lutou pela autonomia basca contra Franco (os padres bascos autonómicos pagaram um enorme preço repressivo) e a Igreja Navarra (sediada em Pamplona), alinhou (tirando uma ou outra excepção em termos de repulsa para com um ou outro “excesso”) com a matança franquista.

4) A formação da ETA, como braço radical do independentismo basco, alimentado pela militância de jovens radicais, foi beber em duas inspirações confluentes: um cristianismo redentor alimentado pelo baixo clero basco ressentido com a tremenda repressão de Franco e da alta Igreja, o marxismo-leninismo(maoismo) então a empurrar muitos jovens por toda a Europa para a acção armada. Ou seja, para o tudo ou nada, matar ou morrer.

5) A ETA sofreu sempre de um distorse (e creio que é ele que impede a sua reconversão política e adaptação ao jogo democrático): os alvos são pessoas. Primeiro, foram os “inimigos do povo basco” – membros do aparelho militar e repressivo, jornalistas não simpatizantes da ETA ou dos seus métodos, empresários que resistem a pagar à ETA o “imposto revolucionário”, políticos que não se afirmam como nacionalistas. E aqui, insere-se o atentado contra Carrero Blanco. Depois, foi o terror avulso em que se incluíram as bombas em supermercados, estações de correio, etc, ou seja, terrorismo tendo a população civil indefesa como alvo. Há, nesta passagem, uma mudança que não é assim tão contraditória. A génese é a mesma: liquidar pessoas, tentando triunfar pelo terror e pelo medo. Quando assim é, é natural que haja uma degenerescência quase inevitável entre a escolha dos alvos. Depois de se liquidar a tiro um empresário, um jornalista, um tenente-coronel, um autarca, a morte de crianças e velhos nas bombas largadas, são “acidentes”. Siga a dança (a matança). Que me lembre, a ETA nunca meteu bombas num paiol militar, numa base aérea, num quartel, numa esquadra. Triunfou sempre a primazia da justiça pistoleira, mesmo quando exercida através da bomba (sobretudo em carros armadilhados).

6) Não é justa (nem minimamente rigorosa) a associação entre a ETA e a ARA. O Raimundo Narciso, numa entrevista que deu ao Bota Acima, por altura de Abril deste ano, explicou o que havia a explicar. Está nos arquivos deste blogue, é só lá ir consultar. A ARA não visava alvos humanos mas sim alvos materiais do aparelho militar e repressivo e teve sempre a preocupação de não fazer vítimas (civis ou mesmo membros do aparelho militar e repressivo). As BR, idem. A haver semelhanças de comportamentos e métodos, no caso português, só encontramos paralelo com a ETA nas FP 25. E a história dessa organização sabe-se bem o que foi e onde levou.

7) Talvez não valha a pena voltar a Carrero Blanco. Este atentado teve o mediatismo do impacto de ser o “número dois do regime” e entusiasmou pela sua proximidade com o ditador. Daí a celebridade e impacto da frase comemorativa. O problema mantem-se: a ETA, que nem de longe é estimada pela maioria do povo basco, é uma organização que começou a matar pessoas, gostou e hoje continua a matar porque gosta de matar. E matará, sempre e apenas, enquanto existir e puder. São, no meu entender, um grupo de assassinos com invocação (abusiva!) de uma causa.

Venham de lá os contra-argumentos.
publicado por João Tunes às 15:26
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3 comentários:
De GuTeK FiUtEk a 12 de Abril de 2006 às 11:19
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De Vicente Gil a 4 de Junho de 2004 às 18:03
2 – Gostaria de corrigir o ponto 3 do meu comentário ao seu texto "Um Amigo da Onça e o Almirante Voador". Ali afirmei que os militantes anti-franquistas foram mortos pelo garrote. A memória atraiçoou-me. Acontece que vim a descobrir num sítio da Amnistia Internacional o seguinte:

"Las últimas ejecuciones llevadas a cabo en España fueron las de Salvador Puig Antich y Heinz Chez, el 2 de marzo de 1974, a quienes se aplicó el garrote vil, instrumento tradicional similar a un torniquete utilizado en España para administrar la pena capital, y las de Angel Otaegui Echeverría, José Luis Sánchez-Bravo Sollas, Juan Paredes Manot, José Humberto Baena Alonso y Ramón García Sanz, miembros de los grupos armados ETA y FRAP, que fueron ejecutados el 17 de septiembre de 1975 ante un pelotón de fusilamiento."
http://web.amnesty.org/library/Index/ESLEUR410011995?open&of=ESL-ESP (http://web.amnesty.org/library/Index/ESLEUR410011995?open&of=ESL-ESP)


De Vicente Gil a 4 de Junho de 2004 às 18:01
1 - Concordo de uma maneira geral com o que diz, sobretudo quando afirma que a existência da ETA deixou de fazer sentido na Espanha democrática. Hoje a ETA não passa de um execrável grupo terrorista. Creio que um governo basco composto pela ETA imporia uma ditadura sanguinária. E os bascos sabem-no melhor do que ninguém.


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