Sexta-feira, 18 de Junho de 2004

LEITURA CRUZADA

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Terminada a leitura do livro da historiadora Dalila Cabrita Mateus (1) já aqui referido, entrou-me nas mãos um outro livro volumoso (750 pgs!) do Coronel reformado Manuel Amaro Bernardo (2). Acabei por terminar a leitura do segundo antes de trazer para aqui a apreciação sobre o primeiro.

Aparentemente, os dois livros não se cruzam.

Os factos abordados no livro de Dalila Mateus terminam quando começam os que são tratados no livro do Coronel reformado.

Dalila Mateus concentra-se nas actividades da Pide/DGS nas antigas colónias. O Coronel, abordando a descolonização, transborda para o campo da revolução e da contra-revolução, sobretudo em termos das movimentações golpistas dos militares de direita até ao 25 de Novembro de 1975.

Enquanto o livro sobre a Pide/DGS é obra de historiadora que usa as ferramentas e a metodologia do ofício (foi adaptado de uma tese de doutoramento), o Coronel utiliza os seus conhecimentos, amizades e cumplicidades (ele próprio navegou nas águas da contra-revolução), para construir uma completíssima recolha de depoimentos sobretudo dos militares que se opuseram à descolonização, que lutaram contra o MFA e contra o rumo revolucionário (com alguns depoimentos esparsos de pides, civis envolvidos no golpismo de direita e um (!) depoimento, entre dezenas de entrevistas, de um (!) militar do MFA).

Nota-se que a perspectiva da historiadora parte de um enfoque de “esquerda” sobre a guerra colonial, enquanto o Coronel reformado partilha com os seus depoentes a rejeição do processo de descolonização e constrói e reconstrói os conhecidos lugares comuns da visão dos militares desconsolados com o 25 de Abril, logo nesse dia ou no dia seguinte. E é aqui que, a meu ver, os livros sempre acabam por se cruzarem (simetricamente).

Dalila Mateus expõe os mecanismos de actuação da Pide/DGS em África e os meios que dispunha e que utilizava (na medida do que é possível saber-se e escapou à destruição dos arquivos). Além de demonstrar que o que se passou nas frentes das guerras coloniais foi um genocídio em “fatias” contra as populações africanas (confirmando a caracterização feita pela ONU), houve actos deste tipo cometidos pelas Forças Armadas, mas o grosso das acções de obtenção de informação, infiltrações entre os guerilheiros, atentados contra os seus líderes, tortura de prisioneiros, gestão de prisões e de campos de concentração (onde o internamento era ordenado pela própria Pide, sem julgamento e como “acto administrativo” de “fixação de residência”). Ou seja, na maior parte dos casos, as Forças Armadas passavam para a Pide a maior parte do “trabalho sujo” relativamente a militantes, simpatizantes ou suspeitos de simpatias para com as causas nacionalistas.

Esta “repartição de tarefas” assentou numa cumplicidade e complementaridade totais e absolutas. Para além de permitir que as Forças Armadas “salvaguardassem a sua imagem” de combatentes apenas guerreiros e com margem para a “psico”, o trabalho entregue à Pide ganhou em “especialização” e “eficácia” (embora, não poucas vezes, tenham havido operações conjuntas). Mais, tornou as duas organizações numa espécie de irmãs siamesas em que uma não podia viver sem a outra. As operações militares faziam-se com base nas informações da Pide, a Pide “trabalhava” os prisioneiros feitos pelas Forças Armadas.

Em termos abstratamente relativos, o tratamento dado pela Pide em África aos seus prisioneiros transforma todos os testemunhos dos martírios sofridos pelos presos antifascistas portugueses na metrópole nos tais “safanões” de que falava Salazar. Como entender então a resistência havida após o 25 de Abril, em extinguir a Pide em África, em que, sobretudo em Angola, ainda trabalharam durante muito tempo integrados na PIM (Polícia de Informação Militar)? Como entender a excelente apreciação que a maioria dos oficiais de carreira faziam sobre os méritos da Pide em África? Como entender que o Alto Comissário em Moçambique (Vitor Crespo), onde a Pide foi desmantelada mais cedo, se tenha encarregado de destruir os ficheiros da Pide? Como perceber a ausência de escrúpulos dos militares golpistas após o 25 de Abril trabalharem em estreita colaboração com ex-pides, retomando velhas cumplicidades? Finalmente, como perceber que, enquanto na metrópole, a Pide era odiada pela população, em África ela era considerada e acarinhada pelos colonos (por vezes, mais estimada que os militares que faziam a guerra)?

A resposta a estas últimas questões está na noção que os militares profissionais tinham que não haveriam condições para fazerem a guerra sem a Pide. E sabiam que a Pide “fazia bem” o papel que lhe estava atribuído (a maioria dos guerrilheiros reconhece isso, sendo uma das raras excepções a prosápia estúpida do senil Marcelino dos Santos da Frelimo que afirmou que “a Pide não sabia nada”).

Compreende-se assim que, na descolonização, a Pide continuasse viva e bem viva nas ainda colónias. Ou pela integração no PIM, ou, clandestinamente, a ajudar a “resistência branca”, transbordando depois para o combate ao MPLA e na criação da Renamo.

Parte dos oficiais de carreira profissionalizados na guerra colonial (muitos deles com três comissões feitas) deram a “volta política”, alinharam na descolonização e seguiram o paradigma político do MFA. Mas um número significativo de oficiais de média e alta patente (a partir de Major na altura do 25 de Abril) foram incapazes de digerir a descolonização e entenderem o papel da Pide como alicerce do regime. O livro do Coronel Manuel Bernado, no essencial, é um retrato exaustivo e completíssimo deste segundo grupo (em que a maioria ocupa, de há anos a esta parte, os lugares de generalato e as hierarquias das Forças Armadas). Esse é um dos seus interesses. Daí a razão porque julgo que os dois livros se complementam e ajudam a entender um e outro.

Não foram as Forças Armadas (só por si) que fizeram as guerras nas colónias. A Pide (só por si) tão pouco. Foi uma e outra. Foi o regime salazarista-marcelista. Quando o regime caiu, o colonialismo caiu e a descolonização só podia ter como ponto de partida o ponto de chegada do colonialismo português. O “depois” podia (devia) ter sido diferente e melhor. Mas o “depois” que houve partiu do “antes” herdado. Muitos militares da época não o entendem porque não o conseguem entender. À força de justificarem os anos de profissão naquelas guerras, perderam essa capacidade. Assim se entende que um oficial depoente do livro do Coronel Manuel Bernardo diga, candidamente, que o “crime dos pides” foi terem sido “bons funcionários públicos”.

(1) - “A Pide/DGS na Guerra Colonial – 1961-1974”, Dalila Cabrita Mateus, Ed Terramar

(2) - “Memórias da Revolução – 1974/1975”, Manuel Amaro Bernardo, Ed Prefácio
publicado por João Tunes às 02:23
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5 comentários:
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De LNT a 18 de Junho de 2004 às 11:38
Pois. Foram bons "funcionários públicos" lá e cá.
Se o sentido de que ser bom funcionário público era cumprir o juramento que tinham feito com o termo de posse. Ao menos nessa altura quem os mandava ser bons "funcionários públicos" era mais coerente do que Bush em relação ao Iraque e ao que se passou (passa?) nas cadeias de Bagdad. Sem querer aprofundar sobre a questão da responsabilidade de quem executa ordens (só era PIDE quem queria) deixo uma pista para melhor entendimento (leia-se : o que lhe ia na cabeça) do pensamento de K em http://www.cidadevirtual.pt/k-arriaga/Entrevista.html (penso que esteja transcrita no livro citado)
Em todas estas estórias hà uma coisa que nunca consegui entender (percebo, mas não entendo). Porque razão a transmissão de poderes (ou rendição, como queiram) em 25/4 se fez de Marcelo e não de Thomaz.
Abraço


De Vicente Gil a 18 de Junho de 2004 às 10:11
Estive como miliciano na Guerra Colonial em Angola, entre Agosto de 1972 e Setembro de 1974.
Não li os livros a que se refere, no entanto gostaria de lhe dizer que a análise que deles faz, bate certinha com a realidade no terreno naquela época.


De Orlando a 18 de Junho de 2004 às 03:50
Gostei do post por duas razões essenciais (outras existirão): prova-se que a problemática colonial está intima e estritamente ligada à metrópole de então e à política da ditadura, aos interesses diversos em jogo.Em segundo lugar, gostei do post porque, não obstante opiniões em perspectiva aparentemente contraditórias, se foi cumprindo o Quinto Império de Fernando Pessoa; e Agostinho da Silva tinha razão.!


De miguel a 18 de Junho de 2004 às 03:17
Obrigado pela leitura esclarecida.


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