Segunda-feira, 21 de Junho de 2004

REINA A PAZ NA PENÍNSULA

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Fiz um post sobre o Portugal-Espanha que exagerei o mais que pude para o tornar obviamente exagerado. Mesmo assim, fiquei arrepiado com a ideia de que ele fosse tomado à letra. Julgo que não. Paz á minha consciência.

Do jogo e do resultado, já tudo estará dito sobre aqueles noventa minutos. Gostei que Portugal ganhasse e manteve-se intacto o meu gosto pelas Espanhas (porque, como aqui já o disse, Espanha não existe e é esse, para mim, o seu principal encanto). Ponto final, venha o próximo. E venham mais bandeiras porque diminuiu o número dos resistentes e dos cépticos. Mas, para mim, que adoro futebol, futebol é sempre noventa minutos de cada vez. Tudo o que vem antes e depois, pouco vale relativamente ao tempo em que a bola rola e rebola.

Tem-me dado que pensar a forma contida como foi celebrado tamanho feito. Verdade que se celebrou e efusivamente. Mas o que me surpreendeu é que, neste fenómeno em que um vencedor implicou um vencido, quando o resultado ultrapassou as expectativas de quase todos (verdade, verdadinha, quantos portugueses acreditavam que Portugal ganhasse à Espanha?), a celebração vitoriosa foi extraordinariamente contida no rebaixamento ou tentativa de humilhação do adversário vergado à derrota e à superioridade demonstrada em campo. O que é positivo, olá se é. Ontem parecíamos um povo com fair-play para dar e vender. O que não joga nada com o que se vê nos nossos comportamentos futebolísticos típicos. Os pobres espanhóis que ontem até cá vieram, voltaram a casa em sossego triste e sem incómodos de triunfalismo que os incomodasse.

Porque gostamos dos espanhóis? Como assim? Julgo que continuamos a gostar deles como eles gostam de nós, ou seja, pagamos indiferença com indiferença. Eles continuarão a achar que somos uma cambada de tristes e perdidos no tempo. Nós não teremos deixado de os considerar fala-baratos, bruscos e excessivos. Eles continuam convencidos que são uma grande nação europeia e nós uma província que merece o atraso pela nossa teimosia folclórica de rejeição de unidade peninsular. Nós continuaremos a achar que eles têm razão mas, por isso mesmo, esta evidência em nada nos aproxima. Por isso vivemos, desde a simultânea entrada na CEE, em indiferença silenciosa que sucedeu à hostilidade murmurada dos “velhos tempos”.

A ancestralidade da visão dos espanhóis como “inimigo natural” e “histórico”, cedeu lugar à xenofobia e ao racismo re-orientados para os africanos, brasileiros e imigrantes do leste. Contra estes, o murmúrio e o dislate acertam num alvo. Porque eles estão entre nós. Estão “desclassificados”, “merecem” o odiozinho rasteiro dos ressentimentos rascas. Porque, ou são os meus ouvidos que têm muito azar, ou, pelo que oiço por aí, o gérmen do velho racismo contra os “pretos” anda à solta e com mais pujança.

O jogo Portugal-Espanha não aproximou os povos peninsulares (qualquer que fosse o resultado, não o podia fazer). Mas, por aquele resultado, também não nos afastou mais do que antes. A façanha foi tamanha que ainda não queremos acreditar. O que deu tempo a que eles, silenciosamente, voltassem para casa sem humilhação acrescentada à do resultado. Ainda por cima, nem do árbitro se podem queixar.

Foi uma Aljubarrota da treta. Sem esperança na recuperação de Olivença. Mas os espanhóis bem podem agradecer isso aos “pretos”.
publicado por João Tunes às 16:50
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