Terça-feira, 22 de Junho de 2004

UM NOVO BLOGUE

Conhecia a figura de vista sem fazer ideia de quem se tratava. Porque nos encontrávamos, semanalmente e ao fim da tarde, em pé junto a um balcão corrido, cada um comendo, no seu silêncio, uma bucha para que o estômago aguentasse uma noite longa de reuniões. Não sabia dele nem o nome nem a função. Como tocávamos "instrumentos" diferentes naquela banda, nunca nos cruzávamos nos ensaios nem nos concertos. E como o local era sede de muitas responsabilidades, ninguém se auto-permitia avanços de confiança ou efusões. Ali, havia tarefas e não convívio, responsabilidades e não pessoalismos. Porque todos e cada um, carregávamos aos ombros a pesada responsabilidade colectiva de transportar a classe operária até ao poder. Uma intimidade ou uma galhofa naquele local seria um acto de intolerável irresponsabilidade. Assim, naquela espécie de Catedral, até o tratamento por camarada tinha uma solenidade maior que se traduzia no espaçamento e no tom baixo da voz com que era soletrada.

A figura chamava-me a atenção pelo seu ar circunspecto e calmo, mas sobretudo pela cor muito pálida do rosto, parecendo pessoa que tinha vivido muito tempo sem que o sol lhe fortalecesse a pigmentação.

Passou-se tempos nisto até que nos passámos a encontrar em convívios de fim-de-semana, famílias misturadas, em casa do António Graça, de quem ambos éramos amigos. Fiquei então a saber que o meu pálido camarada e vizinho do balcão do bar da Soeiro Pereira Gomes, era o Raimundo Narciso, membro do Comité Central do PCP e antigo dirigente da ARA. Os muitos anos no pelo de clandestinidade e o facto de a sua fotografia ter sido divulgada pela Pide nos jornais e na televisão, como "procurado" por ser um "perigoso terrorista", explicaram, a meu ver, a cor de pele denotando míngua de raios solares.

Depois veio, com a embalagem da perestroika, os caminhos da dissidência e da contestação até ao afastamento total com o PCP, juntos durante uns tempos até ao INES (projecto falhado de renovação da esquerda), depois (cada qual às suas) em vários caminhos de reposicionamento político. Eu fiquei independente (a votar no PS como "mal menor"), enquanto o Raimundo entrou em militâncias no PS, chegando a ser seu deputado.

Já aqui referi que ele, desde há algum tempo, alimenta um excelente blogue em boa parceria: o Puxa Palavra. Hoje, fui descobrir que, além de participar
no Puxa Palavra, o Raimundo Narciso também abriu um outro blogue onde começou a abrir o seu baú de memórias. O primeiro post deste blogue memorial é promissor: ali se explica como é que um cigano indocumentado conseguiu ajudar um clandestino (da luta armada) metido em apertos paternais, episódio que é recordado, a trinta anos de distância, pelo regresso à mesma Maternidade, agora em cumprimento de tarefas de Avô. A não perder, sublinho, para quem gosta de ler uma boa estória e saber um pouco do Portugal que ficou lá para trás.
publicado por João Tunes às 01:24
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