Sexta-feira, 2 de Julho de 2004

OLÁ SOPHIA !

sofia_01.jpg

Hoje, a poesia morreu em Portugal. Eu sei, eu sei, não morreram os nossos poetas. Excepto os poetas que nasceram mortos. Excepto aqueles que viveram com poesia morta, capada, cínica ou falhada, dentro de si. Ou que nunca a encontraram no virar da esquina.

O problema não é grande. Só a poesia morreu. Não morreram os poetas. Apenas um deles nos fica hoje a faltar. E, num país de poetas e de poesia, o que vale menos um poeta? Tudo, porque morreu o Maior, a Maior.

Eu sei, eu sei, que os outros poetas continuam. Ainda hoje devem ter nascido uma data deles nas nossas maternidades. Porque somos um país de poetas. E, em Portugal, há um poeta em cada virar da esquina. Até exportamos poetas. Sempre exilámos poetas. E, sendo um país de poetas, os poetas que somos olhamos de lado para os poetas. Porque somos todos poetas e a poesia é tão banal como um frango assado. Porque precisamos da poesia para combater a depressão mercantil quando sabemos que as nossas vidas, mais que da poesia, muito mais que da poesia, dependem do Índice NASDAQ que é alfa e ómega do nosso Estar e Ser. Cada vez mais. Cada vez mais.

Que falta nos vai fazer Sophia? Estava velha e doente. Creio mesmo que já tinha deixado de escrever poesia (embora aqueles olhos, enquanto vivos, tenham sido sempre os seus melhores poemas). Para mais, nem sequer teve Nobel porque o marketing da literatura ganha nos votos em branco. Repito, que falta nos vai fazer Sophia? Toda. Isso, toda. Porque morreu a Maior.

Diz-se que os poetas se querem feios – ou zarolhos, ou alcoólicos, ou maricas, ou tontos, ou suicidas, ou estrábicos, ou misógenos, ou cheirando mal. Sophia, a grande Sophia, conseguiu o milagre de ser a nossa mulher mais bonita e o nosso maior poeta.

Eu sei, eu sei, que, hoje, a poesia morreu mas renasceu. Sem Sophia, continuamos com a poesia de Sophia.

Porque ela, Sophia, linda e viva, mesmo morta, continua aí ao virar da esquina, dizendo:

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.


Que companhia nos vais continuar a fazer, querida Sophia. Um beijo.
publicado por João Tunes às 22:26
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2 comentários:
De Vertigem a 4 de Julho de 2004 às 13:36
Das coisas mais bonitas que li a propósito da morte de Sophia e sobre a poesia. Mas tudo o que se possa dizer sobre uma poetisa como ela só pode ser bonito e ter algum tipo de inspiração divinna não é?!


De Werewolf a 3 de Julho de 2004 às 19:47
Hurra! Para aqueles cuja obra os liberta da lei da morte.


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