Sábado, 3 de Julho de 2004

UMA MULHER, A MULHER

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Sofro em ver a corrosão dos teus oitenta anos de vida gasta a gastar, até ao limite, a tua força, a tua coragem e a tua alegria.

Custa-me ver a tua coragem optimista calar-se pela opressão do império da lei da vida. Embora a gargalhada fresca nunca falte quando o corpo o permite.

Vivemos na quimera de que os grandes homens e grandes mulheres são imunes e eternos. Que nunca nos vai faltar a força da sua coragem e do seu exemplo. Sabendo, bem sabido e bem esquecido, que isso é uma ilusão que é a nossa salvação.

Tu és o meu mito, mesmo não partilhando o sangue. Uma gigante na minha história. Uma mulher que é A Mulher.

Em tempos, quando tu e eu tínhamos disposição para isso, dispus-me a recolher-te a memória antes que ela esmorecesse e os teus netos ficassem com lembranças esfumadas. O projecto ficou em meio caminho. Culpa minha. Mas ainda ficou qualquer coisa que não perdi e aproveito para recordar:

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Nasci em 1924. Veja lá a idade que já tenho.

Chamo-me Maria da Conceição. Só assim, sem apelidos. Foi assim que me registaram. Não sei porquê. Aliás, eu sempre pensei que tinha os apelidos do meu pai e da minha mãe. Só soube que não estava registada com o nome completo quando me casei e fui ao Registo. Aí, quando me perguntaram o nome, disse-o com os apelidos. Eles foram ver e depois disseram que não era assim que tinha sido registada, constando apenas Maria da Conceição. Assim ficou.

A minha irmã, que ainda hoje vive na terra, também foi registada como Maria da Conceição mas com direito aos apelidos. Coisas daquele tempo. Tem algum jeito, duas filhas na mesma casa com o mesmo nome? Acontece que nós em casa, incluindo os meus pais, pensávamos que a minha irmã se chamava Maria de Jesus e ela também se assinava assim. Só que, no registo, tinha ficado Maria da Conceição como eu. Estas trapalhadas do registo devem-se a que, naquele tempo, as pessoas só registavam os filhos uns tempos largos depois das crianças nascerem. E era de qualquer maneira. Até porque se pagava multa por causa dos atrasos.

O meu pai era um grande trabalhador. Trabalhava no campo e como pedreiro. Na altura, os meus pais tinham muita fazenda. Isto é, muitas hortas para cultivar. Ele fartava-se de trabalhar no amanho da terra e quando havia trabalho de pedreiro, fazia mais uns dinheirinhos. E era muito boa pessoa. Nunca bateu nos filhos. Dava-se bem com toda a gente e era muito prestável para ajudar os outros. Era capaz de deixar para trás um compromisso de família para dar uma mão de ajuda a quem lhe pedisse. E era muito amigo da família. Dava-se bem com todos. Os cunhados, por exemplo, eram como se fossem irmãos para ele.

O meu pai, tão bom que era, só viveu com um remorso. A minha Avó Ana, Mãe do meu Pai, casou-se com um homem que, embora boa pessoa, era mais velho 20 anos que ela. Aquilo foi um casamento ajustado por famílias porque o meu Avô era de uma família com muitas fazendas. Mas o meu Avô tratou sempre a minha Avó como uma Rainha. Ele não a deixava fazer quase nada. Vidinha de casa e mais nada. De manhã, o meu Avô levantava-se cedinho, deixava a minha Avó na cama, agasalhava-a bem com as mantas e dizia-lhe “Ana, deixa-te estar que é Inverno e está muito frio”. Pegava no cântaro ia à fonte buscar água, acendia o lume da lareira, aquecia água para que, quando ela se levantasse, já tivesse tudo pronto para começar a fazer a sopa. Dizia-lhe “Ana, eu vou trabalhar mas venho almoçar” e abalava. Quando o meu Avô morreu, a minha Avó ficou viúva ainda muito nova. Passado uns tempos, a minha Avó fez amizade com outra viúva e as duas iam distrair-se, dando passeios até ao Cabril e ao Souto onde tinham conhecimento com uns senhores daquelas aldeias. O meu Pai, tendo então 13 anos, envergonhava-se de, na aldeia, dizerem que a mãe ia para o Cabril namorar um homem. Para envergonhar a mãe, o meu pai resolveu “correr o Entrudo” (prática que se dava no Carnaval em que, com uns funis, as pessoas denunciavam em público, coisas que achavam que estavam menos bem). Combinou com uns rapazes amigos o que haviam de dizer e foi para casa. Já ele estava ao pé da minha Avó, os amigos, conforme combinado, falaram alto para toda a aldeia “Oh Senhora Ana, pouco por pouco, vale mais no Cabril que no Souto!”. A minha Avó envergonhou-se, deixou de dar os seus passeios e passou a rezar muito para desconto dos pecados. Até morrer. Esta atitude do meu pai ficou sempre como uma mágoa para com ele. E só se atenuava porque sabia que a minha Avó esteve sempre convencida que a iniciativa do “Entrudo” não tinha partido do filho.

A minha mãe era boa pessoa. Mas era amiga de nos dar umas sapatadas. E tinha um grande defeito: não queria que as filhas namorassem! Isto era influência das prédicas do padre que passava o tempo a avisar para os perigos das tentações nas raparigas. Vou dar um exemplo. Tinha eu para aí os meus 20 anos, havia baile no dia da festa de São Lourenço (10 de Agosto) em Sobral Valado. Eu gostava muito de dançar. Uma tia minha entrou no baile e puxou-me para ele. O baile era mandado. Às tantas, calhou dançar com um primo que depois foi meu cunhado. A minha tia foi-se embora e eu fiquei a dançar com o meu primo. A minha mãe andava lá nas suas lides. O meu pai que estava a ver o baile, sentado à porta de casa, disse para a minha mãe: “Olha, a tua filha anda lá no danço!”. A minha mãe pôs-se ao caminho, entrou baile dentro, deu-me uma palmada no rabo e disse “Vamos embora para casa!”. Lá fui envergonhada, fartei-me de chorar e já não sai de casa nesse dia. Entretanto, o baile acabou porque ninguém ficou com vontade de se divertir. Tanto mais que eu era a mais foliona.

Eu adorava dançar mas o padre da Pampilhosa era contra os jovens dançarem. Por causa dos pecados. Onde eu tirava a barriga de misérias era na Aldeia Velha, que ficava longe, entre a Serra da Lousã e a Pampilhosa. Esta era a terra do meu Tio Manuel e tinha um padre que não era contra os bailes. No mês de Agosto, na altura da festa da Aldeia Velha, eu ia lá com o meu irmão, uma das minhas irmãs e o meu pai. Eu, então, aproveitava e dançava o mais que podia. Lá, ninguém ia contra.

Para a minha mãe, todos os namorados tinham defeitos. Nenhum servia. Ou por isto ou por aquilo. Rapaz que se aproximasse das filhas tinha sempre defeitos. Como foi o caso do que veio a ser meu marido. Mas, depois, até foram muito amigos.

Conheci o meu marido Mário desde que éramos crianças. Nascemos e vivemos na mesma aldeia, embora morássemos um bocadinho distantes. Ele morava numa ponta e eu noutra. Mas, em geral, víamo-nos todos os dias. Depois chegou a altura de irmos para a escola e já tínhamos alguma idade porque, quando éramos mais novos, ainda não havia escola na aldeia.

Fomos os dois para a escola e logo aí começámos a ter tendências um para o outro. Ele escrevia-me papelinhos, mandava-mos e eu respondia. Tínhamos um sítio certo onde íamos e lá deixavámos os papelinhos de um para o outro. Era assim que nós os dois se comunicavam.

Depois ele veio para Lisboa, tinha para aí os seus dezassete anos. E foi para a tropa que fez na Marinha. Continuamos a escrever-nos. Mas houve uma certa altura em que nos zangámos. Por causa de uma coisa qualquer sem importância. E deixámos de nos escrever, melhor dizendo, eu deixei de ir a casa dos pais dele para receber as cartas pois era para lá que ele as mandava. Mas o certo é que continuou sempre aquela tendência de um pelo outro.

Eu nunca me esqueci dele porque gostava mesmo dele. Mas chegou-se um tempo, já eu tinha vinte e dois anos, e um rapaz que morava ao pé da minha porta, que ainda pertencia a uns familiares meus, começou a chegar-se a mim. Toda a família dele começou a insistir para eu engraçar com ele. E foi assim que comecei a namorar com esse rapaz. E ele tinha pressa de se casar comigo. Resolvemos ir pôr os papéis a trabalhar no Registo Civil da Pampilhosa para se dar o casamento.

Da minha aldeia à Pampilhosa são uns seis quilómetros que, na altura, só se faziam a pé. Combinámos ir ao Registo no dia de mercado. Como disse que ia ao mercado, a minha mãe deixou-me ir. Mas uma senhora avisou-a que eu ia mas era por os papéis a trabalhar para me casar com fulano. Já eu estava vestida e pronta para ir à vila, a minha mãe chamou-me e disse “Menina, tira a roupa de sair porque já não vais ao mercado”. Eu nunca gostei de ser contrariada e respondi “Pois eu vou mesmo casar com fulano e se não for ao Registo hoje, vou lá noutro dia”. Então o meu pai falou “Estás a ouvi-la? Deixa-a lá ir.”. E lá acabaram por me deixarem ir à Pampilhosa. Eu fui e pus os papéis a trabalhar.

Havia um rapaz que era primo do meu futuro marido, tinha andado por Lisboa e era a modos que reguila. Tantas fez que acabou por ir a Tribunal e teve de cumprir prisão. Ora a prisão era mesmo junto do Registo. Ele, lá trás das grades, viu-me entrar para o Registo na companhia de familiares do rapaz com quem estava para casar. Percebeu o que se passava e mandou um recado para os meus futuros sogros a alertá-los para aquilo. Estes mandaram uma carta para o meu futuro marido, lá para a tropa em Lisboa, a avisarem-no e a sugerirem que ele viesse à aldeia o mais depressa que pudesse.

O meu futuro marido pôs mesmo os pés ao caminho e apareceu na aldeia de surpresa. Um belo dia, vinha eu de trabalhar na fazenda, vejo-o chegar à terra. Não nos falámos. À noite, estava eu em minha casa, chegou-se ao pé de mim uma senhora que era, ao mesmo tempo, minha tia e tia do Mário. Pediu-me para eu ir a casa dela que queria dar-me um recado. Os meus pais ouviram e a minha mãe falou “Então mas se tu queres dar-lhe um recado, dá-lho aqui. E se não querem que a gente oiça, ide aí para fora para esse sobrado e conversai.”. Mas ela insistiu, insistiu “Ela não se demora, ela não se demora.”. Os meus pais acabaram por me deixarem ir. Quando cheguei a casa dessa minha tia, encontrei logo lá o meu futuro marido. Começámos a conversar e ele, muito meiguinho, levou-me à certa. E que, no outro dia, íamos à Pampilhosa parar os papéis com o outro rapaz, eu ia morar para casa dos pais dele e por lá ficaria até ele sair da tropa e casarmos. E assim foi.

Ainda por lá estive oito meses, em casa dos pais do Mário, à espera da hora de me casar. Mas lá chegou a ocasião de eu vir para Lisboa e fazermos o nosso casamento. Tudo isto revela que eu gostava mesmo dele e nunca o tinha esquecido. Quanto ao outro rapaz, claro que me ia casando com ele, mas não era que lhe tivesse grande afeição. A gente, em nova, não sabe bem o que quer e, depois, andavam todos de volta de mim, era a tia, era a avó, era a irmã e ele sempre a escrever-me vamos casar, vamos casar e vamos casar. E foi por causa disso que eu deixei de escrever ao meu futuro marido. Mas, eu confesso que nunca o esqueci, mesmo quando namorava o outro rapaz. Porque eu, confesso, gostar, gostar mesmo, era dele.

Casámos, temos duas filhas que são duas prendas, dois genros que são dois amores, cinco netos que são o melhor do mundo e já temos uma bisnetinha. Somos muito felizes.

Nota: Como bem se entende, um dos genros que são "uns amores" é o autor deste blogue...
publicado por João Tunes às 17:59
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