Terça-feira, 6 de Julho de 2004

SOBRE OS IMPASSES DO MARCELISMO

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Se existe hoje uma historiografia consolidada e florescente sobre o período do Estado Novo, isso deve-se, na sua máxima parte, ao Professor Fernando Rosas.

Foi ele que, primeiro, estabeleceu critérios das fases desse regime, definiu os seus interesses e parcelas de influência nos poderes, definiu os planos das contradições, categorizou períodos e substituiu os estereótipos de apreciação política e ideológica por conceitos históricos. Entretanto, dando o exemplo de meter “mão na massa” e através de uma capacidade imensa de trabalho no primado do rigor, fez os exercícios fundamentais da investigação, da fundamentação e da rigorização dos conceitos.

Depois, mérito não menor, o Professor Fernando Rosas criou escola e proliferou discípulos, atraindo e incentivando um número significativo de historiadores a aprofundarem aspectos da história do Estado Novo que não cessam de se multiplicarem, sobretudo agora, em que muitos arquivos se vão abrindo.

Mas, na ramificação das investigações e apuramentos, a matriz da caracterização (complexa, muito complexa) das etapas dos cerca de 50 anos de regime do Estado Novo, assenta nas linhas definidas pelo Professor Fernando Rosas e nunca encontraram contraditório de monta. Depois, os contributos, nacionais e estrangeiros, são demonstrações e ramificações do enorme puzzle montado por aquele académico.

Como mérito intelectual, a obra já é gigantesca e um indefectível património da nossa cultura. Isto é superlativamente espantoso porque os paradigmas partidários e ideológicos do Professor Fernando Rosas nunca inquinaram o seu labor académico. Para mais, trata-se de um cidadão activamente empenhado no combate político e na controvérsia ideológica.

Acabei de ler um livro espantoso de clareza e riqueza sucinta sobre o período marcelista: “A Transição Falhada” (Ed. Notícias). Inclui trabalhos de diversos académicos, nacionais e estrangeiros, e teve a coordenação de Fernando Rosas e de Pedro Aires Oliveira. Cada um dos académicos analisa um aspecto daquela fase do regime. E o surpreendente é como os diversos contributos e trabalhos autónomos de investigação se articulam harmoniosamente, encaixando-se perfeitamente na matriz já conhecida (mas agora enriquecida). Nos diversos ângulos em que o marcelismo é analisado (social, económico, político, militar, colonial, educação, religioso, constitucional), o busílis do impasse do marcelismo bate sempre no mesmo ponto: a não solução (ou impossibilidade de solução) da questão colonial. E que acabaria por ser também o motivo da evolução do MFA e do 25 de Abril.

Sob o ponto de vista político, ideológico e partidário, o Professor Fernando Rosas muito pouco me diz. É até com enfado que assisto à sua intervenção cívica e política. Até o acho chato, pouco claro e estafado nas suas crenças e paradigmas. Mas seria um acto de autêntica imbecilidade, se misturasse os planos e não fosse capaz de distinguir a obra académica da intervenção política e partidária do autor. Por outras palavras, se o fizesse não estaria mais do que a reproduzir os tiques estalinistas de condicionar a apreciação da obra à valorização da intervenção cívica do autor, ou então, tinha que ter cartão de integralista para exigir uma fusão de total coerência entre ambos os aspectos.

Nota: O livro aqui referido, além do prefácio de enquadramento de Fernando Rosas, tem contributos dos seguintes académicos: Rita Almeida de Carvalho, João Madeira, João Barreto, Fátima Patriarca, David Corkill, Maria Cândida Proença, Norrie MacQueen, Pedro Aires Oliveira e Maria Inácia Rezola.
publicado por João Tunes às 01:45
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2 comentários:
De Antonio Torres a 7 de Julho de 2004 às 01:07
O problema é que a História dificilmente poderá ser contada com imparcialidade e isenção, sobretudo os períodos que nos estão mais próximos.
E dados o radicalismo e a cristalização ideológica desta "espécie botânica", temo que a objectividade venha vestida das habituais maquinações da luta de classes, entre os bons e os maus, entre as forças do progresso e os defensores do statu quo.
Isto digo eu, que não sou faccioso.
eheheh


De miguel a 6 de Julho de 2004 às 02:37
Já li uns bons pedaços do livro também (em virtude tb da tese que ando a fazer). Rosas desenvolve aquilo que já tinha desenvolvido em textos anteriores - a análise do marcelismo enquanto transição falhada (e demasiado tardia) para um regime democrático - com acutilância. Chamo a atenção, pessoalmente e se tal me é permitido, para o artigo do João Madeira sobre a evolução das oposições com análises mais focalizadas ao percurso do PCP e da extrema-esquerda e que (sobretudo em relação a estes últimos) lança luzes inéditas, pelo menos em textos de cariz académico. Os outros textos vou lê-los a seguir.
Obrigado por este tipo de posts! :-)


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