Quinta-feira, 8 de Julho de 2004

AFRICANDO

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Paulo Portas como Ministro da Defesa, com toda a exaltação recuperadora da figura do ex-combatente como “patriota esquecido”, deu lume de incentivo à reconstrução afirmativa da saga da guerra colonial. Por um lado, o argumento era bom e só pecava pelo atraso - compensação pelo tempo de serviço militar preenchido em campanha. A contrapartida era lógica, vindo de quem vem – um patriotismo mítico alimentado pelo mito da “defesa do ultramar” (a “descolonização” sempre foi, desde a sua origem, a “besta negra” do CDS).

Durante demasiado tempo, a colonização e a descolonização foram temas empurrados para o resmungo e para o pontapé por baixo da mesa. Isto gerou uma enorme acumulação de mal-estar, ressentimentos, auto-estimas magoadas, em centenas de milhar de ex-combatentes e noutros tantos antigos colonos. As memórias e os mitos, incapazes de se verbalizarem, regrediram como feridas íntimas, queimando como carne viva, através do silêncio, porque a catarse tardava.

Entretanto, o descaminho torpe das governações dos novos países de língua oficial portuguesa, prestou-se ao contraponto regenerador. Tudo estará pior que “quando lá estávamos” e, assim, ninguém terá ganho com o negócio independentista (nem “nós”, nem “eles”). Todas as sombras do colonialismo e da guerra serão meros pontos negros comparados com os furúnculos e tumores da descolonização (cada vez mais identificada com traição), das guerras civis, da miséria, destruição, corrupção e gangsterismo dos novos mandantes africanos. Num ápice, explicitamente ou não, Salazar passou a ter razão. Ele tinha “avisado”, “prevenido”, “resistido”.

As medalhas brilham à luz do sol, as boinas saltaram dos baús, o passado recompõe-se, as memórias soltam-se como punhais de orgulho auto-justificativo. Os militares empalados no PREC e só descomprimidos no 25 de Novembro, voltaram aos estereótipos castrenses, dando-lhes dignidade retroactiva continuada pela reincorporação valorativa da participação na “guerra do ultramar”. Porque o pior que pode acontecer a esta corporação é ter de viver expurgada da sua fase de combate (e, no caso português, foram treze anos!), sendo que é a combater que a excelência da opção pela carreira militar mostra ser aptidão exclusiva e demonstra a excelência das virtudes endógenas. Entretanto, há muito que o PREC não mora nos quartéis e os militares “abrilistas” perderam todo o poder e todo o lustro. As hierarquias e os critérios alteraram-se, tudo voltou a ser à maneira do poder ideológico, de mando e de prebendas dos “novembristas” isentos de “manchas abrilistas”. Enfim, a instituição voltou a andar alinhada nos carris.

O memorialismo redentor dos centuriões estraleja em força, como era inevitável. A catarse está a ser feita segundo as suas pautas e batutas. Dirigida pelo fio de recuperação de estereótipos recalcados. É o seu tempo de desforra ideológica. Nada que seja de admirar. Porque os heróis não têm de ser parvos e deixarem a história e a hora passar-lhes ao lado.

Voltei a ler mais um livro do Coronel reformado Manuel Amaro Bernardo. Desta vez, dedicado a Moçambique (1). É uma miscelânea de memórias da sua experiência em campanha, narrativas sobre os processos da guerra e da independência, colecta de depoimentos de vários camaradas de armas, uns intervenientes activos na resistência à independência, outros, pelo menos, críticos radicais da descolonização. A ideia regeneradora é uma constante sem falhas. A guerra foi heróica, a descolonização foi um crime. Frelimo e independência foram, são e serão a desgraça dos moçambicanos (depois de ter sido a nossa).

Na mesma colecção, li um outro volume de uma personagem peculiar – Nogueira e Carvalho (2). O sujeito começou por ser oficial miliciano, pela vida militar foi restando, subiu vagarosamente de patente a acumular comissões na guerra colonial (Angola e Moçambique), passou pela GNR, acabando por transitar para a PIDE, sendo Inspector em Angola onde apanhou com o 25 de Abril. Depois, foi incorporado na PIM (Policia de Informação Militar) de Angola até à saída dos ex-pides. Então, transferiu-se de armas e bagagens para a FNLA, às ordens de quem combateu até à derrota às portas de Luanda. Nos seus relatos, toda a prática colonial foi ternura, candura, coerência e cristianismo (com um ou outro reprovável excesso), “portuguesismo” de lei. Salazar retoma o trono de grande estadista. EUA/URSS/China foram os maus da fita, servidos por lacaios cá da terra.

Nada tenho contra a proliferação desta literatura. Era inevitável. Até lhes compro os livros e os leio.

O problema, quanto a mim, reside apenas no seu peso relativamente desproporcionado no panorama editorial. Bem sei que lhes “chegou a hora”. Mas, sem contraponto, corre-se o risco de haver fixação num estereótipo bem marcado (extremado) que não permite a incorporação do fenómeno em termos de memória colectiva. E, assim, corre-se o risco de os portugueses, perante África, continuarem na sua ancestral incapacidade de olhar e entender o Outro. E se esta incapacidade, grande tragédia nossa, serviu para “alguma coisa” (pelo menos serviu para uns tantos) no passado, hoje, sem colónias, só nos separa do mundo, impedindo-nos de termos história. E não há negócio que ganhe com o negócio.

Os actores da descolonização podem não estar disponíveis para pôr os pontos nos ii e equilibrar a visão. Até porque estarão vergados em nódoas na consciência por um processo não exemplar (e podia sê-lo?).

A via de equilíbrio estará, a meu ver, em ir mais atrás, estudando, entendendo, clarificando, a história da colonização portuguesa, a história da relação de Portugal com África, a história do relacionamento entre portugueses e africanos. Não para acirrar ressentimentos, mas para nos conseguirmos entender, compreendendo-nos. Esta parece-me a forma mais eficaz de desfazer os mitos de partida em que assentam os estereótipos dos regeneradores. Tarefa mais para especialistas que para testemunhas, está bem de ver. Muito de útil e necessário há a fazer neste domínio. E alguma coisa vai aparecendo. Por exemplo, acho do maior interesse uma colectânea de trabalhos recentemente publicada pela Profª Isabel Castro Henriques (da Universidade de Lisboa) (3) e que nos ajudam a entender a questão colonial numa perspectiva distanciada e multidisciplinar. Quando percebermos o peculiar e a essência da nossa colonização, a sua intersecção no tempo e na geopolítica, os choques entre Nós e os Outros (mais os mimetismos), então, só então, estaremos em condições de entender a “questão colonial”, as guerras coloniais, a descolonização, os descaminhos e os espectáculos indecorosos dados pelos novos poderes africanos que, pelos vistos, não nos querem ficar atrás no pior que tivemos tempo de lhes “ensinar”.

(1) – “Combater em Moçambique – Guerra e Descolonização – 1974/1975”, Manuel Amaro Bernardo, Ed. Prefácio.

(2) – “Era tempo de morrer em África – Angola, guerra e Descolonização – 1961/1975”, Nogueira e Carvalho, Ed. Prefácio.

(3) – “Os pilares da diferença – relações Portugal-África – séculos XV/XX”, Isabel Castro Henriques, Ed. Caleidoscópio
publicado por João Tunes às 01:23
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1 comentário:
De Carlos a 8 de Julho de 2004 às 02:01
Com o devido link, vou chamar a atenção para este post num grupo de discussão que aborda em debate plural a questão colonial, o "Moçambique Ontem e Hoje" (MOH). Li e fiquei a reflectir sobre diversas partes (mas, só por mera idade não fui militar nas colónias), e gostava de ouvir outras opiniões que considero lúcidas sobre o tema. Até porque a questão do distanciamento do actor da redacção da sua história, não me parece tão benéfico no imediato. As emoções do indíviduo perante os movimentos colectivos, sociais, merecem ser considerados e não são só por causa que gere parcialidade objectiva superior à da sua ausência(emoção) na análise por académicos em bibliotecas. Como meu actor que sou, reclamo o direito de participar na redacção da minha história. Mas no global (muito lato mesmo) apreciei o texto e concordo com a base do mesmo: há um recuperar de casernas por uma ideologia militarista que tem uma visão não civil mas excessivamente castrense de factos da sociedade civil, que ela deve proteger e servir, em última instância.


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