Quinta-feira, 8 de Julho de 2004

PÓS

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A magia é fugaz. Por isso é mágica. Agora não há Taça, nem penalties, nem fintas, nem bolas fora ou na trave, nem guarda-redes a tirar luvas, muito menos guarda-redes a marcar um penalty de salvação, nem árbitros carecas e com olhos esbugalhados, nem vitórias, nem derrotas, nem empates, nem lágrimas, nem dores de peito, nem sequer sobrou um catalão maluco para continuar a atirar bandeiras nas ventas dos Judas. Tudo se foi, como folhas levadas pelo vento, secando-nos de euros, de confusões e de emoções. Só ficaram as contas por pagar.

Regressamos de um intervalo cosmopolita e voltámos a ficar sós. Entregues a nós. Os nossos patrícios espalhados pelo mundo, voltaram à condição de estrangeiros a bater a bola baixo. Os africanos nossos amigos voltaram ao pilão do desenrasca e esqueceram mimetismos do passado. Os brasileiros têm mais que fazer e folia é a que está ou está para vir, nunca a que já passou. Abandonaram-nos, foi o que foi.

Vejo a RTP-Regiões a recolher depoimentos país fora, nas cidades onde plantaram estádios grandes e novinhos em folha e que vão cair de podres por falta de uso. Porque o silêncio de falta de gentes nas bancadas há-de comer aquele tanto betão. Todos gostaram muito da experiência. Foi magnífico ter aquelas visitas de dinamarqueses, suiços, holandeses e outros mais. Estrangeirada porreira. Simpática. Educada. Gostando de nós. E, quando gostam de nós, é certo e sabido que gostamos deles. Nice.

E agora?

Em termos endógenos, vejo as bandeiras a saírem devagar, devagarinho. Uma hoje, outra amanhã. Devagarinho, muito devagar. Parece combinado, mas não é. É uma forma tácita de a população fazer a higiene das sacadas mas sem comprometer um brio tão intenso que não pode ser apeado com brusquidão. Ainda vai demorar muito até que os nossos bairros deixem de parecer imensas Repartições Públicas em feriado permanente. Porque poucos, muito poucos, têm a coragem de ser os primeiros a arrear a bandeira. Sentir-se-iam putas do Euro. Esta bandeira, antes tão distante, tão solene, tão estranha, tão do Estado, custou tanto a ser apropriada, ser nossa, ser de todos, armada em soutien e em lenço de cabeça, embrulho de rabos ou como saia provocante, que agora metê-la e esquecê-la na terceira prateleira do armário vai ser uma dor de alma. E os portugueses, mesmo quando se queixam do corpo, têm uma alma do tamanho do mundo.

E que memórias se irão guardar dos Outros, dos tantos que por cá passaram? O que vai restar? O que vamos reter das suas formas físicas, das suas formas culturais? Tenderemos para uma “antropologia positiva” (ou “subalterna”), como parece revelar o RTP-Regiões, eivados do gosto por os Outros serem servidos por nós? Ou tudo foi mesmo efémero, tal como nos estádios, diluindo-se na ausência? Ou, hoje, gostamos de quem cá esteve porque já nos desamparou a loja? O grande teste falhou, a permanência prolongada dos espanhóis (a esses nunca conseguiremos tê-los longe da vista e da companhia). Matámos (com os pés) o grande teste do convívio. Porquê essa maldição de ganharmos à Espanha? Assim, fizemos um Europeu e continuamos a não saber se estamos mesmo na Europa. Porque, fatalidade, o nosso caminho para a Europa passa necessariamente por Espanha. Gostemos ou não. O melhor é gostar.
publicado por João Tunes às 18:09
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1 comentário:
De Ricardo a 9 de Julho de 2004 às 00:12
Excelente ponto de vista.Agora torcer pela realidade do dia a dia . Muito bom comentario!


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