Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GUERRA CIVIL (17)

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O APOIO DE SALAZAR

O regime salazarista foi um apoio constante e importante para a vitória do franquismo em Espanha. Antes do golpe, durante e depois. Numa aliança, sólida e duradoira, que durou desde 1936 até 1974.

Salazar sentiu-se fortemente ameaçado com a vitória da Frente Popular nas eleições espanholas do início de 1936. Sabia que a consolidação da democracia e o avanço das reformas sociais ao nosso lado, teriam influência decisiva no incentivo e no apoio a alterações democráticas em Portugal e no questionar de um regime que se estava a moldar na fusão entre o clericalismo, o corporativismo fascista e o jogo de equilíbrio entre o apoio a Hitler e a manutenção da aliança com Inglaterra. Assim, Salazar percebeu que o fascismo em Espanha lhe interessava muito mais que uma Espanha democrática. Embora, não escondesse a preocupação para com a componente expansionista do fascismo da Falange, que não escondia a sua concepção de Espanha como estendendo-se no domínio de toda a Península Ibérica. Para os falangistas, Portugal era uma “província” a dominar, igual que Catalunha e País Basco.

O golpe foi preparado com utilização do território português, onde se instalara, exilado, o chefe nominal do golpe – General Sanjurjo.

Iniciadas as hostilidades em Espanha, Salazar apoiou decisivamente o golpe. Cedendo o nosso território como santuário de retaguarda, servindo de entreposto para passagem de material bélico, equipamentos, mercenários, alimentos e outros materiais estratégicos para as tropas fascistas. Em termos operacionais, o uso do território nacional foi fundamental para a conquista de posições franquistas na ocupação da Extremadura espanhola, nomeadamente as conquistas de Badajoz e Cáceres. E, depois, facilitar a ligação entre as zonas ocupadas pelos franquistas no norte e no sul de Espanha. Ao mesmo tempo, que a zona fronteiriça de Portugal com Espanha funcionou como um “cordão de segurança”, em que os fugitivos republicanos eram perseguidos, presos e, por norma, entregues aos fascistas espanhóis. Por exemplo, em Barrancos, chegaram a funcionar dois campos de concentração para internamento de fugitivos de Espanha. E o Rádio Clube Português foi criado nesta altura para funcionar como órgão de propaganda ao serviço do franquismo.

Ao nível da propaganda, o “perigo vermelho” em Espanha foi utilizado intensamente pela propaganda salazarista para reforçar a coesão do regime, incrementar a sua fascização e, particularmente, justificar a criação da Legião Portuguesa. A alta burguesia de apoio ao regime e todos os que entraram no medo paranóico com os estereótipos criados pela propaganda anti-república, apoiaram, com histeria e com interesses próprios no aproveitamento da situação, dando apoio directo e descarado a Franco. Por exemplo, o galego Bullosa construiu as bases do seu império petrolífero (de que sairiam a Sonap e a Petrosul em Portugal e a Sonarep em Moçambique) no fornecimento de combustível aos franquistas (aliando-se à Texaco que, desde a primeira hora e contra a vontade do governo americano, apoiou a rebelião militar, tendo sido um factor decisivo no abastecimento de carburante à máquina militar fascista).

Em termos de apoio de combatentes, a Legião Portuguesa, criada com motivo nos antagonismos extraídos de Espanha, mobilizou-se para combater ao lado do franquismo. Inicialmente, foi prevista a constituição da “Legião dos Viriatos” como unidade autónoma de combate em Espanha ao lado de Franco. Mas Franco, exceptuando o que permitiu a alemães e a italianos, não consentiu que mais nenhum corpo expedicionário estrangeiro tivesse autonomia na constituição e na cadeia de comando. Assim, as centenas de fascistas portugueses que lutaram pelos franquistas, não combateram autonomamente em Espanha mas sim integrados em unidades espanholas, embora mantivessem a auto-designação de Viriatos e Franco lhes tenha dado o bónus de marcharem à parte e usarem a farda da Legião Portuguesa no Desfile da Vitória, quando da ocupação de Madrid em 1939.

Nos arranjos na superestrutura do poder franquista, Portugal serviu como ponto de apoio para os ostracismos e para a recomposição das figuras que se foram sucedendo como dignatários do regime. Os políticos direitistas que Franco entendia afastar, por regra, eram encaminhados para o exílio dourado em Portugal. Assim, aconteceu com o herdeiro monárquico do ramo alfonsista, impedido de regressar a Espanha, enquanto o jovem Juan Carlos começou a ser preparado, em Cascais, como futuro rei-proveta na sucessão ao franquismo.

A solução de amálgama do suporte político do regime (União Nacional e forte apoio da Igreja Católica) que Salazar concebera para Portugal, funcionou como modelo para Franco que o adoptou, embora numa versão mais violenta, atendendo às circunstâncias endógenas. E Salazar não só moderou o ímpeto de Franco de alinhar como aliado explícito e beligerante de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial (limitando-se a “pagar” o contributo da “Legião Condor” com o envio da “Divisão Azul” para participar na invasão nazi da União Soviética), como, no após-guerra, serviu de ponte para que o franquismo sobrevivesse, usando a mesma “receita portuguesa” – aproveitar a guerra fria, para se transferirem de armas e bagagens para aliados da Inglaterra e dos Estados Unidos, absolvendo-se dos pecados de ter sido aliado e ter ganho o poder com o apoio dos vencidos.

Os dois regimes, que celebraram o chamado “Pacto Ibérico” de apoio recíproco, perceberam sempre que a sobrevivência de um dependia da sobrevivência do outro. O fascismo português caiu primeiro. Com esta queda, o fascismo espanhol, já demasiado fora de tempo, assustou-se, primeiro apoiou a contra-revolução e depois antecipou-se pela “conversão” à democracia, salvando a essência do franquismo (incluindo a figura do Rei entronizado por Franco) e obtendo dos democratas espanhóis o “compromisso do silêncio e do esquecimento” para não ter de prestar contas dos abusos e crimes dos quarenta anos de franquismo – na guerra e na vitória.

(na imagem, capacete de combate usado pelos “Viriatos”)
publicado por João Tunes às 16:12
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