Segunda-feira, 12 de Julho de 2004

DEPOIS DO ERRO DE UM "IRMÃO MAIS VELHO"

js_1.jpg

Eu entendo perfeitamente o sentimento de luto que atinge muita e boa gente de esquerda, relativamente ao voto e à confiança entregues a Jorge Sampaio. Menos ainda me espantam os esganiçados vitimizados pela “traição”.

JS é (sempre foi) o tipo de político a que se adere afectivamente e em quem se vota com o selo da confiança e do afecto.

Pela forma elíptica, tantas vezes perdida na retórica do redondo e da redundância, como JS normalmente sempre se exprimiu, a adesão a JS nunca pode ser na base da clareza das ideias, do projecto e da capacidade de decisão. Nunca foi o homem da faísca mas antes o homem da política cerzida à lareira, na biblioteca ou na tertúlia.

JS era (muito) mais um “irmão mais velho” da esquerda que um estratega do poder da esquerda e das suas angústias. Muito menos, um clarividente para ajudar a esquerda a sair dos seus bloqueios, impasses e impotências. Também não o galvanizador das motivações redentoras e triunfais. A sua adaptação ao lugar de PR resultou bem porque JS casava bem com a individualização do cargo. A essencial função de representação atribuída ao PR, assentava que nem uma luva à sua forma, mais pensada que activa, de estar na política. O problema foi (é) quando teve de decidir no meio de um imbróglio. E a tragédia deu-se.

O erro de Sampaio despoletou rejeição política com foros de afronta política e pessoal. Não faltaram as lágrimas e dores de alma gritadas. Não faltaram os que, simbolicamente, rasgaram o boletim de voto que lhe haviam dado. Como ainda sobram os que lhe esbofeteiam a cara, retirando-lhe credibilidade, incluindo quem se amanha politicamente (para sobreviver), continuando a sentar-se a seu lado no Conselho de Estado. Para cúmulo, este homem da esquerda mansa, vê-se reduzido ao amparo do cinismo da direita, satisfeita com a saída e a sobrevivência, degustando o espectáculo dos antropófagos da esquerda que comem na esquerda quando o osso da direita é duro de roer, homenageando um fugitivo, repelindo quem errou mas aí está para ter de deslindar o molho de bróculos que arranjou.

Também a mim me doeu a decisão de Sampaio. Desde a minha iniciação nas lutas estudantis que ele é meu (distante) “irmão mais velho”. E assim continua. Os meus votos em Sampaio foram os votos que, com mais gosto, meti nas urnas. Porque gosto do tipo e o respeito no meu gostar. Mas nunca me iludi politicamente com o político JS. Votei em Sampaio sem lhe delegar coissíma alguma da minha cidadania. Como sei bem quantas vezes, eu próprio, errei politicamente e ainda cá ando a botar sentença. Sabia que ele nunca seria bom timoneiro a conduzir o barco em tempo de borrasca. Sabia que ele, fosse caso disso, não ia abandonar o barco mas dificilmente acertaria na manobra certa. Confiei numa boa decisão tanto como temi uma péssima decisão. Assim, foi uma “meia dor” com o duque saído nas cartas.

Mal da luta política se ela depender de uma figura, para mais de uma figura de representação. E a esquerda, agora dorida, pouco ou nada fez para alimentar a boa decisão de JS. Pelo contrário, fugiu para a inanidade (na base da confiança cega no PR!) ou para as performances bloquista e cgtepista. Sobretudo o PS, de novo preso ao caudillismo messiânico, deixou JS nas mãos da pressão da direita e das forças do capital, para quem – Ângelo Correio disse isso com todas as letras na Televisão – tudo está bem quando o PSD governa. E o PS, antes de ser “traído” por JS, abandonou JS, confiando que ele se comportaria como um compadre.

A esquerda deve partilhar o erro de Sampaio. Porque contribuiu para ele. Não o desculpando porque o erro, sobretudo nas suas consequências, fica para a história. Lutando contra a nova vaga de poder de direita. Construindo alternativas. Demonstrando que é alternativa. Conquistando quereres e votos. Sendo a esquerda que faltou a JS para o impedir de errar.

Um voto é irreversível. Não morre. Porque a votar, nada se entrega. Muito menos a cidadania e o direito de lutar. Não dá direito a luto. Melhor, dará, quando muito, para o luto de uma ilusão. E os lutos das ilusões ajudam a crescer. Embora doam como o caraças.

Para os que disputam um meio hectare nas franjas da política, tudo está na maior para o foguetório do ressentimento, melhor agora quando se tem um “bode expiatório” em Belém. Mas Santana vai ser Primeiro Ministro. Essa é que é essa. Vamos a ele. Porque chegamos para ele e para os seus compadres. Se quisermos. Se a esquerda for esquerda. E voltaremos a ter JS (à sua maneira, no seu estilo) connosco. Porque, para já, ele não é dispensável. Mesmo a asneirar.
publicado por João Tunes às 15:32
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De IO a 15 de Julho de 2004 às 11:32
"A esquerda deve partilhar o erro de Sampaio. Porque contribuiu para ele. Não o desculpando porque o erro, sobretudo nas suas consequências, fica para a história. Lutando contra a nova vaga de poder de direita. Construindo alternativas. Demonstrando que é alternativa. Conquistando quereres e votos. Sendo a esquerda que faltou a JS para o impedir de errar".
PARABÉNS, HOMEM LÚCIDO!!!



Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. ESPANHA – GUERRA CIVIL

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (1...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (2...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (3...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (4...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (5...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (6...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (7...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (8...

.arquivos

. Setembro 2007

. Novembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds