Segunda-feira, 12 de Julho de 2004

NEGÓCIOS EM ÁFRICA (uma experiência)

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Tinha a ideia adquirida (preconceito) de que o grande racismo tinha vindo na grande vaga do retorno, feridas a sangrar, rasgadas pela violência do despejo e do despeito, explicadas pelo arranque de raízes e pelo trambolhão traumático. Era a altura das anedotas sobre Machel e os pretos em geral. Deu para os alentejanos descansarem enquanto mote.

Depois, a coisa pareceu amainar. Substituída pelo convenientemente correcto pois a malta daqui estava em modismos de esquerda. A integração foi-se dando e os rancores também se metem para dentro e podem dar lugar ao paternalismo dos lamentos pela desgraça deles. E para a frente é que se caminha. Voltaram as anedotas sobre os alentejanos.

Fiquei com a ideia (outra vez, o preconceito) que os portugueses que por lá se tinham aguentado mais os tantos que para lá tinham ido após a independência, era gente curada da maleita.

Luanda e Maputo pareceram-me, em primeiras impressões, confirmar a suposição. Havia contenção, regras definidas de comportamento perante a soberania, jogos de equilíbrio com os poderes estabelecidos (formais e informais), unificação centrada na preocupação securitária que implicava contenção na ostentação. Os espaços estavam delimitados e as transgressões da diferença eram cuidadosamente definidos (sobretudo em termos de lazer e de sexo) e eram sabiamente tecidos em vasos comunicantes com as novas burguesias africanas. Desde que as comunidades lusas (melhor, os sub-grupos delas com que contactei e que pertenciam todos à área de intervenção empresarial) não perturbassem os comportamentos dos poderosos locais, estes toleravam os luxos do prazer aos "antigos opressores". A lagosta, o caranguejo e as catorzinhas chegavam para todos. O Polana, em Maputo, era disso exemplo. Como os restaurantes da ilha de Luanda. E os night clubs, sobretudo os night clubs, must da pluriracialidade. Porém, quando estes grupos se recolhiam entre os seus, um racismo ténue, quase silencioso, mais ciciado que expresso, aflorava na forma como se situava o Outro. Servia como justificação redentora da missão numa terra em que muito falta e os riscos são permanentes. Aqueles “pés de meia” arrecadados quase que eram sublimados num espírito de missão de salvar os africanos de desgraças ainda maiores. Mas como era nas capitais que estavam os poderes africanos, a bola deslizava junto à relva. Nada que não se suportasse.

Nas minhas missões profissionais, fazia-me confusão que uma empresa portuguesa tivesse tão poucas relações comerciais com outras empresas portuguesas por ali espalhadas. Achava um desconchavo, concorrendo-se com multinacionais, que o factor de nacionalidade não incentivasse a permuta e a unidade económica. Assim faziam os holandeses, os belgas, os franceses e os italianos. Porque razão, um empresário português havia de preferir produtos similares, em qualidade e preço, de outras origens? O silêncio da resposta deu-me a ideia de desleixo e falta de agressividade comercial. E o crescimento estava ali à mão de semear. O brio pátrio havia de servir para alguma coisa. Empurrei a coisa. Vamos a isso, oferecendo o corpo para o manifesto, tanto mais que aquilo me parecia um ovo de Colombo.

Num périplo pelo Moçambique interior, no triângulo Chimoio-Beira-Tete, bati com a equipa moçambicana (um branco e um preto, ambos lá nascidos e bons conhecedores do mercado) às portas dos pequenos e médios empresários portugueses espalhados a construírem o seu pecúlio (madeireiros, transportistas, da pecuária e da manutenção). Apresentado como “metropolitano”, não me foi difícil ir inchando a carteira de clientes com o argumento dos laços pátrios. Mesuras não faltaram para o português de gema ali aparecido. Entretanto, verificava o acanhamento dos meus colegas moçambicanos. Estão envergonhados pelo trabalho não feito, pensei eu. A ensaboadela foi dada, mais incentivo para que a via fosse desbravada.

Passado um ano, em novo regresso, o negócio não só não tinha progredido como voltado quase à estaca zero. Chateei-me a valer. Voltei a meter-me a caminho, reproduzindo os passos dados um ano atrás. Fiquei mais na expectativa, deixando correr o marfim do relacionamento comercial entre os meus colegas moçambicanos e a clientela lusa. Para ver se percebia o que estava a falhar. Assisti a descargas de racismo violento em que parecia que Moçambique tinha voltado à pior fase colonial. O colega moçambicano branco calava-se, o colega moçambicano negro tremia e escondia os olhos, sobrando para mim meter os desaforos nos eixos. Situação que não há negócio que aguente. Os meus colegas moçambicanos perguntaram-me se já tinha percebido. Disse que sim, com um enorme vergonha de ser português. Em Maputo e em Luanda, é mais fácil disfarçar. Em Lisboa, ainda mais. Pelo menos, por enquanto.

Nota: Trata-se de uma mera experiência pessoal e localizada no tempo (entre 4 a 2 anos atrás). Não pretendi generalizar nem a dou como actual. Admito que haverá excepções ou até que, muito simplesmente, tive o azar de tropeçar nelas. O que aqui fica dito deve entender-se apenas como um testemunho de vivência particular e localizada no tempo.
publicado por João Tunes às 23:23
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2 comentários:
De free roulette for the mac a 8 de Maio de 2005 às 04:44

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De rui a 13 de Julho de 2004 às 15:50
O racismo, venha ele de onde vier, é muito feio. Estou cansado de o encontrar entre todas as comunidades e muito farto dele. E falando de preconceitos e racismo, quantos e quanto não existe entre nós (Portugal)? É só estar atento. Aliás como em toda a parte onde houver diferenças de cor, de cultura, de riqueza. Dizia Samora: "abaixo o racismo!". Bem se esforçou, mas penso que não conseguiu o que pretendia.
Abraço.


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