Quarta-feira, 14 de Julho de 2004

NERUDA, POIS, NERUDA...

vergonha.jpg

Não fui capaz de celebrar o centenário do nascimento de Pablo Neruda. E baldei-me a explicar o esquecimento que foi intencional e militante. Tentei que a coisa passasse, assim como uma distracção, ou justificada, sem necessidade de explicação, por acidental falta de tempo.

Mas há cobardias que doem. Quase todas, afinal. E ficam a remoer. Foi pior quando vi estender-se o guardanapo da blogo-efemerização nerudiana. E cada vez mais me encolhi para não estragar a festa quase unanimista. Se quisesse ser um pária, não me metia onde me meti. Aqui, na blogosfera lusitana. E eu, como o Guterres, gosto que gostem de mim. Quando vejo convicções fortes com bandeiras desfraldadas ao vento, não gosto de as arrancar, prefiro passar ao largo e desviar-me a fingir que vou à papelaria comprar tabaco. Às vezes. Outras não. Não sou um constante da coragem, é o que é. E, quanto a cobardias, também nem por isso. É o que dizem. Sou um meias-tintas. Pois que seja. Aliás, quando passo pelas gentes do meu bairro, malta valente e decidida, tipo “pão pão, queijo queijo”, eu bem oiço resmungarem-me nas costas: “lá vai o vizinho meia-tijela, o gajo é mas é um centrista, ataca a esquerda pela direita e a direita pela esquerda”. E eu engulo em seco, não me viro, arrasto o carrego da vergonha, deslizando pelas ruas. Vocês não imaginam o que é ser-se centrista (ou ter fama disso) aqui na Margem Sul. A malta de lutas quer definições claras, direita ou esquerda, mais nada. Mas o problema não é esse das direitas, esquerdas e centro. Pondo as coisas em pratos limpos, o que sou é um preguiçoso com défice de alinhamento e vivendo à pala do PEC ideológico.

Eis senão quando um centrista inatacável, dizendo-se liberal à moda antiga, por estatuto adquirido pela sua estética e pela sua frontalidade, recorrendo à ajuda do velho Borges, disse aquilo que eu não tive coragem para dizer. Fiquei aliviado. Tanto mais que, dito por ele, poucos se atreverão a ir-lhe à pedra. Porque o FJV pode dizer mal do Neruda. Deste e do mais que lhe aprouver. Garanto mesmo que se o FJV tivesse o mau gosto de trocar os passeios ao Brasil por visitas lumpen ao meu bairro, esta malta valente não tinha a ousadia de lhe rosnar nas costas. Com tal estatuto, também eu era um Pai Coragem aqui do bairro na Margem Sul.

Mas o que interessa é que ganhei coragem com esta boleia e aproveito. Vamos a isso. E digo porque não celebrei Neruda. É muito simples: ainda estão muito frescos os ecos da poesia de Sophia e eu não os quis sujar. Dizendo, por outras palavras, pareceu-me obsceno misturar a liberdade azul de Sophia com o eco de Estaline vindo de dentro de Neruda. Batam-me se quiserem, estou preparado para apanhar com as bordoadas poupadas ao FJV. Paciência. É que eu gosto que gostem de mim mas sei bem que nasci para sofrer.
publicado por João Tunes às 18:46
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5 comentários:
De Joo a 19 de Julho de 2004 às 11:11
O Werewolf, no Acuso, tem lá uma amostra. Recomendo visita. Quanto ao mais, tudo bem, estou de acordo com todos e comigo também. Eu só quis por uma pedrinha de sal no meio do chantily.


De Manuel Correia a 18 de Julho de 2004 às 02:49
Gostos são gostos. Também se discutem, ao contrário do que reza o chavão, mas só dá resultado discuti-los desde que haja abertura e vontade. Quanto à gestão da memória e do esquecimento dos criadores, o assunto parece-me outro. Por exemplo: não celebrar Picasso, porque, tal como Neruda, participou no Movimento Mundial da Paz, e glorificou Staline; ou porque, durante a ocupação Nazi, continuou em Paris, a pintar... Compreendo que não se goste. Não percebo que se exalte a omissão. Por mim, acho melhor não esquecer que praticamente todos têm muito de anjo e outro tanto de demónio.


De Fernando a 18 de Julho de 2004 às 00:04
Caro João, o FJV não disse mal do Neruda. Até lhe reconheceu momentos de puro génio. Se bem que eu reconheça que alguma da sua poesia "não lhe saiu lá muito bem", não posso deixar de achar que o homem foi uma figura importante nas letras do século XX. É claro que a paixão estalinista não abona a seu favor, mas isso é fácil de dizer hoje, muito anos volvidos. Creio que se Neruda ainda fosse vivo reconheceria o erro em que laborou. Só mais uma coisa: não creio que se consiga de alguma forma sujar os ecos da poesia de Sophia. Nem a evocação do poeta Neruda o conseguiria.


De Werewolf a 15 de Julho de 2004 às 00:21
Bravo, também li esse post do FJV, confesso que desconhecia a faceta estalinista de Neruda, mas também vivendo na época em que viveu, e não teve tempo para viver outra, não é de estranhar.

Curiosamente, mesmo sem lhe conhecer a faceta descrita anteriormente, não sou grande fã de Neruda, hesitei bastante em fazer um destaque especial ao acontecimento. Coloquei dois ou três poemas sem critério claro, e foi tudo. Como tenho este péssimo feitio de não esconder os meus erros, lá continua o post. Sem entusiasmo.
Abraço.


De Anjo lico a 15 de Julho de 2004 às 00:09
Parabéns pelo post! na verdade lembrei-me também de esquecer...


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