Segunda-feira, 26 de Julho de 2004

POR MANTORRAS

mantorras.jpg

Estava um calor dos diabos, o corpo teimava em não se mexer para não suar mais, Depois, sobretudo por causa deste depois, não me atraem jogos a feijões, começando com uma equipa e acabando com outra, todos a rasparem a ferrugem em público. Por estas estivais razões é que não estive para me meter na carripana a ferver e rumar ao Estádio da Luz ver o jogo faz-de-conta com o Real Madrid.

Vi o jogo na televisão e foi o costume, talvez menos péssimo que aquilo que previa.

Só lamentei a minha preguiça e resistência, quando Pedro Mantorras entrou em campo. Porque gostava de ter lá estado, nesse breve momento apenas, para partilhar o carinho com que ele foi tratado e tanto merece. Não está em forma, vê-se. E, pior do que isso, há ali vontade a mais de recuperar da lesão que lhe apagou a estrela e alguma vergonha que ele quer resgatar pelo lamentável incidente com o passaporte (e de que ele deve pagar as consequências previstas na lei).

Sei bem que a minha ternura por Mantorras está contaminada pela cor da camisola que ele veste. Que seja porque o será e adianto já a confissão. Mas jogasse Mantorras por outro clube, rival que fosse, o mais assanhado até, e não deixaria de ter em conta as circunstâncias e não me apressaria a transgredir princípios do tratamento de uma pessoa para alimentar rivalidades tacanhas.

Pelo estatuto, pelos cachets, pelo palco do espectáculo, os artistas do futebol estão sujeitos a passarem pelos crivos dos preconceitos, de todos os preconceitos. São amados, odiados, invejados. Tudo na fornalha do etéreo das paixões. O seu estatuto de heróis, cobra-lhes um preço elevadíssimo. Faz parte do ofício.

A um bem falante, bem parecido, bem posto, lusitano de raça pura, muitas vezes emparceirado com uma modelo de boa figura, admite-se o alto lugar da notoriedade e dos rendimentos. No mínimo, protesta-se pelo muito que ganham mas lá se vai passando à frente porque é “um dos nossos”. Até porque não nos importaríamos de estar no seu lugar.

As favas são pagas pelos que estão no alto estatuto e podemos contra ele projectar as nossas convencidas superioridades. Esses pagam por eles e por aqueles que não conseguimos rejeitar. Neste campo, os alvos preferenciais são os atletas de origem africana. Ainda me ecoam aos ouvidos a indignidade dos sons macacais com que se mimoseiam (em todos os clubes!) os artistas negros de clubes rivais quando progridem direitos à “nossa baliza”. Eusébio, mesmo Eusébio, não escapa ainda hoje à pornografia racista (o seu “marisco preferido” será sempre uma memória revivida da nossa vergonha). Mantorras, com a história do passaporte, estava mesmo na calha para os ditirambos do tiro fácil. E não escapou à graçola pistoleira. Só por brincadeira, é claro. Sem ofensa, por quem sois. Porque o racismo, como todas as pestes, enquanto não é doutrina oficializada e não enche comícios, prefere manifestar-se pelo disfarce da inocência do macaquinho que brincava com a mãe.

Pois, gostava de ter lá estado para ajudar a vingar com um pouco de ternura o artista Mantorras. Fica para a próxima. Desta vez, o melhor que consegui foi apagar um post sobre ele e que trouxe para aqui lixo que o Mantorras não merecia. Por ele e porque o lixo não merece troco nem chão para pousar os pés. E escusam de insistir porque não os deixo aqui ficarem muito tempo.

Mas a minha estima por Mantorras não devia ficar calada. Até porque lhe queria dizer apenas: marca golos e cala essa gajada.
publicado por João Tunes às 13:28
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