Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA- GUERRA CIVIL (11)

Espanha11.JPG

OS APOIOS INTERNOS

Durante a guerra civil, a população de Espanha rondaria os vinte e cinco milhões. Cerca de três milhões de espanhóis pegaram em armas e combateram, de um ou do outro lado. Aos espanhóis combatentes, haverá a adicionar cerca de meio milhão de estrangeiros que se juntaram aos dois lados da contenda. No terreno, ficou um milhão de mortos, muitos mais feridos e estropiados e dezenas de milhares restariam prisioneiros de Franco, a maioria em regime de trabalho forçado, por longas décadas. Juntando a destruição material e social, a violência da integração ideológica na “Nova Espanha”, a perda dos bascos, galegos e catalães do direito a usarem as suas línguas e afirmarem as suas culturas, os traumas do medo perante a revanche, o “pagamento” da ajuda nazi pelo envio da Divisão Azul para combater por Hitler na invasão da União Soviética, o comprometimento de grande número das riquezas naturais espanholas para pagar as “dívidas de guerra”, podemos ter uma ideia de como as sequelas desta guerra foram terríveis sobre os povos de Espanha. E, muito lentamente, só a partir de 1975, a guerra pode começar a ser falada entre espanhóis sem a obrigatoriedade de afinar pela afirmação do vencedor. E, para que isso vá sendo possível, há que ir, passo por passo, ainda hoje, atravessando a cortina do “pacto de silêncio” assumido após o regresso da democracia.

Esta enorme violência tinha necessariamente que ser suportada em fés muitos fortes, próximas do fanatismo, mobilizadas através de intensas propagandas, assentes em concepções em que o que estava em causa era essencial para a sobrevivência de Espanha, dos espanhóis e do mundo.

No entanto, tudo começou num golpe militar que pretendia ser fulminante, apoderando-se dos quartéis, fechando as instituições democráticas, ilegalizando partidos de centro e de esquerda, entregando o poder às forças de direita numa nova versão da anterior “ditadura de Primo de Rivera”. Não foi assim, porque muitas das maiores unidades militares não foram sublevadas e porque o assalto a Madrid, pelo sul e pelo norte, foi um fiasco. No entanto, a poderosa ajuda estrangeira a Franco permitiu-lhe ter tido quase sempre a iniciativa do avanço territorial em posições de conquista. Franco precisou de três anos para consumar aquilo que era para ser um “pronunciamento relâmpago” mas conseguiu-o. Ganhou. Os golpistas, sublevados em meados de Julho de 1936, em final de Abril de 1939 entravam em Madrid (e, quase em simultâneo, em Valência) - o último bastião republicano. A capital de Espanha guarda, assim, a honra de ter sido a última cidade a cair nas mãos dos golpistas saídos de África, resistindo até mais não poder na defesa da legalidade democrática.

O golpe nasceu de uma conspiração entre militares anti-democratas e forças civis (sobretudo: a Falange, tipicamente fascista; os Requétés, monárquicos carlistas; os direitistas da CEDA; a maioria do corpo clerical católico). Toda esta amálgama forjou a sua aliança, perante a vitória da Frente Popular (aliança entre republicanos, nacionalistas, socialistas, comunistas) em Fevereiro de 1936 e a agudização das lutas de classes e política, que se seguiu – ondas grevistas, ocupação de terras, nacionalização de empresas, ajustes de contas com a Igreja Católica, a qual representava a face mais omnipotente da opressão obscurantistas. Nesta enxurrada, abusos foram cometidos, avultando os dirigidos contra o clero, a face mais detestada e mais indefesa da opressão secular contra os trabalhadores e os liberais espanhóis. E, nos actos de desvario, tiveram um papel importante os anarquistas (fortes em Espanha, ao nível político e sindical) que radicalizaram o mais possível a situação social, apesar de não terem feito parte do Frente Popular nem nela terem recomendado o voto.

Os estereótipos da propaganda e das mobilizações populares à volta dos dois bandos em combate, foram de um maniqueísmo e simplismo radicais. Pelo lado de Franco, a acção dos combatentes era caracterizada como de Cruzada, defendendo-se a Espanha, a Igreja Católica e a Família contra o comunismo e a barbárie. Do lado republicano, afirmava-se defender a democracia e a liberdade, contra o fascismo interno e internacional, o obscurantismo clerical e as famílias mais ricas.

E se Franco foi o grande Chefe e vencedor, saindo da guerra com um poder absoluto que conservaria até morrer, quarenta anos mais tarde, no início do golpe esteve longe de ser um movimento que o tivesse como chefe. O chefe nominal, honorífico, do golpe era um general exilado em Portugal por anteriores participações golpistas – Sanjurjo. Calhou que o avião que o levava de Portugal para Espanha para tomar conta do lugar de Chefe do Golpe, caiu ao levantar. Morto Sanjurjo, o chefe ficou a ser o general Cabanellas que, ainda tendo exercido o lugar de Chefe da Junta Militar, também iria falecer dentro de pouco tempo. Restaram dois chefes destacados e rivais – os generais Mola e Franco (um implantado na zona norte, outro na zona sul). Até que Mola foi vítima de um acidente aéreo e Franco restou como chefe incontestado por exclusão de alternativas, afirmando-se então e de imediato como Caudillo e Generalíssimo. Ele, que durante a preparação do golpe, foi dos últimos a aderir a ele, hesitando até praticamente o último momento dos preparativos.

Para além de condutor militar, Franco, galego manhoso, sem carisma mas cruel, determinado e pérfido, decidiu a questão política do apoio e sustentação política. Havia, primeiro, que descaracterizar as forças políticas direitistas que apoiaram o golpe. A Falange era o principal problema, até porque, com o início da guerra, tinha incorporado milhares de milicianos violentos e organizados, segundo a cartilha fascista pura e dura. Os republicanos, ao aprisionarem (mais tarde, seria fuzilado) o Chefe da Falange (José António), facilitaram-lhe a vida. Assim, tudo se tornou mais fácil, os Chefes mais duros e genuínos falanguistas foram presos, a Falange foi fundida com a Comunión Tradicionalista (monárquicos carlistas), o Exército e a Igreja Católica (com o apoio entusiasta do Vaticano), ficaram com a tarefa de enformar, através da religião católica, a ideologia do regime ascendente, as milícias foram integradas na estrutura militar. O resultado foi um regime de cariz clerical-fascista (idêntico ao que ocorreria na Hungria, na Eslováquia e na Croácia) sob controlo do Exército.

Do lado republicano, as contradições na enorme diversidade de forças políticas da Frente Popular, foram uma constante. Os anarquistas tinham uma forte implantação na Catalunha, em Leão, na Andaluzia e na Extremadura e aí procuraram que o esforço de guerra fosse acompanhado da radicalização da revolução social. No País Basco, os interesses locais sempre estiveram em primazia relativamente aos interesses de toda a Espanha. Os republicanos burgueses foram perdendo a importância. Os socialistas do PSOE sempre viveram em lutas fraccionárias (com uma ala Pietro à direita, Caballero ao centro, Negrín à esquerda). Os comunistas, de pouca importância inicial, foram-se afirmando, sobretudo pela maior capacidade de organização e de disciplina nas forças militares de combate e pelo peso quase isolado do apoio da URSS ao lado republicano.

Significativo da polarização política nos dois lados, foi que, enquanto a motivação no Exército de Franco, era função dos capelães militares que procuravam dar uma dimensão e motivação religiosa ao combate, do lado republicano esse papel foi desempenhado pelos comissários políticos, normalmente comunistas, que arrastavam para o combate através do exemplo e da doutrinação marxista. Curiosamente, do lado republicano (excepto no País Basco, em que a maioria dos religiosos combateu contra Franco), só restou um capelão católico que, pelos vistos, terá sido tão competente no seu mister que, no fim da guerra e feito prisioneiro por Franco, imediatamente foi fuzilado.

(na imagem, um cartaz hitleriano enaltecendo a figura do amigo e aliado Franco)
publicado por João Tunes às 16:24
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