Sexta-feira, 30 de Julho de 2004

ABRAÇO AO TROVADOR

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Da sua voz vem-me a melodia de uma das vozes mais bonitas de Portugal, entrando noite dentro e iludindo o limite dos afazeres dos pides, exagerando as nossas lutas para nos dar a confiança de que o fascismo estava quase a acabar.
(a merda estava na manhã seguinte quando constatávamos que o bom povo português não seguia as consignas da Rádio Voz da Liberdade)

Da sua poesia, vêm-me as páginas mais conseguidas do romantismo tardio e que nos faz a ponte com Camões, atravessando barricadas, polícias de choque e o atrevimento de fazer amor com carácter de urgência como outro poeta cantou.
(a merda estava nas lágrimas de raiva que se tinham de secar ao tentar escutar, vezes a mais, o vento que não passava, apesar das trovas)

Da sua prosa poética fica-me um capítulo de Rafael onde ele disse tudo sobre a guerra colonial.
(a merda foi que passei por parecido e talvez só por isso tenha percebido tudo o que o seu talento lhe fez contar e que nunca devia ser contado por nunca dever ter acontecido)

Do seu tempo de governante soarista não esqueço que ele foi o sacana do poeta que matou o jornal O Século.
(a merda é que, depois disso, passei a gostar mais de jornais que de poetas e assim se me estragou o gosto)

Do seu rosto nobre, frontal e belo vem-me o meu e o seu tempo de ideias e ideais que não têm lugar para se sentar desde que o guterrismo os afogou dentro de uma pia de água benta.
(a merda é que Sócrates, que vai ganhar, não passa de um Guterres cínico)

Da sua candidatura que o recoloca como o Quixote da esquerda romântica, fica-me a ternura pelo seu sacrifício narcisista e congregador da idiotice de esquerda retro que lhe espetou com o slogan de mais igualdade, essa negação semântica.
(a merda é este desajuste no tempo, nas exigências, na radicalidade ética, no romantismo generoso da desforra, no sonho do primado do ser e do saber sobre o ter, na utopia de pensar amanhã, no amor a velhos e a crianças que não se usa, quando as altas cavalarias são para os aparelhos que enchem as cavalariças dos partidos)

Nunca desejei pertencer ao PS. Mas gostaria de ser militante do PS no breve minuto em que nele votasse. Para, mais uma vez, como lhe vai acontecer a ele, perder com o sabor romântico de esquerda, e depois ir comemorar mais uma derrota e uma resistência, com um cálice de Porto e um poema dele ou de Sophia, ouvindo Paredes, para continuarmos a acreditar nos valores da esquerda perdida e arredada.
(a merda é que Sócrates não é homem para Santana, porque é menos do quase mesmo, e assim nem sequer se poderá fazer o brinde de glória aos vencedores, restando o travo da honra dos vencidos)

Adendas:

Primeira: Se quiserem traduzir este arrazoado sentimental em escrita directa, economizando tempo e paciência, leiam o que diz este deputado (independente) do PS.

Segunda: Simplesmente magistral, ao correr da pena, o exercício de argúcia sobre a dicotomia direita/esquerda feita pelo Jumento.
publicado por João Tunes às 00:22
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3 comentários:
De Joo a 2 de Agosto de 2004 às 17:25
A esperança é a última coisa a dever morrer...


De ICNEVES a 30 de Julho de 2004 às 14:35
No desencanto em que vivemos, no Portugal do Séc.XXI, é reconfortante que ainda haja Trovadores que correm atrás de sonhos...
Mas na política de hoje não há lugar para cavalheiros, para Homens honestos (assim mesmo, com maiúsculas)!
Seres canibalescos, ambiciosos e pouco competentes proliferam como bactérias alimentando-se de nós.
Definitivamente o Poeta não é deste filme!


De Jumento a 30 de Julho de 2004 às 11:09
Parabéns


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