Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GEURRA CIVIL (10)

Espanha10.JPG

AS BRIGADAS INTERNACIONAIS

O que fez que homens de todos os continentes corressem para Espanha combater contra Franco e o nazi-fascismo, sabendo que muito provável era que essa viagem não tivesse retorno? Boa pergunta, a merecer, quase certo, umas tantas respostas. Mas, num mundo a aproximar-se da luta entre os extremos, em que tudo se ia dissolvendo para deixar passar o ódio político, o ódio ideológico e o ódio de classe, talvez morrer em Espanha fosse pouco menos que uma eutanásia política e social. Ou então antecipar o gosto por uma vitória. De qualquer modo, em Espanha morria-se a disparar. Talvez, no “antes isso”, esteja a grande motivação heróica e fraternal dos homens das Brigadas Internacionais.

Os “internacionais” foram, para o bem e para o mal, um alento fundamental para a resistência da República Espanhola contra os generais golpistas e os seus aliados nazi-fascistas. Se Madrid e Guadajara não caíram logo em 1937 (e se caíssem então, Franco ganhava em poucos meses), muito se deve aos “internacionais”. As suas famílias não estavam ali, nem os amigos, aquela não era a sua terra, estavam por um ideal e um objectivo, arma na mão, combateram bem porque estavam ali apenas para combater. E, neste aspecto, deram aos combatentes espanhóis pela República (que ali tinham a terra, a família e os amigos) um alento guerreiro, agressivo e disciplinado, que foi fundamental para conter, enquanto foi possível, as hordas de Franco.

Claro que a ida dos “internacionais” para Espanha não foi inocente nem se deveu a qualquer congregação de vontades, espontânea e livremente confluídas. A ordem veio de Estaline, a máquina foi o Komintern, a mobilização foi dos comunistas, como comunista era a maioria esmagadora dos seus membros. E tanto assim foi que, ainda a Batalha do Ebro não acabara, já as Brigadas Internacionais recebiam ordem de saída de Espanha, porque Estaline já congeminava ou preparava o próximo pacto com Hitler.

Os “internacionais” combateram em Espanha e combateram bem. Tão bem que puxaram pela valentia dos espanhóis que não lhes queriam ficar atrás (de um e do outro lado). Obviamente tiveram os seus episódios de cobardia, de indisciplina e de pânico. E os “pontos negros” na forma dura e cruel como a disciplina lhes era imposta pelos emissários de Estaline (o emissário-chefe, o psicopata André Marty -francês e dirigente do PCF -, conhecido como o “carniceiro de Albacete” – cidade sede e quartel das Brigadas Internacionais -, gabou-se de ter assassinado 500 brigadistas para punir actos de “indisciplina”). Mas, no conjunto, o comportamento dos “internacionais” andou quase sempre na pauta da combatividade e do heroísmo.

Na Guerra Civil de Espanha, terão combatido, ao lado da República, cerca de 50.000 brigadistas. Destes, 10.000 tombaram mortos no chão de Espanha. Provieram de todo o mundo: 26% de França; 9,1% da Polónia; 8,6% da Itália (antifascistas); 7,25% da Alemanha (antifascistas); 6,52% dos Estados Unidos; 5,9% da Inglaterra; 5,2% da Bélgica; 5,1% da Checoslováquia; 3,6% da Hungria; 2,54% da Jugoslávia; 2,5% da Áustria; 1,7% da Holanda; 1,4% do Canadá; 1,25% da Bulgária; 1,13% da Roménia; 1,0% da Suécia. E ainda houve outros pequenos contributos de outros países – Abissínia, Albânia, Andorra, Argélia, Argentina, Austrália, Bolívia, Brasil, Chile, Cuba, Dinamarca, Equador, Estónia, Filipinas, Finlândia, Grécia, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Indochina, Irlanda, Islândia, Israel (diáspora), Jamaica, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Marrocos, México, Mongólia, Montenegro, Nicarágua, Noruega, Paraguai, Peru, Portugal, Porto Rico, San Marino, República Dominicana, Síria, Tanger, Turquestão, Turquia, Ucrânia, África do Sul, URSS, Uruguai e Venezuela.

Quando os sobreviventes foram despachados de volta, em cerimónias emocionais e de propaganda, no final de 1938, os dignatários da República prometeram-lhes o regresso a Espanha e o direito a terem nacionalidade espanhola, tamanhos tinham sido os seus contributos para a causa da Espanha livre.

No regresso às suas terras, os que puderam regressar a elas (os italianos, os húngaros, os portugueses, os polacos e os alemães, pelo menos, não o podiam fazer), não os esperava nem festa nem consagração, na maior parte dos casos. Os brigadistas americanos, haveriam de penar na “caça às bruxas” de McCarthy. Os franceses, rapidamente tiveram Vichy e Gestapo no caminho. A maioria dos soviéticos e dos que se exilaram na URSS, tinham Lubianka à espera. E a cidadania espanhola bem podia esperar pois Franco aguentou-se quarenta anos no poder absoluto, sem nunca perdoar aos vencidos.

No último governo do PSOE antes de Aznar, as Cortes Espanholas (quase por unanimidade, incluindo o voto favorável do PP) cumpriram a promessa de doar a cidadania espanhola aos sobreviventes das Brigadas Internacionais, a maioria na faixa entre os oitenta e os noventa anos de idade. Lá foram em 1996, aqueles anciãos que tinham deixado a pele e a juventude a combater em Espanha contra o fascismo. Mas, entretanto, Aznar ganhara as eleições e iniciava-se o ciclo político à direita. Por lá andaram, primeiro alegres (como um velho o pode ser) com o seu novo cartão de cidadania espanhola, visitaram as campas dos seus dez mil companheiros mortos, percorreram os velhos campos de batalha, mas não foram recebidos nem pelo Governo, nem pelas Cortes, nem pelo Rei. O novo governo direitista, cheio de franquistas velhos e novos, que antes, nas Cortes, não tivera coragem de votar não, virou-lhes agora as costas. Assim como o Rei Juan Carlos, a última e talvez a mais duradoura herança de Franco. No final, ninguém apareceu para lhes pagar a conta do hotel onde repousaram os achaques. Valeu-lhes Anguita e o PCE, o herdeiro do velho Komintern, como se a história voltasse a ser a mesma dos anos da guerra. Saíram de Espanha, mais velhos e mais desiludidos. Resta-lhes a fatalidade de não terem muito tempo para amargurar a sua desilusão.

(na foto, um combatente pela República dá a vida contra o fascismo)
publicado por João Tunes às 16:26
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