Terça-feira, 3 de Agosto de 2004

VIVENDO DOS MALES DO PS

Poder.jpg

Não há dúvidas que as debilidades do PS estão à vista de todos. Bem escancaradas. A descaracterização ideológica e de projecto vem de longe. O guterrismo deu-lhe uma facada de social-cristianismo de embevecimento pelo poder de que ainda não se recompôs. A guinada ferrista foi mais arremedo emocional que substância. A conspurcação dos barões autárquicos está para durar sem lavagem à vista, a falta de líderes de um novo grande impulso é mais que evidente. A roupa suja usa-se por ali mais que a limpinha. É uma espécie de Partido à espera da catarse. E isso consegue-se com carisma que não encontro em qualquer dos putativos sucessores na Secretaria Geral.

Mas não há dúvida que a tradição republicana do PS (para o bem e para o mal) está viva e recomenda-se. Muitos tenderão a valorizar negativamente a exposição das mazelas reveladas na disputa. E reprovarão o espectáculo das fracturas e das quezílias, umas vezes palacianas, outras de faca na liga. Queira-se ou não, a esquerda plural está ali. Exposta. Resistente. Na grandeza das suas pequenas misérias. Podemos espreitá-las e tomar partido. Mesmo não pertencendo à casa nem sequer à família. Podendo não gostar de nenhum, gostar de todos ou tomar partido por razões nada sólidas.

E à volta, na outra esquerda, o que temos? Tudo arrumadinho nos conformes. Disciplina, mesmo nos mais plurais de emblema. Centralismo democrático lá pelo meio. A paz das santidades na esquerda das revoluções em stand-by. Obedecendo, por obedecer, ao politburo que enquadra Carvalhas; olhares em alvo com as tiradas inteligentes e cortantes de Louçã, mais a leveza de se ser bloquista entre duas imperiais fresquinhas.

Sem este PS, não íamos a lado nenhum, essa é que é essa. Toda a esquerda precisa deste PS, naquele próprio estado, para existir na crítica e no repúdio ao raio daquele partido. Os males do PS são a razão impura que prolonga a nossa esquerda preguiçosa e fácil, porque de hábitos e simetrias se alimenta.
publicado por João Tunes às 12:52
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4 comentários:
De Joo a 3 de Agosto de 2004 às 18:01
Abraço retribuído, é claro!


De o uno e o multiplo a 3 de Agosto de 2004 às 17:36
Amigo João, continuará como entender, mais ou menos reformista, naturalmente. Só não compreendo (ou melhor, compreendo) a relutância em equacionar a importância que o seu lema de vida possui ("um homem, um voto") num sistema de democracia participativa. Esse é o princípio da democracia participativa, precisamente! Com o incómodo, para muitos, da votação em questão servir para ratificar ou não determinadas opções políticas e não meramente conferir legitimade a um poder todo-o-poderoso (desculpe o pleonasmo)para que num período de 4 anos determine (dentro dos limites externamente impostos) as linhas de orientação politica nacional.
Mas longe de mim aborrecê-lo. Sabe, conheço tão bem o passado de há 30 anos como o João. E conheço igualmente bem os resquícios desse passado no nosso presente.

Abraço

o uno e o multiplo



De Joo a 3 de Agosto de 2004 às 15:39
Obrigado pela achega do ponto de vista da esquerda não partidária, não eleitoral e não alinhada. Mas eu cá vou continuar a "chover no molhado" porque de reformista já não passo. Talvez por não ser político, apenas homem de fé no princípio "um homem, um voto". Mudem lá o regime mas, pessoa de hábitos e teimosias como sou, sempre quero ver se posso continuar com este modeso e inofensivo blogue quando vocês "democratizarem a democracia" para eu voltar à velha molenga de exigir eleições e a legitimidade pelo voto. Porque ainda não estou esquecido como é que isso se faz de tantas vezes que o fiz no antes de trinta anos lá para trás.


De o uno e o multiplo a 3 de Agosto de 2004 às 13:26
Reduzir a esquerda a determinadas forças partidárias, sejam elas quais forem, é escamotear a nova realidade política que a globalização neo-liberal nos trouxe; a esquerda não se encontra já no interior dos partidos políticos - estes estabeleceram um pacto de comprometimento com o regime que coloca o próprio estado fora de quaisquer possibilidades governativas verdadeiramente alternativas. O centro de decisão política (no que respeita ao fundamental da política económica e social) não está já no interior dos estados nacionais...é decidido pela O.M.C, pelo FMI, pelo G8, etc... Aos governos nacionais compete-lhes a gestão doméstica de tais decisões! Por isso o eleitorado se sente confuso; é que, na verdade, seja o governo do PS seja o governo do PSD, a diferença nas opções políticas domésticas não são, em substância, diferentes.
Continuar a defender um ponto de vista eleitoralista não é um comportamento de "esquerda"; defender esse ponto de vista eleitoralista é defender a gestão do estado das coisas e logo, defender as políticas neo-liberais e supra-nacionais em curso.
No fundo, o que de melhor se poderá esperar de um PS mais "à esquerda", como de um bloco mais interveniente é apenas uma ténue moralização do sistema, uma política externa mais alinhada com a europeia, mas cujas diferenças no fim de contas serão muito pouco produtivas.
A questão central que hoje a esquerda europeia e americana não-alinhada hoje discute é a alternativa ao regime. Por isso tanto se fala hoje (excepto em portugal, está claro) em democratiozar a democracia, na participação directa dos cidadãos, em democracia e economia participativa.
Nem vale a pena continuar a chover no molhado.


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