Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GUERRA CIVIL (9)

Espanha9.JPG

O APOIO DE ESTALINE À REPÚBLICA

A URSS teve um papel decisivo na capacidade da República Espanhola responder ao pronunciamento militar apoiado pela Alemanha (nazi) e pela Itália (fascista). Mas é igualmente um facto que a polarização do apoio soviético à República se deveu antes do mais ao lavar de mãos das democracias inglesa e francesa (particularmente chocante neste último caso, em que o governo era de Frente Popular). Antes de recorrerem à URSS, os governantes espanhóis tudo fizeram para que franceses e ingleses contivessem o apoio de Hitler e Mussolini aos golpistas. Só o longínquo México apoiou o governo de Madrid, enquanto os franceses deram algum pequeno apoio inicial, rapidamente suspenso, e os ingleses nem isso.

Como se pode dizer que, sem o apoio alemão e italiano, o golpe seria contido em dias, igualmente é verídico que, sem o apoio soviético, os golpistas apoderar-se-iam do poder em poucas semanas. Ou seja, visto de um e outro lado, houve guerra civil em Espanha, e prolongada, porque houve apoios e intervenções estrangeiras. Mas é bom que se sublinhe que, enquanto a intervenção alemã e italiana se verificaram com o início do golpe, desde logo possibilitando a ponte naval e aérea que transportou as tropas marroquinas para a península (até antes do golpe, se contarmos que foi um avião nazi-fascista que levou Franco das Canárias para Marrocos para dar início ao pronunciamento).

Intrinsecamente, o golpe dos generais contra a legalidade democrática foi um golpe falhado, ao não conseguirem sublevar as praças fortes de Madrid, Barcelona, Lleida, Valência, Málaga, Bilbau, Gijón, San Sebastian, Santander, Badajoz, Tarragona, Girona, Alicante e Cáceres, bem como os marinheiros terem contido, através de amotinações, as sublevações dos comandos na maioria dos navios de guerra e dos submarinos. Se o golpe fosse resolvido só entre espanhóis, a contenção do golpe seria uma questão de dias. O que permitiu o avanço dos generais golpistas foi o já mencionado apoio nazi-fascista para constituir uma bolsa de implantação das tropas marroquinas e legionárias no sul (Sevilha/Cádiz/Algeciras) e o socorro em tropas e material por parte da Alemanha e Itália e a constituição de santuários em território português.

Face ao potencial do apoio estrangeiro aos golpistas, consolidando os territórios ocupados e permitindo o seu avanço, a República, se isolada, acabaria por ter de se vergar. A República precisava pois de apoio externo para contrabalançar o apoio aos rebeldes. Aos apelos do governo espanhol, só os mexicanos e soviéticos responderam afirmativamente.

O apoio mexicano traduziu-se em diplomacia e em materiais, mas não em combatentes. O apoio soviético acabou por ser a coluna de sustentação da resistência republicana – em materiais, em homens (sobretudo pilotos aéreos, tanquistas, artilheiros e, sobretudo, conselheiros militares) e em organização, estruturando um novo modelo de Exército operacional à imagem e semelhança do Exército Vermelho. Em termos de envolvimento humano, terão combatido em Espanha, cerca de 2.100 soviéticos (número irrisório face às presenças alemã e sobretudo italiana, no outro bando) e terão sofrido 170 baixas.

Dois aspectos são salientes no apoio soviético à República Espanhola: a efectividade e boa planificação do apoio militar (sobretudo em materiais e se se tiver em conta a distância entre a URSS e Espanha), até ao desinteresse notório na fase final da guerra (quando a Batalha do Ebro ainda não tinha terminado) após a Inglaterra e a França assinarem com Hitler e Mussolini o Tratado de Munique em 1938; não ter sido este apoio gratuito mas sim através de pagamento adiantado com as reservas de ouro do Banco de Espanha.

É de referir que o envolvimento soviético em Espanha coincide com o período das grandes purgas e matança de comunistas na União Soviética. Que continuam depois de terminada a guerra em Espanha, com uma nova erupção sangrenta depois da assinatura do pacto germano-soviético em 1939 e que tornou, para o Kremlin, caduca (e mesmo suspeita) a qualidade de combatente anti-fascista. Resultado: a maioria dos combatentes soviéticos de Espanha (e a maior parte de comunistas de outros países exilados na URSS), primeiro recebidos como heróis, passaram a ser vistos com desconfiança e a sua maior parte foi fuzilada por ordens de Estaline. Ou seja, a maioria dos que não caíram no campo de batalha em Espanha, acabariam por cair encostados à parede em Lubianka. Assim, raríssimos dos destemidos combatentes soviéticos, sobraram para contar a sua experiência guerreira contra o fascismo em terras espanholas. Foram duplamente derrotados – em Espanha e na sua própria pátria. Porque Estaline nunca permitiu a Hitler que o vencesse no campeonato macabro do número de comunistas assassinados.

Naturalmente que os soviéticos estiveram metidos, e bem metidos, noutro importante apoio à República de Espanha (as Brigadas Internacionais) mas esse é outro conto que merece tratamento à parte.

(na imagem, capa de revista histórica dedicada à Batalha de Madrid)
publicado por João Tunes às 16:27
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