Quinta-feira, 5 de Agosto de 2004

PÁTRIA E MORTE

balseros4.jpg

O número de cubanos que abandonaram a sua terra e se encontram mundo fora (sobretudo nos Estados Unidos) ascende a um milhão e meio (para uma população da ilha idêntica à de Portugal). Só no ano passado, terão saído 113 mil pessoas. E muitos mais cubanos procurariam outras paragens para viverem se lhes fosse facilitada a saída de Cuba e a entrada nos Estados Unidos. Mas Cuba dificulta a saída e os Estados Unidos consideram que já tem cubanos a mais.

Além da dureza da sobrevivência para a maioria de cubanos, a liberdade de expressão não é ali permitida e muito menos a constituição e funcionamento de partidos alternativos ao Partido no poder. Cuba ostenta o título desonroso de país com maior número de prisioneiros políticos per capita.

Os cubanos sofrem de um boicote estúpido decretado pelos Estados Unidos que é o álibi principal para a propaganda de vitimização nacionalista do castrismo.

Cuba tem magníficas praias e uma indústria turística (onde recentemente rebentou um enorme escândalo de corrupção) organizada para a captação de turistas. É a tábua de sobrevivência para o regime.

O salário médio mensal é de quinze dólares. Um frango custa três; uma pasta de dentes, setenta e cinco cêntimos; um sabonete, quarenta cêntimos. O regime desenvolveu agora, por manipulação genética, uma vaca anã própria para se ter no quintal ou na varanda porque falta leite e carne de vaca (o abate e venda de carne de vaca, sem autorização estatal, é crime passível de prisão).

A prostituição de jovens cubanas atingiu níveis idênticos aos verificados durante a ditadura de Batista, quando Cuba era considerada o bordel da América.

Nas eleições em Cuba, o poder ganha com votos favoráveis que ultrapassam os noventa e sete por cento. Fidel, quando quer, mete um milhão de cubanos na Praça da Revolução em La Habana para o ouvir e aplaudir.

Há educação para todos e uma assistência médica famosa. O uso da Internet é interdito fora da utilização oficial.

E há os balseros, essa espécie única no mundo, gente que se mete numa jangada improvisada para atravessar os cento e cinquenta quilómetros até à costa da Florida num mar infestado de tubarões. Em média, um em cada quatro balseros morre no caminho. Em seis meses de 1980, foram cento e vinte e cinco mil. Há dez anos atrás, foram trinta e seis mil.

Pode acompanhar o jornalismo independente (do controlo político do regime) e clandestino de Cuba aqui.
publicado por João Tunes às 15:05
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18 comentários:
De Joo a 7 de Agosto de 2004 às 00:16
Devagarinho, ainda lá chegamos ao ponto. Já não falta muito. Pelo menos, não falta tudo. Haja Deus. Vamos lá então de fim-de-semana. Abraço.


De Bela a 6 de Agosto de 2004 às 22:11
Nunca ouviste falar na diferença abissal que frequentemente existe entre o que se diz e o que se faz? É por isso que digo que o mais chocante é exactamente o discurso ser uma coisa que não cola com a realidade. Agora, a nossa diferença está em que tu falas de Cuba pela voz dos americanos (basta ver quais são as duas organizações que suportam economicamente o Cubanet e q já referi). Ou seja: parece que tu achas que estes dizem só verdades e o Granma e outros que tais só dizem mentiras. E eu, sempre céptica, acho que a verdade andará algures entre ambos. Depois há outra coisa que me faz ter dúvidas: estive em Cuba há 5 anos numa de turismo por conta própria, ou seja nem sequer passei por Varadero. Aluguei um carro e andei por lá. É certo que foram só 15 dias. Mas dei muitas boleias e falei com muita gente - com o pobão - e devo dizer-te que as pessoas não me pareceram nada aflitas com a falta de liberdade. Claro que é uma observação muito reduzida e simplória. E também vi cubanos, sobretudo jovens, com t-shirts com a bandeira dos states, não me parecendo que andássem com medo de serem perseguidos. Agora, estou de acordo que o tipo de regime que têm está organizado de forma a perpetuar-se no poder enquanto puderem. Também não era verdade, há cinco anos, que as coisas essenciais só se comprássem com dolares. Eu própria tive de cambiar lá algum dinheiro para ir à praça comprar fruta, gelados, ou mesmo um medicamento para a picada dos insectos. O que acontece é que os sítios que só aceitam dólares têm mais variedade e produtos mais modernos para venda. Mas atenção: não vim satisfeita com o que vi e por isso acho que é hora de as coisas mudarem. Pronto. Não quero que fiques aí especado de braço abertos. Um abraço amigo.


De Joo a 6 de Agosto de 2004 às 21:39
És uma abelha esvoaçante. Então entre os "ideais" que o PC de Cuba e o seu velho SG diz defender, tb está a "liberdade"? No país com mais elevado indice per capita de prisioneiros políticos? E que tem o maior número de jornalistas em masmorras? "Justiça social"? Numa economia onde os bens essenciais se compram com dólares? "Defesa dos mais fracos"? Mas o sem-partido e os de diferente-partido? Levam com os CDR em cima! Bastará um dia, um único dia, minha cara, em que a polícia política castrista faça greve ou abstinência ao serviço, para aconteceu em Cuba o que aconteceu na Roménia - o tal milhão, o mesmo milhão, que hoje enche os comícios da Praça da Revolução, entra Palácio do Fidel dentro e limpa-lhe o sebo. E a malta dos CDR banca em nova classe capitalista em sociedade com os mafiosos de Miami. Não há aqui problemas de ideais é tão só um problema de poder. E poder absoluto que é o pior de todos os poderes. E quanto mais tarde pior. Por isso, por amor a Cuba e aos cubanos (por perceber os seus enganos que também foram os meus enganos), é que eu temo que, quanto mais tarde for a transição democrática em Cuba, pior e mais dura será a transição mafiosa (com os mesmos parasitas, hoje no Partido e amanhã nas empresas privatizadas) e maior perigo haverá de fusão entre as duas escumalhas - os anticastristas fascistas com os aparetchik do PCC. E continuam as carências, continuam as prostitutas, continuam as faltas de liberdade e de igualdade e Cuba não se liberta desse destino fatal de ser, continuar a ser, o bordel e a praia, mais a cada vez mais desvalorizada cana de açucar. Ontem, em Varadero, os ricaços americanos, hoje os da classe média baixa (mais um ou outro camarada), amanhã a classe baixa americana. E José Marti por cumprir. Se não te explicares, eu nunca te conseguirei entender. E eu insisto no Abraço mesmo que fique, feito parvo, com os braços suspensos no ar por falta de retorno.


De bela a 6 de Agosto de 2004 às 20:32
Marxismo-Leninismo? o que é isso? Já há algum tempo que descolei dessa ideologia. Quando muito, alguns aspectos do marxismo (na sua componente de análise social e não na política) ainda poderão ter alguma capacidade de análise da realidade, embora tb já se tornou insuficiente há mto tempo. Decididamente expresso mal o meu pensamento. É que, desta vez, quando me referia aos ideais, referia-me à liberdade, à justiça social, à defesa dos mais fracos, etc. e tal, que eles (cubanos) dizem defender. Quer-me é parecer que tens lido o que escrevo, com uns filtros nos olhos, porque vês sp o que eu não digo. Desta vez ainda não levas nenhum bj. As minhas desculpas aos visitantes que nos têm aturado. Verdade seja dita que ninguém os obriga a ler.


De Joo a 6 de Agosto de 2004 às 17:31
Não te desculpes com cuidado com as palavras. Elas são o que são. E elas comunicam, não inventam, quando muito podemos usá-las mal e isso acontece comigo um ror de vezes. Mas fiquei banzado (palavra!) com essa do "Quanto a Cuba, é mau o que lá se passa sobretudo porque se passa em nome de ideais que deveriam ser respeitados"! Mas esses mesmos ideais é que geraram esta Cuba! Ali, como foi na URSS, na Polónia, na China, na Roménia, na RDA, em todos os sítios onde pousaram no poder. Não houve, não há, não pode haver, um único sítio onde o m-l se implante que não dê em falta de liberdade e falta de igualdade, onde a prisão política, a repressão (mesmo e ás vezes sobretudo para com o seus iguais e irmãos de armas), não seja um meio necessário para manutenção do poder por uma "vanguarda". Respeitar o totalitarismo, de esquerda ou de direita? Como? Em nome de quê? Resolver à pazada os problemas da desigualdade? Para tirar Batista e meter Fidel? Pois, e sobre Bush, a grande diferença é que, se calhar, ele em Novembro salta da cadeira. Pelo voto... Podes retirar os beijos à vontade (liberdade pessoal)desde que os teus ideais continuem (apenas) a ir a votos (liberdade colectiva). Mas eu não retiro abraços. É que eles não são ideológicos. Só abraço pessoas de quem gosto sem flutuações por orto ou heterodoxias (isso é outro assunto). Abraço, pois.


De Bela a 6 de Agosto de 2004 às 17:10
Contigo tem que se ter um cuidado do caraças com as palavras. Quando digo que sou heterodoxa de mais, quero dizer que tenho sempre muitas dúvidas e não consigo ler os fenómenos de uma maneira só. Quanto a Cuba, é mau o que lá se passa sobretudo porque se passa em nome de ideais que deveriam ser respeitados. E acho bem as tuas denúncias. Aliás, se bem me lembro apenas questionei a tua frase de "jornalismo independente", porque, de facto, não o é e tb porque acho que as tão proclamadas liberdades do Sr. Bush não são assim tão evidentes como parecem. Se quando se fala de cubanos saltam os americanos, é porque a folha deles não está nada limpa e, apesar disso, não vejo o mesmo empenho na sua denúncia, mas antes, um tom de quase bonomia. Quanto à invocação dos 2 senhores do PC acho que é excessiva mas, que fazer? Vou-me pôr a explicar que isso não tem sentido nenhum? Bom fim de semana (desta vez não levas bjs).


De Joo a 6 de Agosto de 2004 às 16:25
Deste a mais bem conseguida definição de ortodoxia que os meus olhos até hoje leram: "ortodoxo é aquele que acha que é heterodoxo de mais". É neste sentimento de linha de separação (sentimento de culpa? referência à "linha justa"?) entre orto e hetero, que está a substância da coisa (ou do feitio - que, como dizes, pode ser bom ou mau). Dizendo por outras palavras, eu tenho péssimo feitio e tu óptimo o tens. Eu falei sobre a situação em Cuba, sobre presos políticos (as prisões em Cuba não são ficção, porra! são tão reais como eram Caxias, Peniche e Aljube), sobre balseros, sobre milhão e meio de cubanos que de lá fugiram e outros tantos que não fogem porque não podem, tu falaste apenas, repito: apenas, de suspeitas sobre a independência de um site anti-castrista tentando tirar crédito às suas denûncias. Desculpa lá, serás heterodoxa mas então Casanova e Bernardino Soares também o são. Quando se fala de cubanos, respondem com os americanos. Ora bolas! Eu, minha querida amiga, não quero para os cubanos menos que aquilo que o 25 de Abril foi para nós. E gostava que assim nos pudessemos entender. Se não poder ser, paciência. Iremos em unidade noutras coisas, contra o Bush que também não gramo nem com molho de tomate. E cujo "estúpido boicote a Cuba" eu referi. Bom fim-de-semana. E amigos como dantes. Abração. Outro para o Vicente Gil que está na plateia a gozar o prato.


De bela a 6 de Agosto de 2004 às 15:48
Estás a provocar-me João! Rezingona, está bem; amiga do peito, ok; agora, ortodoxa???? Eu até acho que sou heterodoxa de mais. Vê lá se te atinas e melhoras esse mau feitio. Gosto de ti, amigo.


De Vicente Gil a 6 de Agosto de 2004 às 12:55
Vou estar de olhos abertos 0_0


De Joo a 6 de Agosto de 2004 às 10:34
Ainda bem que se divertiu. Então, pelo menos, fomos três. Como a "picadela" foi em público, não tem nada que pedir desculpa. E isto foi uma pequena amostra. Vai ver quando, estando os dois para aí virados, o que é discutir com esta ortodoxa, amiga do peito e rezingona.


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