Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GUERRA CIVIL (6)

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A LEGITIMIDADE DE UM REI

Com a transição democrática de 1975, a Espanha virou a página do franquismo e retomou o seu lugar entre as democracias que havia perdido com a vitória de Franco em 1939. Um ano depois de Portugal e com influência da nossa revolução dos cravos. Mais uma vez, as duas nações ibéricas, que se abraçaram na instalação e prolongamento dos seus fascismos, agora convergiram na recuperação das democracias (uma pela revolução, a outra por medo da revolução).

Mas se o franquismo desapareceu como sistema totalitário de domínio da sociedade espanhola, ele não desapareceu de dentro do sistema e conseguiu furtar-se ao julgamento histórico e político da ditadura e da sua feroz repressão. O vergonhoso compromisso do “esquecimento” que as forças democráticas espanholas ofereceram aos franquistas, permitiu isso. E muito do franquismo permaneceu e permanece. O PP alberga tudo o que sobrou (e foi muito) do franquismo político. Fraga, antigo ministro de Franco, é, há muitos anos, o mais alto dignatário do poder autónomo galego. O actual ministro da Defesa do governo Zapatero foi dirigente da Juventude da Falange. E Franco deixou como herança não contestada uma monarquia e um Rei paridos pelo franquismo. E Juan Carlos, independentemente da apreciação que se possa fazer sobre o seu reinado, é a marca mais forte de como Franco continua a existir politicamente em Espanha e na parte mais cimeira e mais visível da simbologia e do ritual do Estado.

Espanha tem monarquia sem que a maioria dos espanhóis, longe disso, seja monárquica. Embora respeitem e não contestem este Rei. O que não belisca o absurdo que a monarquia espanhola é, como regime imposto por um ditador desaparecido e que perdura, não por vontade sufragada, mas apenas por legitimidade conferida pela inércia. Porque, de facto, Juan Carlos, mais que rei de Espanha, é rei pelo “esquecimento”.

Do ponto de vista do combate na Guerra Civil, do lado de Franco, houve de facto uma minoria monárquica que se empenhou na vitória do fascismo, combatendo com afinco e com martírio. Mas, curiosamente, a facção monárquica franquista não desembocava neste Rei mas sim numa linha dinástica concorrente – a carlista. E a facção política dominante nas hostes franquistas, não era sequer monárquica, muito longe disso, era a fascista e juan-antoniana Falange.

Depois da vergonhosa governação e abdicação de Afonso XIII, a Espanha vacinou-se irreversivelmente da apetência monárquica. Restaram duas forças nostálgicas presas à rivalidade quanto à sucessão no trono. Os Requetés (da Comunión Tradicionalista), particularmente fortes em Navarra, com algumas influências (mas muito fracas) na Catalunha, no País Basco e na Andaluzia, eram carlistas. Isto é, defendiam a legitimidade ao trono de Alfonso Carlos (irmão de Carlos VII) e com regência atribuída a Javier de Borbón-Parma (exilado em Viena de Áustria). A Renovación Española, de fraquíssima expressão e confinada a pequeníssimas fatias aristocráticas, apoiava a linha vinda directamente de Alfonso XIII, expressa na candidatura ao trono do Infante Juan (exilado em Cascais e pai do actual Rei).

Os Requetés constituíram, antes do levantamento de Franco, uma pequena mas bem treinada milícia militarizada que foi apoiada e financiada por Mussolini. Quando a guerra rebentou, os Requetés ofereceram a Franco os seus 7.000 combatentes fanatizados e que constituíram uma das importantes forças iniciais de combate. Chegaram a atingir os 12.000 efectivos durante a guerra e contaram-se 4.200 mortos de requetés no final da guerra. Entretanto, os alfonsistas rivais nunca tiveram expressão autónoma como força de combate. Eram señoritos, guerreiros nem tanto.

Franco queria um poder pessoal e um partido pessoal. Necessitava da Falange e dos Requetés, mas não queria as suas ideologias e os seus programas. Ele preferia encontrar inspiração ideológica na Igreja Católica, preferindo padres e freiras a falangistas e a requetés. Resolveu esse dilema à sua maneira: marginalizou os principais dirigentes fascistas e monárquicos (mantendo os pretendentes no exílio e para aí mandando os seus principais dirigentes com vocação mais autónoma); fundiu a Falange com os Requetés na FET (nova Falange); transformou o catolicismo em ideologia do Estado; retirou autonomia às milícias por via da sua militarização e integração na cadeia de comando militar de que ele era o Generalíssimo.

Franco nunca permitiu veleidades aos monárquicos, sobretudo aos Requetés que esperavam dividendos do seu contributo para a vitória (o outro ramo concorrente não contava). Mas, com o avançar da idade, Franco decidiu que, ao franquismo com Franco, o melhor era suceder-lhe um franquismo com Rei. E fabricou um Rei, educado por ele e feito à sua medida. Escolheu o ramo monárquico mais fraco, afastou o pretendente deste ramo e designou o jovem Juan Carlos como futuro Rei. Entranhados no regime, aboletados à mesa do franquismo, os Requetés carlistas não piaram e passaram de armas e bagagens para o bando rival, transformando-se, num ápice, em alfonsistas, seguindo a decisão de Franco. É esta a fonte de legitimidade do Rei Juan Carlos. É esta a marca mais viva da continuação da vitória de Franco, contra a legalidade democrática e republicana, conseguida em 1939, com o apoio de Salazar, Hitler, Mussolini e os Mouros marroquinos, em cima dos cadáveres de mais de um milhão de espanhóis.

(na foto, Juan Carlos com o seu mentor, ditador Franco, inicia-se na recepção a outros ditadores, no caso, o latino-americano Strossner)
publicado por João Tunes às 16:33
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