Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GUERRA CIVIL (20)

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VALE DOS CAÍDOS

Perto do Escorial, também perto de Madrid, a mesma Madrid que só vergaste em último lugar e com a ajuda de um Judas, a Madrid em que os teus mouros, os teus legionários, os teus aliados nazis e fascistas, levaram para contar, mandaste construir o Vale dos Caídos. Concebeste essa obra de exaltação na pedra da montanha para celebrares a tua Cruzada e depositares os teus mortos e o teu corpo quando morto.

Porque, até na morte, tu não perdoaste aos espanhóis vencidos, os que perderam a guerra a defender a República e a legalidade democrática. E pior que o não perdão foi a humilhação a que sujeitaste os vencidos, sempre, até ao fim dos teus dias, em que continuaste a assinar sentenças de morte aos que se opunham ao teu mando. E, assim, o Vale dos Caídos é uma obra sádica de um ditador cruel. Porque foi construída por prisioneiros dos vencidos, em trabalho forçado de purgatório (cada dia de trabalho forçado, equivalia a dois dias de cumprimento de pena!), como monumento tumular, apenas, dos vencedores caídos. Como se os mortos dos vencidos não caíssem. Talvez se tenha tratado de um lapso de designação por saberes que só os teus caíram, enquanto os vencidos morreram de pé a defender a legalidade saída do voto.

Durante o fascismo português, qualquer roteiro turístico de visita a Espanha, incluía obrigatoriamente uma peregrinação ao Vale dos Caídos (o equivalente espanhol a Fátima). Era a comunhão de regimes a funcionar. Depois, quando lá te meteram, junto ao altar principal, em comunhão de culto com José António (o Chefe da Falange), já aqui a democracia estava nas nossas ruas, nas nossas casas, nas nossas almas. E por lá pouco tempo restou para te exaltarem, os vencidos voltaram, governaram e governam, restando agora, por ali, meia dúzia de nostálgicos com camisa azul. Mas o Vale dos Caídos lá vai permanecer, para vergonha da tua crueldade transformada em catedral metida nas rochas de uma montanha perto de Madrid. Sim, de Madrid.

(na foto, em 1975, Franco é enterrado no Vale dos Caídos)
publicado por João Tunes às 16:06
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (21)

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ENTENDER ESPANHA

Colocámos uma série de posts (20) sobre a Espanha, pensando na sua terrível Guerra Civil (1936-1939) e que ainda marca espanhóis. E não só, a marca forte deste conflito sobre a ideologia, a propaganda, os estereótipos esquerda/direita, a iconografia e os mitos políticos, perdura. Em toda a parte e, mesmo em Portugal, ainda com muita força. Por um lado, porque a história, neste caso, ainda não substituiu a propaganda, por outro lado, porque há feridas abertas e muros de silêncio. E sobre o silêncio instalado, está o trono de um rei, tornado rei por obra e graça dos vencedores (ou, se preferirem, do Vencedor), prolongando-lhes a obra, pelo menos ao nível do simbolismo da representação da autoridade do Estado.

É impressionante a produção actual de historiadores em todo o mundo, claro que particularmente em Espanha, sobre a guerra civil de Espanha, tentando completar dados e desfazer as mentiras que as propagandas de um e de outro lado foram laboriosamente construindo e cimentado, ao longo destes anos passados sobre a tragédia. O tema é apaixonante, a variedade de enfoques é quase inesgotável, as marcas são profundas, muito há para desvendar e iluminar. Assim continuará por mais tempo. Cada olhadela a uma livraria espanhola permite constatar como, em pequenos lapsos de tempo, surgem dezenas de novos livros históricos, novas teses de investigação e recolhas de memórias. A Internet é também um espelho da enorme curiosidade sobre o tema. As cidades, vilas e aldeias de Espanha, em que, durante as décadas de franquismo, se apagaram todas as alusões liberais, democráticas e de conquistas sociais, e em que a toponímia, a estatuária e a monumentalidade foram meios intensamente utilizados para perpetuar a “vitória da Cruzada”, só a pouco e pouco vão substituindo as exaltações franquistas por outras referências mais adequadas aos novos tempos democráticos.

É uma verdade que, dos espanhóis que viveram a guerra civil, restam uns tantos milhares de anciãos, marcados pela dor do passado. Uns que venceram mas que hoje, face aos valores democráticos que regressaram a Espanha, têm dificuldade e vergonha de assumir os seus feitos. Outros, os vencidos, calaram tanto, tanto foram obrigados a calar e a passar, recalcando as suas opções e ideais, que lhes faltam forças para lembrar o que foram e porque perderam. Por aquilo que conheço, acho que estes factores (vergonha de um lado, recalcamento do outro) são marcas emocionais muito mais fortes que o rancor e a vontade sequer de discutir nos mesmos termos em que se dividiram a ponto de dispararem uns sobre os outros. Aqui e ali, vão aparecendo até uma ou outra confraternização de antigos lutadores dos dois bandos, tentando cozinhar memórias, juntando peças do puzzle dos combates, sem acrimónia, justificando-se em ambos os lados, como ponte, que, cada um à sua maneira, por crença ou por circunstância, lutou por Espanha.

É uma indignidade que os arquivos de Franco, Chefe de Estado durante quatro décadas, continuem inacessíveis aos historiadores, passados trinta anos da morte de Franco e do retorno da democracia a Espanha. Numa manobra para sonegar a obra ao julgamento histórico, o ditador doou os seus arquivos pessoais e oficiais à família que a mantém inacessível como posse privada da Fundação Francisco Franco, de que eles são dirigentes exclusivos. E surpreende que esta sonegação de material histórico expropriado a todo o povo espanhol, não mereça uma reparação correctiva por parte da autoridade do Estado espanhol. E, claro e sobretudo, mais que uma indignidade, este esbulho é um enorme buraco negro consentido à memória dos espanhóis.

Na crueldade dos vencedores, muitas dezenas de milhares de caídos dos vencidos, ficaram insepultos, com os restos espalhados em campos de batalha e em locais de fuzilamento. Mantêm-se muitas valas comuns nos cemitérios onde eles eram fuzilados ou para onde eram atirados. As valetas das estradas eram locais onde os franquistas gostavam de fuzilar rojos e a sua maioria continua a acumular ossadas a esmo. Reproduzem-se hoje em Espanha as Ligas de Familiares dos vencidos mortos que fazem diligências várias para identificar os restos mortais, descobrindo onde eles caíram e procurando dar-lhe sepultura com dignidade. É um movimento comovente, embora de forte colorido necrófilo, que vai acumulando apoios de historiadores, arqueólogos e entidades governamentais e autárquicas (onde não pontificam os autarcas sobreviventes do velho e radical franquismo), embora, pela “política do silencio”, tenha dificuldade em ter o eco merecido na opinião pública espanhola.

Não sou historiador nem especialista neste tema. Apenas um curioso interessado que, desde muito jovem, sempre foi atraído por este acontecimento histórico e pela curiosidade de entender como a Espanha democrática se estrutura em cima de tantos anos de franquismo. E, depois, gosto de Espanha e dos seus povos, entendendo que a sua proximidade foi, é, e será, um factor político e cultural (além do económico, pois claro) de inter-dependência nos destinos peninsulares.

Consoante vou conhecendo mais, novas facetas me vão surgindo na perspectiva que tenho sobre o significado e o impacto da guerra civil de Espanha. E vou formando, reformulando, opiniões. E é claro que tomo partido, o da legalidade democrática, embora não tente virar os olhos aos excessos, aos abusos e aos crimes praticados do ”meu lado”, o lado republicano (que também os houve, não tendo sido poucos nem pouco graves).

Os posts que tenho vindo a colocar valem apenas como exercício de reflexão. Para fechar a série, irei colocando alguns mais de abrangências parcelares. Quem tiver paciência que me ature.

(na foto, milicianos de Madrid partem para defender a capital)
publicado por João Tunes às 16:05
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (22)

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A FORÇA DOS VENCEDORES

Do ponto de vista dos vencedores (o franquismo-nazismo-fascismo-clericalismo), a vitória foi dura, teve um peso elevado e foi-lhes necessária força de vontade fanática para emergir do fim da guerra.

Se pensarmos que o golpe militar de 18 de Julho de 1936 foi pensado e planeado como um pronunciamento dos principais quartéis que seria resolvido em dias e imediatamente consolidado pelo apoio garantido da direita civil, facilmente deduzimos como se verificou uma volta profunda nos planos dos golpistas que acabariam por chegar à vitória, mas ao fim de três anos de guerra fortemente internacionalizada. Um assunto pensado para ser resolvido dentro de quartéis e posteriormente aclamado e consolidado pelo apoio de camadas sociais com sede de revanche sobre as práticas sociais e políticas do governo da Frente Popular, acabou por militarizar praticamente todo um povo em condições de pegar em armas e disporem-se a matar para que uma das partes liquidasse a outra, ao mesmo tempo que salvavam a pele.

Se deméritos houve na previsão quanto ao desfecho rápido do golpe e na subestimação das forças de defesa da República, bem como aos comportamentos nos quartéis da maioria das grandes cidades onde o golpe não triunfou (Madrid! Barcelona! Bilbau! Valência! Alicante! Málaga!), não se pode deixar de reconhecer que tinha de haver uma crença forte nas causas dos golpistas (militares e civis) para que ela mobilizasse “meia Espanha” disposta a combater e a morrer através de um golpe transformado em guerra. Apesar de sabermos que foram os apoios externos (Hitler, Mussolini, Salazar e a mobilização de um numeroso exército marroquino) que decidiram a vitória, o facto é que a causa franquista mobilizou “metade dos espanhóis”, transformados em combatentes e acreditando na vitória do ideário que motivou o franquismo. E este factor não pode ser esquecido ou desvalorizado. O fermento de mobilização dos combatentes franquistas foi fornecido pelo espírito de Cruzada, em que a tradição, a ordem, a família, a propriedade e a religião tinham de vencer o perigo comunista, o ateísmo, a degenerescência dos costumes e a perda da autoridade.

Os focos de avanços radicais feitos sobretudo pelos anarquistas e os ataques a locais de culto e os abusos e violências (na maioria, gratuitas e cobardes) contra jesuítas, sacerdotes e freiras, deram os pretextos para a repulsa para com a barbárie roja que se achava necessário extirpar de Espanha. E se a democracia, os partidos, o parlamento, eram vistos como os meios que tinham tornado a barbárie possível, então que viesse o mando impiedoso de generais, padres e fascistas.

A profunda religiosidade da maioria dos espanhóis e a rede organizativa da Igreja (contando, desde sempre, com o apoio do Vaticano), criou um campo de propaganda e de intoxicação mobilizadora dos espanhóis assustados com o rumo da democracia. Foi sobretudo este caldo fanatizado que deu uma “meia Espanha” para lutar do lado dos vencedores. As ocupações de territórios foram feitas com uma crueldade sádica de extermínio. Tudo o que era julgado como culpado (ser ou ter sido sócio ou militante sindical ou de ter votado ou militado num partido da Frente Popular, ser graduado no exército republicano, exercer funções no aparelho político ou administrativo, ler livros ou jornais progressistas, exprimir sentimentos liberais) era fuzilado sumariamente, a que se juntavam uns tantos mais a liquidar para ajustes de contas pessoalíssimas.

Com o estatuto de prisioneiros, restavam aqueles a quem se atribuía inconsciência ou que tinham sido forçados a combater pela causa republicana. As hordas de extermínio de rojos nas povoações ocupadas eram normalmente constituídas pelas milícias da Falange local. Sabe-se que estas milícias tiveram crescimento exponencial a partir do início da guerra, sobretudo por reforço dos então designados camisas novas (uma alusão aos conversos cristãos-novos da velha questão judaica). Por regra, os camisas novas eram os mais sádicos e mais virulentos nos ajustes de contas sangrentos. E a maioria dos camisas novas eram antigos anarquistas, ou comunistas, ou sindicalistas que, perante a imposição da nova ordem, se destacavam no entusiasmo franquista para escaparem à sanha dos novos senhores e assim se redimirem. Estes conversos, sem retorno, acabaram por constituir um novo elán de fanatização nas hostes franquistas.

Por outro lado, as violências simétricas perpetradas no campo republicano para com os suspeitos de filiação ou simpatia fascistas, desempenharam um papel incentivador do irredentismo pois os franquistas sabiam que pagariam com a vida se perdessem o território ocupado. Neste aspecto, as duas violências funcionaram em sistema de vasos comunicantes.

Vencida a guerra, Franco que sempre quis uma “vitória total e sem negociações nem concessões”, recusou a reconciliação e o perdão aos vencidos. Todos os combatentes graduados e responsáveis políticos foram passados pelas armas, restando, como prisioneiros, aqueles que tinham defendido a República a um nível de execução de ordens ou cumplicidade menor. Desses, uma parte foi reintegrada com purga do cumprimento de novo serviço militar no Exército vencedor, a outra parte penou longos anos em campos de concentração, presídios e trabalhos forçados. Praticamente a nenhum vencido foi permitida a integração na nova sociedade espanhola em paridade com os cidadãos vencedores.

Até à morte de Franco, a linha de separação entre vencedores e vencidos foi sempre mantida nítida, sendo extraordinariamente difícil e humilhante a obtenção de graças de amnistias e de reintegração social, pagando estes, no mínimo, o preço elevado de destruição moral - ou através do sentimento de culpa ou pela interiorização recalcada das convicções. Em termos morais, isto é a morte viva de qualquer povo. Franco sabia que precisava disso para ter os espanhóis aos seus pés, pela ameaça do seu punho ou pela destruição moral de quem se lhe opunha.

(na foto, militares de Franco arrancam placa toponímica numa rua de localidade conquistada aos republicanos)
publicado por João Tunes às 16:03
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (23)

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A FORÇA DOS VENCIDOS

A “meia Espanha” que se manteve fiel à República e lutou em defesa da legalidade democrática, pagou um preço elevadíssimo por tomar causa que, aos olhos de hoje, seria de rotina cidad㠖 defender o resultado dos votos contra uma quartelada. Mais surpreende, e indigna, vendo à distância, que as democracias consolidadas europeias da altura – França e Inglaterra -, tenham, com medo cobarde da besta Hitler, lavado as mãos, entregando a defesa e o ataque à República Espanhola aos extremos ditatoriais que então queriam mandar no mundo. E, como já disse, a grande excepção honrosa, neste domínio, foi a da República do México que tudo fez para apoiar a legalidade democrática na antiga potência colonizadora. Durante o conflito e depois dele terminar. Infelizmente para os espanhóis, o México é muito longe de Espanha e nunca foi uma potência com voz suficientemente alta na diplomacia internacional. Nada que se parecesse com a ajuda de Marrocos aos franquistas. Marrocos, sim, quintal feudal, estava à mão de semear e foi um ninho mercenário e torcionário para decidir, com mão-de-obra assassina, a vitória de Franco.

Para honra dos vencidos, no mínimo há a registar que venderam cara a derrota e se bateram com toda a valentia. Claro que tiveram de ultrapassar as suas divergências internas, as contradições profundas dessa frente alargada do lado republicano, fazer confluir interesses como os dos nacionalistas bascos e catalães, forças burguesas e radicais sociais, liberais e libertários, numa causa que empurrava para o acelerar do progresso em profunda contradição com a atávica e profunda Espanha, dominada culturalmente pelo mando dos señoritos feudais e pelos curas católicos – fundamentalistas e retrógrados. E se, do lado de Franco, os padres capelães mobilizavam e motivavam a rezar o Padre Nosso que todo o espanhol sabia de cor e salteado, pelo lado republicano, os comissários difundiam a libertação social, pela cartilha marxista de então e que só podia ser um choque profundo (no mínimo, dissonante) nas crenças atávicas de gentes que de crianças tinham aprendido dos pais os caminhos das igrejas, dos sacramentos, das confissões e das procissões. E Franco sabia que, quando apostou na Igreja, tinha a força da tradição do hábito pelo seu lado. Como também não foi por acaso que Franco coloriu o fascismo espanhol com a cera do clericalismo (e isso, provavelmente, ele já aprendera com Salazar). Nessa desproporção de tradução simbólica e ideológica, não podemos deixar de nos impressionar como foi possível que tantos espanhóis tenham dado tudo de si para defender a democracia, a liberdade e o progresso, contra os meios poderosos da Espanha tradicionalista e do nazi-fascismo.

Morrer pela liberdade é um bom motivo para morrermos em luta, vendendo caras as balas recebidas no corpo. À volta de meio milhão de espanhóis e de aliados internacionais, assim o fizeram. Com toda a honra. Umas vezes, a maior parte das vezes, de forma heróica. Outras vezes, algumas vezes, com vilanias espalhadas no percurso. Melhor sempre que morrer na traição, de gordura burguesa, da calma obtida pela cobardia ou no frio do medo do além, a rezar o terço e a pedir graças a uma sotaina. Estes terão sido os mais serenos dos espanhóis derrotados, apesar de continuarem, em grande parte, com os seus ossos espalhados por valetas, valas e montados de toda a Espanha, sem o direito mínimo a que os fascistas cristãos e bons católicos vencedores lhes dessem a dignidade mínima de uma sepultura.

O pior foi com os que ficaram vivos para viver a derrota. As centenas de milhares que fugiram a tempo para França (os que tiveram a má ou circunstancial ideia de fugirem para Portugal, tinham Pide e GNR à espera para os entregar aos fuzis de Franco), passaram a vergonha dos campos de concentração franceses, foram tratados como piolhos, rapidamente se viram em terreno da Vichy fascista, restando-lhes, os que conservaram honra e vontade, pegarem de novo em armas e integrarem-se no maquis anti-hitleriano. Para esses, tratou-se de sair de uma guerra para entrar noutra. Alguns milhares, os mais convencidos pelas pregações dos comissários do Komintern, sobretudo os sobreviventes do V Regimento de Lister, conseguiram chegar ao abrigo da União Soviética, onde abririam os olhos de espanto por verem surgir a amizade dos da casa com os nazis. Haviam de esperar pela invasão hitleriana para voltarem a combater nazis, numa nova de reedição da luta que já sabiam de cor, voltando a matar e a ser mortos por espanhóis, agora os da Divisão Azul que Franco enviou a Hitler, como retribuição da ajuda da Legião Condor. Novamente, espanhóis contra espanhóis, agora nas estepes russas.

Pior ainda com os ficaram em Espanha, prisioneiros da nova ordem franquista. Os de direito a fim mais limpo, foram fuzilados. Mais umas tantas ossadas ao abandono que sobraram de alimento a cães, ponto final. A maioria ficou com o medo, a vergonha e a humilhação. E, pior de tudo, com o silêncio na alma e uma vida a castrar a memória. Além dos que traíram para sobreviver, que foram muitos ou até a maior parte. Sendo os mais pontuais na missa e nos sacramentos, os de mão levantada com o braço mais esticado, na primeira fila das procissões, no curvar de espinha perante os señoritos falanguistas, restando-lhes a reprodução da dignidade na luta nas bancadas das praças de toros, suspirando que matador e toro se equivalessem em grandeza, valentia e dignidade de matar e ser morto. Quando a democracia voltou a Espanha em 1975, estratégia franquista para exorcizar o medo da revolução portuguesa, a maioria do que restava de dignidade combatente por Espanha, pela Liberdade e pela Democracia, estava velha, cansada e demasiado humilhada para levantar a cabeça. Restaram os senõritos democráticos, os camisas novas do socialismo e do comunismo espanhóis, Felipe Gonzáles e Carrillo, mais a carcaça roída da Pasionária petrificada no estalinismo, a vergonha do pacto de silêncio para esquecer os crimes do franquismo. Depois de quarenta anos de medo acumulado, obrigaram-nos a partilhar, em silêncio cúmplice, os medos dos franquistas democratizados e reciclados no PP. Ainda não foi desta, que os velhos republicanos, secos pelo silêncio, puderam contar aos filhos, aos netos e aos bisnetos que tinha havido um tempo em que se matava e morria pela liberdade em Espanha e como estiveram no lado que, aos critérios de hoje, só podiam ser os lados certos da civilização europeia. Tendo de ouvir esse novo insulto que é dizer-se, como se diz na Espanha de hoje, que isso da guerra civil é assunto de velhos.

E os vencidos, também eles, têm um rei. O rei dos vencedores. Juan Carlos de nome. Um rei que Franco deixou como bandarilha cravada em Espanha, numa das suas últimas gargalhadas sádicas no seu velho projecto de deixar os espanhóis para sempre, sem lugar para honra nem dignidade para os vencidos, retirando-lhes o direito à última gratificação e alegria – verem Espanha voltar a ser terra republicana de gente livre do medo e do silêncio. Bandarilha esta que nem os democratas se atrevem a retirar do corpo da democracia espanhola. Porquê? Pois, o medo e a cobardia são as pedras sepulcrais da valentia libertária de uma Espanha livre que assusta. E de que maneira. Mas, até quando?

(na foto, refugiados espanhóis chegam a França, depois de fugirem através dos Pirinéus)
publicado por João Tunes às 16:00
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (24)

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A INTERVENÇÃO NAZI-FASCISTA

Espanha serviu a Hitler, além das posições adquiridas na saída do Mediterrâneo e de expansionismo da ideologia nazi, para dois tipos de testes:

- De tácticas, homens e materiais bélicos, importantes naquela fase rearmamentista de preparação de conquistas maiores e próximas para o almejado domínio do mundo (e nisso foram importantes os testes, sobretudo quanto à aviação militar e aos tanques, bem como o conhecimento do material militar do Exército Vermelho).

- A capacidade de reacção do mundo democrático e do Exército Vermelho à sua descarada intromissão bélica no conflito espanhol (teste altamente lucrativo – as democracias mostraram-se mais cobardes que o previsto e Estaline iria mostrar-se disposto a cair-lhe nos braços, ainda Espanha fumegava).

A estes dois testes pré-guerra mundial, juntava-se a vantagem de conseguir um aliado no sul da Europa e uma zona de abastecimento de matérias primas para a sua indústria bélica (ferro, carvão, volfrâmio) e com que Franco iria pagar a ajuda da Legião Condor.

Mussolini envolveu-se na guerra civil de Espanha ainda mais que Hitler, sobretudo no que se refere a homens em combate. Serviu-lhe sobretudo para manter a paridade do fascismo com o nazismo, na luta pela hegemonia totalitária. E esteve presente com essa marca, nomeadamente nos terríveis, prolongados e criminosos bombardeamentos civis sobre Barcelona em 1938, que decidiu sem passar cavaco a Hitler e a Franco, como retaliação da não consulta nem informação prévia de Hitler quando decidira anexar a Áustria. Os italianos foram decisivos na tomada de Málaga, sofreram uma terrível humilhação em Guadalajara (perto de Madrid) e depois foram só desforras no norte, no Ebro, contra a Catalunha e, finalmente, na tomada de Valência.

Hitler e Mussolini tentaram que Franco, terminada a guerra civil, se comportasse como aliado dócil na ofensiva contra as democracias europeias e a União Soviética (a segunda guerra começou no mesmo ano em que terminou a guerra em Espanha). A maioria da superestrutura política espanhola a isso estava disposta. Salazar “moderou” Franco e a Espanha franquista ficou pela “não beligerância” (colaborante) durante o conflito, um pouco mais que a “neutralidade” (colaborante) de Salazar, um pouco menos que aquilo que Hitler esperava. Mas, quando Hitler invadiu a URSS, Franco retribuiu os serviços antes prestados pela Legião Condor com o envio da Divisão Azul para se integrar na Wermacht e combater em solo soviético, onde foi praticamente dizimada.

No final da segunda guerra mundial, a intervenção, a colaboração e as alianças com o nazi-fascismo derrotado, custaram a Franco um enorme isolamento internacional (de que se destacou, a não admissão nas Nações Unidas), de que só conseguiu sair, por via da guerra fria, e das novas alianças com ingleses e americanos que a todos albergaram, desde que anti-comunistas. E, neste aspecto, ninguém levava a palma à Espanha de Franco.

(na foto, Hitler e Franco passam revista a guarda de honra)
publicado por João Tunes às 15:58
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (25)

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A INTERVENÇÃO SOVIÉTICA

A Espanha foi, logo no início, um desafio a Estaline. A União Soviética estava acossada e as democracias europeias recorreram a todas as cobardias para empurrar Hitler para leste. Então, bater o nazi-fascismo em Espanha, significava travar Hitler, envolver as democracias, antecipar o embate com o nazi-fascismo numa frente alargada, aproveitando o momento em que a força da besta fascista ainda consistia sobretudo em arrogância e em propaganda.

Já em 1935, o Komintern tinha digerido os erros sectários que tinham facilitado a chegada de fascistas e de nazistas ao poder na Itália e na Alemanha. E daí saiu a estratégia das Frentes Populares, indicando aos comunistas a aliança ampla com reformistas e burgueses radicais, dando corpo ás novas consignas do anti-fascismo. Em Espanha e em França, a estratégia resultou, subiram aos respectivos governos, alianças de Frentes Populares. Estas vitórias permitiram a ilusão que da defensiva se podia passar à contra-ofensiva – não só bater o nazi-fascismo, como envolver as democracias na frente de esmagamento deste extremismo e fazer avançar a revolução comunista pelo mundo fora.
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<img alt="Espanha25.JPG" src="http://botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/Espanha25.JPG" width="214" height="299" border="0" /><br><br><b>A INTERVENÇÃO SOVIÉTICA</b><br><br>A Espanha foi, logo no início, um desafio a Estaline. A União Soviética estava acossada e as democracias europeias recorreram a todas as cobardias para empurrar Hitler para leste. Então, bater o nazi-fascismo em Espanha, significava travar Hitler, envolver as democracias, antecipar o embate com o nazi-fascismo numa frente alargada, aproveitando o momento em que a força da besta fascista ainda consistia sobretudo em arrogância e em propaganda.<br><br>Já em 1935, o Komintern tinha digerido os erros sectários que tinham facilitado a chegada de fascistas e de nazistas ao poder na Itália e na Alemanha. E daí saiu a estratégia das Frentes Populares, indicando aos comunistas a aliança ampla com reformistas e burgueses radicais, dando corpo ás novas consignas do anti-fascismo. Em Espanha e em França, a estratégia resultou, subiram aos respectivos governos, alianças de Frentes Populares. Estas vitórias permitiram a ilusão que da defensiva se podia passar à contra-ofensiva – não só bater o nazi-fascismo, como envolver as democracias na frente de esmagamento deste extremismo e fazer avançar a revolução comunista pelo mundo fora.<br<<br>As democracias perceberam que estavam apertadas entre dois extremos, assustaram-se e fizeram a opção vergonhosa de se acobardarem perante Hitler, pensando que o ditador era saciável. E se caminhasse em direcção ao leste, então talvez os dois extremismos anti-democráticos se aniquilassem mutuamente. Deram-lhe a Áustria, os Sudetas (Checoslováquia), empurrando Hitler para as terras eslavas. E deixaram que ele ganhasse em Espanha. Mas, sabe-se, a ambição de Hitler tinha o tamanho do mundo, não tardando nada em afiar os dentes para a Polónia.<br<<br>A Espanha e a estratégia das democracias na forma como estas lidavam com Hitler, representaram um desafio mortal para o Komintern e para Estaline. Este respondeu, mobilizando os meios, a generosidade anti-fascista, elevou a propaganda a níveis nunca antes nem depois ultrapassados. Lutar em Espanha, passou a ser um lema e um desafio colocado a todos os homens e mulheres do progresso, de comunistas a liberais consequentes. Espanha transformou-se na grande causa, na grande luta, no grande mito. Foi o tempo das Brigadas Internacionais, do envio de material bélico para ajudar a República, do envio de generais, conselheiros, comissários, propagandistas, diplomatas soviéticos, das ordens dadas aos comunistas de todo o mundo de que o seu primeiro dever como comunistas era ir para Espanha lutar contra Franco. Só com este apoio foi possível que a República aguentasse o embate e prolongasse a guerra, embora sobretudo em defensiva e em progressiva retirada. A República viu-se praticamente isolada no apoio recebido da União Soviética e do Komintern, sem escolha nem maneira de diversificar alianças. Aceitou. Inclusive a condição prévia colocada por Estaline – que todo o ouro das reservas do Banco de Espanha (em grande parte, amealhado com a rapina colonial na América do Sul e Central) lhe fosse entregue como penhora adiantada e todo ele foi convertido em meios bélicos até ao valor do último lingote. O prestígio deste apoio quase exclusivo da União Soviética e dos comunistas de todo o mundo à República de Espanha, permitiu ainda que o muito pequeno PCE crescesse a acabasse por impor os seus métodos, a sua organização, a sua propaganda e a sua disciplina, na defesa da República e na transformação do exército de defesa da democracia num decalque do Exército Vermelho.<br<<br>No Outono de 1938, em plena batalha do Ebro, na grande e desesperada oportunidade para inverter o curso da guerra, quando as democracias se reúnem com Hitler e Musssolini em Munique, tudo parecia possível, incluindo a antecipação da guerra mundial. Esta esperança alimentou a confiança e a esperança dos heróicos combatentes do Ebro. Sabe-se que as democracias se ajoelharam em Munique perante Hitler e Mussolini. Estaline percebeu o alcance dos resultados de Munique e pagou a cobardia das democracias com a perfídia em que sempre foi mestre. Preparou o pacto com Hitler, abandonando Espanha e empurrando Hitler para ocidente. Tardava nada estaria a partilhar a Polónia com os nazis e a rir-se de ver Hitler correr com os seus tanques pelos campos de França e a ameaçar a Inglaterra. E às Brigadas Internacionais foram dadas ordens para saírem de Espanha, ainda em plena batalha do Ebro, deixando os espanhóis a combaterem sozinhos contra Franco, Hitler, Mussolini e Salazar (e, registe-se, só se vergaram à derrota em Abril de 1939, isto é, passados seis meses desde que ficaram completamente isolados no combate ao nazi-fascismo, e Madrid só foi tomada, então, pela traição do Coronel Casado, responsável pela defesa militar da capital).<br><br>Os anos da guerra civil de Espanha foram também os anos das grandes purgas e matanças de comunistas na União Soviética, na liquidação da velha guarda leninista e na paranóia da traição trotsquista e de milhentas “conspirações”. E os agentes da NKVD vieram a Espanha para liquidar uns tantos trânsfugas, reais ou inventados. E fizeram-no sobretudo na Catalunha, contra o POUM trotsquista e contra os anarquistas.<br<<br>Perdida a guerra em Espanha, nas novas condições soviéticas, sobretudo na paranóia de sede de sangue que então se vivia, ter sido combatente antifascista em Espanha passou a não ser recomendável para o bom comunista, o de confiança, o seguidor de Estaline. E este passou a perseguir a maioria dos que tinha mandado matar e morrer em Espanha. A maior parte dos generais e coronéis militares soviéticos que lutaram em Espanha contra Franco, foram fuzilados no regresso a Moscovo, de tal forma que esta nata do Exército Vermelho que tinha adquirido uma extraordinária e valiosíssima experiência de guerra, provando em Espanha que sabiam lutar como heróis, foi liquidada de uma penada. E quando chegou a hora de Hitler entrar Rússia dentro, este encontrou um Exército incapacitado no seu comando e sem aguentar as primeiras investidas alemãs. Também a maior parte do corpo diplomático, de propaganda e policial dos soviéticos que serviram em Espanha, sofreram a mesma sorte dos seus camaradas militares. Tudo isto preenche uma das paginas mais nefandas e vergonhosas da história do Komintern, talvez uma nódoa maior que o significado da heroicidade e generosidade dos brigadistas internacionais. Em perfídia, Hitler nunca ganhou a Estaline. Nem sequer em número de comunistas assassinados às ordens de um e de outro.<br><br><I>(na imagem, recente cartaz de apelo a participação em iniciativa de homenagem a La Pasionária, um dos grandes mitos da Guerra Civil de Espanha)</i>
publicado por João Tunes às 15:55
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (26)

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SALAZAR E FROANCO

Salazar jogou em Espanha, antes do mais, a sobrevivência da sua ditadura.

O apoio efectivo a Franco foi acompanhado de uma radicalização do regime, iniciando-se a fase da sua maior intensidade de cópia do modelo fascista. O perigo rojo em Espanha, serviu para intensificar a histeria na adesão a Salazar. Foi, com pretexto da guerra em Espanha, que se criaram a Legião Portuguesa e a Mocidade Portuguesa, as milícias para-militares do fascismo português. A PIDE (então chamada PVDE) foi reorganizada e aumentou de meios e de poder.

Portugal funcionou como retaguarda segura e apoio multifacetado para Franco e foi uma peça importante para a sua vitória.

Entretanto, Salazar olhava com preocupação a propaganda falanguista que, no seu anexionismo de base, considerava que o território português fazia parte da Grande Espanha. Só com a transformação, por ordem de Franco, da Falangue num corpo heterogéneo que refreava o fascismo puro das suas origens, tornando-o num corpo de apoio ao poder total do Generalíssimo, muito à imagem da portuguesa União Nacional, é que Salazar descansou sobre a atitude da Espanha falanguista para com o território português. E, é claro, abençoou a viragem para o clericalismo católico como factor dominante da ideologia do Estado. Com pequenas diferenças, lá seguiu-se um modelo próximo das lições do ditador português.

No final da guerra, a aliança de combate iria transformar-se numa aliança de conservação das duas ditaduras, através do célebre Pacto Ibérico, e iria transformar toda a península ibérica numa mancha ditatorial, repressiva e obscurantista que se prolongou até 1974-1975. Sobretudo, porque a guerra fria evitou que os dois ditadores prestassem contas da aliança com o nazi-fascismo derrotado em 1945, invocando ambos os seus méritos de anticomunistas eficazes. E as democracias que, antes se tinham comportado vergonhosamente com Espanha, voltaram a fazer valer o pragmatismo descarnado e, sem escrúpulo, conservaram o poder dos dois ditadores como aliados na luta contra o inimigo maior, absolvendo-os tacitamente das suas culpas anti-democráticas.

Curiosamente, quando a ditadura portuguesa cai de podre em 1974, dando lugar a uma revolução, o susto é tal em Espanha (Franco só morreu em 1975) que, por receio de repetição de dose da mesma receita, leva os franquistas espanhóis, logo a seguir ao enterro de Franco no Vale dos Caídos, a prepararem e negociarem a transição democrática e o pacto de silêncio, tendo o rei indicado e preparado por Franco como moderador e símbolo de pacificação e de unidade. O que parece confirmar a convicção que, de facto, uma ditadura não sobreviveria sem a outra. Duraram enquanto duraram, e duraram muito, quando uma caiu a outra não se aguentou. Com toda a probabilidade, o inverso (se se tivesse dado primeiro a queda da ditadura espanhola) também se verificaria. Ao fim e ao cabo, Salazar e Franco souberam tecer, para mal dos povos peninsulares, duas ditaduras siamesas.

(na foto, um abraço entre dois velhos e fiéis amigos e aliados)
publicado por João Tunes às 15:51
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (27)

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FRANQUISMO E PÓS-FRANQUISMO

Como se disse, a ditadura de Franco foi terrivelmente repressiva, cruel na liquidação das diferenças, obscurantista no seu clericalismo sufocante. Para além dos fuzilados e dos prisioneiros e dos trabalhos forçados a que os vencidos foram sujeitos. Já falámos na vergonha sádica que é o Vale dos Caídos, perto de Madrid. Mas, para os portugueses que costumam visitar Sevilha e apreciar o canal do Guadalquivir, talvez valha a pena lembrar-lhes que aquela obra de engenharia e trabalho extensivo e intensivo foi construídos por trabalhadores forçados, milhares de vencidos que ali penaram ter estado do lado da República e da democracia quando a Espanha se encharcou no sangue da guerra.

Já falámos também como é que Franco (igual com Salazar) conseguiu sobreviver à derrota do nazi-fascismo em 1945.

Bascos, galegos, valencianos e catalães foram proibidos, durante todo o franquismo, de falarem as suas línguas e exibirem os seus símbolos culturais. Usar uma destas línguas em público era motivo suficiente para cumprir pena de prisão.

No entanto, o fascismo franquista teve capacidade de adaptação e de mudança. Inicialmente em regime de oligarquia, a Espanha abriu-se às multinacionais e ao capital estrangeiro, criou, em ligação com a Igreja Católica uma rede de novos empresários e de novos políticos, através dessa espécie de calvinismo católico que é a Opus Dei, dirigida por um padre espanhol e franquista, tão retintamente franquista que recentemente foi beatificado por João Paulo II porque, pelos vistos, ainda lhe sobrou talento para fazer uns tantos milagres. A partir de 1956, a insatisfação e a luta agitaram a Universidade de Madrid e criou-se uma nova geração de descontentes e de oposicionistas. Por não estar preso a um império colonial, o franquismo conseguiu modernizar os seus laços económicos com as antigas colónias latino-americanas, construindo aí um enorme mercado de escoamento para as suas mercadorias.
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<img alt="es1931[1].gif" src="http://botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/es1931[1].gif" width="205" height="148" border="0" /><br><br><b>FRANQUISMO E PÓS-FRANQUISMO</b><br><br>Como se disse, a ditadura de Franco foi terrivelmente repressiva, cruel na liquidação das diferenças, obscurantista no seu clericalismo sufocante. Para além dos fuzilados e dos prisioneiros e dos trabalhos forçados a que os vencidos foram sujeitos. Já falámos na vergonha sádica que é o Vale dos Caídos, perto de Madrid. Mas, para os portugueses que costumam visitar Sevilha e apreciar o canal do Guadalquivir, talvez valha a pena lembrar-lhes que aquela obra de engenharia e trabalho extensivo e intensivo foi construídos por trabalhadores forçados, milhares de vencidos que ali penaram ter estado do lado da República e da democracia quando a Espanha se encharcou no sangue da guerra.<br><br>Já falámos também como é que Franco (igual com Salazar) conseguiu sobreviver à derrota do nazi-fascismo em 1945.<br><br>Bascos, galegos, valencianos e catalães foram proibidos, durante todo o franquismo, de falarem as suas línguas e exibirem os seus símbolos culturais. Usar uma destas línguas em público era motivo suficiente para cumprir pena de prisão.<br><br>No entanto, o fascismo franquista teve capacidade de adaptação e de mudança. Inicialmente em regime de oligarquia, a Espanha abriu-se às multinacionais e ao capital estrangeiro, criou, em ligação com a Igreja Católica uma rede de novos empresários e de novos políticos, através dessa espécie de calvinismo católico que é a Opus Dei, dirigida por um padre espanhol e franquista, tão retintamente franquista que recentemente foi beatificado por João Paulo II porque, pelos vistos, ainda lhe sobrou talento para fazer uns tantos milagres. A partir de 1956, a insatisfação e a luta agitaram a Universidade de Madrid e criou-se uma nova geração de descontentes e de oposicionistas. Por não estar preso a um império colonial, o franquismo conseguiu modernizar os seus laços económicos com as antigas colónias latino-americanas, construindo aí um enorme mercado de escoamento para as suas mercadorias.<br<br>Pelos traumas da repressão, pelos efeitos da normalização em que os valores da República ficaram tabu, pelas alterações de gerações e de mudanças económicas, a querela da guerra civil foi, quase consensualmente, considerada uma questão do passado sem nada acrescentar à resolução dos problemas de Espanha.<br><br>A transição democrática, com direito a rei, realizou-se com a celebração de um pacto de silêncio celebrado entre os franquistas de ontem (hoje, albergados no PP), socialistas, comunistas e nacionalistas/regionalistas/autonomistas. Por esse pacto, durante muitos anos, a guerra civil de Espanha foi assunto tabu. Um dos seus efeitos, foi que, por um lado, a esquerda e os democratas ficaram sem um dos seus patrimónios de memória e de luta, como se equivalessem aos hierarcas franquistas que se tinham aproveitado da ditadura, servindo-a. Entretanto, e julgo que muito pior, as gerações que viveram e cresceram depois de 1975, em democracia, ficaram sem referências de passado e sem o apoio da memória colectiva. Felizmente, esta situação está em mudança por insuportável. A guerra civil de Espanha, lentamente, está a ser lembrada e discutida entre espanhóis. Com a vantagem de que a distância em tempo e em gerações, mais a perda de energia dos que nela combateram (num e noutro lado), provavelmente possibilitará que a apreciação histórica e política, seja suficientemente desapaixonada para não abrir feridas. E, desta forma, a memória colectiva daqueles povos adquire uma continuidade histórica, repondo o marco de que, em tempos, foram República e foram democracia e que, pelo menos, metade dos espanhóis, de então, deram ou arriscaram a vida pela causa republicana. Fica a curiosidade de saber se quererão que o rei que lhes sobrou como herança, lá continue para garantir as boas tiragens da Hola com reportagens e fofocas sobre namoros, casamentos, divórcios, baptizados e viagens da malta da realeza.<br><br><i>(na imagem, a bandeira traída pelos golpistas, a bandeira dos que combateram pela democracia, a bandeira de República Espanhola)</i>
publicado por João Tunes às 15:49
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