Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GUERRA CIVIL

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Dediquei noutro blogue, uma série de textos (27) de reflexão sobre a Guerra Civil em Espanha (1936-39), um tema que, do ponto de vista humano, histórico e político, me fascina.

Resolvi transferi-los para aqui de forma a permitir a sua leitura continuada.
publicado por João Tunes às 16:48
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (1)

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UMA AUTOCRÍTICA

“Sinto-me responsável por não ter impulsionado um debate sobre o nosso passado histórico, o franquismo e a Guerra Civil, na altura em que ele era, provavelmente, mais oportuno. Fui presidente do Governo, com maioria absoluta, na altura do quinquagésimo aniversário do começo da Guerra Civil e também de igual efeméride do fim da mesma. Duas datas bem significativas, em termos históricos. Teria até sido “conveniente” abrir um debate sobre o tema, nos momentos em que nós, os socialistas, estávamos em posições difíceis. Não o fiz, apesar de assistir, com mágoa, que o Vaticano continuava a beatificar dezenas, às vezes centenas, de vítimas do lado dos vencedores, exaltando-as como vítimas da “cruzada”, como ainda lhe chamam. Entretanto, não houve nem há exaltação, nem sequer reconhecimento, das vítimas do franquismo, por isso sinto-me responsável por uma parte da perda da nossa memória histórica e que permite agora que a direita se negue a reconhecer o horror que representou a ditadura, fazendo-o sem que por isso sofra castigo eleitoral e social, sem que os jovens se comovam, porque nem sequer sabem o que aconteceu.”

Estas são palavras de humildade e autocrítica ditas por Felipe González, numa entrevista ao jornalista e escritor Juan Luís Cebrián, inseridas no livro “El futuro no es lo que era”.

(na foto, freiras espanholas fazem a saudação fascista, celebrando a entrada vitoriosa de Franco em Madrid)
publicado por João Tunes às 16:45
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (2)

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RAZÕES PARA UM INTERESSE

Ainda não era nascido quando a Guerra Civil de Espanha começou e acabou. A minha mãe tinha resolvido esperar que a II Guerra Mundial estivesse a terminar para me dar ao mundo. Não sei se isso correspondeu a algum instinto de protecção de me resguardar. Nunca falámos o suficiente para lhe fazer essa pergunta que gostava de ter feito, não pela resposta, mas apenas para lhe oferecer uma provocação de ternura, rindo-me a espreitar-lhe os olhos e vê-los rir sem as névoas de amargura que, assim, são a imagem que dela mais guardo. Não deve ter sido. Certo que não foi. Deve ter sido só uma razão de circunstância por ignorância sobre a contracepção. Nem sei se ela soube destas guerras vergada em amanhos no Alto Douro que, se hoje está longe, na sua altura estavam no “outro mundo” da canga salazarista. O certo é que os meus dez irmãos vieram antes de mim, portanto nenhum se gaba nem gabou do mesmo, e a guerra estava-me guardada para bem a conhecer na Guiné.

Mas a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) sempre foi tema que me fascinou. Por várias razões. Algumas delas, dão-me particular acicate. Primeiro, gosto de Espanha sem nunca conseguir entender os espanhóis, convindo-me talvez que a chave que me desculpa deste mistério atraente estará na tal guerra em que se andaram a matar uns aos outros. Sobre a qual, quanto mais se sabe, mais se descobre o muito que há para saber. Depois, sempre esperei a hora, em que aquele povo se equilibrasse face à sua memória e às suas vítimas. Porque, os vencedores, os fascistas, tiveram quase quarenta anos para tratarem das suas feridas, transformarem a Espanha segundo a sua cartilha e sem nunca perdoarem (muito menos reconciliarem) com os vencidos. Por último, nunca entendi que a reposição da democracia em Espanha tivesse o preço alto do “esquecimento”, a transformação da guerra num tabu, com os seus mortos por desenterrar e dando-lhes sepultura, sem que os velhos vencidos que ainda se arrastam pelos quatro cantos de Espanha, bem como os seus descendentes, tenham pleno direito a recuperarem a honra e o orgulho por terem sido derrotados a defenderem a legalidade democrática contra uma facção golpista. Voltou a democracia a Espanha, com o preço de terem a tutela de um Rei (por aqui, vá lá, não é?), mas o “esquecimento” penaliza os que defenderam a democracia espanhola e favorece os impiedosos vitoriosos de uma guerra só possível com a ajuda dos mercenários mouros, dos fascistas italianos e portugueses e dos nazis alemães.

Nos últimos tempos, parece que as coisas tendem a equilibrar-se. Há uma série de estímulos e apoios de recuperação da memória e iniciativas para dar dignidade de registo e de sepultura aos vencidos caídos. Sobretudo, por iniciativa de alguns familiares, jornalistas e historiadores. Mas um grande mal está feito – a perda de memória de gerações de espanhóis jovens que vivem sem direito à culturalização do seu passado. E que assim são tentados ao pragmatismo de verem o mundo como se ele fosse uma fatia de salame, olhando em frente sem o resguardo de um passado, correndo o risco da tentação simétrica de viverem o hoje sem prevenirem o amanhã.

(na foto, Franco na guerra, comandando os fascistas na Batalha do Ebro)
publicado por João Tunes às 16:41
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (3)

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A BATALHA DO EBRO

A Batalha do Ebro foi a mais trágica, mais mortífera e decisiva de todas as grandes batalhas travadas durante a Guerra Civil de Espanha. Foi lá que a guerra se decidiu.

Em meados de 1938 (a guerra iniciara-se em Julho de 1936), os fascistas espanhóis, depois de derrotarem os governamentais na frente de Aragão, ocupando Lleida, cortaram ainda a ligação da Catalunha ao Levante ao conquistarem Castellón. Como território da República, restavam a Catalunha (a leste de Lleida) e a zona Madrid-Valencia, separadas entre si. Franco já decidira que Madrid ficava para o fim (seria a cereja em cima do bolo, depois das tentativas goradas de a tomar), tratava agora de dar os golpes finais, primeiro ocupando Valência e depois o que faltava da Catalunha. Madrid cairia de podre. Para mais, tinha superioridade em homens, material, apoio internacional, vontade ofensiva.

O governo espanhol (então sediado em Barcelona, depois de já ter saltado de Madrid para Valência), conseguiu essa coisa espantosa que foi dar um golpe contra-ofensivo poderoso num projecto aventureiro de tudo-ou-nada, homérico de esforço, pleno de vigor do desespero, atacando Franco, atravessando o Ebro e combatendo os franquistas na margem direita do rio (zona montanhosa), tentando ter a iniciativa e aliviando as pressões e os avanços sobre Valência e Barcelona. Tudo foi mobilizado neste combate em que se incorporaram os jovens a partir dos dezassete anos (constituintes do chamado “Batalhão do Biberão”).

Usando a surpresa, os republicanos passaram o Ebro para Sul em Junho de 1938. Deram-se na margem direita os mais encarniçados combates de toda a guerra e ali se consumiram milhões de toneladas de metralha, disputando-se terreno montanhoso palmo a palmo. Os republicanos, primeiro vencedores e depois vencidos (numa luta desigual em meios e com o rio na rectaguarda) voltaram a atravessar o rio em retirada em Novembro desse ano. Na pequena faixa de terreno disputado, ficaram 100.000 mortos de ambos os bandos. E ficou a derrota sem apelo da República. Em Fevereiro seguinte, Franco ocupava a Catalunha para em Março fazer a entrada triunfal em Madrid.

Os fascistas constituiram, com prisioneiros republicanos, um Batalhão Disciplinar que recolheu todos os mortos franquistas no campo de batalha para lhes dar sepultura condigna e honra de heróis. Ainda hoje, por montes e vales da margem direita do Ebro se tropeça em ossos, caveiras e vestígios dos corpos dos republicanos ali caídos, para além do muito material bélico ainda por lá espalhado. Passados sessenta e seis anos, aqueles combatentes, muitos ceifados com dezassete anos por defenderem uma democracia, ainda não têm direito ao seu nome numa sepultura.

(na foto, uma imagem da Batalha do Ebro)
publicado por João Tunes às 16:37
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (4)

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OS SINAIS DE UMA GUERRA CIVIL

Um dos aspectos que mais me impressionou na leitura de “La última Batalla, Derrota de la República en el Ebro” ( por Kim Amor I Sagués, Edições Oberon), prende-se com a reconstituição da vida dos sobreviventes civis das vilas e aldeias onde se desenrolaram os violentos combates da batalha do Ebro em 1938 (abrangendo meia dúzia de localidades na margem direita e em que a mais importante era e é Gandesa, quase em linha recta a sul de Lleida e não muito longe desta cidade catalã).

A zona era habitada por gente vivendo da agricultura. Tratando-se de uma zona montanhosa e pedregosa, os cultivos eram à base de vinha, oliveira, amendoeira e avelaneira. Nos vales junto ao rio, cultivava-se milho e produtos hortícolas. Mal dava para a subsistência, mas ia-se vivendo. Com a violência dos combates, a população (algumas centenas de velhos, inválidos, mulheres e crianças pequenas) que não estava em condições de pegar em armas, e que não fugiu para a margem esquerda, refugiou-se em buracos, cavernas, túneis e casas de gado dispersas, sobrevivendo, os que sobreviveram, a alimentar-se de ratos, raízes e alimentos silvestres. Aí estiveram encafuados os quatro meses que durou a refrega, enquanto as suas casas eram reduzidas a ruínas e os campos dizimados pela metralha saída da artilharia e dos aviões. No final, praticamente não sobrou uma casa e uma árvore em pé. E os campos ficaram inaptos para a agricultura, ardidos, pisados por pés, tanques e peças de artilharia, retalhados por trincheiras e repletos de metralha, munições não deflagradas e cadáveres, muitos cadáveres. Praticamente não sobrou um palmo de terra para cavar e plantar. Sem casas e sem meios de subsistência, aquelas centenas de desgraçados tiveram de recomeçar as suas vidas abaixo de zero.

Como sobreviver no pós-guerra? Dadas as carências industriais da Espanha destruída, a sucata era um bem procurado e valorizado como matéria-prima para a recomposição da indústria siderúrgica. Então, aqueles agricultores passaram uns bons dez anos reconvertidos em recolhedores de sucata. Os homens (muitos deles, guerreiros sobreviventes, regressados com o fim da guerra) saiam para os campos, cavavam, cavavam e iam amontoando projécteis, estilhaços e restos de blindados, veículos e armamento, enquanto iam empurrando os cadáveres para o lado. Depois, vinham as mulheres e as crianças com cestos a recolher a “colheita” que era depositada em armazéns e depois vendida a sucateiros que a recolhiam mediante pagamentos mais ou menos simbólicos mas que assegurava a sobrevivência e a reconstituição dos seus suportes gregários. Muitos dos recolhedores de sucata (sobretudo crianças) foram despedaçados por projécteis que não tinham deflagrado durante a batalha. Foi essa a base de reconstituição das vidas daquelas gentes, até que a agricultura pudesse retomar as suas raízes. “Ir a lo hierro” chamavam eles à sua nova actividade. Uma actividade vivendo dos despojos da morte de cem mil espanhóis na Batalha do Ebro. Porque a morte continuou muito para além do fim da guerra. Aliás, a morte da Guerra Civil de Espanha, continua ainda hoje através da morte da memória, assassinada em cada dia mais de “esquecimento”.

(na foto, uma imagem da Batalha do Ebro)
publicado por João Tunes às 16:36
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (5)

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SOBRE O SEMINARISTA DE SANTA COMBA DÃO

O Raimundo Narciso colocou o seguinte e oportuno comentário:

“A 2 da RTP deu há dois dias um largo documentário sobre Franco. E, claro, tratou-se da guerra civil, do mais de 1 milhão de mortos, na guerra e nos 20 anos seguintes de terror franquista. O documentário entrevistava um grande número de historiadores que sublinharam que a vitória de Franco, apesar de todo o apoio de Hitler Mussolini e a aquiescência britânica e não só, não teria sido possível sem o apoio decisivo, do Portugal de Salazar. Sem o seminarista de Santa Comba Dão talvez não tivesse havido franquismo.”

Sobre o desfecho de uma guerra é sempre difícil determinar um factor que tenha sido o decisivo para o seu desfecho. Ou seja, aquele que foi determinante para a vitória do vencedor. Porque, ao seu lado, teríamos de encontrar o que foi decisivo para a derrota do vencido. O que acontece, e a Guerra Civil de Espanha não foi excepção, é que há um conjunto de factores que permitiram o resultado e temos de os encontrar de um lado e do outro.

Concordo, em absoluto, que o apoio do regime de Salazar a Franco foi um factor da máxima importância para que o fascismo se instalasse em Espanha e, sobretudo, para que sobrevivesse até à morte do ditador galego. Da mesma forma, a consolidação do regime franquista, constituiu um factor da maior importância para proteger, resguardando-o, o regime do ditador de Santa Comba.

Embora importante durante a guerra (sobretudo como santuário de retaguarda e possibilitando a mancha de penetração franquista ao longo das províncias fronteiriças), não julgo que o apoio do fascismo português tenha sido mais importante que outros apoios (e sem os quais, a vitória de Franco também não teria sido possível) – desde logo, o apoio em materiais bélicos e em homens, da parte de Hitler e de Mussolini; o apoio empenhado do Vaticano, abençoando o levantamento e progressão de Franco como uma “cruzada” na defesa da Igreja Católica; a mobilização de tropas marroquinas (os “mouros”) que deram capacidade de choque e de impiedade guerreira aos fascistas; a “quinta coluna” instalada nas zonas republicanas; por último, o pragmatismo cobarde das democracias (sobretudo da França e de Inglaterra) que, temerosas de enfrentar Hitler, preferiram “lavar as mãos” em vez de apoiarem a legalidade democrática em Espanha (se em vez de se ajoelharem perante Hitler em Munique, o tivessem enfrentado, o desfecho em Espanha seria outro e a Segunda Guerra não seria travada com os custos medonhos que teve). Num quadro deste, julgo haver algum exagero em agigantar o impacto do contributo de Salazar para o desfecho da guerra. Ele foi importante mas não bastaria face à importância maior dos restantes.

Quanto aos factores que explicam a derrota da legalidade republicana e democrática, também eles não faltaram em variedade – dificuldades em tornar coesa a multiplicidade de ideologias, interesses e fracções que constituíam a diversidade plural das forças pró-governamentais (desde logo entre as várias fracções do PSOE); as tibiezas e insuficiências do apoio soviético (apesar de ter sido o grande contributo para a capacidade de combate); a forma como se deixou estabelecer o domínio policial pelos agentes soviéticos; a retirada incondicional (sem contrapartidas do outro lado) das Brigadas Internacionais quando a Batalha do Ebro ainda não tinha terminado.

Como em tudo, cada parte beneficiou dos seus factores favoráveis e das fraquezas do bando inimigo. No meio deste emaranhado - e a guerra civil foi um fenómeno da mais alta complexidade – o apoio salazarista a Franco foi importante mas um factor entre muitos. De tal modo que penso que mesmo que tivesse havido neutralidade do regime português, Franco tinha condições para ganhar a guerra.

Já quanto ao após-guerra em Espanha, aí estou totalmente de acordo. O regime de Salazar, pela sua proximidade fronteiriça e pela osmose ideológica entre os dois regimes, foi determinante para conservar e consolidar o regime franquista e permitir que ele se prolongasse até 1975. Desde logo, na influência da manha salazarista para evitar que Franco, como foi o seu impulso inicial, se metesse deliberadamente ao lado incondicional de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, na consolidação de identificação entre os fascismos ibéricos, dando-lhes os factores distintivos e “moderados” (em que o clericalismo teve um papel importante como disfarce aos modelos de “práticas fascistas”) de forma a escaparem ao “julgamento de 1945” e ficarem amarrados ao destino dos fascismos derrotados. Também, e talvez mais importante, a “saída airosa” de deslizamento dos regimes ibéricos ao saberem aproveitar, com a vinda da guerra fria, a bóia de salvação de transitarem para alianças políticas, económicas e militares com a Inglaterra e os Estados Unidos.

(na foto, Salazar e Franco)
publicado por João Tunes às 16:34
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (6)

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A LEGITIMIDADE DE UM REI

Com a transição democrática de 1975, a Espanha virou a página do franquismo e retomou o seu lugar entre as democracias que havia perdido com a vitória de Franco em 1939. Um ano depois de Portugal e com influência da nossa revolução dos cravos. Mais uma vez, as duas nações ibéricas, que se abraçaram na instalação e prolongamento dos seus fascismos, agora convergiram na recuperação das democracias (uma pela revolução, a outra por medo da revolução).

Mas se o franquismo desapareceu como sistema totalitário de domínio da sociedade espanhola, ele não desapareceu de dentro do sistema e conseguiu furtar-se ao julgamento histórico e político da ditadura e da sua feroz repressão. O vergonhoso compromisso do “esquecimento” que as forças democráticas espanholas ofereceram aos franquistas, permitiu isso. E muito do franquismo permaneceu e permanece. O PP alberga tudo o que sobrou (e foi muito) do franquismo político. Fraga, antigo ministro de Franco, é, há muitos anos, o mais alto dignatário do poder autónomo galego. O actual ministro da Defesa do governo Zapatero foi dirigente da Juventude da Falange. E Franco deixou como herança não contestada uma monarquia e um Rei paridos pelo franquismo. E Juan Carlos, independentemente da apreciação que se possa fazer sobre o seu reinado, é a marca mais forte de como Franco continua a existir politicamente em Espanha e na parte mais cimeira e mais visível da simbologia e do ritual do Estado.

Espanha tem monarquia sem que a maioria dos espanhóis, longe disso, seja monárquica. Embora respeitem e não contestem este Rei. O que não belisca o absurdo que a monarquia espanhola é, como regime imposto por um ditador desaparecido e que perdura, não por vontade sufragada, mas apenas por legitimidade conferida pela inércia. Porque, de facto, Juan Carlos, mais que rei de Espanha, é rei pelo “esquecimento”.

Do ponto de vista do combate na Guerra Civil, do lado de Franco, houve de facto uma minoria monárquica que se empenhou na vitória do fascismo, combatendo com afinco e com martírio. Mas, curiosamente, a facção monárquica franquista não desembocava neste Rei mas sim numa linha dinástica concorrente – a carlista. E a facção política dominante nas hostes franquistas, não era sequer monárquica, muito longe disso, era a fascista e juan-antoniana Falange.

Depois da vergonhosa governação e abdicação de Afonso XIII, a Espanha vacinou-se irreversivelmente da apetência monárquica. Restaram duas forças nostálgicas presas à rivalidade quanto à sucessão no trono. Os Requetés (da Comunión Tradicionalista), particularmente fortes em Navarra, com algumas influências (mas muito fracas) na Catalunha, no País Basco e na Andaluzia, eram carlistas. Isto é, defendiam a legitimidade ao trono de Alfonso Carlos (irmão de Carlos VII) e com regência atribuída a Javier de Borbón-Parma (exilado em Viena de Áustria). A Renovación Española, de fraquíssima expressão e confinada a pequeníssimas fatias aristocráticas, apoiava a linha vinda directamente de Alfonso XIII, expressa na candidatura ao trono do Infante Juan (exilado em Cascais e pai do actual Rei).

Os Requetés constituíram, antes do levantamento de Franco, uma pequena mas bem treinada milícia militarizada que foi apoiada e financiada por Mussolini. Quando a guerra rebentou, os Requetés ofereceram a Franco os seus 7.000 combatentes fanatizados e que constituíram uma das importantes forças iniciais de combate. Chegaram a atingir os 12.000 efectivos durante a guerra e contaram-se 4.200 mortos de requetés no final da guerra. Entretanto, os alfonsistas rivais nunca tiveram expressão autónoma como força de combate. Eram señoritos, guerreiros nem tanto.

Franco queria um poder pessoal e um partido pessoal. Necessitava da Falange e dos Requetés, mas não queria as suas ideologias e os seus programas. Ele preferia encontrar inspiração ideológica na Igreja Católica, preferindo padres e freiras a falangistas e a requetés. Resolveu esse dilema à sua maneira: marginalizou os principais dirigentes fascistas e monárquicos (mantendo os pretendentes no exílio e para aí mandando os seus principais dirigentes com vocação mais autónoma); fundiu a Falange com os Requetés na FET (nova Falange); transformou o catolicismo em ideologia do Estado; retirou autonomia às milícias por via da sua militarização e integração na cadeia de comando militar de que ele era o Generalíssimo.

Franco nunca permitiu veleidades aos monárquicos, sobretudo aos Requetés que esperavam dividendos do seu contributo para a vitória (o outro ramo concorrente não contava). Mas, com o avançar da idade, Franco decidiu que, ao franquismo com Franco, o melhor era suceder-lhe um franquismo com Rei. E fabricou um Rei, educado por ele e feito à sua medida. Escolheu o ramo monárquico mais fraco, afastou o pretendente deste ramo e designou o jovem Juan Carlos como futuro Rei. Entranhados no regime, aboletados à mesa do franquismo, os Requetés carlistas não piaram e passaram de armas e bagagens para o bando rival, transformando-se, num ápice, em alfonsistas, seguindo a decisão de Franco. É esta a fonte de legitimidade do Rei Juan Carlos. É esta a marca mais viva da continuação da vitória de Franco, contra a legalidade democrática e republicana, conseguida em 1939, com o apoio de Salazar, Hitler, Mussolini e os Mouros marroquinos, em cima dos cadáveres de mais de um milhão de espanhóis.

(na foto, Juan Carlos com o seu mentor, ditador Franco, inicia-se na recepção a outros ditadores, no caso, o latino-americano Strossner)
publicado por João Tunes às 16:33
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (7)

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AS CRISPAÇÕES

Nenhum conflito, até hoje, envolveu tanta paixão em todo o mundo a tomar partido por um dos lados numa contenda civil como a guerra civil de Espanha. As ideologias estavam no seu esplendor e na máxima crispação, cabeça e coração em sintonia. Os fascismos europeus estavam pujantes e na alvorada das grandes ambições, a atracão soviética estava no zénite. Tudo parecia indicar que o mundo se iria transformar, do pé para a mão, em comunista ou fascista, sem meias distâncias. Lógico que, para as esperanças e os ressentimentos, estivesse a chegar a hora do tudo ou nada. Lógico também que largas manchas de pessoas se sentissem apertadas entre duas tenazes a impor-lhes um futuro de extremos e reagissem com um medo a roçar o pânico ou, já para além dele, na zona do desespero.

Ver os espanhóis dispostos a matarem-se uns aos outros, até ao último espanhol, por fortes motivações ideológicas, ofereceu a este mundo marcado pelo ódio e pelo medo, sentimentos umas vezes separados mas também misturados, uma irresistível atracção. Sobretudo numa fase em que a arte da propaganda, longe ainda da sua fase de saturação e difícil de desmontar nos seus quês demagógicos, atingia a sua máxima criatividade e eficácia.

De um lado, as atracções fortíssimas por um fascismo de primeira geração, pela tradição, pela propriedade privada, pelo atavismo monárquico e pelo catolicismo de paróquia medieva. Na outra margem, os ideais republicanos e liberais, mais a maçonaria, ambos em mistura promíscua com o comunismo bolchevique e o anarquismo, a ambição de liquidar de uma penada as injustiças sociais, ajustando contas com padres, señoritos e burgueses.

A brutalidade do confronto espanhol paralisou de medo as democracias que, segundo as regras, deviam proteger a legalidade espanhola legitimada pelo voto e repudiar os golpistas mobilizados pelas espadas de Sanjurjo, Cabanellas, Franco, Mola e apaniguados. Mas, temerosas de Hitler, sabendo que se interviessem em Espanha teriam de o enfrentar, preferiram lavar as mãos. O matadouro de Espanha ficou, assim, entregue aos extremos que ali viram uma oportunidade para dar uns tiros nos seus demónios. Extremos estes que sabiam que se teriam de defrontar, mais tarde, numa arena muito maior que Espanha, provavelmente do tamanho do mundo. Assim, todo o terreno ganho em Espanha, seria um sinal de força para a luta final. Espanha foi como que um cavar de trincheiras, construídas com cadáveres espanhóis (mais baratos, portanto). Do lado da República e da Democracia, ficaram Estaline, os companheiros de jornada e os idealistas anti-fascistas. Do lado dos golpistas, alinharam-se Hitler, Mussolini e Salazar, com a bênção de tudo que gostava de se acolher debaixo de sotainas, comer toucinho na gordura da grande burguesia ou penando a orfandade de um Chefe autoritário, quanto pior melhor para que o mundo entrasse nos eixos da velha ordem.

Sabe-se quem ganhou. Melhor, ganharam os dois extremos que assaram as castanhas em Espanha. Ganhou Franco. Ganharam as ditaduras fascistas e fascizantes. Ganhou o Vaticano que viu Espanha transformada numa catedral a cheirar a pólvora. Ganhou Estaline que, embora derrotado em Espanha (mas Espanha tinha deixado de contar), pouco tempo depois estava a fazer um pacto de aliança com Hitler, a entregar comunistas alemães à Gestapo e a repartir a Polónia com os nazis.

E quem perdeu? Perderam os espanhóis. Porque mais de um milhão deles tinha transformado a cara numa caveira. Porque, para os que escaparam vivos, o esperavam quarenta anos de franquismo. Porque as sotainas voltaram a obrigá-los a ajoelhar e desfiar o terço. Porque ainda hoje não recuperaram o direito à memória colectiva pois que a democracia, quando voltou, trouxe a anestesia combinada entre os franquistas e os novos políticos democratas, inibidos no medo do passado.

(na foto, combatentes fazem o “juramento da morte”)
publicado por João Tunes às 16:31
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (8)

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MERCENÁRIOS E NAZI-FASCISTAS AO LADO DE FRANCO

Muito relevo se deu, assim continuando, à participação das Brigadas Internacionais no combate ao lado dos republicanos na Guerra Civil de Espanha. Para uns, essa é uma prova do envolvimento de Estaline e do Komintern no conflito, justificando assim que o lado governamental era apenas rojo. Para outros, as Brigadas Internacionais são uma página épica de internacionalismo romântico, antifascista e unitário que se explora até à exaustão. Pelo lado destes últimos, não faltam as imagens, as canções, os discursos (pois, a despedida da Pasionária) e os poemas (pois, os versos de Alberti). O tema merece regresso com mais vagar e tratamento próprio.

O que muitas vezes se oculta, ou simplesmente não se diz, é a que a participação de estrangeiros (e não falo de material bélico, falo de combatentes) ao lado dos fascistas espanhóis foi anterior à chegada dos internacionais e, durante o conflito, muitíssimo superior em número de homens.

Desde logo, o pronunciamento começou com uma invasão do território espanhol por tropas estrangeiras – o Exército de África, constituído sobretudo por soldados marroquinos, com Franco no comando. E ao longo da guerra, em todas os embates decisivos, as tropas marroquinas foram sempre decisivas em número e em poder de choque no combate. Ao todo, terão combatido em Espanha, 62.000 marroquinos (com 35.000 baixas, entre as quais, 8.000 mortos). Na sua maioria, os combatentes marroquinos foram recrutados nas colónias espanholas mas uma parte substancial também veio do protectorado francês. A mobilização dos marroquinos para combaterem em Espanha teve como motivação primeira os soldos recebidos e o direito a saque que lhes foi outorgado. Em termos ideológicos e de propaganda, a mobilização dos soldados marroquinos constituiu uma das raras vezes em que o Islão e o Catolicismo foram invocados para uma defesa em aliança da Fé contra o ateísmo rojo (iria repetir-se depois, no Afeganistão, para expulsar os invasores soviéticos). De uma maneira geral, sendo guerreiros destemidos, os moros notabilizaram-se porque foram decisivos na vitória de Franco, pela crueldade para com os prisioneiros, na forma como saquearam e violaram mulheres nas terras ocupadas aos republicados. Provenientes de África, embora em número reduzido, combateram ainda por Franco, soldados do Sahara Espanhol e da Guiné Espanhola.

Em maior número que o dos marroquinos, temos os italianos que contribuíram com um enorme contingente militar, organizado no célebre CTV (Corpo de Truppe Voluntarie) e numa Brigada Mixta (hispano-italiana) e que entraram em combate logo no início de 1937. Ao todo, terão combatido em Espanha, enviados por Mussolini, 73.000 italianos na infantaria (além dos que lutaram na aviação e na marinha), tendo sofrido 3.800 mortos e 12.000 feridos.

Igualmente decisiva no apoio à Espanha Fascista, foi a prestada pela Alemanha nazi. Expressa, em força de combate, na célebre Legião Condor constituída por vários milhares de alemães, actuando sobretudo na aviação, marinha, artilharia e carros de combate. Deste contingente, morreram em Espanha 300 alemães ao serviço do nazi-fascismo.

Em menor número, outros estrangeiros participaram nos combates ao lado de Franco, em que se destacam os da Legião Estrangeira, portugueses (várias centenas, talvez 800 – os Viriatos), irlandeses, franceses e russos brancos.

Para além destes números impressionantes, estes combatentes estrangeiros apresentavam uma particularidade, comparativamente aos internacionais do lado republicano: italianos, marroquinos e alemães chegavam a Espanha completamente equipados com material bélico autosuficiente e de melhor qualidade e mais modernos que o usado pela tropa espanhola, em unidades treinadas e homogéneas, enquanto os internacionais eram apenas homens para combater, vindos de várias proveniências, sem espírito de corpo à chegada e com dificuldades de comunicação entre si.

Se acrescentarmos a ajuda decisiva que a Alemanha nazi e a Itália fascista, forneceram a Franco em meios militares (aviação, carros de combate, artilharia, navios de guerra e submarinos, munições, meios tecnológicos de comunicações, etc), facilmente se deduz que o corpo de combate de Franco, incorporando uma boa parte de espanhóis, foi uma guerra ganha sobretudo graças ao apoio estrangeiro.

(na imagem, capa de revista histórica dedicada à intervenção dos CTV, corpo dos fascistas italianos que combateram em Espanha)
publicado por João Tunes às 16:29
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (9)

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O APOIO DE ESTALINE À REPÚBLICA

A URSS teve um papel decisivo na capacidade da República Espanhola responder ao pronunciamento militar apoiado pela Alemanha (nazi) e pela Itália (fascista). Mas é igualmente um facto que a polarização do apoio soviético à República se deveu antes do mais ao lavar de mãos das democracias inglesa e francesa (particularmente chocante neste último caso, em que o governo era de Frente Popular). Antes de recorrerem à URSS, os governantes espanhóis tudo fizeram para que franceses e ingleses contivessem o apoio de Hitler e Mussolini aos golpistas. Só o longínquo México apoiou o governo de Madrid, enquanto os franceses deram algum pequeno apoio inicial, rapidamente suspenso, e os ingleses nem isso.

Como se pode dizer que, sem o apoio alemão e italiano, o golpe seria contido em dias, igualmente é verídico que, sem o apoio soviético, os golpistas apoderar-se-iam do poder em poucas semanas. Ou seja, visto de um e outro lado, houve guerra civil em Espanha, e prolongada, porque houve apoios e intervenções estrangeiras. Mas é bom que se sublinhe que, enquanto a intervenção alemã e italiana se verificaram com o início do golpe, desde logo possibilitando a ponte naval e aérea que transportou as tropas marroquinas para a península (até antes do golpe, se contarmos que foi um avião nazi-fascista que levou Franco das Canárias para Marrocos para dar início ao pronunciamento).

Intrinsecamente, o golpe dos generais contra a legalidade democrática foi um golpe falhado, ao não conseguirem sublevar as praças fortes de Madrid, Barcelona, Lleida, Valência, Málaga, Bilbau, Gijón, San Sebastian, Santander, Badajoz, Tarragona, Girona, Alicante e Cáceres, bem como os marinheiros terem contido, através de amotinações, as sublevações dos comandos na maioria dos navios de guerra e dos submarinos. Se o golpe fosse resolvido só entre espanhóis, a contenção do golpe seria uma questão de dias. O que permitiu o avanço dos generais golpistas foi o já mencionado apoio nazi-fascista para constituir uma bolsa de implantação das tropas marroquinas e legionárias no sul (Sevilha/Cádiz/Algeciras) e o socorro em tropas e material por parte da Alemanha e Itália e a constituição de santuários em território português.

Face ao potencial do apoio estrangeiro aos golpistas, consolidando os territórios ocupados e permitindo o seu avanço, a República, se isolada, acabaria por ter de se vergar. A República precisava pois de apoio externo para contrabalançar o apoio aos rebeldes. Aos apelos do governo espanhol, só os mexicanos e soviéticos responderam afirmativamente.

O apoio mexicano traduziu-se em diplomacia e em materiais, mas não em combatentes. O apoio soviético acabou por ser a coluna de sustentação da resistência republicana – em materiais, em homens (sobretudo pilotos aéreos, tanquistas, artilheiros e, sobretudo, conselheiros militares) e em organização, estruturando um novo modelo de Exército operacional à imagem e semelhança do Exército Vermelho. Em termos de envolvimento humano, terão combatido em Espanha, cerca de 2.100 soviéticos (número irrisório face às presenças alemã e sobretudo italiana, no outro bando) e terão sofrido 170 baixas.

Dois aspectos são salientes no apoio soviético à República Espanhola: a efectividade e boa planificação do apoio militar (sobretudo em materiais e se se tiver em conta a distância entre a URSS e Espanha), até ao desinteresse notório na fase final da guerra (quando a Batalha do Ebro ainda não tinha terminado) após a Inglaterra e a França assinarem com Hitler e Mussolini o Tratado de Munique em 1938; não ter sido este apoio gratuito mas sim através de pagamento adiantado com as reservas de ouro do Banco de Espanha.

É de referir que o envolvimento soviético em Espanha coincide com o período das grandes purgas e matança de comunistas na União Soviética. Que continuam depois de terminada a guerra em Espanha, com uma nova erupção sangrenta depois da assinatura do pacto germano-soviético em 1939 e que tornou, para o Kremlin, caduca (e mesmo suspeita) a qualidade de combatente anti-fascista. Resultado: a maioria dos combatentes soviéticos de Espanha (e a maior parte de comunistas de outros países exilados na URSS), primeiro recebidos como heróis, passaram a ser vistos com desconfiança e a sua maior parte foi fuzilada por ordens de Estaline. Ou seja, a maioria dos que não caíram no campo de batalha em Espanha, acabariam por cair encostados à parede em Lubianka. Assim, raríssimos dos destemidos combatentes soviéticos, sobraram para contar a sua experiência guerreira contra o fascismo em terras espanholas. Foram duplamente derrotados – em Espanha e na sua própria pátria. Porque Estaline nunca permitiu a Hitler que o vencesse no campeonato macabro do número de comunistas assassinados.

Naturalmente que os soviéticos estiveram metidos, e bem metidos, noutro importante apoio à República de Espanha (as Brigadas Internacionais) mas esse é outro conto que merece tratamento à parte.

(na imagem, capa de revista histórica dedicada à Batalha de Madrid)
publicado por João Tunes às 16:27
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ESPANHA – GEURRA CIVIL (10)

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AS BRIGADAS INTERNACIONAIS

O que fez que homens de todos os continentes corressem para Espanha combater contra Franco e o nazi-fascismo, sabendo que muito provável era que essa viagem não tivesse retorno? Boa pergunta, a merecer, quase certo, umas tantas respostas. Mas, num mundo a aproximar-se da luta entre os extremos, em que tudo se ia dissolvendo para deixar passar o ódio político, o ódio ideológico e o ódio de classe, talvez morrer em Espanha fosse pouco menos que uma eutanásia política e social. Ou então antecipar o gosto por uma vitória. De qualquer modo, em Espanha morria-se a disparar. Talvez, no “antes isso”, esteja a grande motivação heróica e fraternal dos homens das Brigadas Internacionais.

Os “internacionais” foram, para o bem e para o mal, um alento fundamental para a resistência da República Espanhola contra os generais golpistas e os seus aliados nazi-fascistas. Se Madrid e Guadajara não caíram logo em 1937 (e se caíssem então, Franco ganhava em poucos meses), muito se deve aos “internacionais”. As suas famílias não estavam ali, nem os amigos, aquela não era a sua terra, estavam por um ideal e um objectivo, arma na mão, combateram bem porque estavam ali apenas para combater. E, neste aspecto, deram aos combatentes espanhóis pela República (que ali tinham a terra, a família e os amigos) um alento guerreiro, agressivo e disciplinado, que foi fundamental para conter, enquanto foi possível, as hordas de Franco.

Claro que a ida dos “internacionais” para Espanha não foi inocente nem se deveu a qualquer congregação de vontades, espontânea e livremente confluídas. A ordem veio de Estaline, a máquina foi o Komintern, a mobilização foi dos comunistas, como comunista era a maioria esmagadora dos seus membros. E tanto assim foi que, ainda a Batalha do Ebro não acabara, já as Brigadas Internacionais recebiam ordem de saída de Espanha, porque Estaline já congeminava ou preparava o próximo pacto com Hitler.

Os “internacionais” combateram em Espanha e combateram bem. Tão bem que puxaram pela valentia dos espanhóis que não lhes queriam ficar atrás (de um e do outro lado). Obviamente tiveram os seus episódios de cobardia, de indisciplina e de pânico. E os “pontos negros” na forma dura e cruel como a disciplina lhes era imposta pelos emissários de Estaline (o emissário-chefe, o psicopata André Marty -francês e dirigente do PCF -, conhecido como o “carniceiro de Albacete” – cidade sede e quartel das Brigadas Internacionais -, gabou-se de ter assassinado 500 brigadistas para punir actos de “indisciplina”). Mas, no conjunto, o comportamento dos “internacionais” andou quase sempre na pauta da combatividade e do heroísmo.

Na Guerra Civil de Espanha, terão combatido, ao lado da República, cerca de 50.000 brigadistas. Destes, 10.000 tombaram mortos no chão de Espanha. Provieram de todo o mundo: 26% de França; 9,1% da Polónia; 8,6% da Itália (antifascistas); 7,25% da Alemanha (antifascistas); 6,52% dos Estados Unidos; 5,9% da Inglaterra; 5,2% da Bélgica; 5,1% da Checoslováquia; 3,6% da Hungria; 2,54% da Jugoslávia; 2,5% da Áustria; 1,7% da Holanda; 1,4% do Canadá; 1,25% da Bulgária; 1,13% da Roménia; 1,0% da Suécia. E ainda houve outros pequenos contributos de outros países – Abissínia, Albânia, Andorra, Argélia, Argentina, Austrália, Bolívia, Brasil, Chile, Cuba, Dinamarca, Equador, Estónia, Filipinas, Finlândia, Grécia, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Indochina, Irlanda, Islândia, Israel (diáspora), Jamaica, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Marrocos, México, Mongólia, Montenegro, Nicarágua, Noruega, Paraguai, Peru, Portugal, Porto Rico, San Marino, República Dominicana, Síria, Tanger, Turquestão, Turquia, Ucrânia, África do Sul, URSS, Uruguai e Venezuela.

Quando os sobreviventes foram despachados de volta, em cerimónias emocionais e de propaganda, no final de 1938, os dignatários da República prometeram-lhes o regresso a Espanha e o direito a terem nacionalidade espanhola, tamanhos tinham sido os seus contributos para a causa da Espanha livre.

No regresso às suas terras, os que puderam regressar a elas (os italianos, os húngaros, os portugueses, os polacos e os alemães, pelo menos, não o podiam fazer), não os esperava nem festa nem consagração, na maior parte dos casos. Os brigadistas americanos, haveriam de penar na “caça às bruxas” de McCarthy. Os franceses, rapidamente tiveram Vichy e Gestapo no caminho. A maioria dos soviéticos e dos que se exilaram na URSS, tinham Lubianka à espera. E a cidadania espanhola bem podia esperar pois Franco aguentou-se quarenta anos no poder absoluto, sem nunca perdoar aos vencidos.

No último governo do PSOE antes de Aznar, as Cortes Espanholas (quase por unanimidade, incluindo o voto favorável do PP) cumpriram a promessa de doar a cidadania espanhola aos sobreviventes das Brigadas Internacionais, a maioria na faixa entre os oitenta e os noventa anos de idade. Lá foram em 1996, aqueles anciãos que tinham deixado a pele e a juventude a combater em Espanha contra o fascismo. Mas, entretanto, Aznar ganhara as eleições e iniciava-se o ciclo político à direita. Por lá andaram, primeiro alegres (como um velho o pode ser) com o seu novo cartão de cidadania espanhola, visitaram as campas dos seus dez mil companheiros mortos, percorreram os velhos campos de batalha, mas não foram recebidos nem pelo Governo, nem pelas Cortes, nem pelo Rei. O novo governo direitista, cheio de franquistas velhos e novos, que antes, nas Cortes, não tivera coragem de votar não, virou-lhes agora as costas. Assim como o Rei Juan Carlos, a última e talvez a mais duradoura herança de Franco. No final, ninguém apareceu para lhes pagar a conta do hotel onde repousaram os achaques. Valeu-lhes Anguita e o PCE, o herdeiro do velho Komintern, como se a história voltasse a ser a mesma dos anos da guerra. Saíram de Espanha, mais velhos e mais desiludidos. Resta-lhes a fatalidade de não terem muito tempo para amargurar a sua desilusão.

(na foto, um combatente pela República dá a vida contra o fascismo)
publicado por João Tunes às 16:26
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ESPANHA- GUERRA CIVIL (11)

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OS APOIOS INTERNOS

Durante a guerra civil, a população de Espanha rondaria os vinte e cinco milhões. Cerca de três milhões de espanhóis pegaram em armas e combateram, de um ou do outro lado. Aos espanhóis combatentes, haverá a adicionar cerca de meio milhão de estrangeiros que se juntaram aos dois lados da contenda. No terreno, ficou um milhão de mortos, muitos mais feridos e estropiados e dezenas de milhares restariam prisioneiros de Franco, a maioria em regime de trabalho forçado, por longas décadas. Juntando a destruição material e social, a violência da integração ideológica na “Nova Espanha”, a perda dos bascos, galegos e catalães do direito a usarem as suas línguas e afirmarem as suas culturas, os traumas do medo perante a revanche, o “pagamento” da ajuda nazi pelo envio da Divisão Azul para combater por Hitler na invasão da União Soviética, o comprometimento de grande número das riquezas naturais espanholas para pagar as “dívidas de guerra”, podemos ter uma ideia de como as sequelas desta guerra foram terríveis sobre os povos de Espanha. E, muito lentamente, só a partir de 1975, a guerra pode começar a ser falada entre espanhóis sem a obrigatoriedade de afinar pela afirmação do vencedor. E, para que isso vá sendo possível, há que ir, passo por passo, ainda hoje, atravessando a cortina do “pacto de silêncio” assumido após o regresso da democracia.

Esta enorme violência tinha necessariamente que ser suportada em fés muitos fortes, próximas do fanatismo, mobilizadas através de intensas propagandas, assentes em concepções em que o que estava em causa era essencial para a sobrevivência de Espanha, dos espanhóis e do mundo.

No entanto, tudo começou num golpe militar que pretendia ser fulminante, apoderando-se dos quartéis, fechando as instituições democráticas, ilegalizando partidos de centro e de esquerda, entregando o poder às forças de direita numa nova versão da anterior “ditadura de Primo de Rivera”. Não foi assim, porque muitas das maiores unidades militares não foram sublevadas e porque o assalto a Madrid, pelo sul e pelo norte, foi um fiasco. No entanto, a poderosa ajuda estrangeira a Franco permitiu-lhe ter tido quase sempre a iniciativa do avanço territorial em posições de conquista. Franco precisou de três anos para consumar aquilo que era para ser um “pronunciamento relâmpago” mas conseguiu-o. Ganhou. Os golpistas, sublevados em meados de Julho de 1936, em final de Abril de 1939 entravam em Madrid (e, quase em simultâneo, em Valência) - o último bastião republicano. A capital de Espanha guarda, assim, a honra de ter sido a última cidade a cair nas mãos dos golpistas saídos de África, resistindo até mais não poder na defesa da legalidade democrática.

O golpe nasceu de uma conspiração entre militares anti-democratas e forças civis (sobretudo: a Falange, tipicamente fascista; os Requétés, monárquicos carlistas; os direitistas da CEDA; a maioria do corpo clerical católico). Toda esta amálgama forjou a sua aliança, perante a vitória da Frente Popular (aliança entre republicanos, nacionalistas, socialistas, comunistas) em Fevereiro de 1936 e a agudização das lutas de classes e política, que se seguiu – ondas grevistas, ocupação de terras, nacionalização de empresas, ajustes de contas com a Igreja Católica, a qual representava a face mais omnipotente da opressão obscurantistas. Nesta enxurrada, abusos foram cometidos, avultando os dirigidos contra o clero, a face mais detestada e mais indefesa da opressão secular contra os trabalhadores e os liberais espanhóis. E, nos actos de desvario, tiveram um papel importante os anarquistas (fortes em Espanha, ao nível político e sindical) que radicalizaram o mais possível a situação social, apesar de não terem feito parte do Frente Popular nem nela terem recomendado o voto.

Os estereótipos da propaganda e das mobilizações populares à volta dos dois bandos em combate, foram de um maniqueísmo e simplismo radicais. Pelo lado de Franco, a acção dos combatentes era caracterizada como de Cruzada, defendendo-se a Espanha, a Igreja Católica e a Família contra o comunismo e a barbárie. Do lado republicano, afirmava-se defender a democracia e a liberdade, contra o fascismo interno e internacional, o obscurantismo clerical e as famílias mais ricas.

E se Franco foi o grande Chefe e vencedor, saindo da guerra com um poder absoluto que conservaria até morrer, quarenta anos mais tarde, no início do golpe esteve longe de ser um movimento que o tivesse como chefe. O chefe nominal, honorífico, do golpe era um general exilado em Portugal por anteriores participações golpistas – Sanjurjo. Calhou que o avião que o levava de Portugal para Espanha para tomar conta do lugar de Chefe do Golpe, caiu ao levantar. Morto Sanjurjo, o chefe ficou a ser o general Cabanellas que, ainda tendo exercido o lugar de Chefe da Junta Militar, também iria falecer dentro de pouco tempo. Restaram dois chefes destacados e rivais – os generais Mola e Franco (um implantado na zona norte, outro na zona sul). Até que Mola foi vítima de um acidente aéreo e Franco restou como chefe incontestado por exclusão de alternativas, afirmando-se então e de imediato como Caudillo e Generalíssimo. Ele, que durante a preparação do golpe, foi dos últimos a aderir a ele, hesitando até praticamente o último momento dos preparativos.

Para além de condutor militar, Franco, galego manhoso, sem carisma mas cruel, determinado e pérfido, decidiu a questão política do apoio e sustentação política. Havia, primeiro, que descaracterizar as forças políticas direitistas que apoiaram o golpe. A Falange era o principal problema, até porque, com o início da guerra, tinha incorporado milhares de milicianos violentos e organizados, segundo a cartilha fascista pura e dura. Os republicanos, ao aprisionarem (mais tarde, seria fuzilado) o Chefe da Falange (José António), facilitaram-lhe a vida. Assim, tudo se tornou mais fácil, os Chefes mais duros e genuínos falanguistas foram presos, a Falange foi fundida com a Comunión Tradicionalista (monárquicos carlistas), o Exército e a Igreja Católica (com o apoio entusiasta do Vaticano), ficaram com a tarefa de enformar, através da religião católica, a ideologia do regime ascendente, as milícias foram integradas na estrutura militar. O resultado foi um regime de cariz clerical-fascista (idêntico ao que ocorreria na Hungria, na Eslováquia e na Croácia) sob controlo do Exército.

Do lado republicano, as contradições na enorme diversidade de forças políticas da Frente Popular, foram uma constante. Os anarquistas tinham uma forte implantação na Catalunha, em Leão, na Andaluzia e na Extremadura e aí procuraram que o esforço de guerra fosse acompanhado da radicalização da revolução social. No País Basco, os interesses locais sempre estiveram em primazia relativamente aos interesses de toda a Espanha. Os republicanos burgueses foram perdendo a importância. Os socialistas do PSOE sempre viveram em lutas fraccionárias (com uma ala Pietro à direita, Caballero ao centro, Negrín à esquerda). Os comunistas, de pouca importância inicial, foram-se afirmando, sobretudo pela maior capacidade de organização e de disciplina nas forças militares de combate e pelo peso quase isolado do apoio da URSS ao lado republicano.

Significativo da polarização política nos dois lados, foi que, enquanto a motivação no Exército de Franco, era função dos capelães militares que procuravam dar uma dimensão e motivação religiosa ao combate, do lado republicano esse papel foi desempenhado pelos comissários políticos, normalmente comunistas, que arrastavam para o combate através do exemplo e da doutrinação marxista. Curiosamente, do lado republicano (excepto no País Basco, em que a maioria dos religiosos combateu contra Franco), só restou um capelão católico que, pelos vistos, terá sido tão competente no seu mister que, no fim da guerra e feito prisioneiro por Franco, imediatamente foi fuzilado.

(na imagem, um cartaz hitleriano enaltecendo a figura do amigo e aliado Franco)
publicado por João Tunes às 16:24
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (12)

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Enquanto se limpavam as armas, porque ainda havia espanhóis para matar espanhóis, cantava-se Ay, Carmela.

(na foto, uma pausa na guerra é aproveitada para afinar os cantos de exaltação a convicções e a feitos)
publicado por João Tunes às 16:22
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (13)

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Desde a Inquisição, que o Papa, os Cardeais, os Bispos, os padres e as freiras não tinham sido referências tão mimadas. Não foi favor algum. Eles deram a cera ideológica da Cruzada aos que combatiam por Franco, Hitler, Mussolini e Salazar.

(na foto, um Cardeal visita zona ocupada pelos clericais-fascistas)
publicado por João Tunes às 16:19
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (14)

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Então, como agora, para se mobilizar para matar, necessita-se de um bode expiatório. A absolvição exige um bom motivo para cortar vidas.

(na imagem, cartaz franquista apelando à mobilização “contra o comunismo”)
publicado por João Tunes às 16:18
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (15)

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Ontem, por Franco. Hoje, para tolerar um rei que ele deixou como herança.

(na imagem, cartaz com a exaltação franquista da “sua Espanha”)
publicado por João Tunes às 16:16
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (16)

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Quando as sotainas perderam os cheiros das sacristias e dos orgasmos das beatas, e cheiraram a pólvora. Matar por Deus e pela Igreja, matando diabos vermelhos, dava-lhes a absolvição prévia.

(na foto, padres católicos, de armas na mão, combatem por Franco)
publicado por João Tunes às 16:14
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (17)

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O APOIO DE SALAZAR

O regime salazarista foi um apoio constante e importante para a vitória do franquismo em Espanha. Antes do golpe, durante e depois. Numa aliança, sólida e duradoira, que durou desde 1936 até 1974.

Salazar sentiu-se fortemente ameaçado com a vitória da Frente Popular nas eleições espanholas do início de 1936. Sabia que a consolidação da democracia e o avanço das reformas sociais ao nosso lado, teriam influência decisiva no incentivo e no apoio a alterações democráticas em Portugal e no questionar de um regime que se estava a moldar na fusão entre o clericalismo, o corporativismo fascista e o jogo de equilíbrio entre o apoio a Hitler e a manutenção da aliança com Inglaterra. Assim, Salazar percebeu que o fascismo em Espanha lhe interessava muito mais que uma Espanha democrática. Embora, não escondesse a preocupação para com a componente expansionista do fascismo da Falange, que não escondia a sua concepção de Espanha como estendendo-se no domínio de toda a Península Ibérica. Para os falangistas, Portugal era uma “província” a dominar, igual que Catalunha e País Basco.

O golpe foi preparado com utilização do território português, onde se instalara, exilado, o chefe nominal do golpe – General Sanjurjo.

Iniciadas as hostilidades em Espanha, Salazar apoiou decisivamente o golpe. Cedendo o nosso território como santuário de retaguarda, servindo de entreposto para passagem de material bélico, equipamentos, mercenários, alimentos e outros materiais estratégicos para as tropas fascistas. Em termos operacionais, o uso do território nacional foi fundamental para a conquista de posições franquistas na ocupação da Extremadura espanhola, nomeadamente as conquistas de Badajoz e Cáceres. E, depois, facilitar a ligação entre as zonas ocupadas pelos franquistas no norte e no sul de Espanha. Ao mesmo tempo, que a zona fronteiriça de Portugal com Espanha funcionou como um “cordão de segurança”, em que os fugitivos republicanos eram perseguidos, presos e, por norma, entregues aos fascistas espanhóis. Por exemplo, em Barrancos, chegaram a funcionar dois campos de concentração para internamento de fugitivos de Espanha. E o Rádio Clube Português foi criado nesta altura para funcionar como órgão de propaganda ao serviço do franquismo.

Ao nível da propaganda, o “perigo vermelho” em Espanha foi utilizado intensamente pela propaganda salazarista para reforçar a coesão do regime, incrementar a sua fascização e, particularmente, justificar a criação da Legião Portuguesa. A alta burguesia de apoio ao regime e todos os que entraram no medo paranóico com os estereótipos criados pela propaganda anti-república, apoiaram, com histeria e com interesses próprios no aproveitamento da situação, dando apoio directo e descarado a Franco. Por exemplo, o galego Bullosa construiu as bases do seu império petrolífero (de que sairiam a Sonap e a Petrosul em Portugal e a Sonarep em Moçambique) no fornecimento de combustível aos franquistas (aliando-se à Texaco que, desde a primeira hora e contra a vontade do governo americano, apoiou a rebelião militar, tendo sido um factor decisivo no abastecimento de carburante à máquina militar fascista).

Em termos de apoio de combatentes, a Legião Portuguesa, criada com motivo nos antagonismos extraídos de Espanha, mobilizou-se para combater ao lado do franquismo. Inicialmente, foi prevista a constituição da “Legião dos Viriatos” como unidade autónoma de combate em Espanha ao lado de Franco. Mas Franco, exceptuando o que permitiu a alemães e a italianos, não consentiu que mais nenhum corpo expedicionário estrangeiro tivesse autonomia na constituição e na cadeia de comando. Assim, as centenas de fascistas portugueses que lutaram pelos franquistas, não combateram autonomamente em Espanha mas sim integrados em unidades espanholas, embora mantivessem a auto-designação de Viriatos e Franco lhes tenha dado o bónus de marcharem à parte e usarem a farda da Legião Portuguesa no Desfile da Vitória, quando da ocupação de Madrid em 1939.

Nos arranjos na superestrutura do poder franquista, Portugal serviu como ponto de apoio para os ostracismos e para a recomposição das figuras que se foram sucedendo como dignatários do regime. Os políticos direitistas que Franco entendia afastar, por regra, eram encaminhados para o exílio dourado em Portugal. Assim, aconteceu com o herdeiro monárquico do ramo alfonsista, impedido de regressar a Espanha, enquanto o jovem Juan Carlos começou a ser preparado, em Cascais, como futuro rei-proveta na sucessão ao franquismo.

A solução de amálgama do suporte político do regime (União Nacional e forte apoio da Igreja Católica) que Salazar concebera para Portugal, funcionou como modelo para Franco que o adoptou, embora numa versão mais violenta, atendendo às circunstâncias endógenas. E Salazar não só moderou o ímpeto de Franco de alinhar como aliado explícito e beligerante de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial (limitando-se a “pagar” o contributo da “Legião Condor” com o envio da “Divisão Azul” para participar na invasão nazi da União Soviética), como, no após-guerra, serviu de ponte para que o franquismo sobrevivesse, usando a mesma “receita portuguesa” – aproveitar a guerra fria, para se transferirem de armas e bagagens para aliados da Inglaterra e dos Estados Unidos, absolvendo-se dos pecados de ter sido aliado e ter ganho o poder com o apoio dos vencidos.

Os dois regimes, que celebraram o chamado “Pacto Ibérico” de apoio recíproco, perceberam sempre que a sobrevivência de um dependia da sobrevivência do outro. O fascismo português caiu primeiro. Com esta queda, o fascismo espanhol, já demasiado fora de tempo, assustou-se, primeiro apoiou a contra-revolução e depois antecipou-se pela “conversão” à democracia, salvando a essência do franquismo (incluindo a figura do Rei entronizado por Franco) e obtendo dos democratas espanhóis o “compromisso do silêncio e do esquecimento” para não ter de prestar contas dos abusos e crimes dos quarenta anos de franquismo – na guerra e na vitória.

(na imagem, capacete de combate usado pelos “Viriatos”)
publicado por João Tunes às 16:12
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (18)

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Baixote, careca, com voz de falsete e, mais tarde, gorducho, Franco não tinha aquilo que se pudesse chamar de figura apelativa, relativamente à dimensão do seu poder absoluto e prolongado.

Para aparecer com figura de Caudillo e de Generalíssimo, Franco usava um banquinho onde trepava para que a multidão o julgasse "maior".

(na foto, Franco saúda apoiantes em Madrid)
publicado por João Tunes às 16:10
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (19)

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Uma ideia totalitária para Espanha. Venceu. Agora tenta a vergonha do esquecimento. Como se 39 anos na vida de um povo pudesse ter o benefício de, em vez do julgamento histórico, apenas valha um assobio para o lado.

(na imagem, cartaz franquista a transmitir a ideia de que o fascismo espanhol iluminou toda a Península Ibérica com a sombra da cruz de Cristo)
publicado por João Tunes às 16:08
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (20)

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VALE DOS CAÍDOS

Perto do Escorial, também perto de Madrid, a mesma Madrid que só vergaste em último lugar e com a ajuda de um Judas, a Madrid em que os teus mouros, os teus legionários, os teus aliados nazis e fascistas, levaram para contar, mandaste construir o Vale dos Caídos. Concebeste essa obra de exaltação na pedra da montanha para celebrares a tua Cruzada e depositares os teus mortos e o teu corpo quando morto.

Porque, até na morte, tu não perdoaste aos espanhóis vencidos, os que perderam a guerra a defender a República e a legalidade democrática. E pior que o não perdão foi a humilhação a que sujeitaste os vencidos, sempre, até ao fim dos teus dias, em que continuaste a assinar sentenças de morte aos que se opunham ao teu mando. E, assim, o Vale dos Caídos é uma obra sádica de um ditador cruel. Porque foi construída por prisioneiros dos vencidos, em trabalho forçado de purgatório (cada dia de trabalho forçado, equivalia a dois dias de cumprimento de pena!), como monumento tumular, apenas, dos vencedores caídos. Como se os mortos dos vencidos não caíssem. Talvez se tenha tratado de um lapso de designação por saberes que só os teus caíram, enquanto os vencidos morreram de pé a defender a legalidade saída do voto.

Durante o fascismo português, qualquer roteiro turístico de visita a Espanha, incluía obrigatoriamente uma peregrinação ao Vale dos Caídos (o equivalente espanhol a Fátima). Era a comunhão de regimes a funcionar. Depois, quando lá te meteram, junto ao altar principal, em comunhão de culto com José António (o Chefe da Falange), já aqui a democracia estava nas nossas ruas, nas nossas casas, nas nossas almas. E por lá pouco tempo restou para te exaltarem, os vencidos voltaram, governaram e governam, restando agora, por ali, meia dúzia de nostálgicos com camisa azul. Mas o Vale dos Caídos lá vai permanecer, para vergonha da tua crueldade transformada em catedral metida nas rochas de uma montanha perto de Madrid. Sim, de Madrid.

(na foto, em 1975, Franco é enterrado no Vale dos Caídos)
publicado por João Tunes às 16:06
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (21)

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ENTENDER ESPANHA

Colocámos uma série de posts (20) sobre a Espanha, pensando na sua terrível Guerra Civil (1936-1939) e que ainda marca espanhóis. E não só, a marca forte deste conflito sobre a ideologia, a propaganda, os estereótipos esquerda/direita, a iconografia e os mitos políticos, perdura. Em toda a parte e, mesmo em Portugal, ainda com muita força. Por um lado, porque a história, neste caso, ainda não substituiu a propaganda, por outro lado, porque há feridas abertas e muros de silêncio. E sobre o silêncio instalado, está o trono de um rei, tornado rei por obra e graça dos vencedores (ou, se preferirem, do Vencedor), prolongando-lhes a obra, pelo menos ao nível do simbolismo da representação da autoridade do Estado.

É impressionante a produção actual de historiadores em todo o mundo, claro que particularmente em Espanha, sobre a guerra civil de Espanha, tentando completar dados e desfazer as mentiras que as propagandas de um e de outro lado foram laboriosamente construindo e cimentado, ao longo destes anos passados sobre a tragédia. O tema é apaixonante, a variedade de enfoques é quase inesgotável, as marcas são profundas, muito há para desvendar e iluminar. Assim continuará por mais tempo. Cada olhadela a uma livraria espanhola permite constatar como, em pequenos lapsos de tempo, surgem dezenas de novos livros históricos, novas teses de investigação e recolhas de memórias. A Internet é também um espelho da enorme curiosidade sobre o tema. As cidades, vilas e aldeias de Espanha, em que, durante as décadas de franquismo, se apagaram todas as alusões liberais, democráticas e de conquistas sociais, e em que a toponímia, a estatuária e a monumentalidade foram meios intensamente utilizados para perpetuar a “vitória da Cruzada”, só a pouco e pouco vão substituindo as exaltações franquistas por outras referências mais adequadas aos novos tempos democráticos.

É uma verdade que, dos espanhóis que viveram a guerra civil, restam uns tantos milhares de anciãos, marcados pela dor do passado. Uns que venceram mas que hoje, face aos valores democráticos que regressaram a Espanha, têm dificuldade e vergonha de assumir os seus feitos. Outros, os vencidos, calaram tanto, tanto foram obrigados a calar e a passar, recalcando as suas opções e ideais, que lhes faltam forças para lembrar o que foram e porque perderam. Por aquilo que conheço, acho que estes factores (vergonha de um lado, recalcamento do outro) são marcas emocionais muito mais fortes que o rancor e a vontade sequer de discutir nos mesmos termos em que se dividiram a ponto de dispararem uns sobre os outros. Aqui e ali, vão aparecendo até uma ou outra confraternização de antigos lutadores dos dois bandos, tentando cozinhar memórias, juntando peças do puzzle dos combates, sem acrimónia, justificando-se em ambos os lados, como ponte, que, cada um à sua maneira, por crença ou por circunstância, lutou por Espanha.

É uma indignidade que os arquivos de Franco, Chefe de Estado durante quatro décadas, continuem inacessíveis aos historiadores, passados trinta anos da morte de Franco e do retorno da democracia a Espanha. Numa manobra para sonegar a obra ao julgamento histórico, o ditador doou os seus arquivos pessoais e oficiais à família que a mantém inacessível como posse privada da Fundação Francisco Franco, de que eles são dirigentes exclusivos. E surpreende que esta sonegação de material histórico expropriado a todo o povo espanhol, não mereça uma reparação correctiva por parte da autoridade do Estado espanhol. E, claro e sobretudo, mais que uma indignidade, este esbulho é um enorme buraco negro consentido à memória dos espanhóis.

Na crueldade dos vencedores, muitas dezenas de milhares de caídos dos vencidos, ficaram insepultos, com os restos espalhados em campos de batalha e em locais de fuzilamento. Mantêm-se muitas valas comuns nos cemitérios onde eles eram fuzilados ou para onde eram atirados. As valetas das estradas eram locais onde os franquistas gostavam de fuzilar rojos e a sua maioria continua a acumular ossadas a esmo. Reproduzem-se hoje em Espanha as Ligas de Familiares dos vencidos mortos que fazem diligências várias para identificar os restos mortais, descobrindo onde eles caíram e procurando dar-lhe sepultura com dignidade. É um movimento comovente, embora de forte colorido necrófilo, que vai acumulando apoios de historiadores, arqueólogos e entidades governamentais e autárquicas (onde não pontificam os autarcas sobreviventes do velho e radical franquismo), embora, pela “política do silencio”, tenha dificuldade em ter o eco merecido na opinião pública espanhola.

Não sou historiador nem especialista neste tema. Apenas um curioso interessado que, desde muito jovem, sempre foi atraído por este acontecimento histórico e pela curiosidade de entender como a Espanha democrática se estrutura em cima de tantos anos de franquismo. E, depois, gosto de Espanha e dos seus povos, entendendo que a sua proximidade foi, é, e será, um factor político e cultural (além do económico, pois claro) de inter-dependência nos destinos peninsulares.

Consoante vou conhecendo mais, novas facetas me vão surgindo na perspectiva que tenho sobre o significado e o impacto da guerra civil de Espanha. E vou formando, reformulando, opiniões. E é claro que tomo partido, o da legalidade democrática, embora não tente virar os olhos aos excessos, aos abusos e aos crimes praticados do ”meu lado”, o lado republicano (que também os houve, não tendo sido poucos nem pouco graves).

Os posts que tenho vindo a colocar valem apenas como exercício de reflexão. Para fechar a série, irei colocando alguns mais de abrangências parcelares. Quem tiver paciência que me ature.

(na foto, milicianos de Madrid partem para defender a capital)
publicado por João Tunes às 16:05
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (22)

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A FORÇA DOS VENCEDORES

Do ponto de vista dos vencedores (o franquismo-nazismo-fascismo-clericalismo), a vitória foi dura, teve um peso elevado e foi-lhes necessária força de vontade fanática para emergir do fim da guerra.

Se pensarmos que o golpe militar de 18 de Julho de 1936 foi pensado e planeado como um pronunciamento dos principais quartéis que seria resolvido em dias e imediatamente consolidado pelo apoio garantido da direita civil, facilmente deduzimos como se verificou uma volta profunda nos planos dos golpistas que acabariam por chegar à vitória, mas ao fim de três anos de guerra fortemente internacionalizada. Um assunto pensado para ser resolvido dentro de quartéis e posteriormente aclamado e consolidado pelo apoio de camadas sociais com sede de revanche sobre as práticas sociais e políticas do governo da Frente Popular, acabou por militarizar praticamente todo um povo em condições de pegar em armas e disporem-se a matar para que uma das partes liquidasse a outra, ao mesmo tempo que salvavam a pele.

Se deméritos houve na previsão quanto ao desfecho rápido do golpe e na subestimação das forças de defesa da República, bem como aos comportamentos nos quartéis da maioria das grandes cidades onde o golpe não triunfou (Madrid! Barcelona! Bilbau! Valência! Alicante! Málaga!), não se pode deixar de reconhecer que tinha de haver uma crença forte nas causas dos golpistas (militares e civis) para que ela mobilizasse “meia Espanha” disposta a combater e a morrer através de um golpe transformado em guerra. Apesar de sabermos que foram os apoios externos (Hitler, Mussolini, Salazar e a mobilização de um numeroso exército marroquino) que decidiram a vitória, o facto é que a causa franquista mobilizou “metade dos espanhóis”, transformados em combatentes e acreditando na vitória do ideário que motivou o franquismo. E este factor não pode ser esquecido ou desvalorizado. O fermento de mobilização dos combatentes franquistas foi fornecido pelo espírito de Cruzada, em que a tradição, a ordem, a família, a propriedade e a religião tinham de vencer o perigo comunista, o ateísmo, a degenerescência dos costumes e a perda da autoridade.

Os focos de avanços radicais feitos sobretudo pelos anarquistas e os ataques a locais de culto e os abusos e violências (na maioria, gratuitas e cobardes) contra jesuítas, sacerdotes e freiras, deram os pretextos para a repulsa para com a barbárie roja que se achava necessário extirpar de Espanha. E se a democracia, os partidos, o parlamento, eram vistos como os meios que tinham tornado a barbárie possível, então que viesse o mando impiedoso de generais, padres e fascistas.

A profunda religiosidade da maioria dos espanhóis e a rede organizativa da Igreja (contando, desde sempre, com o apoio do Vaticano), criou um campo de propaganda e de intoxicação mobilizadora dos espanhóis assustados com o rumo da democracia. Foi sobretudo este caldo fanatizado que deu uma “meia Espanha” para lutar do lado dos vencedores. As ocupações de territórios foram feitas com uma crueldade sádica de extermínio. Tudo o que era julgado como culpado (ser ou ter sido sócio ou militante sindical ou de ter votado ou militado num partido da Frente Popular, ser graduado no exército republicano, exercer funções no aparelho político ou administrativo, ler livros ou jornais progressistas, exprimir sentimentos liberais) era fuzilado sumariamente, a que se juntavam uns tantos mais a liquidar para ajustes de contas pessoalíssimas.

Com o estatuto de prisioneiros, restavam aqueles a quem se atribuía inconsciência ou que tinham sido forçados a combater pela causa republicana. As hordas de extermínio de rojos nas povoações ocupadas eram normalmente constituídas pelas milícias da Falange local. Sabe-se que estas milícias tiveram crescimento exponencial a partir do início da guerra, sobretudo por reforço dos então designados camisas novas (uma alusão aos conversos cristãos-novos da velha questão judaica). Por regra, os camisas novas eram os mais sádicos e mais virulentos nos ajustes de contas sangrentos. E a maioria dos camisas novas eram antigos anarquistas, ou comunistas, ou sindicalistas que, perante a imposição da nova ordem, se destacavam no entusiasmo franquista para escaparem à sanha dos novos senhores e assim se redimirem. Estes conversos, sem retorno, acabaram por constituir um novo elán de fanatização nas hostes franquistas.

Por outro lado, as violências simétricas perpetradas no campo republicano para com os suspeitos de filiação ou simpatia fascistas, desempenharam um papel incentivador do irredentismo pois os franquistas sabiam que pagariam com a vida se perdessem o território ocupado. Neste aspecto, as duas violências funcionaram em sistema de vasos comunicantes.

Vencida a guerra, Franco que sempre quis uma “vitória total e sem negociações nem concessões”, recusou a reconciliação e o perdão aos vencidos. Todos os combatentes graduados e responsáveis políticos foram passados pelas armas, restando, como prisioneiros, aqueles que tinham defendido a República a um nível de execução de ordens ou cumplicidade menor. Desses, uma parte foi reintegrada com purga do cumprimento de novo serviço militar no Exército vencedor, a outra parte penou longos anos em campos de concentração, presídios e trabalhos forçados. Praticamente a nenhum vencido foi permitida a integração na nova sociedade espanhola em paridade com os cidadãos vencedores.

Até à morte de Franco, a linha de separação entre vencedores e vencidos foi sempre mantida nítida, sendo extraordinariamente difícil e humilhante a obtenção de graças de amnistias e de reintegração social, pagando estes, no mínimo, o preço elevado de destruição moral - ou através do sentimento de culpa ou pela interiorização recalcada das convicções. Em termos morais, isto é a morte viva de qualquer povo. Franco sabia que precisava disso para ter os espanhóis aos seus pés, pela ameaça do seu punho ou pela destruição moral de quem se lhe opunha.

(na foto, militares de Franco arrancam placa toponímica numa rua de localidade conquistada aos republicanos)
publicado por João Tunes às 16:03
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (23)

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A FORÇA DOS VENCIDOS

A “meia Espanha” que se manteve fiel à República e lutou em defesa da legalidade democrática, pagou um preço elevadíssimo por tomar causa que, aos olhos de hoje, seria de rotina cidad㠖 defender o resultado dos votos contra uma quartelada. Mais surpreende, e indigna, vendo à distância, que as democracias consolidadas europeias da altura – França e Inglaterra -, tenham, com medo cobarde da besta Hitler, lavado as mãos, entregando a defesa e o ataque à República Espanhola aos extremos ditatoriais que então queriam mandar no mundo. E, como já disse, a grande excepção honrosa, neste domínio, foi a da República do México que tudo fez para apoiar a legalidade democrática na antiga potência colonizadora. Durante o conflito e depois dele terminar. Infelizmente para os espanhóis, o México é muito longe de Espanha e nunca foi uma potência com voz suficientemente alta na diplomacia internacional. Nada que se parecesse com a ajuda de Marrocos aos franquistas. Marrocos, sim, quintal feudal, estava à mão de semear e foi um ninho mercenário e torcionário para decidir, com mão-de-obra assassina, a vitória de Franco.

Para honra dos vencidos, no mínimo há a registar que venderam cara a derrota e se bateram com toda a valentia. Claro que tiveram de ultrapassar as suas divergências internas, as contradições profundas dessa frente alargada do lado republicano, fazer confluir interesses como os dos nacionalistas bascos e catalães, forças burguesas e radicais sociais, liberais e libertários, numa causa que empurrava para o acelerar do progresso em profunda contradição com a atávica e profunda Espanha, dominada culturalmente pelo mando dos señoritos feudais e pelos curas católicos – fundamentalistas e retrógrados. E se, do lado de Franco, os padres capelães mobilizavam e motivavam a rezar o Padre Nosso que todo o espanhol sabia de cor e salteado, pelo lado republicano, os comissários difundiam a libertação social, pela cartilha marxista de então e que só podia ser um choque profundo (no mínimo, dissonante) nas crenças atávicas de gentes que de crianças tinham aprendido dos pais os caminhos das igrejas, dos sacramentos, das confissões e das procissões. E Franco sabia que, quando apostou na Igreja, tinha a força da tradição do hábito pelo seu lado. Como também não foi por acaso que Franco coloriu o fascismo espanhol com a cera do clericalismo (e isso, provavelmente, ele já aprendera com Salazar). Nessa desproporção de tradução simbólica e ideológica, não podemos deixar de nos impressionar como foi possível que tantos espanhóis tenham dado tudo de si para defender a democracia, a liberdade e o progresso, contra os meios poderosos da Espanha tradicionalista e do nazi-fascismo.

Morrer pela liberdade é um bom motivo para morrermos em luta, vendendo caras as balas recebidas no corpo. À volta de meio milhão de espanhóis e de aliados internacionais, assim o fizeram. Com toda a honra. Umas vezes, a maior parte das vezes, de forma heróica. Outras vezes, algumas vezes, com vilanias espalhadas no percurso. Melhor sempre que morrer na traição, de gordura burguesa, da calma obtida pela cobardia ou no frio do medo do além, a rezar o terço e a pedir graças a uma sotaina. Estes terão sido os mais serenos dos espanhóis derrotados, apesar de continuarem, em grande parte, com os seus ossos espalhados por valetas, valas e montados de toda a Espanha, sem o direito mínimo a que os fascistas cristãos e bons católicos vencedores lhes dessem a dignidade mínima de uma sepultura.

O pior foi com os que ficaram vivos para viver a derrota. As centenas de milhares que fugiram a tempo para França (os que tiveram a má ou circunstancial ideia de fugirem para Portugal, tinham Pide e GNR à espera para os entregar aos fuzis de Franco), passaram a vergonha dos campos de concentração franceses, foram tratados como piolhos, rapidamente se viram em terreno da Vichy fascista, restando-lhes, os que conservaram honra e vontade, pegarem de novo em armas e integrarem-se no maquis anti-hitleriano. Para esses, tratou-se de sair de uma guerra para entrar noutra. Alguns milhares, os mais convencidos pelas pregações dos comissários do Komintern, sobretudo os sobreviventes do V Regimento de Lister, conseguiram chegar ao abrigo da União Soviética, onde abririam os olhos de espanto por verem surgir a amizade dos da casa com os nazis. Haviam de esperar pela invasão hitleriana para voltarem a combater nazis, numa nova de reedição da luta que já sabiam de cor, voltando a matar e a ser mortos por espanhóis, agora os da Divisão Azul que Franco enviou a Hitler, como retribuição da ajuda da Legião Condor. Novamente, espanhóis contra espanhóis, agora nas estepes russas.

Pior ainda com os ficaram em Espanha, prisioneiros da nova ordem franquista. Os de direito a fim mais limpo, foram fuzilados. Mais umas tantas ossadas ao abandono que sobraram de alimento a cães, ponto final. A maioria ficou com o medo, a vergonha e a humilhação. E, pior de tudo, com o silêncio na alma e uma vida a castrar a memória. Além dos que traíram para sobreviver, que foram muitos ou até a maior parte. Sendo os mais pontuais na missa e nos sacramentos, os de mão levantada com o braço mais esticado, na primeira fila das procissões, no curvar de espinha perante os señoritos falanguistas, restando-lhes a reprodução da dignidade na luta nas bancadas das praças de toros, suspirando que matador e toro se equivalessem em grandeza, valentia e dignidade de matar e ser morto. Quando a democracia voltou a Espanha em 1975, estratégia franquista para exorcizar o medo da revolução portuguesa, a maioria do que restava de dignidade combatente por Espanha, pela Liberdade e pela Democracia, estava velha, cansada e demasiado humilhada para levantar a cabeça. Restaram os senõritos democráticos, os camisas novas do socialismo e do comunismo espanhóis, Felipe Gonzáles e Carrillo, mais a carcaça roída da Pasionária petrificada no estalinismo, a vergonha do pacto de silêncio para esquecer os crimes do franquismo. Depois de quarenta anos de medo acumulado, obrigaram-nos a partilhar, em silêncio cúmplice, os medos dos franquistas democratizados e reciclados no PP. Ainda não foi desta, que os velhos republicanos, secos pelo silêncio, puderam contar aos filhos, aos netos e aos bisnetos que tinha havido um tempo em que se matava e morria pela liberdade em Espanha e como estiveram no lado que, aos critérios de hoje, só podiam ser os lados certos da civilização europeia. Tendo de ouvir esse novo insulto que é dizer-se, como se diz na Espanha de hoje, que isso da guerra civil é assunto de velhos.

E os vencidos, também eles, têm um rei. O rei dos vencedores. Juan Carlos de nome. Um rei que Franco deixou como bandarilha cravada em Espanha, numa das suas últimas gargalhadas sádicas no seu velho projecto de deixar os espanhóis para sempre, sem lugar para honra nem dignidade para os vencidos, retirando-lhes o direito à última gratificação e alegria – verem Espanha voltar a ser terra republicana de gente livre do medo e do silêncio. Bandarilha esta que nem os democratas se atrevem a retirar do corpo da democracia espanhola. Porquê? Pois, o medo e a cobardia são as pedras sepulcrais da valentia libertária de uma Espanha livre que assusta. E de que maneira. Mas, até quando?

(na foto, refugiados espanhóis chegam a França, depois de fugirem através dos Pirinéus)
publicado por João Tunes às 16:00
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (24)

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A INTERVENÇÃO NAZI-FASCISTA

Espanha serviu a Hitler, além das posições adquiridas na saída do Mediterrâneo e de expansionismo da ideologia nazi, para dois tipos de testes:

- De tácticas, homens e materiais bélicos, importantes naquela fase rearmamentista de preparação de conquistas maiores e próximas para o almejado domínio do mundo (e nisso foram importantes os testes, sobretudo quanto à aviação militar e aos tanques, bem como o conhecimento do material militar do Exército Vermelho).

- A capacidade de reacção do mundo democrático e do Exército Vermelho à sua descarada intromissão bélica no conflito espanhol (teste altamente lucrativo – as democracias mostraram-se mais cobardes que o previsto e Estaline iria mostrar-se disposto a cair-lhe nos braços, ainda Espanha fumegava).

A estes dois testes pré-guerra mundial, juntava-se a vantagem de conseguir um aliado no sul da Europa e uma zona de abastecimento de matérias primas para a sua indústria bélica (ferro, carvão, volfrâmio) e com que Franco iria pagar a ajuda da Legião Condor.

Mussolini envolveu-se na guerra civil de Espanha ainda mais que Hitler, sobretudo no que se refere a homens em combate. Serviu-lhe sobretudo para manter a paridade do fascismo com o nazismo, na luta pela hegemonia totalitária. E esteve presente com essa marca, nomeadamente nos terríveis, prolongados e criminosos bombardeamentos civis sobre Barcelona em 1938, que decidiu sem passar cavaco a Hitler e a Franco, como retaliação da não consulta nem informação prévia de Hitler quando decidira anexar a Áustria. Os italianos foram decisivos na tomada de Málaga, sofreram uma terrível humilhação em Guadalajara (perto de Madrid) e depois foram só desforras no norte, no Ebro, contra a Catalunha e, finalmente, na tomada de Valência.

Hitler e Mussolini tentaram que Franco, terminada a guerra civil, se comportasse como aliado dócil na ofensiva contra as democracias europeias e a União Soviética (a segunda guerra começou no mesmo ano em que terminou a guerra em Espanha). A maioria da superestrutura política espanhola a isso estava disposta. Salazar “moderou” Franco e a Espanha franquista ficou pela “não beligerância” (colaborante) durante o conflito, um pouco mais que a “neutralidade” (colaborante) de Salazar, um pouco menos que aquilo que Hitler esperava. Mas, quando Hitler invadiu a URSS, Franco retribuiu os serviços antes prestados pela Legião Condor com o envio da Divisão Azul para se integrar na Wermacht e combater em solo soviético, onde foi praticamente dizimada.

No final da segunda guerra mundial, a intervenção, a colaboração e as alianças com o nazi-fascismo derrotado, custaram a Franco um enorme isolamento internacional (de que se destacou, a não admissão nas Nações Unidas), de que só conseguiu sair, por via da guerra fria, e das novas alianças com ingleses e americanos que a todos albergaram, desde que anti-comunistas. E, neste aspecto, ninguém levava a palma à Espanha de Franco.

(na foto, Hitler e Franco passam revista a guarda de honra)
publicado por João Tunes às 15:58
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (25)

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A INTERVENÇÃO SOVIÉTICA

A Espanha foi, logo no início, um desafio a Estaline. A União Soviética estava acossada e as democracias europeias recorreram a todas as cobardias para empurrar Hitler para leste. Então, bater o nazi-fascismo em Espanha, significava travar Hitler, envolver as democracias, antecipar o embate com o nazi-fascismo numa frente alargada, aproveitando o momento em que a força da besta fascista ainda consistia sobretudo em arrogância e em propaganda.

Já em 1935, o Komintern tinha digerido os erros sectários que tinham facilitado a chegada de fascistas e de nazistas ao poder na Itália e na Alemanha. E daí saiu a estratégia das Frentes Populares, indicando aos comunistas a aliança ampla com reformistas e burgueses radicais, dando corpo ás novas consignas do anti-fascismo. Em Espanha e em França, a estratégia resultou, subiram aos respectivos governos, alianças de Frentes Populares. Estas vitórias permitiram a ilusão que da defensiva se podia passar à contra-ofensiva – não só bater o nazi-fascismo, como envolver as democracias na frente de esmagamento deste extremismo e fazer avançar a revolução comunista pelo mundo fora.
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<img alt="Espanha25.JPG" src="http://botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/Espanha25.JPG" width="214" height="299" border="0" /><br><br><b>A INTERVENÇÃO SOVIÉTICA</b><br><br>A Espanha foi, logo no início, um desafio a Estaline. A União Soviética estava acossada e as democracias europeias recorreram a todas as cobardias para empurrar Hitler para leste. Então, bater o nazi-fascismo em Espanha, significava travar Hitler, envolver as democracias, antecipar o embate com o nazi-fascismo numa frente alargada, aproveitando o momento em que a força da besta fascista ainda consistia sobretudo em arrogância e em propaganda.<br><br>Já em 1935, o Komintern tinha digerido os erros sectários que tinham facilitado a chegada de fascistas e de nazistas ao poder na Itália e na Alemanha. E daí saiu a estratégia das Frentes Populares, indicando aos comunistas a aliança ampla com reformistas e burgueses radicais, dando corpo ás novas consignas do anti-fascismo. Em Espanha e em França, a estratégia resultou, subiram aos respectivos governos, alianças de Frentes Populares. Estas vitórias permitiram a ilusão que da defensiva se podia passar à contra-ofensiva – não só bater o nazi-fascismo, como envolver as democracias na frente de esmagamento deste extremismo e fazer avançar a revolução comunista pelo mundo fora.<br<<br>As democracias perceberam que estavam apertadas entre dois extremos, assustaram-se e fizeram a opção vergonhosa de se acobardarem perante Hitler, pensando que o ditador era saciável. E se caminhasse em direcção ao leste, então talvez os dois extremismos anti-democráticos se aniquilassem mutuamente. Deram-lhe a Áustria, os Sudetas (Checoslováquia), empurrando Hitler para as terras eslavas. E deixaram que ele ganhasse em Espanha. Mas, sabe-se, a ambição de Hitler tinha o tamanho do mundo, não tardando nada em afiar os dentes para a Polónia.<br<<br>A Espanha e a estratégia das democracias na forma como estas lidavam com Hitler, representaram um desafio mortal para o Komintern e para Estaline. Este respondeu, mobilizando os meios, a generosidade anti-fascista, elevou a propaganda a níveis nunca antes nem depois ultrapassados. Lutar em Espanha, passou a ser um lema e um desafio colocado a todos os homens e mulheres do progresso, de comunistas a liberais consequentes. Espanha transformou-se na grande causa, na grande luta, no grande mito. Foi o tempo das Brigadas Internacionais, do envio de material bélico para ajudar a República, do envio de generais, conselheiros, comissários, propagandistas, diplomatas soviéticos, das ordens dadas aos comunistas de todo o mundo de que o seu primeiro dever como comunistas era ir para Espanha lutar contra Franco. Só com este apoio foi possível que a República aguentasse o embate e prolongasse a guerra, embora sobretudo em defensiva e em progressiva retirada. A República viu-se praticamente isolada no apoio recebido da União Soviética e do Komintern, sem escolha nem maneira de diversificar alianças. Aceitou. Inclusive a condição prévia colocada por Estaline – que todo o ouro das reservas do Banco de Espanha (em grande parte, amealhado com a rapina colonial na América do Sul e Central) lhe fosse entregue como penhora adiantada e todo ele foi convertido em meios bélicos até ao valor do último lingote. O prestígio deste apoio quase exclusivo da União Soviética e dos comunistas de todo o mundo à República de Espanha, permitiu ainda que o muito pequeno PCE crescesse a acabasse por impor os seus métodos, a sua organização, a sua propaganda e a sua disciplina, na defesa da República e na transformação do exército de defesa da democracia num decalque do Exército Vermelho.<br<<br>No Outono de 1938, em plena batalha do Ebro, na grande e desesperada oportunidade para inverter o curso da guerra, quando as democracias se reúnem com Hitler e Musssolini em Munique, tudo parecia possível, incluindo a antecipação da guerra mundial. Esta esperança alimentou a confiança e a esperança dos heróicos combatentes do Ebro. Sabe-se que as democracias se ajoelharam em Munique perante Hitler e Mussolini. Estaline percebeu o alcance dos resultados de Munique e pagou a cobardia das democracias com a perfídia em que sempre foi mestre. Preparou o pacto com Hitler, abandonando Espanha e empurrando Hitler para ocidente. Tardava nada estaria a partilhar a Polónia com os nazis e a rir-se de ver Hitler correr com os seus tanques pelos campos de França e a ameaçar a Inglaterra. E às Brigadas Internacionais foram dadas ordens para saírem de Espanha, ainda em plena batalha do Ebro, deixando os espanhóis a combaterem sozinhos contra Franco, Hitler, Mussolini e Salazar (e, registe-se, só se vergaram à derrota em Abril de 1939, isto é, passados seis meses desde que ficaram completamente isolados no combate ao nazi-fascismo, e Madrid só foi tomada, então, pela traição do Coronel Casado, responsável pela defesa militar da capital).<br><br>Os anos da guerra civil de Espanha foram também os anos das grandes purgas e matanças de comunistas na União Soviética, na liquidação da velha guarda leninista e na paranóia da traição trotsquista e de milhentas “conspirações”. E os agentes da NKVD vieram a Espanha para liquidar uns tantos trânsfugas, reais ou inventados. E fizeram-no sobretudo na Catalunha, contra o POUM trotsquista e contra os anarquistas.<br<<br>Perdida a guerra em Espanha, nas novas condições soviéticas, sobretudo na paranóia de sede de sangue que então se vivia, ter sido combatente antifascista em Espanha passou a não ser recomendável para o bom comunista, o de confiança, o seguidor de Estaline. E este passou a perseguir a maioria dos que tinha mandado matar e morrer em Espanha. A maior parte dos generais e coronéis militares soviéticos que lutaram em Espanha contra Franco, foram fuzilados no regresso a Moscovo, de tal forma que esta nata do Exército Vermelho que tinha adquirido uma extraordinária e valiosíssima experiência de guerra, provando em Espanha que sabiam lutar como heróis, foi liquidada de uma penada. E quando chegou a hora de Hitler entrar Rússia dentro, este encontrou um Exército incapacitado no seu comando e sem aguentar as primeiras investidas alemãs. Também a maior parte do corpo diplomático, de propaganda e policial dos soviéticos que serviram em Espanha, sofreram a mesma sorte dos seus camaradas militares. Tudo isto preenche uma das paginas mais nefandas e vergonhosas da história do Komintern, talvez uma nódoa maior que o significado da heroicidade e generosidade dos brigadistas internacionais. Em perfídia, Hitler nunca ganhou a Estaline. Nem sequer em número de comunistas assassinados às ordens de um e de outro.<br><br><I>(na imagem, recente cartaz de apelo a participação em iniciativa de homenagem a La Pasionária, um dos grandes mitos da Guerra Civil de Espanha)</i>
publicado por João Tunes às 15:55
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (26)

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SALAZAR E FROANCO

Salazar jogou em Espanha, antes do mais, a sobrevivência da sua ditadura.

O apoio efectivo a Franco foi acompanhado de uma radicalização do regime, iniciando-se a fase da sua maior intensidade de cópia do modelo fascista. O perigo rojo em Espanha, serviu para intensificar a histeria na adesão a Salazar. Foi, com pretexto da guerra em Espanha, que se criaram a Legião Portuguesa e a Mocidade Portuguesa, as milícias para-militares do fascismo português. A PIDE (então chamada PVDE) foi reorganizada e aumentou de meios e de poder.

Portugal funcionou como retaguarda segura e apoio multifacetado para Franco e foi uma peça importante para a sua vitória.

Entretanto, Salazar olhava com preocupação a propaganda falanguista que, no seu anexionismo de base, considerava que o território português fazia parte da Grande Espanha. Só com a transformação, por ordem de Franco, da Falangue num corpo heterogéneo que refreava o fascismo puro das suas origens, tornando-o num corpo de apoio ao poder total do Generalíssimo, muito à imagem da portuguesa União Nacional, é que Salazar descansou sobre a atitude da Espanha falanguista para com o território português. E, é claro, abençoou a viragem para o clericalismo católico como factor dominante da ideologia do Estado. Com pequenas diferenças, lá seguiu-se um modelo próximo das lições do ditador português.

No final da guerra, a aliança de combate iria transformar-se numa aliança de conservação das duas ditaduras, através do célebre Pacto Ibérico, e iria transformar toda a península ibérica numa mancha ditatorial, repressiva e obscurantista que se prolongou até 1974-1975. Sobretudo, porque a guerra fria evitou que os dois ditadores prestassem contas da aliança com o nazi-fascismo derrotado em 1945, invocando ambos os seus méritos de anticomunistas eficazes. E as democracias que, antes se tinham comportado vergonhosamente com Espanha, voltaram a fazer valer o pragmatismo descarnado e, sem escrúpulo, conservaram o poder dos dois ditadores como aliados na luta contra o inimigo maior, absolvendo-os tacitamente das suas culpas anti-democráticas.

Curiosamente, quando a ditadura portuguesa cai de podre em 1974, dando lugar a uma revolução, o susto é tal em Espanha (Franco só morreu em 1975) que, por receio de repetição de dose da mesma receita, leva os franquistas espanhóis, logo a seguir ao enterro de Franco no Vale dos Caídos, a prepararem e negociarem a transição democrática e o pacto de silêncio, tendo o rei indicado e preparado por Franco como moderador e símbolo de pacificação e de unidade. O que parece confirmar a convicção que, de facto, uma ditadura não sobreviveria sem a outra. Duraram enquanto duraram, e duraram muito, quando uma caiu a outra não se aguentou. Com toda a probabilidade, o inverso (se se tivesse dado primeiro a queda da ditadura espanhola) também se verificaria. Ao fim e ao cabo, Salazar e Franco souberam tecer, para mal dos povos peninsulares, duas ditaduras siamesas.

(na foto, um abraço entre dois velhos e fiéis amigos e aliados)
publicado por João Tunes às 15:51
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (27)

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FRANQUISMO E PÓS-FRANQUISMO

Como se disse, a ditadura de Franco foi terrivelmente repressiva, cruel na liquidação das diferenças, obscurantista no seu clericalismo sufocante. Para além dos fuzilados e dos prisioneiros e dos trabalhos forçados a que os vencidos foram sujeitos. Já falámos na vergonha sádica que é o Vale dos Caídos, perto de Madrid. Mas, para os portugueses que costumam visitar Sevilha e apreciar o canal do Guadalquivir, talvez valha a pena lembrar-lhes que aquela obra de engenharia e trabalho extensivo e intensivo foi construídos por trabalhadores forçados, milhares de vencidos que ali penaram ter estado do lado da República e da democracia quando a Espanha se encharcou no sangue da guerra.

Já falámos também como é que Franco (igual com Salazar) conseguiu sobreviver à derrota do nazi-fascismo em 1945.

Bascos, galegos, valencianos e catalães foram proibidos, durante todo o franquismo, de falarem as suas línguas e exibirem os seus símbolos culturais. Usar uma destas línguas em público era motivo suficiente para cumprir pena de prisão.

No entanto, o fascismo franquista teve capacidade de adaptação e de mudança. Inicialmente em regime de oligarquia, a Espanha abriu-se às multinacionais e ao capital estrangeiro, criou, em ligação com a Igreja Católica uma rede de novos empresários e de novos políticos, através dessa espécie de calvinismo católico que é a Opus Dei, dirigida por um padre espanhol e franquista, tão retintamente franquista que recentemente foi beatificado por João Paulo II porque, pelos vistos, ainda lhe sobrou talento para fazer uns tantos milagres. A partir de 1956, a insatisfação e a luta agitaram a Universidade de Madrid e criou-se uma nova geração de descontentes e de oposicionistas. Por não estar preso a um império colonial, o franquismo conseguiu modernizar os seus laços económicos com as antigas colónias latino-americanas, construindo aí um enorme mercado de escoamento para as suas mercadorias.
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<img alt="es1931[1].gif" src="http://botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/es1931[1].gif" width="205" height="148" border="0" /><br><br><b>FRANQUISMO E PÓS-FRANQUISMO</b><br><br>Como se disse, a ditadura de Franco foi terrivelmente repressiva, cruel na liquidação das diferenças, obscurantista no seu clericalismo sufocante. Para além dos fuzilados e dos prisioneiros e dos trabalhos forçados a que os vencidos foram sujeitos. Já falámos na vergonha sádica que é o Vale dos Caídos, perto de Madrid. Mas, para os portugueses que costumam visitar Sevilha e apreciar o canal do Guadalquivir, talvez valha a pena lembrar-lhes que aquela obra de engenharia e trabalho extensivo e intensivo foi construídos por trabalhadores forçados, milhares de vencidos que ali penaram ter estado do lado da República e da democracia quando a Espanha se encharcou no sangue da guerra.<br><br>Já falámos também como é que Franco (igual com Salazar) conseguiu sobreviver à derrota do nazi-fascismo em 1945.<br><br>Bascos, galegos, valencianos e catalães foram proibidos, durante todo o franquismo, de falarem as suas línguas e exibirem os seus símbolos culturais. Usar uma destas línguas em público era motivo suficiente para cumprir pena de prisão.<br><br>No entanto, o fascismo franquista teve capacidade de adaptação e de mudança. Inicialmente em regime de oligarquia, a Espanha abriu-se às multinacionais e ao capital estrangeiro, criou, em ligação com a Igreja Católica uma rede de novos empresários e de novos políticos, através dessa espécie de calvinismo católico que é a Opus Dei, dirigida por um padre espanhol e franquista, tão retintamente franquista que recentemente foi beatificado por João Paulo II porque, pelos vistos, ainda lhe sobrou talento para fazer uns tantos milagres. A partir de 1956, a insatisfação e a luta agitaram a Universidade de Madrid e criou-se uma nova geração de descontentes e de oposicionistas. Por não estar preso a um império colonial, o franquismo conseguiu modernizar os seus laços económicos com as antigas colónias latino-americanas, construindo aí um enorme mercado de escoamento para as suas mercadorias.<br<br>Pelos traumas da repressão, pelos efeitos da normalização em que os valores da República ficaram tabu, pelas alterações de gerações e de mudanças económicas, a querela da guerra civil foi, quase consensualmente, considerada uma questão do passado sem nada acrescentar à resolução dos problemas de Espanha.<br><br>A transição democrática, com direito a rei, realizou-se com a celebração de um pacto de silêncio celebrado entre os franquistas de ontem (hoje, albergados no PP), socialistas, comunistas e nacionalistas/regionalistas/autonomistas. Por esse pacto, durante muitos anos, a guerra civil de Espanha foi assunto tabu. Um dos seus efeitos, foi que, por um lado, a esquerda e os democratas ficaram sem um dos seus patrimónios de memória e de luta, como se equivalessem aos hierarcas franquistas que se tinham aproveitado da ditadura, servindo-a. Entretanto, e julgo que muito pior, as gerações que viveram e cresceram depois de 1975, em democracia, ficaram sem referências de passado e sem o apoio da memória colectiva. Felizmente, esta situação está em mudança por insuportável. A guerra civil de Espanha, lentamente, está a ser lembrada e discutida entre espanhóis. Com a vantagem de que a distância em tempo e em gerações, mais a perda de energia dos que nela combateram (num e noutro lado), provavelmente possibilitará que a apreciação histórica e política, seja suficientemente desapaixonada para não abrir feridas. E, desta forma, a memória colectiva daqueles povos adquire uma continuidade histórica, repondo o marco de que, em tempos, foram República e foram democracia e que, pelo menos, metade dos espanhóis, de então, deram ou arriscaram a vida pela causa republicana. Fica a curiosidade de saber se quererão que o rei que lhes sobrou como herança, lá continue para garantir as boas tiragens da Hola com reportagens e fofocas sobre namoros, casamentos, divórcios, baptizados e viagens da malta da realeza.<br><br><i>(na imagem, a bandeira traída pelos golpistas, a bandeira dos que combateram pela democracia, a bandeira de República Espanhola)</i>
publicado por João Tunes às 15:49
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