Quarta-feira, 2 de Junho de 2004

SOBRE UM LIVRO

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Já aqui fiz uma ligeira referência a este livro (“Quadros de Memória”, Margarida Tengarrinha, Ed Avante). Mas o seu interesse vai muito para além das referências a Cunhal.

O que me desagrada na maior parte das obras de memórias sobre a resistência antifascista (sobretudo dos militantes comunistas) é a pobreza de revelação pessoal que sobrevive ao esforço de contenção por auto-desvalorização face ao colectivo. Porque o lógico é que, quem passa as memórias para público, se desvende na forma como sentiu, sofreu e se alegrou com a sua saga suportada em condições extremas. Na maior parte dos militantes comunistas, eles continuam a apagar-se com um tremendo pudor do Eu através de um excessivo culto ao Nós. Assim, alguma coisa se vislumbra da Luta, mas pouco se entende das pessoas que a fizeram. Desta forma, o que passa é que a luta não foi feita por pessoas descarnadas, devotadas em extremo, heróis não humanos.

Margarida Tengarrinha vai, de facto, mais longe. Não muito, mas vai. Daí o interesse deste pequeno livro. Revelador no que conta e no que cala. Perpassam e sentem-se os dramas de uma intelectual burguesinha transposta para o “exército do proletariado”. Da intelectual transformada em clandestina. Da artista plástica, usando os talentos a falsificar documentos de identidade. E da mulher a quem a PIDE lhe assassinou o companheiro e que se teve de desfazer das duas filhas como escolhos às regras conspirativas. Entendem-se também, se se ler para além do escrito, como se adquire e se cristaliza na fé dada pelo “centralismo democrático”, na obediência aos “chefes”, na negação automática de tudo que cheire a heresia. No fundo, a transformação de uma pessoas que existe e pensa numa peça de uma máquina que orienta.
publicado por João Tunes às 13:56
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publicado por João Tunes às 12:38
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CONCORDO

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Concordo com ele.

Aqui está o mais importante do que se devia discutir sobre o nosso futuro (ou a nossa sobrevivência?). Nomeadamente em época de eleições para o Parlamento Europeu.
publicado por João Tunes às 12:33
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Terça-feira, 1 de Junho de 2004

AI CARLYLE ...

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Carlyle fora da corrida à Galp

Pistas para interpretação de factores que tiveram influência na decisão:

- Incremento da reacção negativa e mais radicalizada da opinião pública à intervenção americana no Iraque (agora, os "falcões" assobiam para o lado devido á incapacidade em "normalizar" a situação iraquiana, tremendo impacto da vitória de Zapatero, congestão pela divulgação da prática de torturas pelos Exército Americano).

- Denúncia valente de Francisco Louçã no Parlamento.

- Desmascaramento da natureza da Carlyle (em que parte da blogosfera deu uma importante achega) sobre as "ligações perigosas" entre poderes económico e político.

- Posição de repulsa dos Sindicatos e dos trabalhadores da Galp perante a opção Carlyle.

Conclusão: Portugal (ainda) não é uma República das Bananas.
publicado por João Tunes às 22:11
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EFEMÉRIDE DO DIA

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Hoje não é Dia Internacional da Criança? Então deixem-me recordar as crianças abusadas, incluindo as da Casa Pia.
publicado por João Tunes às 21:42
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SOBRE A PENA DE MORTE

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O estimado mwerewolf colocou um post de efeméride sobre a execução de Eichman em Israel após o julgamento a que foi submetido este “criminoso de guerra”.

A propósito, são colocadas dúvidas e sentimentos contraditórios sobre a aplicação da pena de morte para certo tipo de crimes. Entendo as considerações feitas. Mas não posso concordar com elas. De modo algum.

Quando se defende um princípio, não se pode esperar que a estrada que leva à sua coerência, seja uma autoestrada livre de trânsito. A oposição à pena de morte parte do valor de que ninguém tem o direito a dispor (incluindo, por termo) de qualquer vida humana. Abrir excepções, é negar o princípio. Se houvesse “boas” ou “más”, “justas” ou “injustas” aplicações do que negamos, então não se estava “contra” mas apenas a defendê-la em certas circunstâncias. E, fundamental, a justiça extrema, liquidando vidas, nivela no mesmo patamar vítimas e criminosos, criminosos e carrascos, o Mal e o Bem.

Não tenho dúvidas que a pena de morte é aplicada, talvez em 95% dos casos, em certas partes do mundo, a grandes malandros. A sociedade tem direito a retirar da sua circulação, confinando-os ao presídio, os muitos, pequenos e grandes malandros que por aí andam. Para os que são contra a pena de morte, a sociedade, no entanto, não tem o direito de por termo a vidas. Porque o Mal faz parte da Vida. E quando é que o Mal se revela? Vejamos esse ser repelente chamado Eichman. Noutras circunstâncias e contexto, Eichman poderia ter sido um respeitável inspector de finanças ou um zeloso carteiro. Claro que as circunstâncias não justificam Eichman e muito menos o absolvem dos seus crimes. O problema é que, ao enforcarem Eichman, as vítimas israelitas ficaram iguais a Eichman. Este, no meu entender, é que é o busílis de se ser ou não contra a pena de morte.

E, sabe-se, uma brecha (por pequenina que seja) nos princípios é sempre o princípio do fim dos princípios. Talvez a forma vingativa como Eichman foi enforcado, mais a complacência de quase todo o mundo para com o esmagar daquele homem transformado em percevejo, expliquem (ou ajudem a explicar) a forma fácil, mecânica, desapiedada, brutal e fascistóide como eles continuam a matar palestinianos. Porque, segundo os critérios da direita israelita, os palestinianos ou são iguais ou piores que os carrascos nazis. Para eles, são os Eichmans de hoje, toca a matar.
publicado por João Tunes às 14:45
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SOPA COM MASSINHA DE COTOVELO

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Nunca fui de grandes comezainas. Só me perco em prazeres de ingestão quando, de vez em vez, salto até à Serra do Açor e me planto no meio do pinhal. Ali, com o ar da serra a puxar por um lado, o maranho ou a chanfana a puxar por outro e as folhas minúsculas do sarpão, lá no meio, a convidarem ao pecado de gula, então meto-me em usos e abusos. Fora isso, sou mais para o lado do petisco fora de horas. Em gastronomia, prefiro a qualidade à quantidade.

Sempre me conheci assim. Ou antes, em miúdo era pior, aquilo a que se chamava um autêntico pisco.

A minha Tia Ana não se conformava com a minha falta de apetite e, vai daí, se não vais a bem então vais a mal. Sofri a mal sofrer. Levava com colheradas de óleo de fígado de bacalhau que me davam uns malditos vómitos. Punha-me pratadas de açorda que me dava frémitos de pânico perante a perspectiva de encontrar um dente de alho. A sopa era sacramental e eu detestava sopa. O bife enrolava-se, dava voltas e mais voltas e queria mais sair da boca para fora que passar ao estômago. Tens que comer, tens que comer. Era inflexível, estivesse uma ou duas horas frente ao odiado prato, não tinha licença de arredar pé até ingerir o que ela considerava a dose mínima de alimento e que, para mim, era sempre uma monstruosidade própria para alimentação de um elefante.

Fui elaborando os meus estratagemas de escapar àquela tortura. Nomeadamente, aprendi a reter nacos de carne dentro da boca, bem disfarçados entre os dentes e uma bochecha ou entre a língua e o céu da boca, representava uma dor de barriga e aliviava os malvados bocados para dentro da sanita.

Mas houve um dia, tinha os meus cinco anos, em que o desastre aconteceu. Tudo teve a ver com uma enorme tigela de sopa azeitada cheia de massinha de cotovelo. Só de olhar a malvada mistela, o estômago dava sinais de rebeldia. A sentença veio implacável: não sais daí sem comeres a sopa toda. A colher enchia-se de massinha a derramar líquido gorduroso mas a aversão era demasiado forte. Não conseguia avançar naquela luta. Os meus apelos ao fim da tortura não tinham eco de condescendência. A torturadora estava inflexível. Passava-se o tempo e o líquido, consoante ia arrefecendo, transformava-se numa lixívia repelente. Já não conseguia sequer olhar para a malvada tigela. Fui-me deslocando para a janela da marquise que dava para as traseiras. Talvez a vista dos quintais vizinhos me ajudassem a distrair daquela infinita infelicidade. Subitamente, vejo a minha carcereira distraída e vem-me a inspiração fulgurante. Sorrateiramente, entendi um braço para fora da janela e, num ápice, despejei a sopa pela janela abaixo. A minha Tia Ana encheu a cara de brilho feliz ao ver a tigela vazia que lhe estendi. Tive direito a festas na cabeça e um repenicado beijo como prémio maior. No entanto, as celebrações duraram pouco tempo. Toda a vizinhança que morava por baixo de mim desatou a tocar estridentemente na campainha da porta e a exibir roupa que tinha estado nos estendais e que apresentava manchas de sopa gordurosa e vestígios de massinha de cotovelo. A revolução da vizinhança desembocou num enorme tabefe da minha tia para que me servisse de emenda. Colocado de castigo através de recolhimento ao quarto, ri-me assim que me encontrei solitário. Antes um tabefe que uma tigela de sopa!
publicado por João Tunes às 13:11
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CAMPANHA OU ARRUAÇA ?

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Verdadeiramente lamentável a forma como a Coligação de Direita começou a sua campanha (melhor dizendo, contra-campanha). O insulto, a piada grosseira, a falta de maneiras, andam á solta atrás do porte bem do cabeça de lista. Além de governarem mal, são ordinários. Meteram-se em futebóis, estão a imitar as claques. Pois é, a incompetência não aguça o engenho.

Volto atrás. Viva o Harpo !
publicado por João Tunes às 12:44
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