Quinta-feira, 6 de Maio de 2004

EFEMÉRIDE DO DIA

Freud.jpg

Não muito depois do nascimento do recordado na efeméride de ontem, nascia Freud (6 Maio 1856), o pai da psicanálise. Um e outro, Marx e Freud, marcaram e marcam o mundo e as formas de as pessoas olharem os outros e olharem-se a si próprias, procurando entender estas enormes charadas: o mundo, nós, os outros. Os olhares e as análises são diferentes, divergindo mais que convergindo. Porque os primados das ferramentas, aparentemente, tratam de matérias que, as mais das vezes, estão ou parecem estar em planos diferentes que umas vezes se aproximam, outras se afastam, mas sobretudo se interceptam. Pouco ou nada se entende sem usar, mais ou menos, os contributos de Marx e de Freud, cruzando-os. Marx sem Freud, é curto, Freud sem Marx, idem. Porque as sociedades são compostas por pessoas e não existem pessoas fora da sociedade. E cada um de nós é uma única pessoa. Ambos os génios resistiram à erosão do tempo. Vêm do Século XIX e andam por aí com todo o vigor (revistos, corrigidos e aumentados, como não podia deixar de ser).
publicado por João Tunes às 13:14
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TRANSPARÊNCIA, PRECISA-SE

Galp.gif

Após o aturado trabalho de investigação e desmontagem das operações envolvendo a transferência de propriedade accionista da Galp, Grande Loja bota a sentença que devia ser a decisão óbvia se se quisesse dar ao negócio um mínimo de decência:

”Não era de todo má ideia congelar esta palhaçada toda até que as coisas fossem um bocadinho mais transparentes. Nem nos tempos de Pina Moura se viu tanta trapalhada e batê-lo era suposto ser mesmo difícil, senão impossível...”

Completamente de acordo. Assino por baixo. Mas adicionaria quatro medidas inevitáveis para permitir que o processo venha a desenrolar-se com credibilidade:

a) Substituição imediata da actual Administração da Galp por uma Comissão de Gestão (com poderes executivos) que desse garantias de distância relativamente aos grupos interessados na Galp.

b) Nomeação de uma Comissão de Avaliação das propostas (interministerial).

c) Retoma da decisão dentro de um ano, com possibilidade de haver novos concorrentes e os actuais poderem reformular as suas propostas.

d) Exigência aos concorrentes de clarificarem previamente todos os intervenientes nos consórcios concorrentes, apoios financeiros e projectos de valorização do parque industrial e do tecido económico e margem de futura transferência de propriedade para interesses estrangeiros.


Decidir já, nas condições de forte fumarada que foram criadas, é tratar a neo-privatização da Galp como se fosse o mero trespasse de um hotel rasca de duas estrelas.
publicado por João Tunes às 12:39
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Quarta-feira, 5 de Maio de 2004

EFEMÉRIDE DO DIA

km05.jpg

Não o conseguiram apanhar em estado de ser embalsamado ou os ingleses não deixaram levar o espólio lá do cemitério londrino. Porque, caso contrário, o mais provável é que tentariam mumificá-lo para veneração conjunta com os seguidores das suas ideias transformadas em praxis.

Mas, quanto ao pensamento de Karl Marx, esse não escapou ao esquife da cartilha e da vulgata. Durante muito tempo, ainda hoje, o génio de Karl Marx sofreu, e sofre, dos efeitos dos maus tratos do “marxismo” e de todos os “ismos” que lhe amarraram às ideias.

A obra colossal de Karl Marx tem génio e tem data. Há uma economia política e um pensamento político, antes e depois de Marx. Mas Marx não podia saber mais que aquilo que se sabia no século XIX. Lido à distância, podemos dizer que Marx errou demais nas previsões e nas projecções. Sobretudo, quando se apetrechou de “optimismo revolucionário” e deixou que a “vontade” sobre o desfecho dos ciclos das crises capitalistas, abrisse campo de fé na sua superação. Mas ninguém, até ele aparecer, foi capaz de fazer tamanha análise sistemática e global da sociedade que ainda nos envolve, agora sob formas que Marx não podia suspeitar. Mas uma das suas grandes “previsões” (falhadas) foi exactamente contrariada pelos cristalizadores do “marxismo”: a “revolução socialista” iria começar nos países de capitalismo mais desenvolvido. Aconteceu o oposto, Marx errou e sabem-se os custos. Um deles, foi a criação do “marxismo”.

Lida a obra de Karl Marx como obra que é do século XIX, muito de fundamental, em termos de ferramenta de análise, lá se encontra para entendermos o mundo de hoje. Apesar dos 186 anos que distam da data do seu nascimento.
publicado por João Tunes às 12:51
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SOBRE OS PESOS E AS MEDIDAS

nh19[1].jpg

Pode-se sempre contrapor um outro caso ao caso de que falamos. Por necessidade de sermos justos e equitativos mas também como forma de desviar a conversa e assobiar para o lado. Desta última forma, consegue-se sempre, umas vezes mais, outras nem tanto, relativizar o peso do objecto da denúncia. A técnica é velha. Apenas dois exemplos (África e Cuba):

- Há uns tempos atrás, alguém incomodado com as denúncias sobre as governações em Angola e Moçambique, fez o convite público para que nos preocupemos com o Sudão. E quando se falou das mordomias de Eduardo dos Santos e Chissano, mandou comparar com iguais (ou piores mordomias) de outros chefes africanos.

- Se se fala nas prisões em Cuba, certo e sabido que vem Guantanamo à baila mais uns tantos presos cubanos que penarão nos EUA. E Cuba beneficia sempre, sempre, do álibi do boicote e das patifarias de Bush para relativizar a natureza criminosa da ditadura de Castro.

Naturalmente, cada um tem os seus critérios e as suas prioridades. Eu não fujo à regra.

Entre as perversões, os ataques aos direitos do homem e ao cercear das liberdades, não tenho, não devo ter, não posso ter, dois pesos e duas medidas. Porque tem de haver um critério universal e único para medir os comportamentos condenáveis que têm de estar sempre em sintonia com a medida absoluta da dignidade humana, enquanto ser humano e como membro de uma comunidade. Uma tortura no Iraque (no tempo de Sadam ou sob ocupação americana), no Vietname, na China, em Cabinda, no Peru, no Malawi, na Suiça ou em Cuba, valem o mesmo: ofensa à pessoa humana (no caso do torturado) e degradação da pessoa humana (quanto ao torturador). Idem para com prisão por delito de opinião. O mesmo relativamente à aplicação da pena de morte. Aspas para a limitação do exercício da liberdade de expressão ou de manifestação. Isto quanto aos actos.

Mas faço uma distinção de valorização adicional. E esta tem a ver com a hipocrisia ideológica que pretende justificar atentados aos valores humanos e democráticos.

Explico-me melhor.

Os fascistas e nazis cometeram crimes horrendos, mas “tudo” o que fizeram estava nos seus programas e nos seus projectos de mobilização do ódio das massas. Na marcha para o poder, os nazis “disseram” que iam acabar com os judeus, os comunistas, os ciganos e os homossexuais e que iam ocupar as terras eslavas “por necessidade de espaço vital” e que os povos eslavos eram uma sub-categoria humana destinada a ser escrava dos arianos. Foram bandos de assassinos organizados que cumpriram um “programa anunciado”.

No outro lado do espectro, as tiranias em nome da “esquerda”, nada ficando a dever em número de vítimas e nos métodos utilizados à “tirania de direita”, foram feitas em nome do contrário do praticado. As “vítimas do comunismo” (ontem e hoje) pereceram, perecem, sofreram, sofrem, em nome da igualdade, da fraternidade, da libertação do homem, da sua redenção como homem novo e livre da mesquinhez, do egoísmo e da opressão. Foram e são bandos de assassinos organizados que cumprem o inverso dos seus “programas”.

Nesta mesma medida, eu não posso tolerar que os dirigentes e quadros da Frelimo, do MPLA e do PAIGC, porque lutaram contra o colonialismo e em nome da independência e prosperidade do seu povo (foi esse programa que os legitimou a receberem o poder), se atasquem na corrupção e desprezem os interesses mínimos dos povos em nome dos quais lutaram. E, nesta medida, tenho maior severidade a julgá-los e a reprová-los que a repulsa e a condenação (totais e absolutas) que sinto perante os crimes coloniais.

Portanto, caros amigos que se incomodam com a insistência dada neste blogue à denúncia da ditadura castrista, os crimes cometidos por Fidel Castro, em nome da “libertação”, são naturalmente julgados com especial severidade. Porque Fidel, em cada prisioneiro por delito de opinião que manda para as masmorras de Cuba, comete um duplo crime: prende, tortura e condena a diferença, e ainda nega e renega os ideais em nome dos quais pratica os seus crimes.

Ao fim e ao cabo, trata-se apenas de uma questão de ser exigente na opção de se ser de esquerda.
publicado por João Tunes às 00:22
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Terça-feira, 4 de Maio de 2004

BLOGOSALADA

blog500_ums[1].jpg

O fotógrafo estava lá. E apanhou, em flagrante delito de convívio e cavaqueira, quatro blogueiros que se encontraram e alinharam logo ali num almoço hiperplural, juntando à mesma mesa: um profeta, um céptico, um revoltado e um dirigente partidário. E tanto quanto deu para perceber, todos votam em Partidos diferentes e nenhum vota em branco. Que grande salada! E não houve loiça partida. A blogosfera é isto ? É. Claro que é.

Adenda: Não foi difícil para alguns identificarem os meliantes apanhados pelo fotógrafo em saudável convívio. Afinal não se pode andar incógnito neste país pequenino. Como o mistério se evaporou, fica a solução identificativa para os que não chegaram lá. Da esquerda para a direita e dando volta à (frugal) mesa: Fumaças, Oficina das Ideias, Bota Acima e Sintra Gare. Mais do que quatro blogues, foram (apenas e tanto!) quatro amigos juntos. Cada qual com sua cabeça e sua sentença, cada um com o seu olhar e as suas preferências em cores e em sentires, sabendo todos que a diferença é tempero se os afectos nunca se consomem a lidar com a vida.
publicado por João Tunes às 19:27
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HAJA EUROPA !

Young.jpg

Ora essa. Claro que estou pelo alargamento da União Europeia. Não nego aos outros o que tenho para mim. Deviam lá estar estes “mais dez” e os outros todos. Só cá não devem estar os que não querem. Até que a União Europeia seja a Europa (toda). Claro? Claríssimo. Então, como diz o outro, ponto final parágrafo.

O problema é que esta não é a questão. Ou é, apenas, uma questão de princípio.

O busílis é a partir daqui, do enunciado de princípio da partilha europeia.

Que Europa? Como se constrói a nova identidade. Como se gere e partilha a soberania. Como é que, política e socialmente, se matriza a apropriação, repartição e reconstrução dos mercados e dos tecidos económicos. Como é que a cultura modera a selvajaria da finança. Como se reduzem os fossos. Como se evitam mais marginais (socialmente, falando). Como se superam as desconfianças e os complexos de superioridade e de inferioridade.

Deitar foguetes na actual situação da festa, é (apenas) retórica comemorativa. É preferir beber um copo do que pensar e fazer, deixando isso para outros. E esses outros já demonstraram que se ficam pelo negócio.

Pela cantilena dos festivos euro-optimistas, e por este andar, a literatura, a boa literatura europeia, ainda acaba reduzida à poesia infantil e aos contos para adormecer meninos. Enquanto a bolsa dita a vida.

Haja Europa ! Mas uma Europa em que ser Europeu é ser exigente. Então que a Europa cresça e apareça. Vamos lá a essa ginástica.
publicado por João Tunes às 12:17
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Segunda-feira, 3 de Maio de 2004

A BUNDA

butts1.jpg

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo,
nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem.
Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
rebunda.

(Carlos Drummond de Andrade)
publicado por João Tunes às 01:02
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Domingo, 2 de Maio de 2004

CONSUMIR, NÃO CONSUMIR

Madre_1.jpg

Detesto o esquema consumista instituído para celebrar datas numa rotineira sucessão do dia disto e do dia daquilo.

Hoje, não vou consumir. Mas hoje, particularmente hoje, gostava de consumir.

Hoje, eu gostava de comprar flores, muitas flores, levar a conta a zero a gastar todo o dinheiro a comprar flores. Porque gostava de te cobrir de flores e depois afastá-las para ver o teu rosto aparecer do meio das pétalas, poder espreitar os teus olhos e fazer uma festa nas linhas do teu rosto, passeando nelas os meus dedos. Devagar, devagar, fazendo render o tempo, ganhando tempo contra o tempo. Depois, agarrar-te a mão, dar-te a mão, não deixar que voltasses a sair.

Hoje, eu gostava de consumir. Hoje, eu não vou consumir.
publicado por João Tunes às 02:04
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Sábado, 1 de Maio de 2004

DESALENTO DE UM FEIO

feio.jpg

Sabia dos méritos do meu amigo Vicktor mas estava longe de imaginar tamanha dimensão da sua fama e de reconhecimento pelas massas populares. Estamos sempre a aprender. No caso, só aumentam as minhas peneiras de o ter como amigo.

O Ene resolveu fazer um concurso de narcisismo fotográfico e desafiou os blogueiros a “mostrarem a cara”. Eu passei logo à frente. Feio, baixinho, desdentado, óculos grossos e mal conchavados a esconderem uma miopia que torna os olhos minúsculos e lhes apaga o brilho, sinais de tabagismo exponencial, barba mal aparada, orelhas de abano, pelos hirsutos a saírem das narinas e das orelhas, unhas mal cortadas, pontos negros espalhados pela epiderme, olheiras fundas, roupas numa desgraça de desalinho, como me atrevia a enviar foto para exposição pública? Nem pensar. Prefiro esconder a minha horrível imagem física por trás das palavras que aqui vou soltando como golfadas na ânsia de esquecer que sou tão feio. Porque acho que sou melhor de palavra que de rosto. Ou seja, não sou tão mal de escrita como sou de visual. Antes desancarem-me nos escritos que me verem a cara. Porque é melhor dizerem-me “escreves mal como a merda” que me atirarem “és feio como o caraças”. Porque eu sei que sou feio. Feio mesmo. Mas, chamarem-me feio é horrível, insuportável, traumatizante mesmo, traz-me à lembrança as namoradas e os empregos que falhei e perdi, a carreira que nunca realizei, as gajas que não engatei, o mau atendimento que recebo de todas as garotas recepcionistas que me viram a cara e me despacham à trouxa moucha. Tudo por causa de ser feio. Muito feio.

No meu caso, convém ter um amigo romântico, bonito e artista como o Vicktor. As mulheres param na rua para o mirar e remirar, eu imagino que é para mim. Riem-se para ele e eu rio-me para elas. Dão-lhe um beijo, eu recebo uma réplica condescendente porque o acompanho e isso faz parte da boa educação. Ele oficina excelentes textos, belíssimos poemas, apetitosos cozinhados e imagens imortais, eu arrebanho umas migalhas da sua glória, lembrando que conheço o Vicktor há uma data de anos.

Pois isto tudo vem a propósito de eu ter encontrado lá no Ene a foto vaidosa do Vicktor (mais o gato) e achei que roubá-la e metê-la num post desta Bota ia criar sucesso pelo mistério. Quem será este tipo catita? Palpite aqui, palpite ali e tinha assunto para entreter e intervalar nas minhas turras com o Teixeira Pinto por causa do alargamento da UE. Não contei que me estava a meter com um famoso e ultra-estimado conhecido por mundo e meio da blogosfera. Eu com a bazófia que o Vicktor era meu amigo e de mais uns poucos quando, afinal, todo o mundo é amigo do peito do Viktor. E toda a gente identificou o rosto e gostou do gato dele. Falhei. Riscos de um tipo que é feio e incapaz de imaginar como a beleza (no corpo e na alma) dá fama e proveito. Desculpem.
publicado por João Tunes às 00:44
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